Voltando para o Começo
22 Capítulo 22: Talvez você pense que pode se esconder
Notas iniciais
Pedro fica ali, tentando acalmar Karina, por vários minutos até que ela se aquieta dentro de seu abraço e ele tenta de novo descobrir o que aconteceu.
—- Ah... – a moça treme ao pensar no que lhe dizer. Ela lembra do homem em cima dela enquanto dorme, seus toques indesejados e insistência. Imagina Pedro lhe julgando por ter deixado aquilo acontecer: você deixou o cara entrar no seu apartamento, bebeu com ele e ainda reclama por ele tentar alguma coisa? Ou então, outra possibilidade, dúvida: tem certeza, Karina? Você estava bêbada, pode ter inventado coisa ou exagerado... Ele poderia também não achar grande coisa: sério que você fez esse fiasco todo por causa disso?! E eu aqui preocupado...
Mas, na verdade, ela não imaginava que ele fosse ter nenhuma dessas reações e sim uma reação agressiva, e avançar contra um campeão de muay thai não seria uma boa ideia. De qualquer forma, contar para ele não parecia uma boa ideia e é por isso que ela permanece em silêncio.
—- Karina, fala alguma coisa. – pede o músico, sacudindo-a, preocupado.
Ela olha para ele, sem perceber que estava longos minutos assim, olhando para o nada.
—- Não foi nada. Só tô estressada, ta bem?! – diz, séria. – É... não devíamos ter feito isso. – completa, fingindo que seu ataque de pânico fora somente por os dois quase terem quase transado. Pedro franze a testa enquanto a escuta. – Eu fiquei pensando que ia perder a Ana por estar me envolvendo... que isso não é sério e vai só ferrar com nossas cabeças e... acabei passando mal.
Ao menos, não fora de todo mentira. Aquilo também lhe preocupava bastante, só não o suficiente para barrar seu fogo ardente por ele.
Ele ergue as sobrancelhas, descrente. Karina não era uma boa mentirosa e ele conhecia – ou assim achava -- todas suas artimanhas para parecer convincente: olhos desviando, tom irritado, face endurecida.
O rapaz suspira. – Eu sei que a gente não devia..., mas também sei que tem mais coisa aí do que simplesmente isso.
Ela cerra os olhos, olhando para ele. – É só isso sim! E não é simplesmente isso...
—- Você tem razão. – murmura ele, pensando que talvez estivesse exagerando ou que não ia dar em nada insistir.
Eles ficam em silêncio por alguns segundos, até que ele se levanta e pega seu travesseiro, deixando-a confusa.
—- Pê... pode ficar. Não precisa se espremer naquela poltrona.
—- Mas você...
—- Sério. É só ficar no canto que não tem problema.
Pedro suspira, voltando e ajustando o travesseiro em seu devido lugar, ele para, um instante, olhando para ela.
—- Se você quiser me contar o que houve, em qualquer momento, pode contar comigo. – e se deita de costas para ela, que sente lágrimas escorrerem novamente por seu rosto ao ver a sinceridade e preocupação nos olhos dele.
Ela estava vendada, suas mãos, apesar de soltas, pareciam não obedecerem ao seu controle, o mesmo com suas pernas, que estavam abertas e expostas ao predador que subia sobre ela, seu toque áspero como a pele de um réptil.
Karina tenta pedir para que ele saia, mas as palavras não saem de sua boca, apenas um guincho indefinido. Ela sente mãos apertarem suas bochechas.
—- O gato comeu a sua língua, Karina?! – indaga uma voz grave.
Ela fica ainda mais desesperada, tentando se mexer ou gritar. A mão tira sua venda e ela enxerga um rosto desfocado com um sorriso de orelha a orelha, divertindo-se com seu sofrimento. Ela estava naquele quarto de hotel, podia sentir Pedro ao seu lado, mas o rapaz parecia não vê-la. As mãos que ela sentira, eram na verdade garras, garras que descem por seu corpo, tocando-a à força. Ela sente as lágrimas escorrerem, a boca ainda aberta, mas sem proferir palavra alguma.
As longas unhas do ser cortam sua pele enquanto fazem o caminho até debaixo de seu ventre. Ela geme, tentando pedir que ele pare, os pulmões parecendo vazios quando nem o ar entrava.
