Wasteland
5 Slum City Tunes
Slum City tunes
Foram pouco mais de quarenta minutos de viagem silenciosa. Ela não quis falar nada. Não poderia depois de tudo o que aconteceu. Presenciou um espetáculo de horrores comandado pelo homem ao seu lado. Ele dirigia o carro na maior tranquilidade, a indignação pela sujeira que ela fez no seu carro passou após os primeiros quilômetros percorridos, depois disso entrou em um estado de serenidade que intrigou a loira. E assustou também. Ou Mav tinha algum resquício de psicopatia, ou então vira e protagonizara tantas daquelas cenas que já estava acostumado. Refletiu sobre suas últimas conclusões. Sabia o que era psicopatia, talvez, e erroneamente ou não, atribuiu ela ao estranho de óculos escuros. Isso podia ser um sinal, uma pista de sua origem. Quem sabe, em memórias passadas já tivesse sido introduzida ao conceito psicológico de distúrbio de personalidade.Era um pensamento muito mórbido para ela, assim como tudo o que aconteceu desde que acordou. Resolveu deixá-lo de lado e concentrar-se em alguma outra coisa qualquer. Encolheu-se sobre o banco do carro e apertou os braços contra o próprio corpo. Ainda de costas, querendo evitar contato visual com o estranho que a acordou, salvou e cedeu-lhe carona para sabe-se lá onde, restringiu-se apenas a visualizar aquilo por detrás do vidro sujo da porta.O deserto foi sumindo aos poucos. O tom amarelado que preenchia toda aquela área foi mudando para um acinzentado tão irritante quanto. Via agora grandes construções caídas e derrubadas. Gigantescos montes de ferro, destroços e carcaças de veículos. Parecia um ferro-velho gigante. Haviam ruas, ela chegou a pensar ter visto algumas, mas o veículo não utilizava nenhuma dessas. Andava por cima de terra, calçadas, concreto. Invadia construções destruídas e vazias.Percebeu que o cenário permaneceria aquele, não iria muito além daquelas dez ou onze coisas que viu e num primeiro momento chamaram-lhe a atenção. Elas agora só iam se repetir eternamente, ou ao menos até que chegasse ao seu destino.Destino, ela repetiu a palavra pra si mesma. Tentou não pensar no sentido poético-lírico da palavra, mas no prático: o local ao qual estavam se dirigindo. Esse era o destino dela, e não tinha a menor ideia de onde era, se ficava próximo de algum local conhecido, e o pior, a maior dúvida de todas, o que faria depois de chegar lá.Forçou-se a acreditar que na tal localidade encontraria alguém que a reconhecesse ou que ao menos tivesse alguma informação da vida dela ou de seus familiares, se é que tinha algum.Quando contou o quinto monte de sucata ao qual passaram, chegou a conclusão que não deveria nutrir esperanças quanto a encontrar um conhecido, que dirá um familiar. Chegando lá, agradeceria a ajuda de Mav e pediria-lhe alguma veste digna. Depois prometeria recompensar-lhe assim que possível e provavelmente nunca mais voltar. Passou pela sua cabeça pedir ajuda mais uma vez, ou até algumas, à Mav. Ele tinha cara de que ajudaria se ela pedisse com jeito. Mas não faria isso. Ele parecia muito instável, despreocupado com o bem estar dela. Tudo bem que vomitou no carro e em cima dele, mas ele poderia ser um pouco mais compreensível com a sua situação.Eu acabei de acordar, descubro que não sei meu nome, que zumbis existem e ele ainda enfia a porcaria de uma seringa no meu pescoço. Estamos, de certa forma, quites. Ela pensou. Um sorriso quase formou-se nos lábios secos e rachados. Um dia, quem sabe, realmente acharia graça na situação. E também aceitasse que atirar em mortos-vivos fazia parte do conceito de normalidade.Ele até me ajudaria, mas provavelmente ia me xingar algumas vezes. Sem falar que são grandes as chances dele me usar como escudo. Ele, tipo, deve ter pensado: “vou ajudar essa moça, mas se as coisas complicarem, foda-se ela”. Ai pegou na minha mão algumas vezes e me jogou no chão outras.Além do mais, pensou ela, ele tem cara de que se aproveitaria e pediria algo em troca pela ajuda. Esse... lugar não parece ter tantas alternativas de entretenimento. Por Deus, ele queima zumbis para se divertir.- Chegando em Slum City, nós vamos procurar alguém que possa te ajudar. Um médico, ou mesmo um conhecido, sei lá. – Disse Mav, quebrando o silêncio. Quebrou também aquela construção de uma personalidade quase perversa e pessimista que a loira estava fazendo dele. Deu uma boa olhada nele, e se arrependeu de ter pensado tão mal de seu salvador de óculos escuros.– Mas primeiro vamos te arranjar roupas. Você tá fedendo. – Riu e fez uma curva fechada.Talvez ainda houvesse tempo dela retirar o arrependimento.
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