Douglas POV

Saí daquela sala chorando tanto que achei que fosse desabar no chão. Não que eu quisesse, eu nunca ia querer chorar feito uma adolescente desiludida na frente do Theo, mas foi mais que eu. Quando Theo começou a gritar comigo daquele jeito, um sentimento de dor começou a me sufocar e de repente eu estava em lágrimas. Mas não foi ele dizer que ele só queria estar com Isis que me doeu, tampouco me chamar de falso, o que realmente me fez ficar em cacos foi ele não ter ido atrás de mim. Eu tinha passado o dia o consolando pra chegar ao final do dia e ser achincalhado na frente de todos os meus amigos. Mas também não era a humilhação que me magoava, Theo estava se distanciando cada dia mais e isso me doía mais que qualquer palavra que ele me dissesse ou gritasse.

Quando chego na cabana, simplesmente me jogo na cama e encharco o travesseiro. Choro por horas ali, sem me importar se alguém ouvirá os soluços. Eu só quero que as coisas voltem a ser como eram antes que "This" existisse. Eu sinto falta dos meus momentos com ele, sinto falta de dormir agarrado no corpo dele, sinto falta do cheiro dele, dos abraços e dos carinhos. Choro até não sentir mais nada, até sentir que já não há mais lágrimas em mim. Suspiro e fico em silêncio, como se estivesse por efeito de algum tipo de droga. Não sinto nada no meu corpo, como se não houvessem mais sentimentos dentro de mim.

— Sai daqui. — Falo ao ouvir o barulho de alguém entrando no quarto, me viro e toda a dor volta quando meus olhos viram quem tinha cruzado a porta. Fungo, sentindo meu nariz entupido e as lágrimas novamente se formando.

— Douglas. — Ele diz, com os olhos vermelhos e já brilhando por conta da vontade de voltar a chorar. — Me desculpe. — As palavras saíram mais como um sussurro, sua voz está muito fraca.

— Saia daqui Theo. — Peço, jogando meu corpo nas almofadas novamente.

— Você não pode me pedir pra sair todas as vezes que tivermos uma discussão, uma hora ou outra vai ter que enfrentar o problema. — Ele diz com a voz calma, sentando-se ao meu lado e apoiando as mãos uma de cada lado do meu corpo.

— E você não pode só me pedir desculpas todas as vezes que agir feito um idiota. — Respondo e ele se silencia, preenchendo o quarto com apenas um som: seus soluços.

Theo abaixa a cabeça sobre o colo, apoiando-a nas duas mãos e desaba, mas não sei ao certo a razão de seu pranto. Aproximo meu corpo do dele, puxando-o pra mais perto e ele enfia sua cabeça em minha clavícula, molhando-me com suas lágrimas. Eu me odeio por ser tão fraco quando se trata de Theo, mas eu sei que nunca conseguirei assistir ele chorar e não fazer nada pra acalmar seu coração aflito. Eu me praguejo sempre por nunca deixa-lo sofrer mesmo sabendo que a qualquer momento ele fará alguma estupidez e quem vai acabar sofrendo sou eu. Mas mesmo me odiando cada dia mais por ser tão imbecil, novamente eu estou aqui, acalmando-o e desejando que um dia ele dê valor a nossa amizade.

— Doo. — Ele choraminga, seu tom de voz é baixo e o som saiu abafado, mas mesmo assim consigo ouvir perfeitamente. — Eu sinto muito, eu sou um idiota. —

— Eu sei, T, acho que já me acostumei com isso. — Eu digo e solto uma risada, mas na verdade não acho graça naquilo — Esta tudo bem. —

— Não, não está. — Ele diz e posiciona-se a minha frente, olhando com aqueles olhos castanhos úmidos e transmitindo tanta tristeza que me fez ter vontade de chorar novamente. — Eu estou sempre sendo tão idiota com você e você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Eu não queria te magoar, não quero que nossa amizade acabe por causa dos meus erros estúpidos. Você está sempre do meu lado e eu, ultimamente, só tenho feito você chorar. Eu me arrependi muito do que eu te disse, foi tudo sem pensar, eu estava tão nervoso com tudo o que aconteceu e acabei dizendo aquele monte de besteira pra você. Perdoe-me Doug, me perdoa por não demonstrar todos os dias o quanto você é importante pra mim e o quanto eu amo você. Eu te amo tanto, Doug. — Ele agarra seu corpo novamente no meu, afundo meu rosto em seu ombro e sorrio. O cheiro dele e aquela proximidade fazem meu coração acelerar, eu só precisava ouvir aquela frase pra esquecer todas as palavras duras que ele me disse. — Eu te amo muito, me desculpa. — Ele encosta os lábios na minha testa, depositando um beijo ali e eu coro com o contato. — Corou com meu toque, Doug? — Ele caçoa. Cadê o Theo choroso?

— Para de ser besta, T. — Falo envergonhado e ele me olha, sorrindo divertido e instantaneamente meus lábios se curvam também. O sorriso dele é tão bonito. Theo é lindo, muito lindo.

— Falando sério, me desculpa por gritar daquele jeito. — Ele pede, segurando meu rosto e olhando fixamente nos meus olhos.

— Olha Theo, eu não sei desculpas são o suficiente. — Digo brincando e ele ri, pegando alguma coisa no bolso.

