Vínculo Mágico
10 As Últimas Chaves
Notas iniciais
Capítulo X — As Últimas Chaves
Gray se afastou do simplório bar em que passara a última hora determinado a encontrar-se com Juvia e Meldy. Desde que tinha decidido se separar delas, o mago andou furtivamente pela cidade evitando as confusões provocadas por ataques que aconteceram mais cedo. Ele tinha praticamente certeza que a Nihil Occultum estava envolvida neles. Além disso, sabia que estando sozinho, suas chances de escapar se fosse atacado novamente por um grupo não eram boas. Considerando essas possibilidades, o mago procurou por um lugar onde pudesse se abrigar provisoriamente, e quem sabe entrar em contato com a Fairy Tail.
Encontrou, na periferia de Zamúria, um bar mais que suspeito. O ambiente era lúgubre, as mesas imundas, a poeira era visível no ar mesmo com a pouca luz disponível e o cheiro de álcool estava impregnado de tal forma que ele chegou a ficar tonto apenas por respirar. E olha que era amigo de Cana. O cheiro de bebida nunca o tinha causado problemas até então.
O mago percebeu que assim que entrou, várias pessoas o encararam com desconfiança. Ignorando os olhares, caminhou até o fundo e se sentou em uma das banquetas do balcão. Pediu um copo de uma bebida qualquer e analisou o local por alguns instantes. Sabia que não estava seguro ali. Na verdade, não estaria seguro em lugar algum. Constatando isso, perguntou ao balconista, um homem de meia-idade carrancudo e mal-vestido, se havia alguma lacrima de comunicação que pudesse usar.
O funcionário o olhou indeciso por alguns instantes, mas logo em seguida disse que possuía sim uma lacrima. Porém, só o deixaria usar mediante pagamento. Gray concordou sem contestar e o balconista o guiou por uma porta lateral até um pequeno cômodo, quase todo coberto de prateleiras, que guardavam diversos tipos de bebidas e outros mantimentos. Mesmo sendo uma espécie de despensa, o pequeno ambiente era tão sujo como o anterior, senão mais. O funcionário apontou para a esfera cristalina que se encontrava em uma pequena mesa no canto e retirou-se.
Certificando-se que estava realmente sozinho e ninguém poderia ouvir a conversa, Gray finalmente tentou contatar a Fairy Tail. Como estava no início da madrugada, ele silenciosamente torceu para que aquela fosse mais uma das costumeiras noitadas que os membros mais antigos da guilda faziam. Caso contrário, teria mais dificuldade para encontrar o mestre. Por sorte, conseguiu a transmissão.
Inicialmente, quem o atendeu foi Kinana. Gray, pediu que ela chamasse o mestre com urgência, revelando que estavam com problemas. O curto tempo que a moça demorou para trazer Makarov pareceu se arrastar para o mago do gelo. Quando finalmente viu o pequeno homem pelo lacrima, meio ébrio, meio sóbrio, respirou aliviado.
Gray contou-lhe tudo que aconteceu. Desde o incidente em Datra, até o conteúdo da conversa de Erza e Jellal que escutara. Conforme narrava os acontecimentos, um vinco de preocupação ia aparecendo na testa de Makarov. Quando o Mago do gelo finalmente acabou de falar, o mestre perguntou:
– Gray, você tem alguma ideia de onde fica o local que Erza e Jellal foram levados?
– Não. — Admitiu o rapaz. — A única coisa que pude deduzir é que fica longe da cidade, pelo tempo que eles demoraram para chegar.
– Você disse que foram homens de branco que te atacaram, certo?– Indagou o mestre.
– Certo. — Gray confirmou. Percebendo que Makarov parecia saber de algo, resolveu perguntar — O mestre sabe de alguma coisa?
– Tenho quase certeza, na verdade.– Respondeu o pequeno homem. — Mandar que vocês investigassem foi um erro. — Falou. — Como não pensei que a base deles seria em um lugar tão óbvio? — Disse, para si mesmo.
– Você sabe onde eles estão? — Perguntou, animado.
– Sim, mas não vou lhe contar.– Makarov respondeu. – Você não terá condições de enfrentá-los sozinho.
