Voltando para o Começo
21 Capítulo 21: Perco a cabeça quando estou com você
Notas iniciais
—- Falem alguma coisa! Que história é essa de vocês não estarem juntos? – pergunta Tomtom, confusa.
Pedro e Karina correm até ela, cada um segurando uma de suas mãos.
—- Por favor, Tomtom, não conta pra ninguém. – pede ele, preocupado.
A garota olha para ele e então olha para Karina.
—- Contar o quê? O que ta acontecendo?!
A lutadora engole em seco, sentindo-se culpada.
—- Tomtom, é que... é que a gente ta realmente fingindo um relacionamento. – admite, envergonhada.
—- Mas por quê? – a irmã de Pedro franze a testa. – Todo mundo sabe que vocês são o melhor casal que existe. Eu até cheguei a pensar que estivessem em crise, mas... separados? Isso é demais pra eu digerir.
—- É que... é uma longa história, irmãzinha. – fala o músico, coçando a cabeça.
—- Então me fala que longa história é essa, se não eu saio correndo daqui e falo pra todo mundo dessa mentira. Poxa Karina, eu pensei que você odiasse mentiras...
A loira se encolhe, se sentindo mal. – E odeio, Tomtom, mas... hoje em dia eu entendo que às vezes é necessário.
—- E qual seria a necessidade de fingir um casamento?!
—- A gente precisa ta junto pra adotar a Ana, se não iremos perder nosso lugar na fila da adoção, entende? Porque a gente deu entrada no processo adotivo quando estávamos juntos.
—- Então vocês realmente se separaram?
Karina consente. – Sim, há quase dois anos.
—- Dois anos? – repete a estudante, chocada. – Então quer dizer que foi perto de você ir pra Tailândia?! -- a lutadora assente novamente. – Ah então foi só a distância. Vocês podem voltar... por que vocês não tentam de novo?
A loira fica nervosa com a pergunta e Pedro decide tomar as rédeas da situação.
—- Não foi só a distância, eu a traí. – responde, sem preâmbulos, fazendo sua irmã encará-lo, chocada.
—- Como assim você traiu a Ka?! Você sempre foi louco por ela! Isso é mentira... nem com a Vicky você cedeu.
—- A Vicky faz anos... e as coisas mudam. – explica ele.
—- Nós não estávamos bem. – completa a lutadora.
—- E você ainda defende ele? Nada justifica uma traição! – grita a jovem, enojada, tirando as mãos dos dois de cima de seus braços.
—- Tomtom, a gente cresce e percebe que as coisas não são assim tão preto no branco como a gente pensa quando jovens.
A jovem escritora arregala os olhos para sua amiga, que tenta evitar seu olhar. Na verdade, provavelmente, ela nunca perdoaria Pedro se soubesse que ele a traíra, mas a situação não era exatamente o que eles pensavam, por isso era bem mais fácil falar sobre o assunto sem desejar socar a cara do guitarrista.
—- Eu sei que eu errei, maninha. Eu bebi demais, a gente tinha brigado... eu não lembro bem, mas...
—- Nossa, eu nunca pensei que você fosse fazer exatamente o que o papai fez. Você sentiu tanto ódio dele na época! – fala a cacheada, olhando-o com nojo e então, desvia o olhar para a amiga. – Vocês dois me decepcionaram.
Ela se vira para sair, mas Karina a para, segurando sua mão.
—- Por favor, Tomtom, não conta pra ninguém sobre isso. Precisamos fazer isso para termos nossa filha.
—- Tanto faz. Da minha boca vocês não vão ouvir nada, pode ficar tranquila. – diz Maria Antônia, se soltando do aperto da lutadora e saindo dali.
Pedro e Karina se olham, mas não falam nada, ele apenas sai correndo atrás da irmã.
—- Espera aí, maninha. Espera! – grita.
—- Esperar o quê? Você é um monstro, você não vale nada! – murmura a garota, com raiva.
—- Calma, pera lá, não é pra tanto!
