What Comes After [HIATUS]
21 Capítulo 18, "Don't Deserve You"
Notas iniciais
– Você realmente disse isso ao garoto? – Assinto, com pesar.
No meio da tarde, após ter me forçado a engolir uma maçã e um copo de água, vim à casa de Haymitch. Já estava tarde para buscar abrigo na floresta e eu precisava conversar, pôr para fora tudo que está me remoendo e ouvir tudo que ele tinha para jogar na minha cara. E contanto que eu levasse aguardente, meu ex mentor estaria disposto a ouvir todos os meus lamentos e me chamar de "estúpida" quantas vezes fosse preciso.
– Bem, queridinha, você às vezes implora para que as pessoas percam toda a paciência do mundo com você.
– É, isso eu já sei.
– Mas mesmo assim você queria escutar em voz alta, não é?! Foi por isso que veio aqui. Porque sabia que eu te diria exatamente o que está pensando – ele bebe um longo gole da garrafa de cachaça, depois olha para mim entretido, ainda que eu saiba que ele sente mais por mim do que aparenta.
Eu apoio os cotovelos na mesa, exausta. Aquilo eu não podia negar. É inevitável não pensar que tudo isso poderia ter sido evitado. Bastava eu ter sido menos grossa ou, melhor que isso, não ter jogado a culpa em cima de Peeta, que não tinha autoria em nada do que eu havia acusado.
Agora, já tarde demais, eu reconheço isso. Estou sempre o afastando, sempre deixando as coisas tensas entre nós. É a minha sina.
– Eu não sei o que fazer – admito. – Eu nem sei por onde começar a pedir desculpas.
O silêncio se instala durante uns poucos segundos entre nós, e eu começo a fazer círculos na mesa de madeira, desejando enfiar a mão na minha cara. Não adianta nada continuar a pensar nos meus problemas, eu preciso de uma solução. Entretanto, não posso fingir que não existe uma imensa vontade de empurrar a culpa para dentro de mim e sofrer com ela, como faço há tanto tempo.
Cruzo meus braços sobre os meus seios, tentando apartar o frio que sinto. A casa não está gelada, as janelas fechadas. Tudo vem da minha cabeça e da minha necessidade em fazer qualquer coisa para afugentar meu remorso.
– Você não pode esperar que ele dê o primeiro passo, afinal, ele sempre faz isso e você está toda errada. Você precisa tomar as rédeas de todo este circo que armou e conversar com o garoto, como os adultos que vocês são.
Olho para Haymitch, cética.
– Acha que não sei disso?!
– Você ao menos pode tentar deixar de ser desagradável e manter a boca fechada? Eu não terminei de falar.
Bufo. Minha paciência está no seu limite, e ainda que meu humor tenha melhorado há uma hora, esse parcial progresso parece ter regredido a estaca zero outra vez.
– Faça um jantar. Ou melhor, arranje alguém para fazer para você, porque nem mesmo dá para engolir as gororobas que você cozinha. Se quiser se redimir, tem que mostrar que se importa e que não irá falar mais esse monte de merda outra vez. Independente do quão ruim você esteja.
– É sempre impressionante o modo como você consegue reduzir minha auto-estima a pó – digo, já pensando em como farei o jantar. Por mais que eu odeie reconhecer, ele está certo. Preciso fazer algo diferente, algo que Peeta faria se estivesse no meu lugar.
– Da mesma forma que você consegue fazer coisas que até o diabo duvida – escondo meu rosto nas mãos. Estou péssima e a coisa toda só desce ladeira abaixo. – Considere como um elogio, nesse caso.
Me calo, sabendo que não posso retrucar. Não há razão para isso. Como levantar algum questionamento a seu favor quando tudo que se tem na bagagem são verdades incriminadoras que lhe tiram qualquer direito de réplica?
– Já vou indo – digo, me levantando.
– Nem um "obrigada"? – Pergunta irônico, somente para me deixar com mais raiva.
Eu rolo os olhos.
– Não sei se estou realmente considerando a sua proposta.
Ele sorri, cínico, como quem diz "boa sorte, suas ideias mirabolantes não vão ajudar em nada. Me escute."
Caminho até a porta e, quando saio da cozinha, ouço o grito:
– Docinho! – Haymitch não me espera responder, até porque, eu não iria o fazer. – Não o deixe escapar, vocês não chegaram até aqui para isso.