– Por favor, velhote! — Gray insistiu.
– Não mudarei de opinião.– Makarov concluiu. — Se abrigue no QG das autoridades mágicas locais, mas não diga nada. Essa organização tem gente infiltrada em todo lugar. Deixa que eu cuido de tudo daqui. Se as coisas são como você contou, A Nihil Occultum deve estar no seu encalço. Vou montar um grupo e irei para Zamúria imediatamente.
– Mas…
– Gray, preste atenção!– O mestre ordenou, com firmeza. — Eles querem todos os marcados. Se você for pego, estará contribuindo para os planos deles. Enquanto estiver escondido, poderemos atrasá-los e ganhar tempo.
– Mesmo assim… — O mago do gelo ainda tentou protestar, mas a transmissão foi cortada. Irritado, o mago socou a tosca mesa de madeira que sustentava o lacrima. Com o baque, a esfera cristalina tremeu perigosamente. Antes de ir embora, Gray tentou contatar Meldy e Juvia, sem sucesso no entanto.
Rapidamente, pagou ao balconista para poder ir. Mesmo que o mestre tivesse ordenado ao mago que se abrigasse, ele não tinha a intenção de obedecer. Precisava ao menos econtrar a maga da chuva para dar a ela as mesmas oriantações que recebera de Makarov. O que ele não imaginava é que não precisaria ir muito longe para isso.
O mago do gelo não tinha andado nem sequer um quarteirão quando uma carruagem saiu do nada e bloqueou o seu caminho. Primeiramente, ele se assustou. Contudo, quando percebeu que tratava-se de uma carruagem-ambulância, se acalmou um pouco, apenas para desesperar-se novamente em seguida. Quando a porta trazeira da carruagem se abriu, um enfremeiro saiu de seu interior arrastando, sem o menor cuidado, o corpo ferido de Juvia.
Gray sentiu, imediatamente, a fúria e o desespero invadindo seu corpo. Nunca tinha visto a maga em estado tão deplorável. Tendo Juvia um corpo praticamente imune a ataques físicos, era difícil ver a maga sangrando. Entretanto, agora, seu rosto não tinha outra cor senão o escarlate que jorrava das feridas abertas em sua testa. Percebendo o estado em que o mago do gelo se encontrava, o enfermeiro sorriu vitorioso, e com apenas um braço, ergueu a maga pelos cabelos, exibindo-a como se fosse um prêmio.
– Ela nos causou alguns problemas, sabe? — Comentou, casualmente. — Eu realmente não queria fazer isso, mas sua rebeldia não me deixou escolha. — Falou, olhando a maga com falso pesar. — Ela arrancou um olho de um amigo meu.
– E VOCÊ VAI PERDER BEM MAIS DO QUE ISSO POR TÊ-LA MACHUCADO! — Gray gritou pocesso, avançando para o falso enfermeiro com um ataque preparado. Porém, um grito de dor o fez estacar. Um grito de Juvia.
– Não seja imprudente. — Alertou o enfermeiro, que tinha a mão que antes estava desocupada atrás do corpo da mulher chuva. — Seria realmente interessante lutar com você, mas recebi ordens expressas para não perder tempo. — Explicou. — Então, se você não se entregar, ela é que sofrerá as consequências. — Falou, soltando a maga que gemeu ao bater no chão. — Por ser misericordioso, estava mantendo-a inconsciente. Mas se você atacar, farei com que a dor que ela sentiu até agora pareça brincadeira perto da que sentirá daqui para frente.
Gray trincou os dentes. O ódio que ele estava sentindo pelo homem a sua frente tinha tomado proporções incalculáveis. Juvia tinha os olhos abertos, porém vagos. Parecia catatônica.
Um carro mágico estacionou atrás de Gray. O mago do gelo direcionou seu olhar ao veículo, e viu um homem pequeno e barrigudo com roupas chamativas descer. Pelo porte do recém chegado, concluiu que foi ele quem os tinha amaldiçoado. Estava tudo perdido.
– Maledicite Vincla: Activate! — O homem falou, calmamente. — A maldição está ativada. — Avisou — Você não pode usar magia sem afetar sua companheira. — Falou, se aproximando da garota que ainda estava caída no asfalto e abaixando-se ao lado dela. Juvia continuava encarando o nada.
