Voltando para o Começo
8 Capítulo 8: Apenas pegue minha mão
Notas iniciais
Um mês. Já fazia um maldito mês que Karina e Pedro começaram a tentar ter um filho com o auxílio de remédios.
Um mês e nenhum sinal da esperada gravidez. Mesmo assim eles ainda não haviam desistido, tentavam mais de uma vez por dia até se cansarem. Pedro nunca pensou que fosse sentir tal coisa, mas não aguentava mais fazer sexo. O ato estava quase se tornando mecânico devido ao desespero de Karina. Ela mascarava seus sentimentos, mas Pedro sabia que ela chorava quase todo o dia, depois de mais um exame que dava negativo.
Ela estava ficando cada vez mais triste com a situação, e o fato de ele não poder fazer nada lhe incomodava profundamente. Estava agora em seu escritório-academia, tentando compor alguma música, mas tudo o que lhe vinha em mente eram coisas ruins. Que tal uma música sobre infertilidade? Karina o mataria.
Passa a mão entre os cabelos compridos enquanto suspira e então, sente um movimento em suas costas e a respiração quente de alguém contra seu ouvido.
–- Pedro... – sussurra a voz sedutora de Karina, enquanto esta passa suas mãos pelo tronco dele.
Ele fecha os olhos fortemente enquanto ela desce sua boca por seu pescoço. Ela vira sua cadeira em direção a ela e se põe entre suas pernas enquanto acaricia sua pele com seus dentes. Ele suspira e então a empurra um tanto para trás e ela o encara, confusa.
–- Vamos lá, Pedro... não tentamos nenhuma vez hoje... – diz, enquanto se aproxima novamente, colocando uma perna por cima da dele e descendo suas mãos cada vez mais para baixo, até que elas chegassem em seu membro e ele segura seu pulso, a impedindo de continuar.
Ela franze a testa e encara duramente seus olhos.
–- O que...
–- Karina, nós temos que parar com isso... isso... ta saindo do controle.
–- Você perdeu a atração por mim? – pergunta ela, em meio a sua confusão.
Ele ri pelo nariz.
–- Claro que não. Bem... não é como se transar a toda hora fosse algo tão empolgante assim.
–- Você não gosta mais de transar comigo? – pergunta ela, afastando seu pulso dele e tirando sua perna de seu colo.
Ela o encara mais duramente, seus olhos furiosos e aguados.
Pedro suspira.
–- Para com isso. Você sabe que não é assim, é só que... eu to tentando compor aqui e...
Ela ri com escárnio, o interrompendo.
–- Oh! É claro... até porque compor é muito mais importante do que montar uma família!
Ele a encara. Ela parecia estar realmente falando sério, seus olhos cansados marcados por profundas olheiras de noites mal dormidas e choros infinitos e seus cabelos desarrumados lhe dando um leve ar de maluca ou obcecada; o que não deixava de ser verdade, ela estava doida, para ter um bebê em seu ventre e sentir o que todas as suas amigas sentiam ao serem mães.
–- E não é? – indaga ele, levemente irritado.
Ela bufa, furiosa.
–- Claro! Pra você que só pensa em dinheiro, é claro que é!
Ele revira os olhos.
–- Da onde você tirou isso? Você sabe que não é verdade. Tanto é que eu sempre me disponho a tentar todo santo dia. Não é minha culpa que você ainda não esteja grávida.
Ela sente seu rosto queimar de raiva.
–- Sim, é claro. É minha culpa. Sou eu a infértil aqui.
Ele nega com a cabeça.
–- Para, Karina.
–- NÃO É VERDADE?!
–- Não. – afirma ele, sério e então suspira novamente. – Faz só alguns meses que a gente ta tentando, Karina.
–- Vários meses que não serviram pra nada. Também, como pudera? Se você não quer mais tentar, parece que nem mesmo me quer mais. – admite ela, tremendo.
–- Não é isso. É só que... eu me sinto uma máquina de fazer sexo. É sexo toda hora... eu mal tenho tempo pra respirar quanto to em casa.
Ela crispa os lábios e então, ri debochadamente.
–- Quem é você e o que fez com meu moleque? Qualquer homem daria tudo pra passar o dia transando e você aí reclamando!
Ele respira fundo antes de se explicar:
–- Também não é isso... – ele encara o fundo de seus olhos azuis. – Eu to cansado, Karina. A gente não conversa mais... não se beija direito, parece que só o que você vê em mim é a possibilidade de ter um filho. Que toda a nossa história ta se desgastando e sendo esquecida. Eu sou romântico e sensível, lembra?
