Voltando para o Começo

3 Capítulo 3: Do seu lado


Notas iniciais
Oi pessoal! Gostei de ver que os reviews continuam intensos! Espero que gostem do capítulo! Música: Do Seu Lado – Jota Quest. BOA LEITURA!

Na manhã seguinte, Karina acordou com a maior dor de cabeça do mundo, sua visão embaçada apenas assimilando que havia um teto negro acima de sua cabeça. Ela esfrega os olhos e ergue o tronco, sentindo uma tontura atravessar seu corpo e uma ânsia envolver seu estômago. Ela geme e passa a mão pelo rosto suado de calor e é ai que sua visão finalmente clareia. Ela estava deitada no banco de trás de um carro, no meio do mato iluminado pelo sol da manhã, completamente nua e apenas coberta pela jaqueta de Pedro.

Franze a testa, tentando forçar sua mente a se lembrar do que acontecera. E é ai que ela arregala os olhos e entra em desespero.

–- Ai meu Deus, Pedro! – grita, acordando bruscamente seu marido, que estava dormindo sentado no banco da frente.

Ele ri, já esperando essa reação dela e então lhe manda um sorriso malicioso enquanto encara seus seios nus. Ela cobre seu corpo, se sentindo abusada por aquele olhar.

–- Ai meu Deus, o que a gente fez, Pê?! – murmura ela, olhando para o chão em busca de suas roupas.

O jovem ri mais alto e recebe um olhar matador da esposa.

–- É sério! Nós... nós fizemos... no carro! – murmura ela, perplexa.

–- O que, que tem? Nós somos casados! – responde ele, se divertindo com seu jeito ingênuo.

Ela ignora seu comentário.

–- Puta que pariu! Num carro?!

–- Você pareceu gostar noite passada... – murmura ele e então recebe um tapa no ombro em resposta. – Ai! Calma! Eu desliguei o carro antes...

Ela bufa de irritação.

–- Mesmo assim... você se aproveitou de minha fragilidade!

–- Fragilidade? Você?! – ele ri com mais ênfase. – Se você visse a situação, veria que era eu o frágil ali. Não fui eu que apalpei sua virilha enquanto você dirigia...

Ela cora intensamente, se lembrando do momento. Lado ruim de quando bebia, Karina sempre se lembrava do que fizera.

–- Mesmo assim! Você não tinha nada que ter me dado ouvidos... – murmura ela, irritada.

Ele ergue as sobrancelhas. Sério? Ele? Pedro Ramos... o maior tarado que ela já conhecera?

–- Você acha mesmo que eu ia perder a chance de realizar uma de minhas fantasias sexuais?

Ela engole em seco, sem saber o que dizer.

–- Mas... mas aqui é apertado e visível...

–- Estava escuro e não é como se apertado fosse ruim... – ela bufa, se sentindo vencida e então começa a se vestir em silêncio, sendo observada calmamente por ele.

Depois de vestida e confortavelmente sentada ao seu lado, no carona, ela olha para a rua, entristecida e ele coloca sua mão por cima dela em busca de atenção.

–- Ta tudo bem? – pergunta ele, preocupado, se aproximando e beijando o canto de seus lábios. – Você não ficou chateada pelo que aconteceu aqui no carro, ficou?

Ela ri de seu jeito fofo e então acaricia seu rosto e dá um singelo beijo em seus lábios.

–- Claro que não. Eu só fiquei constrangida... – admite, com uma careta.

Ele sorri de volta.

–- Pois você não tem nada que ficar constrangida. Eu sou seu marido e você é linda em casa ou no carro. Desculpa não ter me segurado, mas eu não resisti...

Ela dá um de seus sorrisos de lado.

–- Ta tudo bem, Pedro, sério. – ele acaba cedendo, beijando mais uma vez seus lábios antes de voltar sua atenção para a direção.

(...)

