Vínculo Mágico
11 Segredos Zodiacais
Notas iniciais
Capítulo XI — Segredos Zodiacais
Lucy olhou para os três espíritos parados a sua frente. Tinha acabado de fazer o contrato com Libra e Pisces. Agora era oficialmente portadora das doze chaves de ouro. Proprietária de todos os portões do zodíaco. Mesmo que de um modo meio avesso e inesperado, ela havia realizado uma de suas antigas ambições.
A maga celestial perdeu a conta do número de vezes que sonhara com esse momento em sua infância. Sempre que imaginava seu futuro, via-se como uma maga poderosa, que possuía contrato com todos os espíritos zodiacais. Ela tinha certeza que se possuísse os doze espíritos, seria famosa. Mas com sua mãe, Layla Heartfilia, Lucy aprendeu que os espíritos celestiais eram mais que objetos. Eles também tinham vida, sensações e sentimentos. Eles mereciam respeito.
Com essa mentalidade a garota pouco a pouco construiu um vinculo fortíssimo com cada um dos espíritos que se unira em sua caminhada. Embora ainda tivesse o desejo latente de um dia ser dona de todas as chaves de ouro, compreendeu que a opinião dos espíritos celestiais merecia ser levada em consideração. Tando que tivera a oportunidade, alguns meses atrás, de juntar os Espíritos de Libras e Peixes a sua coleção.
Após perder a luta para Kagura nos Grandes Jogos Mágicos, Yukino Aguria procurou por Lucy no hotel onde o time A da Fairy Tail estava hospedado, e lhe ofereceu as duas chaves restantes.
Lucy viu diante de si a chance de realizar um velho sonho. Contudo, recusou. Ela sabia que assim como ela possuia um amor inestimável por seus espíritos, Yukino também devia possuir. Sabia também que Libra e Pisces, provavelmente, sentiriam falta da dona. Ao ver a reação da ex-Sabertooth quando recusou a oferta, sentiu que havia feito a coisa certa. E a frase que Yukino dissera antes de deixar a pousada tinha rondado sua mente por um bom tempo: “Eventualmente, quando for a hora certa, tenho certeza que você vai ter todas as doze chaves.” Se era certa, Lucy não saberia dizer. O fato, é que a hora havia chegado.
Parada ali, em uma das inúmeras salas da Base da Nihil Occultum, Lucy sabia que não havia momento mais inapropriado para fazer questionamentos aos seus espíritos. Certamente, em breve seriam abordados pelo inimigo. Porém, ela também sabia que com o nível de informações que possuiam, tinham poucas ou nenhuma chance de escapar. Estavam defasados, com o poder mágico prejudicado e presos em um lugar que não tinham a menor ideia de onde ficava. Assim, estava decidida a colher todo e qualquer tipo de informação que pudesse.
A garota se surpreendeu levemente quando Caprico e Pisces desapareceram em meio a sua característica névoa branca. Confusa, encarou Libra e perguntou:
– O que está acontecendo?
– Você quer saber sobre o livro “Segredos Zodiacais”, certo? — Perguntou de volta o espírito das escalas. Lucy apenas assentiu concordando. — Nesse caso, chamaremos o espírito certo para lhe contar. — Disse, antes de também desaparecer.
A maga celestial encarou o vazio que agora era o local onde os três espíritos estavam parados anteriormente. Os demais membros da Fairy Tail apenas observavam tudo, curiosos. Menos de um minuto depois, um brilho dourado invadiu o local, ofuscando a vista de todos. Quando puderam focalizar novamente, depararam-se com o Espírito de Leão, ocupando o lugar que Libra estava momentos antes.
– Loke! — Exclamou a contratante.
– Seu príncipe chegou. — Brincou o espírito.
– Isso não é hora. — A loira respondeu, sorrindo constrangida.
– Ok, ok. — Concordou o Espírito de Leão, falsamente magoado. — Tudo bem, pessoal? — Perguntou aos demais presentes.
– Não muito, Loke. — Erza respondeu calmamente. Os demais, com exceção de Jellal, apenas assentiram.