—- Como não é pra tanto, Pê?! Você destruiu a melhor relação do mundo. Como eu vou acreditar no amor agora que Perina acabou?
Pedro encara a irmã e vê que ela estava chorando. Ela limpa suas lágrimas ao perceber que fora pega no flagra.
—- Não é o fim do mundo, maninha. As coisas não ocorrem como a gente espera, sabe. Finais felizes não existem, mas a gente bem tenta ser feliz o máximo que conseguimos. E isso já basta.
Ela nega com a cabeça. – Não. Não basta. Quem se ama deve ficar junto pra sempre.
—- Mas a gente não se ama mais. – afirma ele, duro, tentando não deixar transparecer que mentia.
Tomtom o olha nos olhos, tentando acreditar em suas palavras, mas não conseguindo.
—- Eu não ouvi vocês falando só sobre estarem fingindo. Eu também ouvi vocês discutindo sobre ficarem juntos de novo. – afirma, vendo-o travar.
—- Não, não. Você ouviu errado, Tomtom. A gente não tava falando sobre isso.
—- Eu não sou surda, maninho. Muito menos boba ou cega. Vocês ainda se olham da mesma forma. Ou vocês são melhores que a Meryl Streep em atuação, ou ainda tem coisa aí. E aquele beijo...
—- Ah, nem vem com essa. Eu e a Ka somos apenas parceiros nessa... pra tentar termos uma filha. – interrompe ele, nervoso.
—- E depois vocês vão fazer o quê? Vocês vão dividir a guarda que nem um casal divorciado?
—- Talvez. Ou talvez eu deixe a guarda pra ela.
—- Por quê?
—- Porque é o sonho dela e ela não pode ter filhos. – diz ele, como se fosse óbvio. – E... dessa forma eu ainda manteria contato com a Aninha.
A menina levanta a sobrancelha. – Viu? Você ainda gosta dela.
Ele não retruca, apenas a vê se afastar novamente e volta até Karina, na beira da água.
—- E aí, como foi? – pergunta a mulher, curiosa.
Ele suspira. – Ah, a Tomtom de sempre. Tentando bancar a cupida e criar história onde não tem.
Ela assente com a cabeça. – Acho que também vou falar com ela. Não gosto de decepcionar ninguém e a Tomtom sempre foi tão minha amiga...
A lutadora se levanta. Ela procura Tomtom no bar, mas vê que a menina não está lá, então corre para o seu quarto.
De fato, a aspirante a escritora estava lá, sentada chorosa no quarto em que dividia com sua mãe, René e seu namorado. Pobre Diego, estava lá sozinho na festa, sem saber por que sua namorada sumira. E sem saber também que no momento a menina estava abalada sobre suas crenças no amor. Karina e Pedro eram seu modelo de relação. Depois de seu pai trair Delma com sua professora de natação, havia sido difícil para a pequena acreditar no amor, mas Perina tinha mantido essa chama acessa. Tudo bem, hoje ela até mesmo namorava, mas ela não sentia nada similar ao casal que amava. Ela queria um romance lindo daqueles na vida e às vezes se sentia entediada naquela relação pacata com Diego.
A jovem seca uma lágrima. Estava tão triste e decepcionada, quase como se uma personagem houvesse morrido em algum livro. Também não pudera, era uma história de amor que ela acompanhara a vida inteira.
Tomtom interrompe seus pensamentos ao escutar alguém bater na porta. Ela atende, percebendo Karina à sua frente.
—- Oi, Tomtom. – a lutadora entra no quarto, mesmo sem um convite. – Eu queria ver como é que você tava.
A jovem levanta as sobrancelhas, tentando disfarçar o choro. – Já ta vendo.
—- Desculpa, amiga. É sério. Eu só to fazendo isso porque eu quero ter uma filha, sabe? Eu não queria mentir, de verdade. – desabafa a loira, sentando-se em uma das camas de casal. – Mas se a gente conta que separamos pra todo mundo, a vara da família vai descobrir e todo o processo vai ser colocado em risco. E aí eu vou perder essa chance... você viu a Ana, não? Ela é um amor...