– AFASTE-SE DELA! — Gritou o mago do gelo fora de si, avançando para o pequeno homem. Porém, o enfermeiro entrou na frente e o segurou. Gray sentiu uma onda de choque percorrer seu corpo e caiu, paralisado.
– Está curioso para saber como ela ficou nesse estado? — Perguntou o enfermeiro, abaixando-se ao lado de Gray, que estava caído de joelhos. O membro da Fairy Tail queria mandá-lo para um lugar não muito educado, mas sua voz havia sumido.
Então, a mão do suposto enfermeiro começou a emanar um brilho dourado, e logo pareceu que era feita com a própria luz. O inimigo estendeu a mão em direção a barriga de Gray, que para seu espanto adentrou seu corpo, como se não tivesse matéria. O mago do gelo sentiu uma queimação insuportável, e quando o enfermeiro retirou bruscamente sua mão, viu que ela estava suja com seu próprio sangue. Porém, nenhum corte havia no local.
– Legal, não é? — Perguntou o inimigo, mesmo sabendo que Gray não poderia responder. — Eu o feri apenas internamente. É uma técnica eficiente para assassinato. A vítima morre por hemorragia interna, sem muita sujeira. Depois, apenas a dúvida paira sobre o que gerou o problema. — Explicou. — Mas não se preocupe, eu não o feri muito. Precisamos de você vivo.
– Basta Ícaro! — Ordenou o pequeno homem.
– Sim, Kotaro-sama. — Respondeu o enfermeiro.
– Coloquem eles no carro mágico. — Kotaro mandou. — Assim chegaremos mais rápido. Já perdemos tempo demais e ainda teremos que restaurar a magia deles artificialmente.
Rapidamente Ícaro buscou mais um homem na carruagem, que algemou Gray. Em seguida, em esforço conjunto, ambos colocaram-no sentado no banco detrás do veículo mágico. Colocaram também Juvia deitada com a cabeça em seu colo.
– E a outra garota? — Perguntou Kotaro, referindo-se a Meldy, assim que fechou a porta do carro.
– Escapou. — Ícaro respondeu.
– A incompetência de vocês não para de me surpreender. — Troçou o líder. — Você só precisava capturar as duas garotas. Veja bem: capturar! Mas além de deixar uma fugir ilesa, espancou a outra quase até a morte. — Esbravejou. — Isso foi completamente desnecessário! Ambos sabemos que com seus poderes poderia tê-la mantido intacta.
– Ela já estava ferida quando a encontramos. — Ícaro tentou justificar.
– Não subestime a minha inteligência! — O líder contestou, irritado. — Sei muito bem identificar os danos que um Aprendiz que eu treinei pessoalmente pode causar. — Ícaro abaixou a cabeça.
– Heitor perdeu um olho por causa dela. — Falou, cerrando os punhos.
– Como se você se importasse. — Kotaro zombou. — Pare de usar a dor dos outros como desculpa para justificar seus instintos sádicos. Você já tem as cobaias que se tornam desnecessárias para se divertir. E se tudo der certo, nessa noite, seu desejo será realizado. Isso não basta? — Perguntou, exasperado.
– Basta, Kotaro-sama. — Respondeu, submisso.
– Ótimo! — Encerrou Kotaro. — Restaurar a magia deles de modo artificial já nos custará minutos preciosos, mas agora também teremos que usar a dragon slayer para curar o corpo deles. Consequentemente, também teremos que restaurar a magia dela.
– Mas são só alguns minutos. — Ícaro comentou.
– Alguns minutos que podem nos custar todo o plano. A essa altura é bem provável que Makarov esteja preocupado com a falta de notícias e mande alguém. Por sua culpa, perderemos um tempo valioso. — Reprimiu o líder. — Pense melhor nos seus atos antes de agir, e quando agir, use a inteligência que lhe é peculiar. — Encerrou a discussão, e entrou no banco do carona.
Ícaro caminhou até o banco do motorista e sentou-se. Kotaro e ele fariam a escolta de Gray e Juvia pessoalmente. Não podiam arriscar perder nem mais um segundo, e com Meldy solta, era bem provável que algum outro contratempo surgisse.