– Lucy, eu vim até aqui com uma missão não muito agradável. — Começou o espírito celestial, voltando a sua atenção para a dona. — O velho Crux já havia me dito que você estava de posse do livro “Segredos Zodiacais”. Como saiu em missão para encontrar as duas chaves de Yukino, imaginei que esse momento chegaria. Antes, porém, devo lhe alertar pela última vez do perigo de obter essas informações. — Avisou. — Depois de ouvir o que tenho a dizer, não posso garantir que poderá levar uma vida tranquila.
– Loke — Lucy chamou -, se eu não obtiver essas informações, talvez amanhã nem ao menos tenha uma vida para ser tranquila ou agitada. Disso depende a minha sobrevivência e a dos meus amigos.
– Você não vai mesmo desistir? — Insistiu o Espírito.
– Como membro da Fairy Tail, você entende a minha situação. — Justificou-se a loira.
– Entendo. — Leo concordou, por fim. — Justamente por isso me adiantei aos seus movimentos, e tive uma conversa com o Rei dos Espíritos. — Contou. — Considerando a situação em que se encontram, e também que dois dos presentes além de você já visitaram o mundo espiritual, o Rei permitiu que eu respondesse suas perguntas na presença de seus amigos. Isso, é claro, se você também conceder a permissão.
– Concedo. — A garota respondeu, rapidamente.
– Certo. — O espírito sorriu. — Lucy Heartfilia, como líder dos doze portões do zodíaco, eu recebi a missão de lhe revelar a história por trás do livro “Segredos Zodiacais”. — Falou em tom estranhamente formal. Lucy segurou o riso. — Vai, vai, pode rir. Eu só estou cumprindo a droga do protocolo.
– Desculpa. — A moça pediu. — Pode continuar.
– Ok. — Disse o espírito, e depois pigarreou. — Onde eu estava? — Perguntou, e todos os presentes rolaram os olhos para cima. — Ah sim, revelar a história por trás do livro “Segredos Zodiacais”.
– Nós não temos a noite toda, sabe? — Natsu cortou, irritado.
– Então não interrompa! — Ralhou Erza, dando um sopapo no amigo.
– Aye! — O dragon slayer respondeu, com lágrimas nos olhos e um enorme galo na cabeça.
– Conte tudo de uma vez Loke! — Lucy pediu. — Ou melhor, pode resumir para a parte que realmente vai nos ajudar. Nosso tempo é limitado. Depois espero que tenhamos tempo para sanar todas as minhas dúvidas, que são muitas.
– Tá. — Respondeu o espírito. — Para começar, devo dizer que você é a sétima maga celestial a ser proprietária das doze chaves de ouro.
“Isso mesmo. Desde o início dos tempos, apenas seis magos celestiais foram proprietários de todos os portões do zodíaco simultâneamente. Sete agora. E, para falar a verdade, nos últimos quatrocentos e cinquenta anos, mais ou menos, nenhum mago conseguiu realizar essa proeza novamente.
Nos tempos antigos, o mundo era menor e a população concentrada. Então não era realmente difícil reunir as chaves. Porém, com o avanço das pessoas para novos continentes, as chaves, consequentemente, se espalharam. Por vezes, algumas ficavam anos, ou até décadas perdidas.
No início, não haviam muitos magos celestiais. E os magos que conseguiam ter acesso a qualquer das chaves, ganhava o direito de conhecer novas magias, que mantínhamos ocultas dos demais magos.
Cada espírito era guardião de uma magia. Então, a pessoa só poderia ter acesso a determinada magia se possuísse o espírito correspondente. Além disso, mesmo que cada espírito guardasse uma magia, muitas delas tinham requisitos especiais, como ter contrato com outras chaves zodiacais. Com o tempo, esse poder subiu a cabeça dos magos celestiais, que começaram a cometer atrocidades para obter todas as chaves de ouro a qualquer custo.
Fartos dessa situação, nós espíritos do zodíaco resolvemos abafar todos os boatos sobre as magias especiais permitidas apenas aos contratantes do zodíaco, e decidimos escrevê-las em um livro, uma em cada capítulo. Assim, casa espírito permaneceu guardião de um capítulo do livro, seguindo a ordem das constelações zodiacais.”
– Treze? — Lucy interrompeu, confusa. — Mas vocês são doze.
– Tem certeza? — Leo olhou para a maga, significativamente.