Depois de horas de viagem, Pedro chegou à conclusão de que Karina estava tudo, menos bem. Ela passara o tempo inteiro quieta, olhando para a estrada ou então para as paisagens, perdida em pensamentos. A única coisa que ela fazia era lhe abrir um singelo sorriso de lado quando ele chamava sua atenção ou acariciava alguma parte de seu corpo.

Quando eles chegaram ao seu apartamento, ele segurou seu pulso, não deixando que ela saísse do carro.

–- Ta tudo bem mesmo? – pergunta, sério. – Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não é? Na alegria e na tristeza, lembra?

Ela ri. O casamento deles nem mesmo havia tido aquela frase... Desmancha o sorriso. Esse era um dos motivos de sua tristeza. Ela não queria ser egoísta, adorava o fato de que era casada com Pedro, mas as palavras de Bianca criaram feridas profundas em seu peito. Ela já havia sonhado com um casamento de princesa, mesmo não desejando isso á anos.

Engole em seco. Seria muito duro falar isso para ele. Ele. A pessoa que mais queria o seu bem e que oferecera a proposta desse casamento civil justamente por causa dela.

–- Pode falar... não tenha medo. – pede ele, encarando no fundo de seus olhos azuis.

Ela segura seu olhar por alguns segundos, até que os seus começam a derramar lágrimas e ela os seca com rapidez e vergonha.

–- A Bianca disse que eu sou egoísta. Que eu não pensei na minha família ao casar desse jeito com você. Eu pensei só em mim, ou melhor, nem mesmo em mim mesma... que eu vou me arrepender de não ter tido um casamento real.

Pedro franze a testa, se indignando profundamente com a cunhada. Ele puxa seu queixo em sua direção.

–- Hey... nosso casamento é real. – ela engole em seco, tentando segurar suas próprias lágrimas. – Não importa que não tenha tido padre ou vestido branco. Não importa que a gente só tenha ido lá, assinado aquelas folhas e colocado as alianças. Pra mim nada disso importa. Só o que importa é que eu tenho uma esposa linda ao meu lado.

Ela sorri em meio às suas lágrimas e encara de volta seus olhos castanhos brilhosos. Aqueles mesmos olhos que a encararam com tanta intensidade e adoração dois meses atrás, enquanto encaixava a aliança em seu dedo anelar, os dois vestindo roupas normais do dia-a-dia, ela um short solto de ginástica e uma blusa folgada e ele jeans e camiseta. Aqueles mesmos olhos que brilhavam devido às lágrimas e chorava feito uma garotinha apenas pela emoção de estar com ela. Aqueles mesmos olhos que a amaram intensamente depois de eles saírem do cartório, já casados perante a lei.

Ela sente um arrepio percorrer sua espinha.

–- Mesmo assim... se você não se sente casada como eu me sinto, a gente pode fazer um festão com tudo que temos direito. Você sempre mandou mesmo na nossa relação... – brinca ele, com um sorriso sincero na boca.

Ela ri enquanto seca suas lágrimas.

–- Não. A gente não precisa disso pra provar nosso amor. – e beija sua boca. – Festas nunca foram mesmo a minha cara, gastar dinheiro e usar vestido longo e branco? – Ela nega com a cabeça. – Pelo menos não por agora. Agora pra mim é mais que o bastante ter o sobrenome Ramos como meu e seu.

Ele sorri de volta, sonhador. Ainda desacreditava que ela realmente se chamasse Karina Duarte Ramos.

–- É só que... a Bianca fez eu me sentir realmente mal, sabe. Como se eu devesse alguma coisa pra ela em relação a casamento...

–- Olha, se serve de consolo, ela deve ta se sentindo péssima agora por ter falado essas coisas... – disse ele, com sinceridade. – Na real, a egoísta ali foi ela em vir te falar isso. Você é adulta, sabe o que faz e não deve fazer nada pensando só nos outros.

Ela assente.

–- Você tem razão. – diz ela, enquanto seca seu rosto com os dedos.

Ele sorri.

