Vínculo Mágico
22 Eu Acredito em Você
Notas iniciais
Capítulo XXII — Eu Acredito em Você
Aquele era, sem dúvida alguma, o lugar mais lindo que vira na vida.
O céu arroxeado sempre escuro e estrelado, os planetas multicoloridos, as bolhas translúcidas flutuantes, as colunas de cristal, as estrelas que concediam ao ambiente uma luminosidade mágica. Para Lucy, o mundo espiritual era o lugar mais incrível que tinha tido a oportunidade de conhecer. E ela não estava tão certa que mesmo após a morte, poderia haver lugar mais esplêndido.
Para a maga celestial, visitar o lar de seus queridos espíritos era uma verdadeira dádiva. Entretanto, as circunstâncias, atuais não eram as melhores. Aquele poderia ser o último lugar que passaria antes de uma partida definitiva.
Apesar de todo medo que sentia, a visão de seus queridos espíritos Zodiacais — que a rodeavam em um círculo perfeito — a olhando em desespero, lhe partia o coração.
— Minha querida amiga. — Ela ouviu o Rei dos Espíritos, o qual secretamente apelidara de "Bigodão", chamar. — Você sabe que não posso lhe conceder mais que vinte e quatro horas. — Explicou. — Mesmo que eu empreste meu poder para Horologium proteger seu corpo, se antes do prazo terminar você não se unir novamente a ele no plano terrestre, sua alma inevitavelmente, partirá.
— Sim. — A loira sorriu, triste. — Eu sei. — Abaixou a cabeça.
Não era exatamente da morte que tinha medo. Pelo menos não naquele momento. A possibilidade de ter a vida interrompida tão cedo é que a deixava apavorada. Certamente, havia muitas coisas que ainda gostaria de fazer.
Às últimas 23 horas tinham sido para Lucy de pura angústia e tensão. Todos, uma hora ou outra, pensam se estão realmente aproveitando a vida, no que fazem ou deixam de fazer, se os caminhos e as opções escolhidas realmente são corretos. E era esse tipo de reflexão que ela vinha tendo nesse tempo. No fim, ela chegou a óbvia que conclusão que todos chegariam: Ainda tinha muitos sonhos para realizar.
Lucy desejava — desejava tanto que o seu interior chegava a arder — poder voltar e viver novas aventuras com o seu time. Desejava participar de mais festas e ver as confusões da Fairy Tail. Desejava aprender mais com seus Espíritos. Desejava conhecer alguém e quem sabe… Sim, definitivamente ela também gostaria de casar e ter filhos.
— Natsu. — Pensou com toda sua força, num pedido mudo de socorro. O amigo de cabelos rosas era a pessoa que mais tinha tomado seus pensamentos desde que sua consciência fora transportada para o mundo celestial. Sua simples lembrança fazia seu peito latejar mais que qualquer outra.
Podia parecer clichê, mas o fim iminente fez sim com que a vida da loira passasse diante de seus olhos. E, dos momentos que revivera mentalmente, concluiu que os melhores, sem dúvida alguma, tinham acontecido graças a intervenção de Natsu, direta ou indiretamente.
Se ela e Natsu não tivessem se esbarrado acidentalmente em Hargeon, Lucy provavelmente teria sido raptada por Bora e vendida para um maníaco sexual qualquer. Talvez, fosse cativa até os dias atuais.
Se o dragon slayer não tivesse praticamente a arrastado pelas ruas da cidade portuária, ela não teria conseguido ingressar na Fairy Tail, realizando assim um sonho de infância.
Se ele não tivesse invadido o apartamento da loira menos de vinte quatro horas após ela firmar o contrato de aluguel, talvez eles não formariam uma equipe, e posteriormente se converteriam no melhor time de todos.
Se não fosse por Natsu, ela não teria feito amigos tão maravilhosos. Sorriu com o pensamento, balançando a cabeça em negação. Na verdade, a realidade era bem maior.
Se não fosse por Natsu Dragneel, Lucy teria morrido há muito tempo.
— O tempo... — A loira foi tirada bruscamente de seu devaneio pela voz aflita do leão. — O tempo está acabando. — Completou desesperado. — O que aquele idiota pensa que está fazendo? — Perguntou, referindo-se ao jovem que tomava os pensamentos da contratante até segundos antes.
— Acalme-se Loki. — Ela pediu, sorrindo para ele de forma gentil. — Está tudo bem. — Tentou acalmá-lo. Na verdade, não estava.