— Eu sei, por isso te trouxe isso. — Ele me estende a mão, com duas margaridas amassadas — provavelmente as colheu de algum lugar do camping e as amassou sentando em cima — e solto uma risada.

— Flores murchas? Obrigado T, muito romântico da sua parte. — Falo zombando.

— Oh, me desculpe se não tinha nenhuma floricultura aberta a essa hora no meio do mato. — Ele diz sério num tom de ironia, mas sei que no fundo ele quer rir.

— Mas você podia ter pego umas flores mais bonitinhas né? —

— Vai mesmo desprezar as minhas flores? —

— São lindas, obrigado T. — Dessa vez, falo sinceramente. Achei fofo da parte dele me trazer flores, mesmo que fossem murchas. Ficamos nos encarando em silêncio, até que eu bocejo e ele se levanta pra ir embora.

— Vou deixar você dormir, boa noite Doug. — Ele dá um beijo em minha testa, mas seguro seu pulso e ele me olha novamente. — Que foi? —

— Não quero dormir sozinho e meu companheiro de quarto foi embora junto com Renata. — Falo timidamente. — Fica aqui comigo hoje? —

— Claro, até se me pedisse pra ficar pra sempre. — Ele sorri, dessa vez me olhando de um jeito tão meigo que sinto vontade de mordê-lo. Então fique, T. Afasto esse pensamento e também me afasto um pouco, dando espaço para ele se deitar ao meu lado. Ele se deita e prontamente envolve os braços em minha volta. Faço o mesmo, encostando a lateral do rosto no peitoral dele.

— Boa noite, Doug. — Ele sussurra.

— Boa noite, T. — Então fecho os olhos, sentindo o cheiro de Theo invadir minhas narinas.

Pela primeira vez em dias me sinto vivo novamente.

Dayene POV

Depois da vergonha que passei com Mariana no banheiro, resolvi não falar mais nada com ela, apenas lhe dei 'boa noite' e ela respondeu educadamente antes de ir tomar seu banho. Arrumei minhas coisas e me joguei na cama, morta de cansaço. Flashbacks de tudo que tinha ocorrido vieram em minha cabeça e me lembro que Dandara ainda não sabe de nada. Ela vai ficar mal, afinal ela era muito amiga da Isis, foi ela quem engatou o romance do Theo com a Isis. Então, novamente, me lembro da cena do banheiro. Fecho os olhos e afundo a cara no travesseiro, tentando apagar aquele momento da minha cabeça. Não esqueço, mas pelo menos consigo dormir.

No meio da noite, acordo com gemidos e percebo que Mariana chama meu nome. Pela claridade lá fora, já deve estar amanhecendo. Levanto e acendo a luz, vendo a morena encolhida na cama com uma almofada pressionando o estômago. Definitivamente aquilo não é "nada" como ela dizia. Vou até ela e percebo que ela está quase chorando de dor, se contorcendo inúmeras vezes em cima da cama.

— Mariana, o que esta havendo? — Pergunto, ajeitando seu corpo na cama, porém ela volta a se contorcer.

— Me ajuda. — Ela choraminga. — Faz parar, por favor. — Ela solta um grunhido e resmunga algo que eu não entendo.

— Primeiro, fica calma e para de se mexer. — Peço. Tento parecer calma, mas estou apavorada por dentro, ela está chorando de dor na minha frente e eu não faço ideia de como ajuda-la.

— Mas doí. — Ela diz se ajeitando na cama, seus olhos escuros cheios de lágrimas.

— Fica calma, já vai passar. — Levanto indo até meu armário a procura da minha mochila. — Devo ter trazido algum analgésico, acho que vai resolver. —

Felizmente acho a cartela, tiro um comprimido que ela engole a seco e acaba se engasgando.

— Tonta. — Rio baixo. — Agora deita aí. — Peço sentando novamente ao lado dela e tirando a almofada de sua barriga, subindo sua blusa, recebendo um olhar assustado dela. — Calma, não vou te estuprar, só vou te fazer uma massagem. — Sua barriga está gelada e minhas mãos quentes, o que me causou um arrepio por conta do choque térmico. Passo minhas mãos por seu abdômen, massageando-o com meus polegares pra cima e pra baixo e vejo sua expressão suavizar.

— Dayene. — Ela chama baixinho. — Me desculpe por aquele dia. —

— Tudo bem Mariana. —

— Quero que volte a ficar comigo e com os meninos. — Ela pede, fechando os olhos e percebo que ela está quase dormindo.

— Ok. — Respondo simplesmente.

Continuo a passar meus dedos por toda a extensão do ventre dela, desde suas costelas até o cós de sua calça larga. Provavelmente o remédio fez efeito e minha massagem também, porque ela relaxa o corpo sobre a cama e adormece. Sorrio e me levanto, cobrindo-a com as cobertas que ela tinha chutado pro chão. Ela parece tão serena, sem aquela cara de malvada, está desarmada, essa é a verdadeira Mariana Gonçalves. É a primeira vez que eu consigo olhar pra ela sem pensar naquela menina idiota com quem eu tinha discutido na fogueira. Sorrio enquanto observo-a dormir tranquilamente, acaricio seu rosto com meu polegar e me mantenho ali por alguns segundos antes de apagar a luz.

Boa noite, Mary. — Sussurro pra mim mesma quando me deito na cama.