We found love in a hopless place II
38 Capítulo 38
Notas iniciais
As refeições no castelo sempre representaram momentos de grande importância. Para Snow White, se tratava de muito mais do que simplesmente suprir a necessidade de alimento que seu corpo requeria. Sentada à mesa, vivera diversas situações que jamais poderia esquecer. Por um instante, seus olhos lacrimejaram com a lembrança do pai rindo com ela enquanto lhe pedia que passasse as uvas e acariciando seus cabelos em agradecimento. Houve um tempo em chegou a acreditar que talvez jamais tornaria a se assentar ali.
A princesa começou a analisar com cautela cada um dos indivíduos presentes. O cansaço visivelmente estampado em todos os semblantes. Os olhos brilhando de pura expectativa, cada par por um motivo totalmente distinto de qualquer outro. Por um instante, imaginou se os seus próprios olhos refletiam tudo aquilo que dançava loucamente dentro de sua cabeça. Tudo o que ela era, todas as peças que a construíram tiveram as paredes daquele castelo como testemunhas. A tristeza pela perda da mãe. A esperança de conseguir um pouco de amor e cuidado próximos ao materno da parte de Regina, a traição inocente, o ódio inevitável, a dor, o sofrimento, a culpa, a fuga. Todo este emaranhado de coisas que os levava ao momento presente.
Seria impossível contar o número de vezes em que pensou nas versões alternativas desta história. Se ela não tivesse contado à Cora sobre os planos da futura madrasta, esta teria fugido com seu amor verdadeiro. Seu pai ficaria com o coração partido e ela certamente ficaria muito triste, mas seriam capazes de superar isso. Talvez o rei arranjasse outra esposa que fosse boa para ela também. Ou talvez optasse por jamais tornar a se casar e o reino seria transmitido às mãos da filha quando ele morresse. Nesta alternativa, não haveria maldição. E ela muito provavelmente nem conheceria Charming, considerando que não precisaria fugir, logo não o encontraria na floresta. Ainda assim, acreditava que todas as pessoas estavam destinadas a encontrar seu amor verdadeiro de um jeito ou de outro, então o encontraria de qualquer maneira. Esta era a história deles: Eles sempre se encontravam.
Ou então, ela não teria dito nada à Cora, mas a mulher era astuta e descobriria mesmo assim, oferecendo ao garoto dos estábulos um final trágico. Ainda que infeliz, Regina se casaria com o rei, no entanto, não a culparia pela desgraça atribuída ao homem que ela amava. Sendo assim, não lançaria a maldição. Pelo menos, não por culpa dela.
Seu olhar se estendeu à rainha e ela se surpreendeu ligeiramente ao notar que sua madrasta já a encarava, com um ar igualmente pensativo. Muito provavelmente, Regina desfrutava de pensamentos similares em sua própria cabeça. Imaginou quantas vezes a mulher criou histórias alternativas e desejou que nada daquilo tivesse acontecido. No entanto, a princesa sentiu-se brevemente confusa ao encontrar nos olhos da ex-inimiga algo que lhe pareceu muito próximo a um sentimento de gratidão. Refletiu um instante a respeito disso e concluiu que fazia muito sentido, apesar de tudo. Ainda que houvessem compartilhado um passado tempestuoso de culpa, traição e ódio, se as coisas não tivessem acontecido daquela maneira ela não teria adotado Henry – O que foi o princípio de sua redenção. – Tampouco teria encontrado um novo amor e dado à luz uma criança de seu próprio ventre. Não haveria paz no reino, apenas fuga, destruição e medo. De qualquer modo, ninguém poderia ser feliz assim.
A princesa abocanhou um belo pedaço da carne de coelho recém assada e se permitiu apreciar com imensa satisfação o prazer de saborear algo que ela mesma havia caçado – O que já não fazia a tanto tempo que nem podia se lembrar ao certo da última vez. Por um momento, aquilo a fez sentir-se um pouco mais como ela mesma. Lembrar-se de quem realmente era. E então tudo pareceu apenas um sonho antigo de uma outra vida que jamais existira. Já não importava. Olhou novamente ao redor e contemplou os rostos daqueles a quem amava. Concluiu por fim, que mesmo com todas as dificuldades que sempre tornariam a sobrevir, estar com aquelas pessoas era o que constituía o seu final feliz. E sorriu satisfatoriamente.
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Regina não se assentou na ponta da mesa, como era o esperado que uma rainha fizesse. O lugar ficou vago e a cadeira que o ocupava fora realocada para que Henry pudesse se acomodar entre as duas mães. Não fez isso conscientemente, com um propósito pré-estabelecido. Naquele momento, não se sentia em uma posição superior aos outros ocupantes da sala de jantar. Muito pelo contrário. A satisfação que lhe tomava era atribuída a sensação de igualdade que experimentava pela primeira vez e que tinha a capacidade de a deixar tão extasiada quanto uma droga poderosíssima. Naquele instante, a rainha se sentiu em casa, com todas as coisas que um verdadeiro lar representa: Calor, aconchego e especialmente: família.