— Eu o avisei que teria apenas vinte e quatro horas! — Esbravejou.
— Está tudo bem. — Lucy repetiu.
— Não está tudo bem Lucy-sama. — O Espírito de Capricórnio falou, em tom preocupado. — Combinamos todo nosso poder mágico e conseguimos te dar vinte e quatro horas. Mas não poderemos fazer nada além disso. — Lembrou.
— Sim. — Lucy continuava sorrindo brandamente. — Eu sei. — Abaixou a cabeça, se entristecendo.
Quando foi arrastada para o centro do salão de execução da Nihil Occultum, Lucy tinha plena certeza de que não escaparia viva do Projeto Heaven. Tanto que adentrou o lacrima e submergiu na espessa substância ambarina com apenas uma ideia em mente: Salvar a vida de seus amigos. E ela sabia que a única maneira ao seu alcance de realizar tal façanha, era se sacrificando.
Determinada, tão logo iniciada a construção do Portal dos Mundos, mesmo sentindo a dor excruciante de ter a magia e a força vital de seus amigos forçadas sobre seu corpo fragilizado, a maga celestial retirou a Adaga Amaldiçoada que estava oculta sob suas vestes, lançou um último olhar culpado ao dragon slayer do fogo, que estava confinado na lacrima a sua frente, e cravou a lâmina metálica no próprio ventre.
Imediatamente após sua tentativa de dar fim a própria vida, a garota sentiu a visão nublar. Sua audição, graças ao Seranium, já não funcionava, o que fez com que ela ficasse completamente desorientada por alguns segundos. A única coisa que ela tinha plena consciência era da dor aguda que sentia.
O que aconteceu entre esse momento e o momento em que ela abriu os olhos envolta nos braços mornos de Natsu, só poderia supor, pois nenhuma memória lhe ocorria.
A garota sentiu outra pontada no peito, ao lembra-se de seus últimos minutos no plano terrestre. A voz magoada de Natsu chamando seu nome machucava tanto que parecia rasgar-lhe a alma.
O olhar que ele lhe lançava era desesperador.
Natsu temia que Lucy partisse. E ela não queria partir.
O que se desenrolava em segundo plano foi totalmente ignorado pela maga celestial. Ela só conseguia se concentrar no mago do fogo. Mesmo na situação em que se encontrava, estar amparada por ele lhe transmitia tal segurança, que ela protestou quando tentou soltá-la.
Natsu foi a última pessoa que Lucy viu antes de fechar os olhos para aquele mundo.
Quando sua consciência foi restabelecida no Mundo Espiritual, Lucy encarou os espíritos zodiacais que a circulavam completamente confusa. Eles pareciam estar intensamente concentrados em algo que demandava muito esforço. Seu corpo, estava completamente descoberto, o que fez com que ela tentasse se proteger com as próprias mãos.
Desorientada, ela olhou de um para o outro, buscando uma explicação. Foi o Rei dos Espíritos que narrou o que tinha acabado de acontecer.
Lucy tinha sido resgatada do próprio corpo, segundos antes de expirar, e transportada para aquele mundo. No plano terrestre, seu corpo permanecia conservado pela magia conjunta dos doze espíritos do zodíaco, que não alterava seu aspecto, mas impedia sua decomposição.
A maga tinha sido salva pela magia contida no décimo terceiro capítulo do livro "Segredos Zodiacais": Furtum Animae.
Tal magia, só funcionaria com um mago celestial que, além de possuir as doze chaves de ouro, tivesse muita afinidade com todos os espíritos.
No caso de Lucy, a realização da magia foi um verdadeiro milagre: Ela não teve muito tempo para se relacionar com Libra e Pisces, mas eles nutriam grande consideração por ela, desde que se recusara a receber as chaves de Yukino pensando em seus sentimentos.
Assim, a execução do feitiço foi um sucesso: O grupo zodiacal tinha conseguido vinte e quatro horas a mais para a contratante. Para que ela pudesse voltar e sobreviver no próprio corpo, necessário seria que alguém do outro plano lhe invocasse, e a curasse logo em seguida, já que quando seu corpo foi congelado, estava prestes a morrer.
Assim que Lucy foi transportada, Leo conseguiu avisar Natsu rapidamente sobre o que ele deveria fazer. Infelizmente, os poucos segundos que ele tinha e o grande contingente de inimigos presentes, o impediram de explicar detalhadamente ao dragon slayer a situação, até mesmo em seus aspectos mais básicos: As vinte e quatro horas anunciadas seriam contadas no plano espiritual, e não no plano terrestre.