Abro a porta, sentindo o vento frio bater em meu rosto. O inverno chegou. Ultimamente a neve tem caído numa garoa leve, nada de tempestades como será em uma ou duas semanas, quando então a estação estará em seu auge. Eu, particularmente, não tenho muito apreço por essa época do ano. Afinal, visto inúmeras peças de roupa e lembro da dificuldade que era conseguir comida na floresta. E a neve... a neve, sua cor, a Turnê dos Vitoriosos, a visita de Snow... Tudo não passa de um caleidoscópio de memórias horrendas que vagam pela minha mente. E o frio, em si, não é nem um pouco agradável. Não quando eu sou obrigada a sair da cama.
Já na porta de casa, ouço a saudação de Hazelle, um pouco distante.
– Como vai, querida? – Ela pergunta com um sorriso, e eu caminho até ela, forçando-me a parecer no mínimo feliz também.
As rugas em seu rosto chamam a minha atenção. As marcas de expressão, a mão vincada que segura um enorme saco se mantimentos e até os olhos pequeninos deixam óbvio que a idade chegou. O que é bom. Ver pessoas conseguindo viver até os 50 anos de idades — mais, até — é uma evolução e tanto.
– Estou bem – minto descaradamente. – Como você está? Soube que Posy está cursando tecnologia no 3.
– Eu estou muito bem. Posy também. Ela diz estar adorando tudo por lá e até deveria depois de todo o estardalhaço que fez para poder ir. Ela vem para casa no final do mês graças às férias.
Hazelle muda o peso de uma perna para outra, à medida que eu esfrego minhas mãos em meus braços por conta da brisa gelada que passa por nós.
– Deixe-me ajudá-lo com isso. Você não deveria mais fazer compras para o Haymitch. Eu posso fazer – pego o saco de sua mão e ela lança um sorriso para mim, agradecida.
– Não sou uma inválida, você sabe.
– Ninguém está dizendo isso, mas é sempre bom evitar que fique.
Nós começamos a caminhar lentamente para a porta de Haymitch.
– E Peeta?
Tento conter a tristeza ao ouvir seu nome e lembrar da briga que tivemos na madrugada.
– Está trabalhando. Ele viveria naquela padaria, se pudesse.
– Acho que só se você fosse também – ela diz, cheia de ternura. Sorrio de lado e abaixo minha cabeça, um tanto ruborizada.
– E os meninos? Não os vejo há um tempo.
– Rory está bem animado com essa coisa de abrir uma loja de frutos do mar. Um empreendedor no 4 está tentando expandir o negócio e Rory viu a oportunidade perfeita. Vick não cansa de se gabar por ser a mão direita do seu marido – assim que eu e Peeta assinamos os papéis no Edifício da Justiça, decidimos que era hora de contar sobre o casamento. Não há ninguém em Panem que não saiba sobre o nosso suposto segundo matrimônio. – E Gale está aqui. Sua esposa está grávida e ele achou melhor ficar pelo menos uns dois meses aqui no 12, já que ela não tem família e são pais de primeira viagem.
Abro a boca. Fecho. Eu já tinha quase me esquecido que Hazelle tinha um quarto filho. E que esse era Gale. Há quanto tempo não o vejo? Há quanto tempo não nos falamos? E agora está casado. Esperando um filho.
Bem, ele fez o certo. Encontrou alguém e se doou completamente a essa pessoa. Enquanto eu tenho dificuldades em me doar ao meu próprio marido.
– Bem... Isso é incrível!
– É... o tempo passou muito rápido. – Assinto lentamente. Hazelle então pega o saco das minhas mãos e diz, calmamente. – Tenho que ir. Haymitch não anda bem.
Eu já tinha ciência disso. As crises de abstinência tinham complicado há alguns dias, e ele já tinha quebrado pelo menos quinze pratos num espaço de tempo curtíssimo. Um quase na sua própria cabeça. Foi por isso que tive que me dobrar e lhe dar duas garrafas de licor e aguardente.
– Tudo bem, boa sorte. Se precisar de ajuda com ele, me chame – digo, com um sorriso, me virando para caminhar para a minha casa.
– Talvez você devesse passar lá em casa qualquer dia. Você e Peeta. Um jantar seria bom.
Eu balanço a minha cabeça, concordando. E então entro em cabeça, sem saber o que pensar, porém com total certeza de que esse jantar jamais acontecerá.
As coisas então recaem sobre mim numa avalanche. Todas as pessoas que conheço, que estiveram na guerra comigo, que perderam entes queridos, conseguiram se recuperar. O que me difere deles, então? Por que a dor não os consome como faz comigo? Ah, é nítido, penso.
Duas arenas. Um esquadrão inteiro. Minha irmã.