Seu íntimo foi tomado de plena gratidão e isso a possuiu de forma tamanha que precisou travar uma imensa batalha interna para não se derramar em lágrimas. Seus filhos, seus dois filhos, compartilhando uma refeição com ela, plenamente conscientes de quem eram e sem nenhuma venda invisível lhes tapando os olhos e ocultando a verdade. O homem que trouxera o romance de volta para a sua vida sorrindo para ela. A paz imperando naquele ambiente, dividido com outras pessoas que por muito tempo foram inimigas e agora representavam cumplicidade, parceria e amizade.
Dirigiu o olhar à Snow White e antes que pudesse desviá-lo foi surpreendida pelos olhos da princesa encarando-a de volta. Muito provavelmente, estava refletindo sobre tudo o que acontecera até então, assim como ela. As coisas agora seriam diferentes e isso implicaria em uma grande conversa de acerto de contas. Felizmente, poderiam resolver tudo de modo pacífico dessa vez. Um pequeno sorriso involuntário tomou conta de seus lábios, mas não durou muito. Logo, a rainha desviou seu foco novamente para a deliciosa refeição que apreciava e direcionou seus pensamentos a outra pessoa com a qual conversaria antes: Henry.
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Pouco a pouco, os ocupantes foram se retirando da sala de jantar. O garoto levantou-se com a pretensão de explorar um pouco mais aquele local maravilhoso que dali para a frente seria seu lar, mas foi surpreendido pela mão de sua mãe apertando seu pulso de leve.
– Henry querido, se você não se importar, tem uma coisa que eu quero lhe mostrar.
– Claro que não, mãe! Eu ia mesmo dar uma passeada por aqui novamente. Fazer um reconhecimento, sabe?
– Oh sim! Bem, acredito que você vai gostar de ver o que eu tenho para lhe apresentar.
– Estou certo disso.
O garoto sorri e segue de mãos dadas com a mãe por um longo corredor. Após percorrer mais alguns corredores e subir dois longos lances de escadas até uma torre, a dupla para diante de uma grande porta de madeira com belos entalhes dourados. A rainha empurra a maçaneta com um ar ansioso e desliza a mão para dentro do cômodo, acendendo as luzes antes que entrem no ambiente. Em seguida, puxa o filho para dentro e torna a fechar a porta atrás deles. O garoto arregala os olhos e sem que perceba, sua boca se abre em pleno espanto. Nem no melhor de seus sonhos imaginaria um lugar assim. Era um verdadeiro paraíso: Uma biblioteca tão grande que mal conseguia ver a parede oposta. Inúmeras prateleiras e corredores formados pelas estantes. Uma imensa escadaria que levava à parte de cima, onde outra infinidade de livros repousava tranquilamente. O teto alto possuía uma cúpula no meio, através da qual se podia contemplar as estrelas no céu noturno do lado de fora. E havia um belo e antigo telescópio estrategicamente posicionado no andar de cima. Um lugar magnífico. Um verdadeiro santuário de saber e fantasia.
– O que acha?
– Isto é... Simplesmente fantástico. – Sussurra.
– Eu sabia que você ia gostar.
– Está brincando?! Isso aqui é como um sonho! Quem pode imaginar as preciosidades que estão escondidas nestas prateleiras?!
– Henry, isso tudo aqui é seu também. Você pode vir aqui quando quiser.
A mulher se dirige a um sofá no canto direito do salão e o rapaz a segue, acomodando-se ainda perplexo ao lado dela.
– Rose vai adorar este lugar!
– Filho... Muitas coisas aconteceram ultimamente. Estou certa de que você se sente um tanto confuso em relação a algumas delas. – A mulher pousa a mão sobre o joelho do menino. — Fique à vontade para me perguntar o que quiser.
– Bem, com certeza é tudo muito novo e diferente para mim, mas tenho certeza de que vou me adaptar logo.
– Ah sim, disso eu não tenho dúvidas. Mas eu me refiro a outras coisas também. Querido, quando mandei você e Emma para New York eu fiz isso porque pensei que seria o melhor para você. Isso o manteria seguro. Mas não houve um segundo sequer em que eu não lutasse para encontrar um jeito de acabar com a maldição e trazê-los de volta.
– Você e Hook... Como isso aconteceu? Quero dizer... Não que eu não goste dele ou coisa assim. Na verdade, até que acho ele muito bacana. Mas nunca imaginei que vocês pudessem se envolver romanticamente. Ele era apaixonado pela minha mãe! – Minha outra mãe. – Conclui.