-- Safada, foi você quem pediu. – a voz ecoa no espaço e as garras sobem novamente, agarrando seu pescoço enquanto o corpo grande sobe em cima do dela, a língua bebendo suas lágrimas enquanto aperta sua pele, ferindo-a. A fera desce seu corpo até sua vagina e...
-- Ka! Karina!
Ela acorda gritando: -- Não! Não me toca!
A lutadora olha para Pedro, e ele se surpreende ao vê-la pegar sua mão, desesperada, apesar de sua fala. Ela estava grata que conseguia se mexer novamente, seu corpo todo suado e dolorido pelas tentativas. Puxa uma boa quantidade de ar, quase roxa pelos longos minutos com pouco oxigênio, seus olhos derrubando lágrimas e mais lágrimas enquanto Pedro lhe abraça. Ela chora ali novamente, enquanto ele acaricia suas costas.
—- Ka... – chama o rapaz e ela ergue levemente a cabeça que estava deitada em seu colo, ainda chorosa. Ele acaricia seus cabelos.
—- Foi só um pesadelo. – explica a moça, rouca.
—- Eu reparei, mas... – ele para, pensando antes de falar. – esquece, só lembra que aqui nada daquilo vai acontecer.
Ela olha para baixo, já acontecera.
—- Você estava de olhos abertos, parada suando, soltava uns guinchos, foi apavorante...
Karina engole em seco. – Pra mim também... fazia muito tempo que eu não tinha paralisia do sono.
Pedro assente, lembrando-se de já ter havido momentos assim depois dos dois olharem filmes de terror. Com a diferença que está noite não teve nenhum filme. Ele sacara na hora que tinha tudo a ver com seu surto de mais cedo, mas não queria ser motivo de gatilho perguntando o que ela vira durante esse seu sono.
No dia seguinte, quando Karina acorda, ela olha para o eu lado e percebe Pedro todo encolhido para ficar distante dela, visando respeitar seu espaço e não deixá-la mal novamente. Mas acaba que ela se sente mal mesmo assim, por vê-lo daquela forma, sem saber que a culpa não era dele, a culpa de nada era dele. O que ela sentira na noite passada por ele... ela queria muito aquilo, queria tê-lo por perto novamente e pra sempre, mas... parecia que sua mente havia engatilhado quando o rapaz tocou em seu pescoço. Ela lembrou da última vez que fora tocada ali, sem consentimento. Volta a se sentir enjoada ao lembrar. Sabia que Pedro não era Douglas, mas mesmo assim não pôde evitar surtar. Fazia tanto tempo que colocava aquele assunto bem no fundo de sua mente, mas esconder um fato torna-lhe um trauma e tudo fica muito pior.
Karina odiava tanto ter passado por isso e ainda mais agora ao perceber as sequelas que ficaram nela. Se sentia suja, quase como se fosse aquele dia na Tailândia novamente. A moça corre até o banheiro, onde joga água no rosto enquanto encara seu próprio reflexo. Ela ofega, vendo seus olhos com as pupilas dilatadas de adrenalina e seu peito palpitando. Pega o sabonete e esfrega no pescoço, descendo-os por seu ombro, arrancando a regata de dormir com ferocidade enquanto se esfregava abundantemente. Ela se olha no espelho novamente, parecia uma completa maluca. Sente as lágrimas respingarem e larga firmemente o sabonete de novo na pia, respirando fundo.
Ele não está aqui.— sussurra para si.
A lutadora entra para o banho para tirar o sabão que ficara em seu corpo e depois de vestir-se encara o rapaz deitado na cama. Aproxima-se, se agachando ao seu lado e passando a mão carinhosamente por seu cabelo, enquanto ele dormia de boca semiaberta. Ela sorri.
—- Desculpa, Pê. – murmura, se referindo não só por colocá-lo nessa situação, como pela história toda de sua separação.
A mulher se curva sobre o ex-marido e lhe dá um beijo singelo na cabeça, antes de se levantar e sair dali.
Karina vai correr. Ela sempre usara o esporte como escape para as torrentes de sentimentos que viviam em seu coração, mas ora precisavam escapar. Muay Thai era perfeito para isso, mas correr também ajudava, já que não tinha um saco de pancadas por perto.
Enquanto corria, ela ouvia as músicas de sua playlist nos pequenos fones pendurados em suas orelhas. Tocava uma música que ela e Pedro amavam: Pompeii da banda Bastille. Ela sorri de lado ao perceber isso, mas seus devaneios são interrompidos por uma mão que a puxa pelo ombro.