O carro começou a se movimentar em direção a sede. Kotaro ainda estava transtornado com a atitude de Ícaro. Ele conhecia bem seu por destrutivo, bem como sua personalidade maligna. Ícaro tinha extremo prazer no sofrimento alheio. Todavia, tinha também uma habilidade valiosa.
Por anos Kotaro conseguiu conter os instintos do Aprendiz lhe entregando os experimentos desnecessários para que se divertisse como bem entendesse antes de finalmente lhes tirar a vida. Vez ou outra, incidentes externos ocorriam. Ícaro acabava não resistindo e cometia assassinatos por diversão. Como sempre provocava as mortes por hemorragia interna, os casos nunca foram encarados como homicídio. O Aprendiz tinha tido o cuidado de cometer os crimes de forma bem espaçada e em diferentes pontos do país, de modo que não pudessem estabelecer qualquer ligação entre elas. Kotaro suspirou preocupado. Até mesmo o desejo que Ícaro pretendia realizar com o projeto era doentio.
Cada um dos Aprendizes tinha um objetivo pessoal com o Projeto Heaven. A maioria deles tinha interesse em ter de volta uma pessoa amada que partiu. Randha, por exemplo, queria trazer de volta seu noivo que morrera as vésperas do casamento. Ícaro, porém, tinha um desejo muito menos nobre, por assim dizer. Sua vontade era reviver a esposa que acabou morrendo “acidentalmente” enquanto a torturava, apenas para poder torturá-la novamente, com o cuidado de evitar uma nova morte.
Para Kotaro, esse tipo de pessoa era perigosa demais para ter ao seu lado. Lidar com Ícaro estava ficando cada vez mais complicado. Nesse ritmo, teria que se livrar dele assim que o projeto fosse concluído. O líder sabia também que Ícaro tinha plena consciência de que se tornaria descartável assim que suas ambições fossem realizadas. Certamente, tentaria contra-atacar.
Rapidamente, o carro mágico se afastava da periferia em direção a zona rural de Zamuria. Enquanto o líder da Nihil Occultum divagava, uma breve conversa se desenrolava no banco traseiro.
Gray olhava para a maga deitada sobre suas pernas, preocupado. Já tinha chamado por ela varias vezes, mas a moça apenas fitava o teto sem falar nada. Um tempo depois, seus olhos pareceram focalizar repentinamente, e a maga agitou-se.
– Hei, acalme-se! — Gray pediu, sem se importar se incomodava os outros passageiros. Ele tentou segurar Juvia, mas suas mãos algemadas não permitiram que o fizesse eficientemente.
– Gray-sama... — A mulher chuva falou com dificuldade. Ao virar o pescoço levemente para encará-lo, choramingou de dor.
– Não se mexa! — Gray pediu.
– Gray-sama. — ela repetiu, a voz embargada pelo choro. — Gray-sama foi capturado. — Falou, soluçando. Suas lágrimas perdiam-se em meio ao sangue que cobria sua face.
– Desculpa Juvia. — Ele pediu. — Meu plano foi uma droga. Você se feriu e eu não pude escapar.
– Gray-sama. — Falou mais uma vez, de modo sonolento. — Gray... — Sussurrou sua última palavra, antes de perder a consciência novamente.
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Erza e Jellal olhavam para a porta, sem entender como os amigos tinham entrado ali. Ambos estavam extremamente vermelhos, tão desconcertados que se jogariam sem titubear em qualquer buraco que surgisse em sua frente. Ao contrário deles, os recém-chegados agiam indiferentemente, com exceção de Lucy, que também estava extremamente sem graça. A ruiva estreitou os olhos em direção a loira, que estremeceu automaticamente.
– Sai da frente! — Natsu gritou, socando o mago de branco que bloqueava a passagem, fazendo com que ele voasse para dentro da sala.
Só então Erza e Jellal perceberam que o mago que eles tinham arrastado com eles tinha acordado e tentado fugir, permitindo que os outros entrassem.
– Erza! Jellal! — Chamou o dragon slayer enquanto se aproximava, extremamente animado, sem perceber a atmosfera constrangedora. — Que bom que estão bem! — Exclamou.