– Depois que eu mandei vocês para outra cidade, todos nós começamos a trabalhar em diversos planos para destruir a maldição. Obviamente, tínhamos motivos distintos para isso. Eu queria você de volta. Snow e Charming lutavam por sua filha e neto. E Hook entrou nessa por Emma, é claro. No entanto, com o passar do tempo, fomos ficando obcecados por isso e passamos a conviver muito mais do que gostaríamos. Killian e eu fomos nos aproximando e isso aconteceu de um modo inconsciente. Só percebemos de fato quando em um momento, enquanto estávamos trabalhando em um novo plano, acabando nos beijando. Esse beijo resultou em outros e antes que pudéssemos perceber estávamos envolvidos em uma espécie de relacionamento. Foi quando eu engravidei da Rose.
– Você merece ser feliz, mãe. As pessoas podem amar mais de uma vez. E ele te ama de volta. Não há dúvidas disso. Vi a forma como ele olha para você e não é do mesmo jeito que ele olhava para a minha outra mãe. Ele tinha sim desejo de ficar com ela e talvez daria certo se ela tivesse dado uma chance a ele, mas quando ele olha para você, é diferente. É mais do que simplesmente desejo de ficar junto. Não sei se era assim no começo, mas vocês tiveram um bom tempo para construir algo concreto e é recíproco porque você olha para ele do mesmo jeito.
– Eu... – Regina sente as bochechas queimarem. Jamais pensou que um dia falaria sobre algo assim com o filho. – Henry, Rose é minha filha. Minha e de Kilian. – Suspira, escolhendo as palavras seguintes com cuidado. — Eu não quero que você pense jamais que eu resolvi ter outro filho para substituir você ou que ela é mais importante para mim porque foi gerada em meu ventre e você não. Na verdade, ela veio de forma inesperada. No entanto, sou eternamente grata que tenha vindo. Não sei como explicar isso, mas acredito que você irá entender quando tiver seus próprios filhos. Eu os amo de jeitos diferentes, porque vocês não são iguais. Contudo, no que se trata de intensidade, ela é exatamente a mesma. É engraçado e incompreensível, mas funciona desse jeito.
– Jamais vou me sentir dessa maneira, mãe. Eu sei que você se esforçou muito para me trazer de volta e me fazer lembrar. Rose é a nova salvadora, ela precisava vir ao mundo e precisava fazer o que fez. Era o destino e não se pode lutar contra isso. Confesso que não caibo em mim de felicidade por ter uma irmãzinha. Gostaria muito de tê-la acompanhado mais de perto desde bebê, ensinar a andar, a falar e ler histórias para ela todas as noites, mas infelizmente não foi assim. Agora não importa. Eu sempre quis um irmão ou irmã. Muitas vezes me senti sozinho. Quando Emma e eu viemos para Storybrooke por causa do trabalho dela, eu me sentia constantemente solitário porque não conhecia ninguém. Demorou um tempo para alcançar o nível de intimidade que atingi com você, Killian e Rose. Eu perdi muita coisa. Mas de alguma forma, eu sempre me senti assim em relação a ela, como um irmão mais velho. Aquela pequenina tornou meus dias mais felizes.
– As coisas vão ser bem diferentes agora, Henry. Eu quero te apresentar a todas as maravilhas desse reino. Você precisa manter a mente aberta porque é muito diferente de tudo aquilo que você conhece e não digo isso apenas em questões tecnológicas. Você é um príncipe e mesmo que quisesse não tem como fugir disso porque é meu filho e eu sou a rainha. Ainda que eu não fosse, Charming e Snow são seus avós e eles são da realeza também, assim como Emma. Sei que vai se adaptar e não quero assustá-lo, meu querido. Só quero que saiba que você tem com quem contar quando as coisas ficarem difíceis ou quando as dúvidas começarem a surgir, está bem?
– Eu estou fascinado com isso tudo, mãe. Este lugar é lindo e eu sei que vou ter tantas responsabilidades que nem posso imaginar, mas eu vou aprender. Não estou sozinho nessa. Você, Mary Margaret, David, Killian e muitos outros viviam aqui antes e vão me ajudar. Além do mais, minha mãe e Rose também nunca moraram aqui e estarão tão perdidas quanto eu. Vamos nos encontrar juntos.
– Você é sempre surpreendente, meu amor. – A rainha sorri e dá um beijo na testa do filho.
– Posso trazer minha irmã aqui? Eu adoraria lhe mostrar isso tudo e lhe contar uma história. Provavelmente isso fará com que ela se sinta mais confortável.
– Claro que sim, querido. Ela vai adorar.
– Obrigada, mãe.
O garoto sorri e se levanta, dirigindo-se a porta. Segue com a mãe, observando atentamente cada detalhe do caminho de volta para certificar-se de que seria capaz de retornar à biblioteca sem se perder. O castelo era tão grande e tinha tantos corredores, portas e passagens que ele provavelmente levaria séculos para conseguir se orientar e conhece-lo a fundo. Felizmente, tinha tempo para isso. E uma ideia brilhante que ajudaria e muito: Desenhar um mapa.
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Continua...
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