O que aconteceu em Earthland nas vinte e três horas que se seguiram, era um mistério para Lucy e seus espíritos. A única coisa que ela sabia é que Horologium partiu as pressas para proteger seu corpo, informações fornecidas pelo próprio Rei dos Espíritos. Desde então, o espírito do relógio vinha guardando-a no outro plano, tomando emprestado o poder do rei para manter o portal aberto.
Mesmo assim, não precisava ser muito esperta para deduzir o que ocorria no outro plano. Praticamente três meses haviam se passado lá. Provavelmente, todos deviam pensar que Lucy estava desaparecida. Na pior das possibilidades, ela teria sido dada por morta.
— Hime! — Virgo chamou, percebendo Lucy enfraquecer, tirando-a de seus pensamentos mais uma vez. — Ainda não, Hime! — Gritou.
A loira sentiu suas forças se esvaírem. Para ela, restava cerca de meia hora. Embora isso correspondesse a aproximadamente dois dias no outro mundo, a situação não se tornava menos desesperadora.
Se seu corpo estivesse perdido em Zamúria, como ela acreditava que estava, e seus amigos já estivessem de volta a Magnolia, eles consumiriam grande parte desse tempo apenas percorrendo o caminho de uma cidade a outra.
— Virgo. — A loira chamou. — Você também não parece muito legal. — Olhou-a com preocupação.
De fato, o esforço que seus espíritos faziam para manter seu corpo intacto no plano terrestre era por demais intenso. Eles estavam visivelmente sobrecarregados. Mesmo que ela se sentisse extremamente agraciada, isso doía em seu interior.
— Eu ficarei bem, Hime. — Respondeu, sorrindo.
— Sim. — Lucy concordou. — Todos ficaremos. — Assentiu, animada.
— E como pode ter tanta certeza? — Aquarius perguntou. Surpreendentemente, o grande esforço que a sereia dispensava para realizar a Furtum Animae não interferiu em seu tom desdenhoso.
A maga celestial permitiu, mais uma vez, sua mente vagar brevemente, até a uma conversa ocorrida há cerca de de um mês, na enfermaria da Arena dos Grandes jogos mágicos¹.
Ela nunca se esqueceria do momento em que abriu os olhos, o corpo completamente dolorido pela surra que levara de Minerva, deparando-se com o dragon slayer encarando-a, o semblante fixo em uma careta de preocupação.
— Yo! — Exclamou ele, a expressão desanuviando e se convertendo em um sorriso para ela. — Como se sente? — Perguntou, atencioso.
— Estou bem. — Lucy respondeu, sentando-se na cama, mesmo que seu corpo gritasse em protesto. — Sua luta é a próxima?— Perguntou, curiosa.
— Sim. — Natsu Respondeu. — E vou vencer com certeza! — Completou confiante. Lucy sorriu contagiada pelo entusiasmo dele.
— Natsu... — Chamou reticente, fazendo o mago do fogo a olhar de forma curiosa.
Ela se lembrava de que tinha algo que gostaria de dizer a ele antes que pisasse na arena, para enfrentar os dragões gêmeos. Algo que ela esperava que pudesse motivá-lo ainda mais. Algo que despertava nela a certeza de que ele nunca lhe faltaria em momento algum. Algo que lhe dava forças para crer que ele sempre venceria. Que ele sempre a salvaria.
— Eu acredito no Natsu. — Repetiu em voz alta para Aquarius, respondendo a pergunta feita anteriormente. — Eu acredito nele desde que entrei na guilda. — Completou, sorrindo bobamente, lembrando-se da face corada do dragon slayer quando direcionou essas palavras a ele.
— Sua confiança é admirável. — Admitiu a sereia, sorrindo levemente.
— Não importa o quão longe ele esteja. — Continuou Lucy, olhando para a marca rosa em sua mão direita, que se fazia presente mesmo que aquele não fosse seu corpo real. — Ele sempre vai cuidar de mim. — Finalizou, flexionando três dedos para formar um "L" com o indicador e o polegar e os estendendo para cima, fechando os olhos satisfeita.
Todos os espíritos presentes sorriram, contemplando a cena admirados e emocionados.