– Ophiuchus! — Lucy exclamou, lembrando-se. — A décima terceira chave. Há uma lenda que diz que ela tem o poder de destruir o mundo.
– Você sabe por que ela ganhou essa alcunha? — Leo perguntou, retoricamente. Lucy meneou a cabeça de forma negativa. — Quando decidimos esconder todas as magias especiais em um livro, combinamos que a partir daquele momento apenas os magos celestiais que possuíssem as chaves de ouro poderiam lê-lo.
“Se pensarmos bem, nós apenas dificultamos o acesso a essas magias. Combinamos de não falar mais sobre elas aos nossos mestres, e nunca citar ou revelar o conteúdo ou modo de ler o livro Segredos Zodiacais, a menos que fosse a um proprietário de todo o zodíaco. Entretanto, não os impediríamos de procurar por conta própria.
Diversos magos celestiais que tiveram acesso ao livro passaram a vida tentando descobrir a forma correta de o ler. Poucos tiveram sucesso. Na verdade, o segredo não poderia ser mais simples: Apenas magos com contrato com pelo menos um de nós poderia ler o título. Para ler os capítulos, entretanto, era necessário que o livro fosse aberto quando estivéssemos neste mundo. Mesmo assim, o mago só poderá ler o capítulo correspondente ao espírito que invocasse.”
– Mas é claro! — Lucy exclamou, animada. — É por isso que pude ver letras quando o livro saiu voando por Taurus ter atacado Kotaro.
– Exatamente. — Leo concordou.
“Embora esse acordo estivesse mantendo a paz entre os magos celestiais, nem todos os espíritos zodiacais estavam satisfeitos com a situação. Ophiuchus, o serpentário, vinha secretamente alimentando a ambição de tomar o mundo celestial para si. Com o tempo, também decidiu comandar o mundo humano. Para isso, quebrou o acordo que fizemos de não falar sobre as magias ocultas, e revelou ao seu proprietário o feitiço contido no nono capítulo, que ele protegia: O Portal dos Mundos.
Segundo o que Ophiuchus contou a seu mestre, o portal dos mundos seria uma magia capaz de permitir a um humano forçar a entrada no mundo espiritual. E ele disse mais do que isso. Disse que se um humano conseguisse expandir o portal através do mundo celestial, seria capaz de atingir o mundo dos mortos.
Depois disso, uma carnificina iniciou-se. O mago proprietário de Ophiuchus era um louco obstinado com a ressurreição dos mortos há décadas. A fim de conseguir realizar o feitiço, assassinou os outros proprietários das chaves de ouro, tornando-se o quinto contratante de todo o zodíaco, já que esse era o requisito exigido pela magia.”
– Mas isso é posível? — Lucy perguntou, incrédula. — Digo, a ressurreição dos mortos? — Todos os presentes encaravam Loke boquiabertos.
– Sinceramente? Não sei. — Respondeu o espírito. — A minha crença é que os mortos não voltam. De fato o quinto proprietário conseguiu ter acesso a um mundo além do celestial. Mas a única coisa que ele conseguiu com isso foi perder a própria vida no processo. Isso sem contar os sacrifícios inúteis que ele fez pensando que o ajudaria.
“Vários magos e escritores daquela época que chegaram a conhecer esta história a escreveram. Nos procuramos a maior parte dos escritos e os destruímos. Mas tínhamos certeza de que alguns haviam escapado.
Como punição por ter traído o acordo, O Rei dos Espíritos excluiu Ophiucus das constelações oficiais do zodíaco. Desde então, passamos a a ser tratados apenas por doze. Isso influenciou grandemente o mundo humano. Até hoje poucas pessoas sabem da existência de uma décima terceira constelação zodiacal. Ophiuchus, lentamente foi sendo esquecido. E jurou vingança por isso.
O Rei Celestial entendeu que o capítulo que o Serpentário guardava era o mais perigoso, portanto merecia maior proteção. Então, ordenou que o nono capítulo passasse a ser guardado por todos os espíritos zodiacais restantes, fazendo com que apenas quem possuísse as doze chaves pudesse tomar conhecimento sobre o Portal dos Mundos.”