– É, que bom! — Jellal falou, se afastando de Titânia.
– Bom! Aham! — Disse Erza, ainda ofegante pelo beijo, tentando se recompor.
– Ah não! — Lucy exclamou, tentando se desviar dos olhares que os dois magos lhe lançavam. — Vocês também foram atingidos pela maldição! — Disse, apontando a marca no pescoço de Erza. — EU NÃO VI NADA, NADINHA! — Gritava dentro de sua mente, como se Erza pudesse ouvi-la e parar com aquele olhar assustador.
– Sim. — A maga concordou, ainda fitando-a. — PORCARIA, A LUCY VIU! EU SEI QUE ELA VIU! — Também pensava desesperada, torcendo que um olhar penetrante fosse o suficiente para apagar a memória da loira.
– A situação está ficando cada vez mais crítica. — Caprico observou. — Não podemos perder tempo. Temos que dar um jeito de sair daqui.
– Lucy, você consegue usar magia? — Erza, finalmente relaxando, perguntou surpresa. Só tinha reparando a presença do espírito celestial naquele momento.
– Quem dera. — Respondeu a maga estelar. — Caprico veio pela própria magia.
– Mais o consumo de magia é muito maior quando um espírito celestial vem a este mundo por conta própria. — Explicou o espírito. — Não poderei ajudar por muito tempo.
– Agora é uma boa hora! — Natsu gritou, alarmado, apontando a porta. Um grupo de pelo menos 10 magos mascarados estavam adentrando a sala naquele momento.
– Porcaria! — Lucy gritou, desviando-se de uma rajada vermelha lançada por um deles.
– Protejam-se! — Erza gritou, avançando contra dois inimigos e os derrubando com facilidade apenas com um golpe de espada. Provavelmente os inimigos a subestimavam por estar sem magia, mas Jellal tinha razão: Mesmo desconsiderando seu poder mágico, Erza ainda era uma excelente espadachim.
Sem muitas opções, Lucy correu para se proteger atrás de uma das redomas, já que os ataques inimigos agora atingiam lugares aleatórios. Com dificuldade, arrastou Natsu consigo, pois ele queria ficar e lutar a qualquer custo. A loira precisou agarrá-lo por trás, com todas as suas forças, mas ainda assim ele se remexia tantando se libertar. Por sorte, seus companheiros foram rápidos. Logo Caprico, Erza e Jellal derrubaram os inimigos um a um.
Demorou um pouco para que Lucy e Natsu estranhassem o fato de Jellal poder usar magia.
– Por que ele consegue usar magia mesmo com a maldição? — Natsu perguntou, no instante seguinte.
– Ele provavelmente está copiando a magia de Mystogan. — Lucy respondeu, observando Jellal derrubar o último dos inimigos com um magia emitida por um de seus cajados. — Mystogan não tinha magia no próprio corpo, lembra? — Perguntou. Natsu apenas acentiu afirmativamente.
Quando tiveram certeza que todos os inimigos haviam sido nocauteados, Natsu e Lucy levantaram-se e caminharam até os companheiros. Porém, no caminho, uma das armas protegidas nas redomas chamou a atenção da maga celestial.
– Gente, olha só! — Exclamou apontando o objeto. Todos correram até ela para ver do que se tratava.
– O que foi, Lucy? — Titânia perguntou curiosa.
– Essa adaga! — Disse, ainda indicando o objeto. — É a adaga que o livro "Objetos Lendários Amaldiçoados" fala.
– Tem certeza? — Jellal perguntou, observando o objeto mais de perto.
– Tenho. — Respondeu a maga. — O livro tinha uma gravura.
– E ela leu aquele livro pelo menos umas quinhentas vezes. — Natsu contou.
– Aparentemente Yukino deixou marcada a página que mostrava essa adaga. — Lembrou Lucy.
– Ah sim. — Erza lembrou. — Provavelmente Yukino queria que você tivesse essa faça. — Falou, caminhando até o mesmo mago que usara anteriormente para destrancar as outras redomas e o puxando até a redoma da adaga, abriu-a. Lucy pegou o objeto.