Naquele momento, a loira sentiu a esperança crescer em seu interior. Esperança de que, da mesma forma que Natsu foi a última pessoa que vira ao fechar os olhos no plano terrestre, também seria a primeira que veria quando os abrisse lá novamente.
Sentindo um misto de gratidão, alegria, amizade e saudade, a maga finalmente se deu conta da presença de outro sentimento que marcava presença em seu peito há algum tempo, deixando seu coração muito mais sensível e propenso a saltar e acelerar, quando o assunto era o mago do fogo.
— Lucy-san! — Taurus chamou, preocupado. O sorriso da garota se desfez quando, abrindo os olhos, percebeu a presença de uma luz azulada em torno de si.
— Mas o quê... — Falou surpresa, percebendo o brilho se intensificar e suas forças começarem a se esgotar mais rapidamente.
Lucy, bem como todos os espíritos zodiacais, arregalou os olhos, surpresa. Nenhum deles tinham familiaridade com aquela situação, o que fazia o temor se apoderar de todos.
A maga celestial não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo. A possibilidade de que tinha contado o tempo erroneamente passou por sua cabeça. Obviamente, era a primeira coisa que cogitaria.
Seus pensamentos começaram a ficar confusos, e a consciência a deixava lentamente.
— Pessoal... — Tentou verbalizar, estendendo os braços a frente. Entretanto sua língua parecia pesada demais.
— LUCY! — Muitas vozes se uniram em um único grito. Porém, a garota já não via mais nada.
— Obrigada... — Fazendo um esforço absurdo, conseguiu falar em um sussurro.
— LUCY!!! — Pôde ouvir pela última vez o clamor de seus queridos espíritos, antes que tudo escurecesse de vez.
Então aquilo era morrer?
Era tão...
Estranho.
Como se tudo tivesse deixado de existir.
Não havia nada para ver, tocar ou sentir. Mas ainda assim, ela permanecia escutando.
Ruídos estranhos sim, mas perfeitamente audíveis.
— LUCY!!!
Repentinamente, os ruídos já não pareciam tão estranhos.
— LUCY!!!
Ela conhecia aquele chamado. Já o tinha ouvido antes, em um coro de vozes mas agora... Reconhecia apenas um timbre.
— LUCY!!!
Desespero. Espera, ela estava voltando a sentir?
— LUCY!!!
Calor! Sim, aquilo era calor, mas ela nem ao menor se lembrava de estar sentindo frio. Na verdade, não se lembrava de sentir cousa alguma.
— LUCY!!!
Ela queria que os ruídos cessassem. Eles a angustiavam profundamente, de modo que ansiava, desesperadamente, por chegar em sua fonte. Mas ela já não sabia de nada. Seus pensamentos eram nulos, suas vontades eram puro instinto... seus sentimentos eram dolorosos.
Sem esboçar qualquer reação, percebeu um fio de luz cortando o breu em que estava mergulhada. Deslumbrada com o brilho repentino, percebeu que ele se expandia pouco a pouco, fazendo com que uma explosão de cores desfocadas lhe machucassem e confundissem.
— LUCY!!! — Ouviu nitidamente um grito que continha sofrimento, alívio e felicidade. Confusão ainda definia o seu psicológico mas aquela voz... Céus, que sentimentos eram aqueles? Ela precisava desesperadamente alcançá-la!
Atendendo seu pedido não formulado, as múltiplas cores que pareciam brigar em torno de si se acalmaram, aquietando-se pouco a pouco, para construir a sua frente a figura que fez toda a confusão de sua mente e toda a insegurança em seu interior se dissiparem instantaneamente.
— Natsu? — Perguntou, esforçando-se para manter os olhos abertos. A escuridão parecia querer levá-la mais uma vez.
— Lucy... — Ele respondeu fracamente, a voz falhando. A loira não tinha a mínima ideia da razão, mas o mago do fogo estava extremamente pálido e tinha o rosto completamente encharcado por lágrimas.
Ela queria estender as mãos para secá-las, mas seu corpo não lhe obedeceu. Era como se ele sua mente não estivessem completamente ligados.
Desolada, sentiu a mente nublar novamente, sobrepondo-se a vontade intensa de permanecer ali.
Ela tentou lutar, mas perdeu.
Sob o olhar fixo que Natsu lhe lançava, a maga celestial sucumbiu novamente a escuridão.
— LUCY!!!
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¹ Fatos ocorridos nos episódios 173 e 175 do anime.
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