– Libra disse que se eu me tornasse proprietária das doze chaves, apenas ajudaria Kotaro em seus planos. — Lucy lembrou. — Isso quer dizer que é isso que eles pretendem? Abrir o Portal dos Mundos? — Perguntou horrorizada.
– Sinto muito Lucy. Meu conhecimento se limita ao histórico. — Leo esclareceu. — Não tenho ciência dos planos da Nihil Occultum. — Falou, desaparecendo.
– HEI, VOLTA! — Lucy gritou. — Vocês continuam com essa mania irritante de sumir repentinamente. — Lamentou.
– Eu continuarei fornecendo as informações, Heartfilia-sama. — Libra disse, reaparecendo. — Leo não poderia esclarecer esses pontos. Afinal, fui eu quem investigou a Nihil Occultum.
– Entendi. — A maga celestial falou. — Nesse caso, você pode me dizer se o Portal dos Mundos tem ligação com os planos da Nihil Occultum? — Perguntou.
– Na verdade, o Portal dos Mundos é o plano em si. — Lucy engoliu em seco. — Não sei precisar o tempo exato a que Kotaro e Jiro se dedicam a encontrar uma maneira de trazer os mortos de volta a vida. Pelo que entendi, eles dão sequência a um projeto iniciado pela mãe deles. Aqui na Nihil Occultum eles o chamam de Projeto Heaven.
"De acordo com o que descobri, a mãe deles era a melhor cientista daqui, e perdeu o marido ainda durante a gestação. Desde então e até o fim de sua vida, começou a pesquisar maneiras de ressuscitar os mortos, passando essa obstinação a seus filhos.
Kotaro e Jiro gastaram anos da vida deles apenas pesquisando maneiras de realizar o Projeto Heaven. Em determinado momento, acharam os registros perdidos da época do quinto proprietário zodiacal, e começaram a trabalhar para a construção do Portal dos Mundos."
– Excluindo a mim, que sou a atual proprietária dos doze portões, qual a relação dos meus amigos com esse projeto? — Questionou a maga estelar, temerosa. Libra pensou um pouco. Ela parecia escolher suas próximas palavras com cautela.
– Eles pretendem usar sua magia para abrir o portal para o mundo espiritual, e seu corpo para expandi-lo até o mundo dos mortos. — Revelou. Lucy já imaginava que a resposta seria algo do tipo.
– Em outras palavras, um sacrifício. — Constatou.
– Não exatamente. — Discordou Libra. — O fato é que sua morte está prevista na execução do projeto. Na verdade — Pensou um pouco, escolhendo palavras melhores. — Acredito que eles precisem de uma alma que abra o caminho até o mundo dos mortos. Como seu corpo seria perdido no processo, convertendo-se no portal, você não poderá retornar. — Concluiu.
– Mas e os meus amigos? — Insistiu Lucy.
– Sua magia basta para forçar a abertura do portal. Todavia, eles precisam de um poder mágico razoável para que ele permaneça aberto. — O espírito explicou. — Eles pretendem drenar toda magia de seus amigos, concentrando-a em seu corpo, para a construção do portal. Juntamente com a magia deles, a energia vital será sugada. Eles acreditam que com a força de suas vidas e com suas almas, consigam sustentar o caminho do mundo dos mortos até aqui.
Lucy sentiu o coração pesar. Por causa da morte de Yukino, sabia que só podia esperar o pior para si da parte da Nihil Occultum. Mas saber que a vida de seus amigos também seria usada fez com que o medo e o pavor tomassem conta de todo seu corpo, fazendo-a fraquejar por um instante.
– Tudo bem, Lucy. — Natsu praticamente brotou atrás dela e colocou as mãos em seus ombros, transmitindo segurança. Lucy respirou, um pouco mais tranquila.
– Você acredita no sucesso desse projeto? — Indagou a loira, num fiapo de voz.
– Sinceramente? Não sei. — Libra respondeu. — Mas sei que a possibilidade de dar errado são muito maiores. Dos magos celestiais que tentaram a construção do portal, nenhum obteve sucesso. Mas Kotaro está confiante, pois não conta apenas com a magia. Ele está usando toda a tecnologia atual a seu favor.
– Então no fim das contas, essa marca não tem muita relação com os planos da Nihil Occultum. — Jellal concluiu, intrometendo-se.