—- Ela é igualzinha a você e o Pedro. – completa Tomtom. Karina nem precisa concordar, fica apenas em silêncio por alguns segundos. – Eu fiquei meio chateada com você sim, Ka, mas eu acho que te entendo. Só queria que Perina não tivesse acabado. – admite a jovem. – E foi meu irmão que fez as cagadas, como ele pôde?!
—- É... não foi bem assim. O Pedro exagera. – fala Ka, constrangida com o assunto delicado.
—- Então ele não te traiu?! – murmura a morena, animada.
A loira não fala nada, ficando em silêncio novamente.
Tomtom suspira, sentando-se ao lado da amiga. – Eu não entendo vocês dois. Vocês se olhando... parece até que...
—- Não parece nada, Tomtom. – corre em afirmar Karina. – Quer dizer... parece o que tem que parecer para as pessoas não desconfiarem. Mas eu e o Pedro não existe mais.
—- Mas por que vocês não... quer dizer, sei que o que ele fez não deveria ter perdão, mas...
—- Não. A gente não pode arriscar o processo adotivo por uma relação instável. – afirma Karina, tentando convencer mais a si mesma do que a antiga cunhada. – E o Pê também... ele não tem interesse...
—- E você? – indaga a cacheada, curiosa.
Karina olha para ela, tensa. – Eu também não. – se apressa em afirmar. – Eu também não quero mais nada com Pedro. Eu quero só adotar a Ana, voltar pro Rio com ela e o Flux, lutar no campeonato e morar perto da praia. Não quero mais romance na minha vida.
A mais nova não fala nada, apenas bufa, descrente de tudo que a amiga afirmava.
—- Então ta, Ka. Agora eu queria deitar, se você não se importa... amanhã eu falo com o meu amigo pra entregar seu sapato.
A lutadora concorda, retirando-se me seguida, logo após dar um beijo na cabeça da amiga.
No dia seguinte, pela manhã, Pedro olhava para o teto, os braços atrás da cabeça. Passara a noite inteira assim, pensativo. Ele olha para o lado, onde Karina estava deitada, de costas para ele, parte de suas costas expostas naquela camiseta cavada. Ele sorri, seduzido por sua pele, como sempre fazia quando não havia ninguém olhando-o. Aproxima seu corpo do dela, acariciando as costas da ex-esposa.
Se sentia muito mal depois do que acontecera, o olhar de decepção de Tomtom, comparando-o com o pai que ele por tanto tempo odiou. A culpa caiu em cima de si novamente, por ter traído Karina, por ter mentido e ainda mentir para todo mundo. Contudo, ver sua ex-esposa ao seu lado daquele jeito quase fazia-o esquecer-se de tudo. Ele poderia fingir pra si mesmo que tudo estava como há anos atrás, quando eles estavam casados e felizes, sem saber do problema de fertilidade, sem as mágoas e acusações.
Ele queria tocá-la e dizer coisas que não deveria, promessas incertas. Mas agora só o que ele podia fazer era observá-la adormecida e acariciar suas costas e cabelos enquanto ela sorria. Pedro beija seus cabelos e desce para os seus ombros, fazendo-a arrepiar-se, o sorriso ainda na boca. O músico nota sua reação e dá um longo suspiro que acaba fazendo com que ela acorde. A mulher se senta na cama.
—- Anh... Pedro? – pergunta a lutadora. Tinha quase certeza que sentira seu toque.
Ela esfrega os olhos, bocejando e ele se afasta rapidamente.
—- Ah... tinha... um mosquito no seu ombro. – inventa, sem olhar diretamente para ela, que franze a testa.
—- Mosquito de dia? – indaga, confusa e ele arregala os olhos.