– É uma arma de nível laranja. — Jellal percebeu quando Erza pode destrancar a redoma usando o mesmo mago.
– Nível Laranja? — Indagou a Loira.
– Os setores aqui são classificados por cores. Não sei bem como funciona, mas sei que esse mago aí não é grande coisa. Então o nível laranja não deve ser muito forte. — Explicou o membro da Crime Sorcière, apontando para o mago da Nihil Occultum usado para abrir a redoma. — Será que a adaga possui mesmo uma maldição assim tão letal?
– Talvez não seja considerada um risco se eles souberem como quebrar a maldição. — Falou uma voz feminina diferente. Todos olharam em direção a ela curiosos e alarmados, e se depararam com o Espírito de Libras parado atrás deles.
– Libra! — Lucy exclamou. — O que faz aqui? — Indagou.
– Estava procurando por você Lucy Heartfilia. — Respondeu Libra.
– Por mim? — Questionou a maga.
– Sim. — Confirmou o espírito recém chegado. — Antes de partir, Yukino solicitou que eu os ajudasse, caso tivessem problemas. — Lucy piscou, emocionada.
– É, estamos com muitos problemas. — Falou Erza.
– Vocês consideram isso um problema? — Disse Libra apontando os magos derrotados pelo chão. — Problemas vocês terão quando os Aprendizes chegarem aqui.
– Aprendizes? — Jellal perguntou, se aproximando. — Quem são eles?
– Pelo que consegui descobrir, é um grupo altamente treinado em combate. São eles que virão capturar vocês, já que Kotaro se ausentou a pouco tempo e Jiro, apesar de forte, não consegue fazer nada sem as orientações do irmão.
– Nós não estamos nas melhores condições para lutar. — Jellal comentou.
– Alguns estão com condições nenhuma. — Erza completou, olhando diretamente para Natsu e Lucy.
– Não me olhe desse jeito, eu não estou nada satisfeito com a situação. — Defendeu-se Natsu. — Não posso usar magia sem colocar a vida da Lucy em risco.
– Eu não estou te censurando. — Erza justificou-se, com um olhar complacente. — Eu também não posso usar magia. Meu ataque e minha defesa estão enfraquecidos.
– Precisamos sair daqui e denunciar este lugar as autoridades. — Jellal falou. — Do jeito que estamos agora, não temos como realizar um ataque bem sucedido. — Concluiu.
– Mas Yukino nos pediu para ajudar a irmã dela. — Natsu lembrou. — Ela pode estar em perigo.
– Na verdade — Lucy interrompeu. -, embora Yukino tenha pedido ajuda, ela deixou claro que sua irmã tinha se envolvido com pessoas perigosas. — Lembrou a loira. Uma pausa incômoda se seguiu. Lucy olhou diretamente para o espírito de Libras. — Ela está cooperando com eles, não está? — Perguntou, incisiva.
– Está. — Libra respondeu, sem se alterar.
– Ela também é uma maga celestial não é? — Indagou a loira. — Foi ela que invocou Caelum?
– Sim. — O espírito da ex-sabertooth confirmou. Lucy abaixou a cabeça. — Me dói dizer isso, mas mesmo que Yukino desejasse mais que tudo a segurança da irmã, no final ela descobriu com o que ela estava envolvida. — Contou. — Eu acredito piamente que não era desejo dela que vocês perdessem a vida da mesma forma que ela perdeu. Querem um conselho? Peguem seus amigos e fujam daqui antes que seja tarde.
– Pegar nossos amigos? — Natsu perguntou, alterado. — Quem mais foi capturado?
– Apenas três magos conseguiram escapar. — Libra contou. — Kotaro já está no encalço deles. Os demais estão sendo mantidos encarcerados até a hora chegar.
– Hora de quê? — Lucy perguntou. — O que você descobriu?
– A história é longa e vocês não tem muito tempo. — O espírito alertou.
– Por favor. — Lucy insistiu. — Se vamos lutar ou mesmo tentar escapar, temos que saber com o que estamos lidando.
– Conte-nos tudo que descobriu. — Jellal pediu. Libra suspirou contrariada.
