Wasteland

6 Slum city tunes 2


Slum city tunes 2


O portão abriu exatos quinze segundos após ele buzinar. Ela contou. Mav disse que levaria esse tempo e a loira teve de comprovar. Parecia ser a parte mais fortificada da cidade, vila, seja lá o que fosse. Devia circundar umas boas quadras daquilo que um dia foi uma cidade. Não haviam construções com muitos andares lá dentro, a maior não passava de seis, sem contar o terraço. Imaginou ser a prefeitura. Algum tempo depois se provaria errada. Nunca foi boa de medidas, então não arriscou o tamanho que toda aquela área cercada tomava. Também não era boa de matemática, logo nem fez questão de estimar quantas pessoas ali viviam.

Ficou feliz com aquelas recentes descobertas sobre si mesma. Não gostava de estimativas nem de números, e muito menos de estimativas em números. Provavelmente seu forte era outra. Linguística, quem sabe. Ou porcaria nenhuma, o mais provável.

O carro era amarelo, e seria natural que chamasse a atenção quando atravessassem portão e ruas da tal Slum. Imaginava que era esse o motivo da série de olhares que iam conquistando a medida que avançavam cidade adentro. Nem passou pela sua cabeça que o motivo de toda aquela atenção seria uma certa visitante que mais parecia um próprio zumbi à um ser humano devido ao seu estado.

Mav falava alguma coisa pra ela, apontando a mão para fora da janela. Devia estar indicando as localidades que detinham alguma importância para ele, ou futuramente para ela. Convenceu-se a absorver aquelas palavras afinal elas deviam ter alguma validade, mas nesse exato momento o rádio captou uma estação e começou a transmitir um violino solitário. Devia ser alguma rádio pirata mantida na cidade.

O motorista desligou-a e segundos depois o carro estacionou. Estavam na frente de uma alvenaria barata, a construção não parecia ter a sustentação que realmente tinha. Tinha duas janelas, uma em cada lado da porta verde escura. Parecia ser de um plástico muito forte. Acima do concreto havia outra construção, feita de madeira e com uma placa pendurada. A moça não leu o que nela continha, apressou-se para sair do carro e acompanhar Mav.

Quase não conseguiu manter-se de pé. Descalça, teve dificuldade de segui-lo naquela calçada cheia de destroços e objetos. Mais parecia um grande lixão. Pisou em cima de madeiras, placas de sinalização e pedras, desviou de dois pregos e uma faca com lâmina quebrada. Chegou na porta verde e viu Mav segurando-a, não contou tempo e entrou. Surpreendeu-se com a iluminação do local, esperava encontrar uma escuridão similar à do seu quarto de hospital.

Era um lixão particular, só que organizado. Não tinha objetos pontudos e ameaças pelo chão, apenas livros e papéis riscados ou empoeirados. Alguns eletrônicos dispostos em mesas e prateleiras, no geral com aparência de que não funcionavam e antigos. Um ou dois eram mais modernos, e esses permaneciam ligados. Estranhou vê-los assim. Não viu cabos de energia em lugar nenhum próximo ou dentro da cidade. Energia solar, concluiu. Uma das tralhas acima da casa devia ser um painel funcional.

- São do Rob – Disse Mav depois de vê-la observar as telas ligadas por algum tempo. Ela logo veio com a pergunta óbvia.

- Quem é Rob?

- Eu sou o Rob! – Respondeu uma terceira voz.

Saiu de um armário que na verdade era uma porta e também uma passagem para outro cômodo. Um laboratório particular, a moça descobriria depois. Ele tinha um capacete de obras e óculos de armações grossas. Rosto alongado, cheio de graxa e um sorriso simpático. Largou as ferramentas de sua mão em uma das mesas e foi até os dois recém chegados.

- O que é isso? – Perguntou olhando para Mav e apontando para a loira.

- Achei no hospital. – Mav respondeu e olhou para a loira. Apontou para Rob. – Esse é o meu irmão, Rob.

- Vocês não se parecem nem um pouco... – Deixou escapar a moça e depois se arrependeu. Procurou olhar para um lugar qualquer e disfarçar, mas não conseguiu.

- Ela é bem direta. – Disse Rob enquanto limpava a graxa das mãos.

- E tem amnésia. – Falou Mav e os olhos do irmão pareceram arregalar por detrás dos óculos de grau.

- Isso é um problema – Disse um. O outro assentiu. – E como foi a coleta?

- Ela é minha coleta. – O irmão fez uma cara estranha. – Ah, tem umas .22 também.

- Droga, ninguém usa .22 aqui. Acho que só os Tech Boys. Vamos ter que esperar eles passarem por aqui pra trocar. Espero que a moça valha alguma coisa. Podemos trocá-la por umas antenas novas!

- Anh? Que história é essa? Ninguém vai me trocar porra nenhuma! – O rosto estampado de preocupação e susto. O efeito da adrenalina que acabara há algum tempo pareceu voltar do nada.

- Calma, ele tá só brincando. – Disse Mav depois de colocar uma mão no ombro dela.

- É, eu só to brincando. Eu sempre faço piadas com as garotas amnésicas que o Mav trás pra casa. – Os dois irmãos que nada tinham em comum riram. A loira ficou em silêncio. – Qual seu nome, afinal?

- Não lembro... – O susto sumiu de seu rosto, mas restava alguma preocupação.

- Pense num logo, ou eu vou começar a te chamar de “Não Lembro”.

- Ele vai mesmo. – Mav assentiu.

- Eu-eu sei lá! – Confessou preocupada e os dois riram.

- Meu voto vai para Sarah. É um bonito nome. – Disse Rob.

- Pode ser? – Mav perguntou para ela. Pela primeira vez desde que entraram na cidade falou num tom sério.

- Não, não pode. Eu escolho meu próprio nome—não, eu vou lembrar do meu nome verdadeiro! Só preciso de tempo! – Quase sentiu-se idiota em ter aquela conversa.

- Relaxa, tome seu tempo. Não vou te chamar de “Não Lembro” por causa disso. De qualquer forma, moça, você deve estar querendo trocar de roupa. Nós temos umas femininas aqui, ganhamos em uma das trocas. Não que nós precisássemos dela, ou que eu usasse. Jamais faria isso. Quanto ao meu irmão eu não sei, ele é bem estranho.

- Eu percebi. – Fingiu um sorriso para Mav.

- Mais uma coisa: pode aproveitar que tem Sol hoje e o aquecedor esquentou a água e tomar um banho. Você ta fedendo, moça.

Eles realmente devem ser irmãos, concluiu a loira.