–- Quanto tempo que eu não te ouço dizendo isso... que eu tenho razão. – ela empurra seu ombro enquanto ri e então os dois saem do carro em direção a seu apartamento.

(...)

À tarde daquele dia foi normal, Karina desistiu de treinar, desde que já chegara atrasada na cidade pelo cochilo que tirara no carro e Pedro tendo ido para seu ensaio da banda deixou-a em um tédio profundo, que só piorava seus pensamentos sobre o que sua irmã dissera.

Ela estava agora deitada de pijama no sofá, folheando os canais ao lado de Flux, seu cachorro grande, ruivo e felpudo, enquanto chorava e se empanturrava de sorvete. Sua nutricionista ia adorar saber disso...

A campainha toca e ela rapidamente larga o pote na mesinha de centro, seca o rosto e desliga a televisão, tentando parecer minimamente apresentável quando abre a porta e tem sua expressão mais uma vez recaída naquele dia.

–- Posso entrar? – pergunta seu pai, sério.

Ela faz um leve aceno com a cabeça e abre espaço para o homem, ainda surpresa com sua visita ao mesmo tempo que nervosa, por que ele viria ali de repente? O único motivo possível deveria ser seu casamento secreto. Geralmente ela recebia no máximo duas visitas dele por mês.

Ele se senta no sofá, ainda sem dizer nada e ela segue seu movimento com o olhar, nervosismo aflorando cada vez mais em sua pele.

–- O que você veio fazer aqui, pai? – perguntou ela, mas não rispidamente como a frase poderia soar, e sim nervosa.

Gael encara seu pequeno apartamento, o sorvete em cima da mesa sendo lambido por seu cachorro, o sofá pequeno e verde em que ele estava sentado, a televisão de trinta e duas polegadas... A casa estava arrumada naquele dia, levando em consideração que Pedro era a pessoa mais desorganizada que Karina já conhecera.

Gael encara sua filha mais nova e pode enxergar a dor em seus olhos.

–- Você está decepcionado comigo, não está? – pergunta ela, com a voz embargada pelo choro que ameaçava voltar.

Ele ergue as sobrancelhas diante de sua afirmação e então, ri.

–- Por incrível que pareça, não. – é a vez dela de erguer as sobrancelhas. – É claro que eu fiquei, no começo, mas depois de uma conversa com a Dandara e um pouquinho de reflexão eu percebi que não posso culpá-la. – ele solta um longo suspiro. – Mas foi Jade a maior responsável por eu ter vindo aqui.

Karina franze a testa em sinal de ainda mais confusão. Não era como se seu pai e sua amiga fossem tão chegados assim, eles eram, no máximo, dois colegas de trabalho da ONG que estavam criando.

–- Eu estava lá sentado num canto da festa de sua irmã e ela veio dizendo que eu era um babaca por agir daquele jeito infantil.

Karina sorri levemente, aquela era a cara de Jade.

–- Ela disse que eu era pra agradecer pelo capiroto ser um genro desse jeito, que segue os desejos de minha filha e que mostra seriedade perante ela. – ele ri. – Ela até reclamou pelo Cobra ainda não ter pedido sua mão... Disse que eu devia respeitar sua decisão e me orgulhar dela, afinal, não é todo dia que alguém se casa no cartório, sem se importar com a pompa de um casamento comum e sim com o que ele deveria significar, amor. Puro e belo amor. E eu sei que você e o Pedro se amam mais do que tudo nesse mundo.

Karina sorri de lado, enquanto seus olhos se cobrem inteiramente de lágrimas.

–- Mas eu ainda fui muito egoísta, não pensei em vocês quando fiz minha escolha.

Gael se aproxima dela e agarra seu rosto entre suas mãos.

–- Olha pra mim. – pede ele, firmemente, encarando seus olhos azuis com a mesma intensidade de sua fala, os seus, imitando os dela ao mergulharem em um mar de lágrimas. – Se Pedro tivesse ido até mim, se ajoelhado e pedido sua mão em casamento e eu negasse, você ainda assim casaria, não é mesmo? Porque você o ama e ninguém vai mudar isso. Casar é uma decisão sua e de Pedro e só de vocês.