-- Ka! – grita Tomtom, assim que a lutadora tira os fones. – Tô te chamando tem um tempão.
-- Ah desculpa, Tomtom, é que eu tava de fone.
A jovem assente. – Eu te procurei ontem na festa, mas não encontrei.
Karina coça a cabeça, lembrando de onde deveria estar quando a irmã de Pedro lhe procurava... brigando, beijando ou quase transando...
A aspirante a escritora parece não perceber sua expressão envergonhada.
-- Então... eu queria te dar os sapatos e te apresentar meu amigo. Pensei que já que meu irmão deu bola fora na relação de vocês, você poderia achar alguém legal. Ele achou seu sapato... parece até conto de fadas.
A loira arregala os olhos ao ouvi-la.
-- Tomtom... – começa Karina, mas é interrompida.
-- Ta, eu sei que você ainda ta afim do meu irmão, ta na cara! Mas você pode fazer ciúmes nele e fazer ele pagar pela traição...
-- Tomtom, já te disse que não quero saber de romance. – resmunga, olhando para seus próprios pés.
-- Ah vai, Ka! Você ta dizendo isso agora, deve ta só machucada por causa do Pedro... Dá uma chance pro destino. Tenho certeza que você vai amar o D...
-- E aí, Karina, quanto tempo. – murmura uma voz masculina, interrompendo a menina.
Karina sente um arrepio lhe subir pela espinha ao perceber de quem era aquela voz e encara o homem que permeava seus pesadelos. Parecia que o mundo lhe pregava uma peça, de novo. Ela engole em seco, sentindo uma torrente de lágrimas ameaçarem cair.
-- Não vai dizer nada, Ka? – pergunta Tomtom, olhando-a preocupada. – Você ta bem?
A lutadora se força a abrir um sorriso e olha para a mais nova, tentando tranquilizá-la.
-- Ta sim. Er... – ela pigarreia, sem ideia de uma mentira para dizer.
-- Ela deve ta surpresa. – responde por ela Douglas, encarando-a com aqueles olhos de predador.
Ka respira fundo, sentindo uma ira subir. Queria ataca-lo, lhe encher de porrada, mas não sabia se seria adequado fazê-lo na frente de Tomtom já que está parecia tê-lo como amigo e... ela não sabia se queria que sua história infeliz andasse na boca do povo. Odiava ser o centro das atenções quando mais nova e, apesar de Pedro ter a ensinado a apreciar certas atenções, esse não era o tipo que ela gostaria de receber. Frágil, burra, fraca, mentirosa eram só alguns dos adjetivos que imaginava receber.
-- Surpresa? – indaga Tomtom, franzindo as sobrancelhas.
-- Eu e a Ka éramos parceiros na Tailândia. – explica Douglas, ainda a encarar a mulher.
A estudante olha para Karina, esperando que ela explicasse.
-- É... eu conheço o Douglas. A gente lutava com o mesmo mestre. – diz a loira, sem olhar para eles, tentando acalmar a tremedeira que teimava em surgir por seu corpo.
-- Nossa! Que legal! Então vocês já são ami... – Tomtom se interrompe, notando a energia entre os dois, a amiga de braços cruzados enquanto olhava para o nada e o recém amigo olhando-a com um olhar e sorriso... – Ta tudo bem?
Ela olha para Karina, que lhe encara e assente positivamente.
-- Então... eu já vou indo. – diz, fazendo menção de se retirar o mais rápido possível dali. Entretanto, seu movimento é barrado pelas mãos de Douglas, que agarram seu braço.
-- Não vai esquecer seus sapatos, Cinderela. – ele lhe fuzila novamente com aquele olhar mortal e ela assente, pega os calçados e arranca sua mão do contato com sua pele, abruptamente.
Tomtom encara aquilo com um ponto de interrogação na testa, mas não tem tempo de perguntar o que estava acontecendo, e Karina já saíra correndo dali.
Quando Karina chega em seu quarto, ela bate a porta com brutalidade e se joga no chão a chorar, parecendo ser a primeira vez que respirara desde que encontrara com aquele maldito. Ela cobre os ouvidos e se balança no chão, tentando acalmar-se, a respiração como a de uma pessoa que recém saiu de um afogamento.
