Voltando para o Começo
23 Capítulo 23: Você será quem me salvará
Notas iniciais
Quando Karina vê Pedro avançar na porta para ir atrás de Douglas, ela corre atrás e antes que ele se vá segura seu braço.
-- Por favor, Pedro... não faz nada. Só... fica comigo. – pede, fazendo-o amolecer e depois se virar para ela.
O músico vê seus olhos inchados e seu corpo encolhido e sente seu coração despedaçar ao mesmo tempo que sentia vontade de estraçalhar quem havia causado aquelas lágrimas. Mas ela abraçá-lo faz com que ele esqueça de seu ódio e se concentre apenas na mulher em seus braços.
-- F-fica comigo... – pede ela novamente, com a voz trêmula.
Ela o puxa para a cama e os dois se deitam lado a lado, ela encostada em seu peito enquanto o rapaz acariciava seus cabelos, os olhos lacrimejando.
-- Você é tão forte. – sussurra, despertando a atenção da moça, que vira o rosto para ele, encarando-o.
-- Não sou não. Talvez antigamente... – admite, pensativa. –, mas hoje eu só faço chorar.
Em resposta ele seca suas lágrimas com as pontas dos dedos, enquanto olha para os seus olhos molhados.
-- Pessoas fortes choram e depois seguem em frente. Exatamente como você faz.
A lutadora desvia o olhar, envergonhada e depois retoma para ele. Seus olhos azuis perseguem o rosto do rapaz e ela sente seu coração se aconchegar ao mesmo tempo que corre com rapidez.
-- Queria ser aquela Karina briguenta de novo.
-- Esquentadinha você sempre vai ser... – brinca o músico, abrindo um sorriso de lado na ex-esposa que depois fica séria.
-- Até isso ele estragou... – murmura pra si mesma, lembrando da boca do homem sussurrando seu apelido.
-- Ka... – chama Pedro, despertando sua atenção novamente. – Eu vou tirar sua dor.
Karina arregala os olhos, negando, sabia que ele se referia a ir atrás de Douglas. Não queria que ele se machucasse. Ela começa a chorar de novo ao ver a encruzilhada em que estava.
-- Eu quero tirar toda essa sua dor e pegar pra mim. – sussurra o guitarrista.
-- Para. Você já faz isso estando ao meu lado.
A mulher olha para ele profundamente e então sela seus lábios em um beijo carinhoso, suas mãos agarradas ao seu rosto enquanto ele segurava sua cintura. Ela se afasta depois de alguns segundos, o coração uma loucura de sentimentos. Ele fica ofegante, apesar do beijo não ser tão longo, apenas devido ao seu toque.
Karina deita sua cabeça no peito de Pedro novamente, com vergonha de ver sua reação.
-- A gente tem que fazer alguma coisa, Ka... – afirma, curvando-se para frente para olhar para o rosto dela.
-- Não tem nada que possamos. Depois do casamento ele some de novo e tudo fica bem.
-- Mas e se você encontra com ele de novo?
-- Eu mudo de calçada. – afirma ela, apesar de tremer diante da possibilidade.
-- Não é legal todo mundo ser amigo dele sem saber quem ele é...
Ela se levanta. – E quem diz que eles vão acreditar?!
Pedro acaricia seu rosto. – Não importa se vão, só importa que eles saibam. Eu já acredito em você e posso ser seu ombro se isso acontecer. O que eu duvido, Gael sempre vai ficar do lado das filhas, a Tomtom é muito feminista e o Cobra é seu amigão do peito, sabe que você é honesta.
Ela engole em seco. Nem tão honesta assim...
-- Não sei, Pê... ele é rico, influente e foi há séculos e em outro país...
-- Mas e hoje?
-- Hoje ele só me prensou na parede e... – se interrompe, incerta do que ele faria se Pedro não tivesse aparecido. – Vamos mudar de assunto... eu tô cansada, quero ficar o dia nesse quarto. – ela olha pra ele. – Pode ir passear de barco com o pessoal, se quiser. A Jade me disse que era esse o cronograma de hoje.
Pedro puxa o corpo dela para si em resposta. – Eu não vou a lugar nenhum.
Ela fica vermelha de vergonha com sua afirmação, pensando que seria maravilhoso um dia de sexo tórrido, se ela não estivesse com a cabeça longe...
-- Relaxa... eu não tô dizendo pra gente ficar junto. Eu sei que esse beijo de agora foi só uma tentativa de acalmar... – ele olha para ela enquanto diz, esperando que ela negasse e afirmasse que aquele beijo era a mais sincera declaração de seus sentimentos.