Tudo que não posso nem consigo deixar para trás porque tudo isso sempre fará parte de um remoinho feito para me assombrar. Não importa o quão boas as coisas estejam, não posso deixar no passado o que está dentro de mim, e, enquanto não puder fazer isso, não posso prosseguir.
Fecho os olhos. Me encolho na porta. De repente, quero o abraço de Peeta. Quero que ele esteja aqui e me perdoe pelo que fiz; pelo que disse. Quero que encontre uma solução, porque eu sei que somente ele é capaz de fazer isso. No entanto, uma partezinha de mim, a parte que não é individualista e pensa nos outros primeiro, diz que talvez essa seja a hora de deixá-lo ir. E agora, com todos esses pensamentos colidindo na minha cabeça, vejo o quão certo Haymitch está.
Eu não mereço o amor do Peeta. Eu não mereço nada do que ele faz por mim. Eu não mereço o modo como ele sempre está de braços abertos para mim, mesmo quando o erro é meu. Não mereço as vezes que eu fujo de tudo, do mundo, e ele corre atrás de mim para me ajudar. E ele, principalmente, não merece se submeter a isso. A um amor esporádico, uma felicidade infeliz, e uma vida de incertezas.
Caminho para a cozinha, não posso me abalar agora. Mas, basta pegar a faca para cortar alguns nabos que noto que não consigo. Fico parada, como se não soubesse o que fazer. Estou desesperada e tudo ao meu redor não passa de uma bagunça que eu não arrumo nunca.
Quero ir à padaria, mas, então, o que direi a Peeta? Existem palavras no mundo que possam redimir um erro irreversível? E, além do mais, minhas vontades são menores que pó que agora. Porque do mesmo modo que desejo que ele esteja aqui, abomino a ideia de transtorná-lo outra vez, como sei que farei num futuro próximo.
Apoio os cotovelos sobre a pia e jogo minha cabeça sobre minhas mãos. Não posso desistir, não posso cair aos pedaços.
– Meu nome é Katniss Everdeen. Meu lar é o Distrito 12 – começo, num sussurro. – Estou casada com Peeta há três anos. Ele quer filhos. Eu não posso ter filhos. Nós brigamos. Eu não suporto estar brigada com ele. Eu não sei o que fazer; só quero sumir.
Perco a noção do tempo ali mesmo. Faço um jogo na minha cabeça, tentando estoicamente não deixar o controle se esvair. Quando levanto minha cabeça outra vez, não há sinal do dia nem da tarde pela janela. O céu, escuro e repleto de nuvens, tem um tom quase sombrio. Acabo deixando tudo zoneado na cozinha, uma bela bagunça cuja desordem tem sua personificação em mim.
Chego ao quarto para me jogar na cama e aceitar, com um remorso maior que eu, que estou em um daqueles dias. Onde tudo que quero é esquecer quem sou, quem eu fui, e tudo que fiz. Onde xingo Peeta milhares de vezes por ter me impedido de tomar a pílula com veneno após a execução do Snow. Onde não vejo beleza em nada e tudo soa como um cemitério, cujas covas de cada um eu mesma cavei.
Prim vem à mente. E depois, tenho a impressão de que nunca mais serei capaz de sentir vontade de viver outra vez. Embora haja um vago palpite dentro de mim dizendo que nunca tive, sequer. Contudo, não preciso lembrar a mim mesma de que nem mesmo tenho motivos para viver. Minha existência significa destruição e dor, não só a minha, mas de qualquer pessoa que insista em permanecer ao meu lado.
**
Consigo ouvir Peeta chegar. Consigo ouvi-lo subir as escadas enquanto estou contanto e recontando as mortes que causei. Invento nomes na minha cabeça de pessoas que morreram durante a guerra e vou sussurrando-os junto aos nomes das pessoas que outrora conheci. Ouço a porta se abrir, mas não olho para a entrada. Meus olhos mantêm-se fixos na parede em frente à cama.
Peeta acende a luz. Eu pisco algumas vezes, não gostando da claridade, e só olho para ele quando já está do meu lado na cama.
– Sai – eu peço, sentindo minha boca seca pela falta de hidratação. – Eu não quero você aqui.
É uma mentira, que muito se assemelha a um corte feito com navalha na minha pele. Porque tudo que mais quero é o abraço e o conforto do seu corpo, porém, esse é um luxo que não posso me dar. Não depois de tudo que fiz. Principalmente com ele.
Peeta suspira do meu lado, mas não diz nada. Sinto o peso do seu olhar sobre mim.
– Peeta, me deixa sozinha.
A respiração dele parece acelerar ao meu lado. Ah, é claro. É óbvio! Mas quando me dou conta, é tarde de mais.