– Se é o que vocês desejam. — Falou, concordando a contragosto. — Antes de morrer, Yukino deixou bem claro para Pisces e para mim que gostaria que suas chaves de ouro ficassem com Lucy Heartfilia. Ela estava desconfiada que sua irmã, Sorano, estivesse envolvida em algo perigoso. Temendo que o pior acontecesse, ela enviou uma carta para você — Apontou para Lucy — e me pediu que os ajudassem caso precisassem.
– Nós precisamos muito. — Erza admitiu.
– Eu não tenho certeza do quanto Yukino descobriu, mas sei que foi o suficiente para que a considerassem uma ameaça. — Continuou Libra. — A Nihil Occultum estava determinada e eliminá-la, mas não esperavam que Sorano fosse interferir. Kotaro já havia amaldiçoado as duas com a Maledicite Vincla, como garantia de que elas não o trairiam. Entretanto, elas desconheciam os oefeitos da maldoção. Quando Sorano tentou defender Yukino, usou magia, ocasionando sua morte. — Todos se entreolharam, apiedados.
– Então esse é o nome do feitiço que gera esta marca. — Lucy constatou, apontando o próprio pescoço.
– Sim. — Libra confirmou. — A Maledicite Vincla, nome da maldição que gera essa marca, foi um dos inúmeros feitiços descobertos pela Nihil Occultum. — Contou. — Trata-se de um vínculo criado por meio de uma ligação sanguínea com a família de quem conjura a magia e os dois amaldiçoados. Essa maldição foi criada pelos Fahrians, uma extinta civilização, para garantir que os amaldiçoados, geralmente servos e escravos mágicos ou até mesmo soldados, não fugissem, impedindo-os de usar magia e protegendo o conjurador, pois assassinato dele ou de um familiar pelas mãos dos amaldiçoados também ocasiona a morte de quem recebeu a maldição. — Explicou, didaticamente — Por ser uma magia sanguínea, qualquer um dos familiares do conjurador pode ativar a marca. Além disso, no caso de morte natural do conjurador, enquanto um de seus familiares parmanecer vivo, a magia perpetua.
Todos piscaram tentando assimilar a extensa explicação do espírito estelar.
– Resumindo: Não podemos usar nossa magia enquanto estivermos com a marca. — Natsu falou.
– Exato. — Libra assentiu.
– E nem matar Jiro ou Kotaro. — Jellal concluiu.
– Aham. — Confirmou o espírito.
– E se fugirmos? — Lucy quis saber. — Você disse que essa civilização usava a magia para impedir a fuga de seus servos.
– Pelo que entendi, os conjuradores conseguem sentir a localização dos fugitivos. — Respondeu o espírito, com a mão no queixo. — Kotaro não saiu para capturar seus amigos no escuro. Ele sabe exatamente a localização deles.
– Isso quer dizer que o tal de Jiro sabe a nossa. — Erza concluiu. — Como se não bastasse o lugar ser monitorado por câmeras! — Reclamou, revoltada.
– Então mesmo que a gente fuja, eles virão em nosso encalço. — Natsu comentou.
– Se ao menos pudéssemos usar uma lacrima de comunicação. — Lucy choramingou. — Eles poderiam tentar nos rastrear e enviar ajuda.
– Os únicos que podem usar lacrimas de comunicação na sede são Kotaro, Jiro e os Aprendizes. — Disse Libra. — Todos eles possuem lacrimas portáteis, e o gabinete de Kotaro possui uma lacrima de comunicação gigante.
– Então vamos aproveitar que ele não está e entramos lá para pedir ajudal. — Lucy sugeriu.
– Você não entendeu ainda o risco que estão correndo? — Libra cortou, nervosa. — Saiam daqui enquanto podem! — Disse.
– Eu agradeço a sua preocupação Libra. — Lucy sorriu, serenamente. — Mas eu não posso abandonar meus amigos e meus espíritos nesse lugar. — O espírito de Libras arregalou os olhos, chocada.
– Sendo assim, não podemos deixar Lucy sozinha. — Natsu acrescentou. Todos assentiram.
– Yukino me falou sobre o amor dos membros da Fairy tail por seus companheiros. — Libra falou, sorrindo. — E do amor de Lucy Heartfilia por seus espíritos.