Mas a loira não diz nada, apenas abraça-o de volta, a cabeça em seu ombro.
Pedro e Karina passam o dia assim, deitados agarrados. Eles assistem alguns filmes, pedem comida e se acariciam todo o tempo, sorrindo um para o outro. Tudo sem malícia, uma busca por acalento e desabafo. Fora um dia bom, fazendo-os voltarem a pensar no passado, em sua casa com Flux e a televisão, as brincadeiras entre si tão presentes quanto era, colocando seus problemas de lado.
Naquele momento, Karina dormia profundamente no peito de Pedro, que sentia uma alegria imensa, apesar do aperto no coração.
-- Que saudade... – diz, acariciando seu rostinho sonolento.
Ele nota que na rua o sol nascia, quase como que espreguiçando-se. Suspira, olhando novamente para Karina, que agora não iria lhe impedir de fazer o que tanto almejava. Tira os braços dela de cima de si, devagarzinho para não acordá-la e sai, em silêncio, pegando seus tênis na mão e partindo descalço.
Pedro fecha a porta com todo cuidado e se agacha para calçar seu All Star, clicando no botão para chamar o elevador e aguardando-o.
-- Pê... – chama uma voz, preocupada. Ele se vira e vê sua ex parecendo tão pequena em sua camiseta que ele emprestara. – Aonde você vai saindo assim escondido?
O músico engole em seco, nervoso.
-- Ka... eu ia... – ele hesita, olhando a expressão da mulher -- Ta legal! Eu ia falar com o seu pai.
Ela arregala os olhos, confusa.
-- Eu ia contar pro seu Gael que ele é amigo do abusador de sua filha.
O elevador abre, mas Karina puxa o ex-marido antes que ele pudesse entrar.
-- Para, Karina! – murmura ele, afastando seu braço.
-- Você não vai contar nada! Você não tem esse direito!
-- Foda-se! Eu não vou deixar você continuar sofrendo.
Ela fica ofegante de raiva.
-- Como você vai explicar que eu chamei um homem pro meu apartamento estando casada? Você quer que meu pai pense que eu sou uma traidora?
Pedro olha para baixo, pensativo. Realmente, não tinha pensado por esse ângulo.
-- Eu não conto essa parte... – afirma, por fim.
-- Meu pai vai querer saber detalhes e eu sei muito bem que você é péssimo mentindo tanto...
Ele pensa que talvez não fosse, afinal, mentira sobre ser um “namorado de aluguel” por bastante tempo, mas realmente... toda vez que aquele assunto chegava perto ele tremia todo e precisava mudar de assunto.
-- E tem Ana... se eu denuncio e não comprovo vou ficar suja na justiça. O Douglas é conhecido, isso daria repercussão e minha filha seria prejudicada, talvez nem recebêssemos a guarda. Se a gente acaba dando com a língua nos dentes e todo mundo descobre que estamos fingindo estarmos casados também arriscamos ela.
-- Você tem razão. Talvez seja melhor... – ele não completa a fala, apenas suspira. – De qualquer forma eu preciso pegar um ar e pensar. A gente precisa fazer algo, só não sei o que seria melhor... – ela assente, feliz por perceber que ele tornava seu problema como sendo de ambos como era no passado.
Ela tenta afastar essa ideia tola, pensando que ele falava assim porque a situação o atingia por tocar no assunto de seu casamento.
-- Certo... eu vou me vestir para o café. – afirma a moça, por fim. Ele assente e se direciona novamente para o elevador.
Quando Pedro desce para a praia, ele se senta em um banco e suspira. Mas não dá tempo para pensar muito e uma figura logo se senta ao seu lado, sorrindo com escárnio.
-- Então o corno não aguentou segurar a esposinha e partiu pra tática da encenação?
Pedro arregala os olhos, olhando para Douglas, ao seu lado. O lutador estava lá, naquele mesmo corredor, enquanto ele e Karina discutiam a todo vapor sua relação. No meio de um corredor, não foram muito inteligentes...
-- Dá onde você tirou isso?! – indaga o guitarrista, agressivamente.
Douglas ignora-o, continuando com suas constatações. – Então vocês resolvem fingir um casamento e enganam todo mundo... Até que você é esperto porque pra agarrar aquela vadia só à força ou... assim.
Pedro não se segura, agarra a camiseta do lutador, a face vermelha de raiva.
Douglas ri. – Calma aí, frangote, só quero umas dicas pra pegar também a moça esquentada. Ou você não sabe dividir?