Ela assente, sentindo um leve alívio percorrer seu corpo. Mesmo assim ainda havia algo pesando em sua consciência.

–- Me desculpa, mesmo assim. – sussurra ela, recebendo um olhar confuso dele. – Me desculpa por não ter confiado o bastante em você, ter ficado com medo do seu olhar de decepção ao saber que eu não comemoraria meu casamento.

–- Não se desculpe. Não por isso. Mas sim por pensar assim... eu nunca ficaria decepcionado com uma decisão sua. Por incrível que pareça e por mais que eu não goste de dizer isso, é você quem cuida da sua vida agora. Se você fosse na minha casa e me dissesse que desistiu de tudo e que se tornou homossexual eu te aceitaria mesmo assim, porque essa seria uma escolha sua e eu teria orgulho da minha filha.

Ela ri.

–- Que avanço, em, senhor Gael?! Não to te reconhecendo! – brinca ela, fazendo ele rir.

–- O que anos de experiências não fazem com a gente? – rebate ele, entrando na brincadeira. – Mas é sério, Karina, apesar de eu aceitar, tenho que saber, é realmente isso que você quer? Porque não tem problema nenhum se você quiser ter um casamento normal e tradicional como todo mundo. Não é só porque você é diferente que essa decisão tem que ser diferente também.

Ela assente.

–- Talvez daqui alguns anos, mas por agora, casar no civil com o Pedro é o bastante.

Ele sorri.

–- Então você e o Capiroto tem minha benção.

Ela sorri de volta para ele e assim, os dois se abraçam firmemente enquanto sentem suas consciências enfim ficarem completamente limpas.

Depois de alguns minutos, seu momento pai e filha é interrompido quando Pedro chega do ensaio, com uma caixa de pizza e um sorriso no rosto, beijando os lábios da esposa para logo depois cumprimentar o sogro. Mestre Cruel. Às vezes Pedro não conseguia entender porque colocara esse apelido no homem, aquela devia ser a pessoa mais bondosa que ele já tivera a honra de conhecer.

O mestre janta com eles, mas mesmo depois de muita insistência, decide ir para casa, parando para ir ao banheiro antes de partir, consegue ver uma cena incomum em sua frente, Karina sendo a dona de sua família, quando súbita e bruscamente, um movimento vem correndo em sua direção e se joga por cima de seu corpo enquanto lambe o seu rosto.

–- Flux! – murmura ela, risonha, empurrando o cão para longe de si, para cima de Pedro, que estava deitado ao seu lado, no sofá.

Flux lambe o seu rosto enquanto Pedro ri e quando ele corre para o seu outro dono é a vez dela de rir enquanto o guitarrista fica sério, recebendo suas lambidas.

–- Ah... a vingança! – murmura ela e recebe um olhar de falsa irritação do marido que a empurra para o lado e sobe com seu corpo para cima dela enquanto lhe faz cócegas.

Ela não segura sua gargalha e ainda mais quando Flux entra no meio dos dois e lambe seu cabelo.

Gael sorri enquanto observa a cena, sua filha estava feliz e isso era tudo o que importava. Ele vê os beijos entre o casal se intensificarem e então se pronuncia – sendo o bom e velho empata de sempre --, partindo em seguida para sua casa e deixando a bela família para trás. Família. Karina, Pedro e Flux. Seu cachorro. Em sua casa. Sua. O que é meu é seu, até que a morte nos separe.

Notas finais
Final meio comercial de margarina... mas gostaram? E do novo integrante da família Duarte-Ramos? Eu AMO demais o Simba, mas como essa é uma fic achei legal a ideia de pôr o nome de Flux, em homenagem ao nosso ursinho favorito! No próximo dois anos irão se passar, muito Jadrina e o foco da fic vai começar a aparecer! Com muitos reviews, posto na terça ou quarta-feira!