Pedro surge, voltando do banheiro, a pega no colo e coloca sobre a cama, sem perguntar nada. Ela parece nem perceber sua presença, ainda com os mesmos movimentos: cobrir ouvidos, balançar-se, respirar e chorar. Mas ele a envolve mesmo assim, abraçando seu pequeno corpo. Quando a respiração dela volta ao normal, ela encara-o, perguntando-se se deveria dizer alguma coisa, mas sempre respondendo a si mesma que não. Só vai atrapalhar a vida dele e suas expectativas sobre ele.
-- Ka... – começa o rapaz, mas ela lhe interrompe.
-- Deve ser ansiedade...
-- Mas por quê? Teve algum gatilho?
Ela engole em seco, desviando de seu olhar. – Só... preocupada... com a Ana.
O músico acaricia seus cabelos, aproximando-se.
-- Eu te conheço, Karina. – ela olha para seus olhos e enxerga o que temia, que ele via tudo dentro dela apenas lhe observando.
-- Eu tenho ansiedade... desde... – ela hesita, olhando para suas mãos. – desde nosso término. Eu me tratava na Tailândia, mas parei. Deve ser isso.
Pedro teria reparado nos trejeitos de mentirosa dela, mas se sentiu tão culpado com sua fala que não percebeu. Desta vez foi ele quem desviou o olhar.
-- Desculpa. – murmura, cabisbaixo.
-- Para. Eu tenho culpa sobre a separação.
Ele franze a testa, negando.
-- Que isso, Karina... eu quem te traí! – ela encara seus olhos ao ouvir sua voz se elevar e ele pigarreia, tentando se recompor. – Não se culpa nunca. Eu que errei.
Ele pega sua mão e ela sente seu coração derreter.
-- Mas...
-- Não tem mas, Esquentadinha. Não quero você se culpando. Agora se concentra em ficar bem... eu vou te ajudar a procurar ajuda aqui também e... por enquanto a gente pode comprar um daqueles remédios naturais. – ele se levanta, pegando sua carteira numa rapidez que a surpreende.
-- Calma, Pedro. – pede e ele para, enquanto ela também se levanta e se aproxima, abraçando-o. – Eu só quero que você fique assim. Que me dê apoio. Vai ficar tudo bem.
O rockeiro lhe abraça de volta, sentindo um sentimento quente envolver seu corpo e seu coração de uma forma tão pura que ele esquecera-se ser possível. Como quando eram adolescentes e brincavam entre si, sem precisar de sexo nem discussões para trazer calor a relação, apenas o mais puro amor.
Na hora do almoço, Karina não comeu quase nada, seu estômago embrulhado e sua face pálida de preocupação e horror. Douglas estava ali, na mesa de Jade e seus convidados, os olhos grudados nela o tempo todo. Em resposta, ela tentava não enxergá-lo e agarrava firmemente a mão de Pedro por debaixo da mesa.
Gael parece perceber e chama a atenção da filha, preocupado: -- Ta tudo bem, Karina?!
A mulher corre em se explicar: -- Ah... ta tudo ótimo, pai. Eu só tô... – ela vê o olhar de Douglas se intensificar sobre ela. – mal do estômago mesmo. – completa, encarando-o rapidamente para então voltar sua atenção para o mestre.
Pedro nota o aperto em sua mão ficar mais forte.
-- Quanto tempo, em mestre. Lembra de mim?! – murmura Douglas, chamando a atenção de Gael, que sorri para o homem.
-- Nossa! Mas você ta enorme, rapaz! – o mestre estica sua mão para cumprimentar o lutador, ao seu lado. – E que coincidência você aqui!
-- Ah o Douglas é meu amigão, mestre. A gente se conheceu no campeonato e agora é só amor... perdendo só pra Dama, é claro. – brinca Cobra, rindo entre eles. – Ele chegou faz uns dias mas teimou que preferia comer no quarto, acho que é tímido, mas parece que perdeu repentinamente a timidez.
Douglas olha de canto de olho para Karina, que imagina o motivo pela repentina vontade de socializar do lutador. Ela larga o garfo abruptamente no prato, largando também a mão de Pedro e empurrando a cadeira.
-- Esquentadinha... – chama o guitarrista.
-- Eu vou me recolher. – murmura ela, seca, a palidez se tornando mais abrangente.
Ela sai dali apressadamente, e para na beira da praia, tentando não ter outro surto, os punhos cerrados em raiva. Raiva de seu pai, Tomtom e Cobra por serem amigos daquele infeliz. Raiva dele, obviamente, por amaldiçoar sua vida, seus sonhos e seus pensamentos. Ela respira fundo e chuta a areia. Droga.