O guitarrista aperta ainda mais o aperto em sua camiseta.
—- Você não tem direito de abrir essa boca suja pra falar da Karina!
—- Eita! Tô vendo que não vai ter divisão. Mas ela bem que gostou dos meus toques, apesar de depois ficar na defensiva. É assim contigo também?
Pedro não consegue mais se segurar, dá um soco na cara do lutador, que caí no chão, surpreso com a força do músico.
—- Nossa! Acho que te subestimei, até que ficou um leve arranhão. – provoca Douglas, tentando mascarar sua raiva enquanto limpava o sangue no canto de sua boca.
Em resposta, o músico se agacha sobre o corpo do lutador e volta a socar seu rosto, sem parar. As pessoas que saiam para correr olhavam para a cena horrorizadas, pensando se deveriam interceder. Até que Douglas arruma fôlego para revidar e empurra Pedro de cima de si, se levantando e agarrando seu rosto enquanto desfoca uma joelhada lá, fazendo-o tontear.
—- Quer brincar, frangote? Eu já apanhei de caras 5 vezes maiores que você no ringue.
Pedro sente o rosto latejar, mas não se acovarda. Ao contrário do Pedro de anos atrás, ele já não era tão medroso, especialmente quando se tratava da mulher de sua vida. Ele cospe no chão, sentindo gosto de sangue.
—- Você nunca apanhou de alguém disposto a te matar de verdade. – murmura, fazendo Douglas rir.
—- Muito fofo você, mas não faz nem cosquinha em mim. – diz ele, avançando de novo e socando o estômago de Pedro, que se curva de dor enquanto ele ri novamente.
O guitarrista se aproxima do homem, tentando acertá-lo, mas antes que dê tempo, é novamente socado até cair no chão, onde Douglas começa a chutá-lo incansavelmente.
—- Hey! – grita uma voz e logo seus golpes são interrompidos quando dois caras lhe puxam para longe do corpo mole de Pedro. Era Cobra e Gael, que olhavam para a cena com confusão.
—- O que é isso, lutador?! Por que você ta batendo no guitarrista? – pergunta o mestre, com o pulso firme nos braços de Douglas.
—- Pê?! – grita uma voz desesperada. Era Karina que descia para o café da manhã. Ela vai direto para o músico, sem conseguir evitar que lágrimas caiam ao vê-lo todo ensanguentado sobre a areia da praia. – Eu falei, Pê, pra você não fazer isso. – murmura entre lágrimas, fazendo seu pai ficar ainda mais confuso.
—- Fazer o quê? O que é que ta rolando aqui, Karina?! – pergunta ele, firme.
Karina olha para trás, recém percebendo a presença de seu pai, mas é Pedro quem responde, sentando-se com dificuldade devido a dor.
—- Esse cara... – ele respira lentamente e Karina faz menção para que ele não se esforce tanto. – ele... abusou da Ka...
—- Quê?! – indaga Cobra, chocado.
Gael fica alguns segundos com a testa franzida e Karina sente seu estômago embrulhar. Ele solta o braço de Douglas, que continha uma carranca enfurecida no rosto, encarando firmemente a lutadora com muita raiva. O mestre se posta em sua frente e ele abre a boca para negar quando é surpreendido por um soco em sua face. Mas não fica só em um soco, Gael empurra Cobra para longe e segue lhe desferindo golpes que o lutador tenta inutilmente se defender. Ele cai no chão, gemendo de dor e Gael se agacha e o puxa pela camiseta, seguindo a lhe socar.
—- Gael... – murmura Dandara, surgindo junto de Jade e todo mundo que assistia a cena estupefados. Delma corre até o filho, morta de preocupação. – Gael você vai matar o menino...
O mestre para, ainda a segurar a camiseta do rapaz.
—- Eu deveria mesmo matar, mas não vou me sujar por um desgraçado. – ele solta Douglas, que cai feito um saco de batatas no chão.
Karina desata a chorar novamente, uma mistura de sentimentos lhe completando. Seu pai se agacha ao seu lado e lhe dá um abraço.
—- Você ta bem? Ficou com hematomas? Devemos ir pro hospital...? – murmura o mestre, rapidinho, os olhos lacrimejando de preocupação. Pensava que o suposto abuso havia ocorrido agora.
—- Não pai. Isso aconteceu mês passado, na Tailândia. – explica a moça. – E-e não foi bem assim como falam, foi... – ela trava, sem querer dar detalhes, mas também querendo atenuar a situação para não deixá-lo preocupado.