Ela morde com força o próprio lábio enquanto algumas lágrimas escapam.
–- Mas eu quero ter um filho com você, Pedro. Com você, o homem que eu amo, o homem da minha vida. Você não quer? – ela fecha com força seus olhos e isso faz algumas lágrimas escaparem e molharem ainda mais o seu rosto. – Eu preciso disso, Pedro, preciso engravidar. É o nosso sonho, não é?
Ele fica sério de repente enquanto ela se debulha cada vez mais em lágrimas.
–- Eu quero. Eu quero ter filhos, Karina, mas se você não puder...
–- NÃO! – interrompe ela rapidamente. -- Nós vamos ter esse filho, Pedro. – afirma, com convicção. E depois de secar seu rosto com as costas da mão, completa: -- Nós só precisamos ter paciência.
Ele nega com a cabeça.
–- Mas eu ainda vou te amar se a gente não puder.
E isso é o que basta para que ela não enxergue nada por baixo daquelas lágrimas que embaçam seus olhos.
–- A gente vai ter, Pedro. A gente vai ter o nosso bebê... – murmura ela, antes de sair às pressas dali.
(...)
Na manhã seguinte, a primeira coisa que Pedro viu foram as costas curvadas de sua esposa, sentada ao pé da cama. Ele suspira, antes de esticar o seu tronco e beijar a parte de seus ombros que o pijama – uma camiseta dele, que alcançava metade das coxas dela -- não cobria.
–- Desculpa por ontem, Ka. – sussurra contra sua pele.
Ela não diz nada, apenas continua a olhar para a parede, como se esta fosse mais interessante.
Ele se afasta e encara suas costas.
–- Você está me ouvindo?
Ele engatinha até o lado dela e se senta, encarando seus olhos azuis que enfim se desviam para ele.
–- Ta tudo bem? – pergunta o rapaz, preocupado.
Ela nega com a cabeça.
–- Eu to com medo. Eu to com medo de não poder ter filhos. Eu to com medo de te perder. – responde ela, sincera.
Ele se aproxima mais e leva uma de suas mãos para o rosto dela, que ele puxa para mais perto enquanto ela fecha os olhos e derrama mais uma lágrima.
–- Você não vai me perder. Eu já disse que vou te amar mesmo se você ser infértil.
Ela abre os olhos e encontra os dele.
–- Mas se eu for nós nunca poderemos montar a nossa família.
Ele suspira.
–- Não vamos nos preocupar com isso agora. Nada é certo ainda... temos que continuar tentando.
Ela concorda com a cabeça, mas continua aérea, se levantando molemente e caminhando assim até o guarda-roupa.
Ele encara seus movimentos em silêncio e assim permanece pelo restante do dia.
(...)
À noite, Pedro teve um show importante na cidade e é claro que a presença de Karina foi essencial, apesar do clima estranho do casal, ela ainda era sua musa inspiradora. A noite seguiu normal, ele dedicou as músicas à sua musa, ela corou e passou o tempo inteiro sozinha em seu canto, balançando devagar o seu corpo no ritmo das canções.
Depois do show, a banda foi se reunir em um restaurante. Karina e Pedro não estavam nenhum pouco afim de sair, mas foram, com sorrisos falsos nos rostos, afinal, não queriam que os outros soubessem de seus problemas.
Chegando ao lugar, eles se sentaram lado a lado, ainda sem se olharem ou dizerem qualquer coisa um para o outro. Ela passa uma mão por seus cabelos curtos despreocupadamente e consegue perceber, pelo canto do olho, o olhar intenso de um homem sobre ela. Arregala os olhos e franze as sobrancelhas. Ela nunca percebia os olhares masculinos para sua figura e quando percebia, tendia a corar, mas naquela noite, de certa forma ela se sentiu feliz. Mesmo Pedro tendo pedido perdão pela noite passada, ainda se sentia rejeitada, não por ele não ter dormido com ela, mas porque ele não desejava ter uma família com a mesma intensidade e aquilo de certa forma era uma rejeição.
Ela dá um sorriso de lado e então balança a cabeça, irritada consigo mesma. Ela era casada! Puxa o tecido de seu macaquinho estampado, tentando cobrir mais suas pernas, mas falhando em sua tentativa, engole em seco e tenta ignorar o olhar.