Ele teve um péssimo dia, uma terrível noite de sono, teve que lidar com as minhas reclamações, uma briga e agora minha total ignorância. É um daqueles dias onde eu tenho que ter cuidado com as palavras e entender o silêncio dele, contudo, não me dei conta. Me afogar na minha dor era minha prioridade.
Não digo nada, só o olho correr para a porta e batê-la com força total.
O que há de errado comigo? Por que insisto em fazer tudo errado? Era para eu consertar as coisas, não tornar tudo pior! Entretanto, foi isso que fiz.
Balanço a cabeça, sentindo as lágrimas rolarem sem o meu consentimento. É um péssimo dia para se estar viva.
**
Acordo berrando por conta de um pesadelo. Pelos meus cálculos, é o terceiro ao longo da madrugada e dessa manhã. É uma surpresa ter conseguido dormir, de qualquer forma.
Minha cabeça dói e eu me sinto um trapo. Dou os comandos mais básicos ao meu corpo e me esforço para levantar. Hoje não posso fugir, preciso consertar o estrago do dia anterior. Mas nenhuma desculpa parece ser boa o suficiente. Todo meu planejamento soa como lixo. Estou tentando não me culpar para que eu não volte para a cama, no entanto, essa não é uma das tarefas mais simples do mundo.
Escovo meus dentes, lavo o rosto e bebo a água da pia. Tomo um banho rápido, embora a sujeira interna não seja levada com a água. Me enfio numa blusa de lã com mangas e numa calça de moletom. As janelas fechadas não impedem em nada o frio do inverno.
Já aqui na sala é possível sentir o cheiro de café. E quando adentro a cozinha, o odor só fica mais intenso. Peeta está no fogão com uma chaleira, coando o café. Ele se vira para pôr na mesa e me vê na entrada, deixando-me notar então o corte que traz na bochecha direita. Não parece muito melhor que eu; cheio de olheiras e com cansaço estampado em cada rastro de pele. E eu nem mesmo esperava que estivesse bem, pude ouvir suas reações quando as imagens do telessequestro voltaram com força total e eu me encolhi sob as cobertas, deixando-o lidar com aquilo tudo sozinho.
– Como você está? – Eu pergunto sinceramente preocupada, querendo conversa. Peeta, aparentemente exausto, responde num tom neutro:
– É como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. E você?
Ele olha para mim com uma curiosidade e preocupação genuína. Me pergunto como ele pode agir assim quando tudo que eu faço é ser a pior pessoa do mundo com ele.
– Um trapo – um pequeno silêncio de instala entre nós enquanto Peeta enche uma caneca com café e me oferece. Eu continuo na entrada da cozinha, quieta, vendo-o dar passos inseguros na minha direção com sua cabeça em mãos. – Eu só quero que você saiba que eu gostaria de pegar sua dor para mim e fazer você parar de me amar para poupar seu sofrimento. Você merece muito mais que isso. Você merece alguém muito melhor do que e eu não consigo entender o motivo de você ainda estar aqui.
– Katniss... – Ele começa, cheio de doçura e compreensão. Mas eu não quero isso, não quero que ele me perdoe assim. Eu não mereço.
– Não! Você não entende! É uma injustiça eu ter você e a possibilidade de ser feliz quando sangue escorre pelas minhas mãos. É uma injustiça fazer com você passe por tudo isso, piorar seu telessequestro ou aguentar minhas crises – O olhar que ele lança para mim é tão conhecido que eu já sei exatamente o que quer dizer. "Por favor, não comece." – Será que você não é capaz de ver o quanto eu te faço mal?
No segundo em que as primeiras lágrimas começam a rolar, Peeta já está na minha frente, secando-as com os polegares. Não posso medir, de modo algum, a saudade que senti das suas mãos e do seu toque repleto de cuidado.
– Eu não vou sair do seu lado. Além disso, nós somos casados. Se quiser mesmo que eu vá embora, terá que providenciar o divórcio.
Ele beija minhas bochechas, onde lágrimas ainda correm por toda a região. Depois, olha nos meus olhos e eu então sei que vou ceder, porque não consigo viver sem Peeta e eu sou egoísta. Um verdadeiro poço de exclusivismo. E porque ele sabe disso tão bem quanto eu que apelou para um pedido mais sério: divórcio. Coisa que eu não poderia pensar em pedir nem em um milhão de anos. Pois é inconcebível pensar numa vida sem ele ao meu lado.
Tento imaginar um mundo no qual ele não esteja comigo, e, além dos calafrios, tudo que vem a minha cabeça é a impossibilidade. Não há nem uma maneira de seguir em frente sem ele.