—- Mestre... – começa Pedro, mas Gael lhe interrompe, colocando a mão em seu ombro.
—- Você é o genro que eu pedi. Mesmo fracote foi pra cima desse infeliz. – o homem acaricia a cabeça de Pedro, que tenta sorrir apesar da dor.
—- Mas o que ta acontecendo aqui, pai? – pergunta Bianca, se aproximando da família.
Karina olha para todos que lhe assistiam e se encolhe diante da ideia de ser exposta. Pedro parece perceber sua preocupação e pega sua mão, tentando tranquilizá-la.
Gael os observa. – Vocês todos vão logo comer, a gente vai na delegacia resolver tudo.
—- Não, pai! – murmura Ka, enquanto as outras pessoas saem dali, ficando apenas Cobra que segurava o corpo estirado de Douglas, Dandara, Delma e Bianca.
—- Como assim, Karina? – pergunta seu pai.
Ela se aproxima mais e fala, baixinho: -- Um caso desses pode atrapalhar o processo adotivo.
—- Mas ele tem que pagar.
—- Ele já apanhou o bastante, é só a gente fazer ele jurar que nunca mais vai se aproximar.
Gael coça a cabeça, incomodado. – Ka...
—- É sério, pai. E não foi... – ela tenta achar as palavras corretas para contar que não houve penetração. – ele não...
—- A Karina... quer dizer que ela botou o cara... pra correr antes que ficasse realmente feia a situação. – diz Pedro, interrompendo-a com suas frases quebradas devido aos gemidos de dor toda vez que respirava.
Ela parece lembrar do estado do ex-marido e sente o coração sufocar. Aperta mais a mão dele, querendo acalmar sua dor.
—- Certo. – resmunga Gael, a contragosto. Ele se levanta e vai até Douglas, que treme com sua proximidade. – Quero que você saia daqui imediatamente e que fique bem longe da minha família. Vai! – ele chuta levemente a perna do lutador, que se levanta de supetão, apesar da dor. – Vai logo se não eu vou chamar a polícia.
Douglas arregala os olhos e se apressa em sair dali, indo em direção ao hotel para pegar suas coisas.
Depois que Douglas finalmente sai dali, Gael ajuda Pedro a se levantar e todos vão com ele para o hospital.
—- Mas o que deu em você, meu filho pra se meter com um campeão de muay thai?! – pergunta Delma, depois que Pedro já fora examinado.
Ele não responde, apenas olha para Karina, que estava ao lado de sua mãe. Ela sorri, chorosa.
—- Ele colocou a Ka em perigo. – responde, ainda encarando a loira.
—- Mas a Karina é lutadora, você não!
Ele volta sua atenção para sua mãe, que tinha a testa franzida.
—- Tem coisas que não dá pra gente enfrentar mesmo sendo forte.
Delma fica ainda mais confusa, mas não fala nada.
—- Ta, já que você não quer me contar vou ali tomar um café. – ela arruma sua bolsa no ombro. – Cuida dele, Karina.
Karina assente enquanto sua suposta sogra sai do quarto. Ela se senta ao lado de Pedro. Ficara aliviada quando disseram que ele não tinha quebrado nada.
—- Eu nem acredito que você ta vivo. – fala ela, segurando sua mão e acariciando-a suavemente.
—- Acho que meu corpo amorteceu depois de tanto chute seu.
Ela faz uma risada irônica.
—- Vai brincando, vai... se meu pai não tivesse chegado... -- a lutadora trava, pensando no que poderia ter acontecido. – Eu falei pra você não fazer isso.
—- Eu faria de novo. Viu como deu tudo certo? – murmura o guitarrista, pegando a mão dela e beijando-a. – Eu faço tudo por você.
Ela sente seu coração pular no peito e os dois se olham por alguns segundos, até que ela se curva e lhe beija. Foi um beijo fofo, carinhoso, calmo. Bem diferente do que o costume, mas ainda assim com sensação um do outro. Uma das mãos dela fica agarrada em uma das dele, enquanto a outra se apoiava em seu pescoço, sentindo a dele acariciar seu rosto suavemente. Lágrimas se misturam ao beijo. Ela estava tão emotiva, tão sensível diante de tudo isso. Não poderia estar mais grata por ele. Tê-lo em sua vida era tão... era a melhor coisa. Trazia cor pra tudo que fazia, afastava seus pesadelos. Ela se afasta levemente, ainda respirando com dificuldade e próxima. Olha em seus olhos, querendo dizer tudo que guardava no peito. Que era dele, que o queria, que o amava.
Fale com o autor