– A Maledicite Vincla foi usada principalmente como isca, e também para impedir que vocês se rebelassem ou fugissem usando suas magias. Afinal, eles precisam de vocês com seu poder mágico completamente carregado.
– E esta adaga? — A maga celestial perguntou, lembrando-se. — Acredito que Yukino tenha indicado secretamente o nome de outro livro, o "Objetos Lendários Amaldiçoados" na carta que me mandou. — disse, mostrando o objeto que vinha segurando em suas mãos. — E quando encontrei o livro, ele estava marcado na página que falava sobre ela.
– Sinto muito. — O espírito desculpou-se. — Não me lembro de ter ouvido de Yukino nada sobre a adaga ou mesmo sobre esse outro livro.
– Ah sim... — Lucy murchou, desanimada, fitando o objeto.
– Então talvez o que ela tenha deixado para Lucy seja o artigo. — Jellal lembrou.
– Artigo? — Libra perguntou, curiosa.
– Sim. A página estava marcada com algumas anotações sobre o Seranium. — A loira contou.
– Bem, eu sei que por ser uma substância condutora de magia, o Seranium será usado no projeto para drenagem de poder mágico. — Falou para Lucy.
– Faz sentido. — A maga celestial respondeu, preocupada.
– Isso me faz lembrar — Natsu falou — que Yukino me mandou isso junto com a carta em que pediu socorro. — Disse, tirando o isqueiro prateado do bolso e mostrando ao espírito. — Você sabe me dizer o porquê?
– Ela não mencionou nada na carta sobre o isqueiro? — O espírito das escalas perguntou, confuso.
– Sim. Mas não foi muito precisa. — O Dragon Slayer contou, lembrando-se das palavras que lhe causaram arrepios. — "Talvez seja útil em um momento de desespero." Ela disse algo do tipo.
– Eu sinceramente não sei dizer a intenção de Yukino ao lhe enviar o isqueiro. — Libra falou para o mago do fogo. — Tampouco posso afirmar se você ter encontrado uma referência a adaga no apartamento de Yukino foi ou não coincidência. — Direcionou-se a Lucy. — Mas, vindo dela acredito que não seja. — Completou. — Meu conselho é que a mantenham esses objetos com vocês. Se são peças de um quebra-cabeça, hora ou outra farão sentido.
– Foi o conselho que o mestre nos deu. — Lembrou Natsu.
– Se não há mais esclarecimentos, você sabe dizer onde nossos amigos estão? — Erza mudou de assunto.
– Não sei ao certo. — O Espírito das Escalas admitiu. — Mas é certeza que os membros marcados devem estar em uma das salas do setor vermelho. Quanto aos gatos, acredito que eles estejam aqui mesmo nesse setor. O setor laranja também abrange os experimentos animais.
– Vermelho? Laranja? — Questionou Natsu. — Esses setores multicoloridos estão confundindo a minha cabeça.
– Sobre esses setores — Começou Jellal -, pode nos explicar melhor como funciona esse sistema de classificação?
– Os departamentos da Nihil Occultum, são divididos em cinco níveis, classificados por cores, dependendo da sua importância e periculosidade. São elas verde, amarelo, laranja, vermelho e preto, sendo verde o nível mais baixo e preto o nível mais alto. — O espírito explicou. — Da mesma forma, cada membro da seita recebe uma marca de determinada cor. O membro que recebe uma marca verde só tem livre acesso aos setores verdes, mas os membros de nível amarelo tem acesso as áreas amarelas e verdes, e assim sucessivamente.
– Entendi. — Jellal falou, admirado. — Isso quer dizer que apenas um mago com uma marca negra tem acesso a todos os lugares. — Completou.
– E apenas Kotaro e Jiro tem marcas negras. — Libra revelou. — Logo abaixo deles vem os Aprendizes e os demais membros de confiança, que possuem marcas vermelhas. Para resgatar seus amigos, vocês precisam do acesso de algum deles.
– O que quer dizer que teremos que enfrentá-los. — Constatou Erza. — Mas se eles são tão fortes como você diz, isso será um problema.
– Talvez não seja necessário que os enfrentemos. — Disse Lucy, parecendo lembrar de alguma coisa. — Mas precisaremos chegar próximo o bastante para que Gemini possa copiar um deles. — Emendou. Todos a olharam admirados.