-- Precisando de companhia? – pergunta a voz justamente de quem ela evitava, se vira rapidamente, avançando contra ele e... ela trava, sem conseguir lhe bater. Passara boa parte de sua vida defendendo seu emocional com pancadaria, mas hoje que ela precisava defender seu físico, travava, encarando-o enquanto ele soltava uma gargalhada. – Você é mesmo Esquentadinha, como seu marido chama... e em todos os sentidos. – ele olha bem para o seu corpo e ela se sente completamente exposta naqueles shorts e regata de ginastica, cruza os braços sobre os peitos numa ânsia de cobri-los de seu olhar. Ele ri novamente. -- Precisamos conversar, Esquentadinha.
-- Não me chama assim. – pede ela, não querendo que seu apelido carinhoso ganhasse outra conotação na voz daquele tarado.
-- Tanto faz... agora a gente precisa selar um trato.
-- Que trato o quê?! Fica longe de mim.
-- Então você prefere que eu conte pro seu maridinho a piranha que ele casou?! Nunca pensei que você fosse dessas, achei que queria me dar porque tava solteira, mas não, você só queria diversão já que tava longe do corno.
-- Vira essa boca pra falar do Pedro! – ela começa a se enfurecer, apesar de ter medo dele.
Douglas ri. – Só viro se você fechar o bico sobre aquilo. Nada de me dedar pro seu papaizinho. Ele nem acreditaria mesmo, só iria passar vexame. Até porque você que se atirou pra mim... gemendo enquanto dormia, praticamente me puxando até você.
Ela sente uma lágrima descer ao vê-lo falar daquele dia daquela forma.
-- Se você não falar nada eu também não falo da sua traição e todo mundo fica feliz.
-- E se eu falar?! – ameaça a jovem, bufando.
Ele se aproxima, puxando-a pela cintura enquanto ela lhe empurrava.
-- Se você falar é porque é muito burra porque só você quem vai se ferrar. Você quem pediu. – ele aperta as bochechas dela, deixando-a ainda mais tensa e então a larga com tanta brutalidade que ela cai na areia. – Pensa bem, oh bonitinha.
Ela se levanta dali rapidamente, os olhos arregalados observando se alguém havia visto o que acontecera. Não sabia se queria ou não que vissem, só sabia que tinha tanto medo dele quanto sua mãe devia ter de Lobão e que se encontrava em uma encruzilhada. Ela sai correndo dali, ainda sendo encarada por Douglas, que vai atrás, pensando que ela haveria de dar com a língua nos dentes. Ele também sentia medo, mas era de ser denunciado.
Karina sobe o lance de escadas ao invés de ir pelo elevador, sentindo a presença do lutador lhe perseguir na mesma velocidade, ela consegue destrancar a porta do quarto e entrar, mas antes que feche a porta ele está lá, empurrando-a com tanta brutalidade que a lutadora se lança até o banheiro, com esperança de se refugiar ali. Entretanto, ele é mais rápido, e a puxa pelos ombros, prensando seu corpo na parede, a mão agarrada em seu pescoço.
Ela ofega, sentindo sua visão anuviar.
-- Sua putinha, você não vai me largar desse jeito! – afirma o homem, vermelho de raiva.
Karina era muito nova no ramo de embustes, o único rapaz de sua vida era romântico e carinhoso então ela não imaginava que um homem pudesse ter tanta raiva de ser rejeitado.
-- Por favor... – murmura ela, tentando se desvencilhar do corpo dele, mas ele continuava ali, firme e forte. Seu corpo musculoso prendendo-a, as mãos deslizam para os lados do rosto dela, como que para impedi-la de fugir por ali.
-- Isso, assim que eu gosto, submissa. Agora eu quero que você me dê o que me deve. Chega de doce, Karina. Se você saiu comigo é porque queria.
Ele aproxima sua boca da dela e ela fecha os olhos, sentindo o rosto quente ser tomado pelas lágrimas.
-- O que... – murmura uma voz, interrompendo-os.
Douglas se afasta da lutadora, olhando para trás e abrindo seu sorriso cínico. Ele volta sua atenção para ela, numa pergunta silenciosa se ele deve contar que ela traíra o marido. Ka engole em seco e faz sinal de não com a cabeça.
-- Ta tudo bem, Ka? – pergunta Pedro, adentrando o quarto e indo para o lado da suposta esposa.