—- Pois é, tem razão... talvez fosse uma mosca. – e ri nervosamente. – Bem... acho que... eu vou lá tomar café da manhã. – completa, colocando rapidamente seus chinelos e trocando a camiseta de forma desengonçada para sair logo dali.
Karina não consegue evitar encará-lo, absorta em seu abdômen, que agora já não era tão magro, mas mais definido. Ela não sabia como... ele não se exercitava. Anos atrás, ele até ajudava ela a treinar quando não tinha o que fazer, mas hoje ele não tinha motivos para colocar os pés em uma academia, até porque ele nunca fora fã.
Ela desvia o olhar rapidamente, indo para o banheiro se trocar.
Eles passam o dia inteiro na praia, curtindo o calor: Pedro, Karina, João, sua filha Julieta e o filho de Cobrade, Felipe, enquanto todo o resto do pessoal estava no spa. Karina até mesmo decidira fazer aulas de surf, algo que sempre tivera vontade, mas nunca tivera tempo. Pedro fica sentado em uma cadeira de praia, observando enquanto um loiro bombado a ajuda a ficar de pé na prancha, ali, na areia mesmo, testando seu equilíbrio. O rapaz coloca a mão na cintura dela e o guitarrista treme, fechando os punhos e endurecendo a face.
João, que estava ao seu lado, ri dele, divertindo-se.
—- Se eu fosse você não deixava o Ken em cima de sua mulher não.
Pedro olha para o amigo. – Eu... eu confio na Karina.
—- Ah sim, e ninguém ta vendo seu ciúme explícito...
O músico relaxa os punhos. – Não tem ciúme nenhum aqui, Johnny.
O ator ri e Pedro o fuzila com os olhos. – Ta legal. – ele levanta os braços em um sinal de rendimento e olha para sua filha e Felipe, brincando na areia, para então voltar a atenção para o guitarrista. – Só acho que é perfeitamente normal você ter ciúmes da sua Esquentadinha. Até porque... olha só para ela, em?! – diz, em tom malicioso.
Pedro se levanta ao ver que a lutadora ria de alguma coisa que o surfista dissera. E não era só Pedro que observava ela, se Bianca estivesse ali, João tomaria um belo tabefe por seu olhar secante sobre sua irmã, mas como não estava, quem dá um pescotapa no ator é Pedro.
—- Respeita a Karina! – ralha, irritado, enquanto o comediante protesta.
—- Era essa mesma minha intenção, ver o Pedrinho cheio de ciúmes. Agora age assim com aquele homem ali. Vai marcar território. – o rapaz aponta para o homem de peito largo que conversava com a suposta esposa de Pedro.
João dá um empurrão no amigo, fazendo-o quase cair de cara na areia. Ele olha para trás, irritado, mas o antigo viciadinho faz apenas um movimento de incentivo para que ele interrompesse a interação entre Karina e o homem na beira do mar.
O guitarrista bufa, cedendo, pensando que depois ele explicava que João que o forçara a fazer isso – quando na verdade ele realmente queria fazer alguma coisa sobre aqueles toques e olhares, por mais que mentisse para si mesmo que não tinha intenção de atrapalhar qualquer caso romântico da ex-mulher.
—- E aí, meu irmão, quer aprender um pouco de surf? – pergunta o surfista, vendo Pedro aproximar-se. O cara joga o cabelo molhado para trás e o músico precisa admitir que até ele se sentira atraído, o que o deixa ainda mais furioso. Ele ta dando mole para sua Esquentadinha!
Pedro olha para seu fórceps sarados e sua pele bronzeada de tanto tomar sol e engole em seco, inseguro.
—- O que você quer aqui?! – pergunta Karina, grosseiramente.
—- Ah... o João... me mandou aqui. – responde ele, nervoso.
—- Por quê? – pergunta ela e ele se aproxima, falando em seu ouvido:
—- Ele disse... ele disse pra eu vir marcar território. Que vocês estavam se engraçando um para o outro. – sussurra ele, enquanto ela o escuta, atenta e o loiro aguarda ao lado, inquieto. – E pra não levantar suspeita...