– Lucy, você é um gênio! — Comemorou Erza. — Essa é a nossa melhor chance de escapar.
– Talvez com o nível de acesso de um Aprendiz, possamos sair daqui. — Cogitou Jellal.
– O problema é que não posso invocar Gemini. — Lembrou a loira. — Você poderia chamá-lo, por favor? — Perguntou a Libra, que assentiu positivamente.
– Se já temos um plano, temos que ir depressa então. — Natsu falou. — É melhor que os encontremos antes que eles nos encontrem.
– Certo. — Os outros responderam em uníssono.
Entendendo a deixa, Libra desapareceu, voltando cerca de um minuto depois acompanhada de Gemini.
– Tcham! Gemini está aqui! — O espírito exlamou animado, sob a forma de sua mestra usando apenas uma toalha.
– POR QUE VOCÊS ESTÃO NESSA FORMA DE NOVO? — A contratante gritou, corando dos pés a cabeça.
– Porque quando aparecemos vestidos assim causamos um impacto muito maior! — O espírito respondeu, animado. — Veja! — Falaram apontando Jellal, que parecia um tanto desconcertado. Erza, por sua vez, encarava Lucy mortiferamente.
– Voltem para suas formas originais, por favor! — A loira pediu, temendo por sua vida. Gemini acatou com um muxoxo resignado. Respirando para se acalmar, Lucy voltou a falar — Vocês poderiam, por favor, copiar um desses caras? — Apontou os magos derrotados no chão.
– Sim, sim. — Responderam em seu característico tom agudo e irritante as duas criaturas mínimas que cossistiam no Espírito de Gemini. — Mas qual deles? — Os magos se entreolharam, na dúvida. Logo, verificaram um por um todos os magos desmaiados, para ter certeza do nível que tinham acesso. Acabaram por descobrir que todos eram de nível laranja.
– O nível de acesso deles é igual. — A maga celestial comentou. — Então escolham o que tem maior poder mágico que vocês conseguem copiar.
– Entendido! — Responderam em uníssono. Em seguida transformaram-se em um dos mascarados.
– Err… — Natsu começou, confuso. — Em qual deles vocês se transformaram? — Perguntou.
– Isso faz diferença? — Atalhou Erza.
– Claro que faz! — Ofendeu-se o dragon slayer. — Eles copiaram um cara de máscara. Como saberemos se fizeram certo?
– TCHARAM! — O espírito exclamou, mostrando a marca laranja em sua mão esquerda e retirando a própria máscara, exibindo o rosto de um homem aparentemente jovem, de cabelos negros e feições comuns.
– Não subestime Gemini, Natsu! — Lucy falou, convencida. — Eles não precisam ver a face de uma pessoa para copiá-las. Afinal, eles podem copiar o corpo de uma pessoa perfeitamente, mesmo que elas estejam inteiramente vestidas.
– Tem razão. — Confirmou o mago do fogo, com o dedo indicador encostado nos lábios, como se estivesse recordando-se de algo. — Os seios deles realmente ficam idênticos aos seus quando te copiam. — Comentou, inocentemente. A loira, que ainda se recuperava da repentina aparição dos espíritos em sua forma seminua, corou novamente de forma inacreditável.
– COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE DIZER ALGO ASSIM? — Gritou, acertando-lhe um tapa.
– E O QUE EU DISSE DE MAIS? — Natsu berrou, revoltado. Era o segundo tapa que levava apenas dentro daquela sala. Somando com os outros tombos que levara durante o dia, era mais do que suficiente para fazer com que sua cabeça ficasse no mínimo dolorida. — Eles são mesmo! — Insistiu.
– PARE DE FALAR COISAS DO TIPO! — Lucy continuou gritando. — É POR ISSO QUE AS PESSOAS NÃO PARAM DE TER IDEIAS ERRADAS SOBRE NÓS!
– E EU TENHO CULPA SE VOCÊ NÃO PARA DE APARECER PELADA NA MINHA FRENTE? — Perguntou o dragon slayer. Todos os demais presentes acompanhavam a discussão estupefatos.
– Eu não fico aparecendo pelada na sua frente! — A loira tentou consertar a situação.