– Você não pode fazer isso – digo, uma última vez, antes de ceder completamente.
– Você está arrependida sobre tudo, é isso que importa. E, como já lhe disse uma vez, as vidas tiradas das pessoas na arena não estão depositadas no seu ombro. Foi Snow. E a rebelião foi escolha de cada um. Finnick, Castor, Boggs, Jackson... Todos escolheram isso. Não se culpe. Você fez o que acreditava e eles também, porque acreditaram e escolheram você.
Balanço a cabeça, desacreditada. Ele é único. O único capaz de fragilizar minhas certezas e me fazer ter uma concepção diferente a respeito de tudo.
– Eu não mereço você.
– É o que você acha.
– Eu fiz você destruir um cômodo inteiro.
– Meu lado telessequestrado fez.
– Eu aticei – replico, automaticamente. – Eu sempre faço isso. E não posso te dar uma família. Você não pode ser feliz comigo.
– Katniss – ele sussurra, colocando uma mecha rebelde do meu cabelo atrás da minha orelha –, eu amo você. Nada pode mudar isso.
– Isso não altera em nada o fato de que não mereço seu amor.
Sua respiração toca o meu rosto, deixando com que a saudade que senti por duas noites seguidas recaia sobre mim com força total. Como pude privar meu corpo dele por dois dias?
– Mas você me ama. Real ou não real?
– Real.
– Isso é o bastante. Enquanto você amar, enquanto você me quiser, você já faz de mim o homem mais feliz do mundo. Não preciso de nada além.
O choro apenas se intensifica. Se acentua porque só eu sei como essas palavras são verídicas e como o seu carregamento de significados têm proporções inestimáveis. Eu olho para Peeta, agora tão próximo depois de um período de dias que representou uma quantidade absurda de tempo. Toco o corte fino de sua bochecha, e, mesmo com a visão embaçada, admiro seu rosto. A boca levemente entreaberta dele se aproxima da minha e eu não posso evitar prender a respiração, antecipando o contato.
A espera de dois se findou. Seus lábios tocaram os meus com carinho, para que após meio segundo, eu intensificasse o beijo; o beijo saturado de saudade e com o salgado gosto das minhas lágrimas. O beijo que almejei nas duas madrugadas nas quais fui privada dele.
– Me desculpa – eu peço, a voz embargada, segurando o seu rosto para impedir que ele se afaste. Peeta segura a minha cintura, me traz para perto e diz:
– Está tudo bem agora.
Logo em seguida, sua boca está junto a minha outra vez. Exatamente no lugar onde tem que estar. Mal percebo quando começamos a caminhar pela sala e eu me vejo apoiada em umas das paredes, sem forças para chorar outra vez agora que estou anestesiada por tê-lo novamente.
– Eu tenho que ir. Já passa das sete! – Ele murmura contra meu rosto, conforme eu ainda insisto em bicar seus lábios com os meus.
– Espera só mais um pouco – praticamente imploro, posto que a saudade que senti paira sobre mim de modo quase desesperador. Peeta não responde, apenas me beija outra vez, da maneira que eu preciso.
Minhas mãos passeiam livremente pelas suas costas, à medida que ele aperta minha cintura mais e mais, e continua me puxando para si, impedindo que haja qualquer milímetro de espaço entre nós. É quando nos separamos e seus beijos vêm parar no meu pescoço que sei que não posso evitar o que vem a seguir.
Minutos depois, Peeta me toma com extremo carinho, enquanto envolvo seu quadril com as minhas pernas e ele sustenta meu peso com a ajuda da parede atrás de nós. Minha calça está jogada no chão abaixo de nós junto a minha roupa íntima e as de Peeta, que me beija e não para de declarar seu amor conforme investe contra mim. Eu suspiro contra seus lábios, fechando meus olhos e apertando seus ombros. Ele volta sua atenção para o meu colo, onde meu moletom ainda está, mas já não cobre muita coisa.
A sensação é de estar nas nuvens outra vez e ter alcançado o céu. Parece que a qualquer momento poderei ver estrelas.
Não consigo conter o gemido que passa, com vontade própria, pela minha garganta. Seguro o rosto de Peeta com vontade e abro os meus olhos, vendo que seus infinitos azuis estão dilatados e ele está tão embriagado pelo prazer quanto eu. Estou ofegante quando confesso:
– Eu morri de saudades ao menos três vezes nesses dias.
– Isso é bom – ele afirma com um sorriso, à medida que eu limpo o suor da sua testa com meus dedos –, achei que tinha sido só eu.
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