Ela vai para trás dele e segura sua mão, a sua tremendo tanto que não tem como ele não perceber.
-- T-ta...
-- Ah relaxa... Pedro néh? – o rapaz não assente, mas o lutador prossegue mesmo assim: -- A Karina só tava passando mal. A porta tava entreaberta e eu ouvi e resolvi ajudar.
-- É sério, Ka? – indaga Pê, virando a cabeça para olhar para sua ex-esposa, o rosto em fragalhos, estarrecido e os olhos inchados de choro e pavor.
Ela assente levemente ao ser observada por Douglas. De qualquer forma, não adiantaria acusá-lo agora, Pedro apenas avançaria nele e acabaria no hospital.
-- Viu?! Fica tranquilo, cara. – o lutador dá uma batidinha no ombro de Pedro e uma piscadela antes de sair dali.
Quando a porta se fecha, Pedro só escuta o som da respiração de Karina entrar no modo corrida novamente enquanto ela se agacha no chão.
-- Ka... – ele se agacha também, segurando suas mãos. – Esse cara...
-- Não Pedro. Esquece isso. – pede ela, com a voz embargada.
-- Mas...
-- Deixa... – pede ela, olhando para baixo enquanto tenta se acalmar.
Ele puxa o rosto dela para cima.
-- Eu nunca vou deixar. Nunca vou te deixar. – afirma, sério e ela se perde em seus olhos por um segundo, sentindo a palpitação do coração mudar de rumo, para o aconchego de seus sentimentos por ele e não para o pavor pelo outro.
Ela chora mais um pouco enquanto sente o abraço quente dele lhe envolver.
-- É sério, Karina, eu sei muito bem que tem algo sinistro aí e esse cara... ele tem a ver.
Ela engole em seco, afastando sua cabeça que estava apoiada no ombro dele.
-- Não tem nada, Pê. Eu já te disse...
-- Karina! Se esse cara te tocou ou...
-- Para, Pedro! – grita ela, não querendo escutá-lo. Ela fecha os olhos e uma lágrima mais escorre.
Pedro seca sua lágrima com o polegar. – Me fala. Confia em mim. Me fala o que ele fez... me fala porquê ele tava aqui no quarto. -- ela abre os olhos novamente, envergonhada. – Você pode me falar qualquer coisa. Se ele for seu namorado...
Ela nega com força, enojada de se imaginar como namorada daquele monstro.
-- Ele tentou. – interrompe, admitindo no impulso de não fazê-lo pensar que ela tinha outro e se magoar. Mas arrepende-se logo ao terminar de falar.
Pedro não pergunta o quê, apenas se levanta, passando as mãos pelos cabelos, inquieto.
-- Pê... – chama a mulher, levantando-se também e indo puxar seu rosto para ela, mas ele afasta sua mão, encarando-a pensativo.
Karina treme, pensando que ele devia achá-la suja ou algo do tipo. Ela coloca as mãos no rosto.
-- Desculpa. – sussurra, em meio ao choro.
-- Desculpa pelo que, Karina?! – ele é um pouco agressivo nas palavras, mas puxa o corpo da moça para si, aconchegando-a.
-- E-eu não sei... eu chamei ele pro meu apartamento, mas eu não queria... eu ainda só pensava em você.
Ele se surpreende com sua afirmação e beija o topo de sua cabeça.
-- O que ele... – finalmente pergunta, já temendo a resposta.
-- Eu peguei no sono aí ele... – ela engole em seco, sentindo a comida subir por sua garganta. – Ele tava tocando na minha vagina. Eu impedi, mas ele insistiu então eu empurrei ele do ap e só. – conta, tentando fazer parecer que não foi nada.
Ela ergue a cabeça para olhar sua reação, mas encara apenas um rosto impassível, completamente fora de área.
-- Pê...
-- E hoje? O que ele queria? Ele tentou de novo? – pergunta o rapaz, ainda sem olhar para ela.
A lutadora assente e ele não precisa ver para saber.
-- Ele também ameaçou dizer que tivemos um caso para você, não sabe de nossa separação...
Pedro solta seu corpo, coçando a própria cabeça.
-- Pedro... eu não devia...
Ele olha para ela pela primeira vez depois dela contar e ela não consegue decifrar o que se passava em sua cabeça, apenas uma fúria. Dela? Dele?
E então, Pedro se vira abruptamente, abrindo a porta ferozmente.
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