Ela se arrepia com sua respiração, mas continua enraivecida, empurrando-o para longe.
—- Já entendi, Pedro. Agora você diz pra ele que ta marcado o “território” e vaza daqui. – murmura, irritada, virando-se novamente para o surfista.
Pedro olha para trás e vê que João ainda lhe encarava, fazendo sinal para que ele avançasse no surfista. O guitarrista olha de volta para Karina, que voltara a conversar com seu professor de surf. O corpo sarado dela combina tanto com o dele... Pedro arregala os olhos, nervoso, sentindo o orgulho ferido.
Ele age rápido, puxando-a e lhe dando um longo selinho nos lábios. A mulher tenta afastá-lo, mas não consegue, seu rosto vermelho de raiva e vergonha.
O surfista ri. – Legal, casal, mas eu vim aqui pra ensinar surf, lembra? Depois você fica com o seu namorado.
—- Ele não é meu namorado! – corre em corrigir a loira, ofendida.
—- Verdade, eu sou é o marido dela! – afirma Pedro, abraçando ainda mais o corpo da mulher, que o cutuca.
—- Certo. Agora vamos lá, moça? A gente tem que entrar na água pra eu te ensinar a remar.
—- Ela sabe remar. Todo mundo sabe remar. – murmura Pedro, teimoso.
—- Eu to falando de remar sobre a prancha...
O guitarrista fica calado, envergonhado pela situação. Apenas concorda com a cabeça e larga a lutadora, voltando até João.
—- E aí, como foi lá? – pergunta o ator, animado.
—- Ah... tudo ótimo! Mas o cara é gente boa, foi um mal entendido. Ele é até gay, na verdade... – mente o músico.
—- Sério?! – murmura João, descrente. – Acho que não, em... ele deve ter te enganado. Eu vi ele pegando uma menina ontem lá no bar. Ela até era parecida com a Ka...
Pedro engole em seco, sentindo seu estômago borbulhar. Ele olha para sua antiga esquentadinha, sendo ajudada a levantar pelo surfista e a sente mais distante do que jamais sentira.
Mais tarde, Jade promovera uma grande festa. Ela dizia que aquela era uma “pré-festa” para o seu casamento, mas na verdade era mais uma balada mesmo, cheio de bebidas, roupas curtas e música bagaceira.
Karina estava sentada em uma mesa ao canto, atordoada com a música alta e emburrada por ter sido forçada a colocar um vestido minúsculo e justo demais, cheio de paetês pretos, exatamente o tipo de roupa favorito dela. Ela bebe um gole de sua cerveja, revirando os olhos, queria tanto ir para a cama dormir...
Pedro estava ao lado dela, tentando não olhar para suas pernas ou responder aos homens que lhe encaravam, tarados. Estava muito quieto, mas no fundo estava ainda mais irritado do que ela, uma carranca em seu rosto ao lembrar do surfista.
-- Pedro... não é? – pergunta uma voz familiar e o homem desperta, suavizando a expressão e olhando para o lado. Era uma garota baixinha, cabelos curtos, vestindo uma saia justa com fenda e lhe dando um abraço ao constatar quem era.
Karina se arruma na cadeira ao percebê-la, não se preocupando em disfarçar que lhes encarava.
O músico sorri ao se separar da moça. – Nossa, Gabriela, que surpresa te encontrar por aqui! – grita, tentando fazê-la escutá-lo apesar do barulho.
A garota que Pedro conhecera no supermercado sorri.
— Pois é! Lembra que eu falei... pra gente deixar o destino nos guiar? Então... parece que o destino quis que a gente se visse de novo. – Pedro sorri de volta.
—- Parece que sim. E você ta muito bem... – diz ele, olhando para a roupa dela.
Karina cerra os punhos ao ver sua olhadela, os dentes a mordiscar por dentro da boca, nervosa. O copo que estava em uma de suas mãos quase quebrando com seu aperto.