–- ... parece que ele ficou realmente empolgado com a nossa banda e pode até nos chamar pra gravar um disco! – murmura Sol, animada, bebendo um grande gole de sua cerveja.
Wallace sorri para a esposa e beija seu pescoço, também animado.
–- Wallace ta torcendo pra isso acontecer pra noite ser boa. – murmura Rominho, debochado.
Sol lhe manda um olhar matador.
–- Que isso, Rominho, olha o respeito ai. – diz Paula, segurando a risada.
–- Vai dizer que não é, em Sol? Você felizona assim deve dá trabalho de noite.
–- Você vai ver o dá trabalho! – murmura a morena, se levantando, furiosa.
Mas Wallace a segura.
–- Calma, preta, ele só ta brincando. – diz ele, de olhos arregalados enquanto todos riem.
Solange acaba por ceder e volta a se sentar, bufante.
–- Nossa... ta parecendo até a Esquentadinha. – diz Luiz.
–- Pois é... já que ela ta meio fria hoje, alguém tinha que ser a esquentadinha, não é? – rebate Sol, debochada.
Paula ri, enquanto completa:
–- É verdade. Vocês estão quietos...
Todos olham para o casal Perina, surpresos com seu silêncio.
–- Aconteceu alguma coisa? – pergunta Sol.
Pedro ri e se aproxima da mesa, largando seu copo sobre esta.
–- Vocês tão doidos? Ta tudo ótimo! A gente só ta cansado mesmo... a Ka teve um longo dia de treino hoje e eu to morto depois daquele show. – mascara ele, com rapidez.
–- Ah... deixa de ser frouxo, guitarrista. Nós também estávamos lá e foi bem mais mole do que o da semana passada... – murmura Rominho e todos debocham enquanto Pedro ri, até que o guitarrista vê um movimento de sua esposa, que coloca uma mecha atrás da orelha, incomodada, o que atrai sua atenção e ele vê, atrás de sua silhueta, os olhos maliciosos de um moreno alto encararem-na descaradamente.
Ele engole em seco e desmancha o sorriso na hora, segurando o impulso de se levantar e caminhar até ele, fecha os punhos e respira fundo.
–- Pedro?! – murmura uma voz, despertando-o de seu transe.
Ele se vira para Paula e todos da banda, que olhavam-no, confusos.
–- Você vai ou não querer mais uma rodada? – pergunta ela novamente, apontando para sua garrafa de cerveja.
Ele concorda, distraído e então volta sua atenção para Karina, que enfim o olha nos olhos, parecendo saber o que ele pensava.
–- Você também vai querer mais, Ka? – pergunta uma voz e ela assente enquanto responde, ainda a olhar nos olhos do marido:
–- Sim.
–- Bem... eu preciso ir no banheiro. – diz o jovem guitarrista, se levantando rapidamente e quebrando o contato visual, enquanto corria para fora do restaurante.
–- Ele sabe que o banheiro não é para aquele lado, certo? – indaga Luiz, enquanto Karina se levanta também e o segue com rapidez.
Pedro estava na calçada, olhando para o movimento dos carros enquanto roía a própria mão, a perna mexendo inquieta quando Karina chega por trás dele e coloca uma de suas mãos em sua cintura.
–- Ta tudo bem? – pergunta ela, preocupada.
Ele suspira em resposta, tirando a mão da boca e olhando-a nos olhos.
–- Você sabe que não. Aquele cara... ele não parava de olhar para suas pernas. – murmura, calmo demais para que ela acreditasse.
–- É... já estava meio incômodo. – diz ela, sem saber como reagir.
Eles ficam em silêncio por alguns segundos, até que ele se vira para ela, e ergue seu rosto com a ponta de seus dedos.
–- Ele não é cego. – ela franze a testa e ele sorri. – Ele viu que a mulher mais linda do mundo estava ali, não o culpo por ter ficado olhando.
Ela sente suas bochechas enrubescerem.
–- Eu tava falando sério quando disse que não me importava se você fosse infértil. Sabe... isso de começar uma família é uma grande besteira. Nós já somos uma família.
Ela engole em seco.
–- Eu sei disso, Pê... o problema é que eu quero ter um filho com você não é para construirmos uma família, é porque eu te amo e quero muito ver o resultado do nosso amor, um pedacinho meu e seu unido em um só. Esse é o meu sonho agora.
Ele acaricia seu queixo em resposta e se sente tentado a secar suas lágrimas com os lábios.
–- Então vamos continuar tentando não importa o que a natureza diga.
Fale com o autor