– Como não? Quer que eu numere as vezes em que isso aconteceu? — Desafiou.
– NÃO! NADA DE NUMERAR! — A maga celestial cortou, desesperada.
– Teve aquela vez na capital, durante... — O dragon slayer começou a examinar a própria memória, sendo bruscamente interrompido.
– CHEGA! — Erza interviu, mais assustadora que nunca. Natsu e Lucy se abraçaram, tremendo amedrontados.
– Aye! — Responderam juntos.
– Ninguém aqui quer saber da vida íntima de vocês! — Ralhou Titânia, irritada. Entretanto, a verdade era que ela estava profundamente satisfeita por ter achado uma ótima maneira de manter Lucy calada sobre seu beijo com Jellal. Com certeza chantagearia a loira na primeira oportunidade. — Pelo menos não agora. — Completou. — Precisamos seguir em frente.
– Certo. — Lucy concordou, recompondo-se. — Então nós sairemos daqui para procurar nossos amigos.
– Eu sei onde eles estão! — Gemini gritou. — Ou melhor, esse cara sabe. — Disse, apontando pra si mesmo. — Então eu também sei!
– Que ótimo Gemini! — Lucy exclamou, só então lembrando-se que o espírito também obtinha as memórias das pessoas que copiava.
– A maioria membros da Fairy Tail estão confinados na sala sete do setor vermelho. — Disse. — A Aprendiz que está vigiando eles se chama Randha. Não sei exatamente o que ela faz, mas sei que é bem forte. — Explicou. — E os gatinhos estão na sala treze deste setor. Aparentemente sem vigilância.
– A maioria? — Indagou Lucy, preocupada.
– A pequena dragon slayer foi levada para outro lugar. Mas não sei dizer onde é. — Gemini justificou.
– Droga. — Reclamou Natsu.
– Ok. — Erza tomou a frente. — O ideal seria que nos separássemos, mas apenas Jellal pode usar magia de forma eficiente. Isso nos obriga a permanecer juntos. — Refletiu. — Vamos aproveitar que estamos neste setor e resgatar os exceeds. Todos eles podem voar, e sempre são de muita ajuda. Além disso, Lily pode lutar, e se não tiver sido afetado por alguma magia será um grande reforço. — Todos assentiram. — Em seguida, iremos ao setor vermelho para resgatar nossos amigos e procurar Wendy.
– Já que alguns não podem usar magia — Libra falou, olhando diretamente para Natsu. -, não é melhor que procurem algo com que possam se defender? — Sugeriu.
– Que tal isso? — Gemini abriu uma redoma com a marca de sua mão esquerda, retirando um objeto que fez os olhos de Lucy brilharem.
– O Fleuve d'Etoile! — Exclamou, pegando o chicote. — Estava aqui afinal. Obrigada Gemini.
Seguindo as orientações de Libra, os demais magos andaram pela sala procurando armas com que pudessem se defender. Erza conseguiu mais três espadas, tendo que prender duas na bainha e as outras duas nas costas, já que não poderia usar sua magia parar equipá-las. Jellal adicionou o cajado do inimigo que emitia aquela estranha rajada vermelha a sua coleção. Natsu, por não ter o costume de lutar com arma alguma, acabou encontrando uma lança mágica que concluiu ser útil, e também guardou em seu cinto a adaga amaldiçoada, a pedido de Lucy.
Dessa forma, precariamente armados, os jovens prepararam-se para deixar a sala onde estavam para realizar uma perigosa tentativa de fuga.
– Eu agradeço por tudo que fez por nós. — Lucy disse ao espírito das escalas.
– Continuarei ajudando no que for possível. — Libra respondeu.
– Fico grata mais uma vez. — A maga celestial sorriu. — Agora, pensando na minha segurança e na de meus amigos, eu encerro nosso contrato. — Falou, entregando a chave de ouro para Libra.
– Sei que é arriscado, mas mantenha a chave com você. — O espírito pediu. — Assim terei mais facilidade para sentir a sua localização ou qualquer tipo de perigo. — Explicou. — Eu espero que possamos refazer o contrato algum dia.