– Não são só meus espíritos. — A loira corrigiu. — São meus amigos, acima de tudo.
– Entendo. — Falou o espírito de Yukino. — Creio que não poderei persuadi-los. — Todos balançaram a cabeça negativamente.
– Mas você ainda pode nos ajudar. — Pediu Lucy.
– No que eu puder ser útil, contem comigo. — Libra se ofereceu.
– Nesse caso, poderia começar nos contando o que souber sobre os planos da Nihil Occultum. — Começou a maga celestial. — Talvez também possa esclarecer qual a relação do Livro "Segredos Zodiacais" com o plano, e porque apenas eu consigo ler a capa.
– Lucy-sama… — Caprico, que até então menteve-se calado, se manifestou. — Pela sua segurança, é melhor que não saiba nada relacionado a esse livro. — Alertou.
– O Velho Crux me disse a mesma coisa! — A loira exaltou-se. — Céus, vocês estão me assustando!
– É expressamente proibido que os Espíritos Celestiais revelem qualquer informação relacionada a este livro aos humanos. — Libra revelou. — A menos que este humano seja um mago celestial dono das doze chaves do zodíaco ou alguém dade sua confiança.
– Mas eu possuo dez! — Tentou Lucy. — Não posso ter acesso a nenhuma informação? Nenhumazinha?
– Perdão Lucy-sama. — Caprico pediu.
– Nós só podemos lhe passar essas informações se você fizer o contrato. — Libra afirmou. — Mas por favor, não faça agora! Isso só ajudará Kotaro em seus planos.
– Então nos diga que planos são esses. — Erza interferiu.
– Não posso dizer. — Libra disse.
– Por que não? — Irritou-se Natsu.
– Por que eles estão completamente relacionados com o livro "Segredos Zodiacais". — Libra contou.
– Assim nós ficamos em um beco sem saída. — Reclamou Lucy. — Como poderemos nos defender se nem ao menos sabemos o que eles pretendem? — Um silêncio desagradável se seguiu. — Libra, onde estão as chaves de Yukino? — Perguntou a loira.
– Libra, não! — Caprico pediu. Mesmo assim, o espírito da falecida maga celestial enfiou as mãos no decote e retirou sua chave dourada.
– A outra está com o próprio Pisces. — Disse para a loira.
– Certo. Faremos o contrato. — Lucy decidiu.
– Lucy-sama, não se envolva com isso! — Caprico insistiu.
– Caprico, por favor! — Lucy implorou. — Eu fico muitíssimo grata pela sua preocupação, mas o que está em jogo é a vida dos meus amigos.
– Mas você precisa invocar Pisces para fazer o contrato. — Lembrou o Espírito de Capricórnio. — E você não pode usar magia.
– Libra pode chamá-lo para mim. — Lucy rebateu.
– Você precisa de papel para fazer o contrato. — Insistiu Caprico.
– Faremos um contrato verbal. — Atalhou, decidida. — Testemunhas não faltam aqui. — Apontou para seus amigos. Caprico suspirou, resignado.
– Você está realmente certa disso? — Libra insistiu. — Kotaro sabia que você viria atrás das chaves de Yukino. Ele está contando que você faça o contrato.
– Eu sei. — Lucy respondeu. — Mas sinto que é assim que deve ser. — Disse. — Só tirem uma dúvida minha antes. Algo impede que o contrato com os espíritos celestiais seja desfeito depois que eu tiver acesso a essa informação? — Perguntou, com um sorriso travesso. Caprico e Libra se entreolharam, sorrindo levemente ao entender os planos da maga.
– Não. — Responderam satisfeitos.
– Ok. — Lucy disse por fim. — Libra, você pode por favor pedir que Pisces venha até aqui? — Pediu.
– Claro. — Disse o espírito das escalas, antes de sumir em uma névoa branca. Cerca de dois minutos depois, o espírito reapareceu acompanhado do espírito De peixes em sua forma humanoide.
– Chamou? — Mãe e filho, que constituíam o espírito Pisces, perguntaram gentilmente, em uníssono.
– Sim. — Disse a loira. Então, ela respirou fundo e soltou o ar vagarosamente antes de prosseguir. — Eu quero fazer o contrato.
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