– Em breve. — Disse a loira, tentando ser confiante. — Em seguida, pegou a chave do espírito de peixes e a olhou. — Pisces, eu encerro nosso contrato. — Disse. Imediatamente a chave emanou um brilho gentil em concordância e Lucy soube que estava feito.
Com o Espírito de Gemini tomando a frente, Natsu, Lucy, Erza Jellal e Libras prepararam-se para sair. Entretanto, tão logo a porta foi aberta, um barulho estrondoso cortou o recente silêncio que havia se instalado.
A única coisa que Lucy pode fazer foi tentar proteger a cabeça quando foi lançada para longe. Desorientada, quando abriu os olhos, suas vistas embaçadas localizaram Natsu e Gemini caídos ao seu lado, tão atordoados quanto ela. Olhando em volta, percebeu que uma pilha de escombros agora bloqueava o corredor que levava para saída do setor laranja. Não havia nem sinal de Erza e Jellal. Eles provavelmente haviam sido jogados para o outro lado.
– Mas o que...? — Tentou perguntar, confusa. Foi quando um ruído metálico atraiu a sua atenção. Antes porém que ela encontrasse a fonte do barulho, um clarão tomou o ambiente.
Lucy ouviu claramente o barulho de algo sendo atingido. Olhando a sua frente, viu o corpo do Espírito de Libra perfurado, desfazendo-se em milhares de partículas douradas. E mais próximo a barreira de escombros, estava o Espírito do Cinzel, Caelum, em sua forma de canhão.
– Libra! — Lucy gritou, dirigindo-se ao espírito das escalas.
– Saiam daqui! — O espírito respondeu, com urgência. — Caelum! — Gritou, antes de desaparecer completamente.
– Vamos! — Gemini, ainda disfarçado, tomou a maga pela mão e saiu correndo pelo corredor, sendo seguido por Natsu que acabara de se levantar. Guiados pelo espírito, eles viraram a esquerda.
Gemini correu mais um pouco, parando abruptamente em frente a uma porta específica e abrindo-a com a marca em sua mão esquerda.
– Entrem! — Falou, assim que a porta se abriu, empurrando Lucy para dentro.
– Mas… — A loira tentou protestar.
– Mas nada, Lucy, entra logo! — Natsu, ao ver que Caelum se aproximava, puxou a maga celestial e ambos adentraram a sala.
Outro clarão. Dessa vez, porém, Lucy reconheceu a rajada esverdeada como um ataque do Espírito do Cinzel. Gemini entrou e fechou a porta.
– Não era melhor termos continuado fugindo? — A maga perguntou, ofegante.
– Esse setor — Gemini falou, com dificuldade. -, não tem outra saída. Pelo menos não segundo as memórias desse cara. — Explicou. — Pelo que consegui descobrir, essa sala é o lugar mais adequado para que se escondam, pois está desativada.
Lucy então percebeu que o espírito mantinha o braço direito junto ao peito, como se o estivesse protegendo.
– Gemini, você está ferido! — Falou, tomando a mão do espírito e a analisando. Ela começava a desmanchar-se em partículas douradas.
– Tudo bem, foi só a minha mão. — Acalmou a maga. — Se eu voltar para o mundo espiritual agora, poderei me recuperar rapidamente. Sinto muito. — Desculpou-se, desaparecendo.
– Estamos sozinhos de novo. — Lucy falou, olhando desolada para Natsu.
– Não exatamente. — Uma voz feminina e infantil discordou. Natsu e Lucy viraram-se imediatamente em direção a ela, e encontraram uma menina sentada em cima de uma das inúmeras mesas de experimento daquele ambiente.
A garota aparentava ter no máximo quatorze anos, e balançava as pernas de modo despreocupado, quase infantil, enquanto os encarava de modo entediado. Ela vestia um uniforme branco, bem ousado para a idade que tinha. Seus cabelos roxos estavam presos em duas rabos no alto da cabeça, assemelhando-se ligeiramente a chifres. Em suas mãos, ela segurava uma revista claramente imprópria para menores.
– Vocês deveriam ter continuado correndo, sabe? — Falou a garota, levemente chateada. — Eu tinha me escondido aqui para não ter que fazer nada, mas já que apareceram na minha frente, não tenho desculpas para não agir. — Disse, enquanto sua mão desocupada começava a emitir um brilho azulado.
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