—- Você também não ta nada mal, em?! – prossegue Gabriela, erguendo os pés e se aproximando para que ele a ouvisse.
É o que basta para que Karina largue o corpo com agressividade sobre a mesa, despertando a atenção da moça.
—- Ah... você de novo?! – a moça do supermercado oferece a mão para a lutadora em um cumprimento que é totalmente ignorado por esta.
Karina apenas a fuzila com os olhos, como uma leoa protegendo sua caça. No caso, a caça seria Pedro.
Gabriela ri, nervosa. – Ela é sempre assim, Pedro?
Pedro, vendo a irritação da ex, decide provocá-la. – Sempre. Essa daí não tem bom humor... – murmura, olhando Karina nos olhos; nos seus, deboche.
—- Mas que estranho... vocês estão sempre juntos. O que vocês são, mesmo? – pergunta a moça, desconfiada.
O guitarrista coça a cabeça, incerto sobre o que dizer, mas quando vê Karina abrir a boca, corre em contar:
—- Nós não somos nada.
—- Nada? Tem certeza? – pergunta a garota, olhando pelo canto de olho a lutadora quase queimá-la com os olhos.
—- Ah... a gente tem uma história meio complicada. Mas romanticamente não temos nada.
Karina encara-o bem ao ouvi-lo dizer isso e é o que basta para que ela jogue o copo no chão, enraivecida, quebrando-o e fazendo várias pessoas olharem para ela, inclusive Tomtom, Jade e Pedro. A lutadora vê que chamara a atenção e então sai correndo dali.
—- Acho que ela não gostou de você dizendo que não tem nada... – murmura Gabriela e Pedro não diz nada, apenas vai atrás de sua Esquentadinha, arrependido.
Karina estava na rua, socando a parede com tanta raiva que nem sentira a dor nos punhos machucados.
Pedro aparece, segurando a mão dela no ar quando ela vai dar outro soco.
—- O que é isso, Karina?! – pergunta ele, irritado.
Ela puxa seu braço pra fora da mão dele. – Me deixa! – grita, empurrando-o com tanta força que ele cai no chão.
Ele vê seus olhos escorrerem lágrimas.
—- Ah qual é! Fala comigo, porra! – murmura ele, levantando-se.
—- Por que você não fala com a sua querida Gabriela?! – diz ela, sarcástica.
—- Minha?! Ela não é nada minha. – corrige o homem.
—- Exatamente como eu, não é?!
—- Romanticamente, é! – afirma ele. – Nada de romance, lembra?
Ela suspira. – Claro que eu lembro, você me lembra isso de cinco em cinco segundos! – ela grunhe de ódio e ele a olha, confuso.
—- Por que você ta com tanta raiva assim?
—- Porque eu vou perder a Ana por causa de um babaca feito você. – responde ela, desesperada, os olhos pingando lágrimas. Pedro sente o coração partir ao vê-la assim. – Porque você não pode sair simplesmente dizendo para as pessoas que a gente não tem nada só pra ter um par de peitos pra pegar à noite!
Ele se assusta com a agressividade em suas palavras, ela geralmente deixava para ser agressiva com os punhos.
—- Se você fizer isso, ou eu vou ser a corna da família ou... adeus adoção.
O músico olha para baixo, pensativo. Sentia-se culpado, mas sentia ainda mais era raiva.
—- Se faz de santa, mas também fica se jogando para os caras. Isso pra mim se chama hipocrisia! Bastou o surfista aparecer que já se derreteu toda, na frente do João, das crianças... o Johnny ficou me atiçando o tempo inteiro e você nem pra ajudar!
—- Atah! Eu não tava flertando com ele!
—- Não? – pergunta ele e ela nega.
—- Nenhum pouco! – afirma a moça, sacudindo os braços como se fosse batê-lo.
Ele segura os braços dela em resposta.
—- Me larga, seu idiota! – pede ela, bufando enquanto olha em seus olhos. – Eu não ia deixar de surfar só por causa desse seu orgulho de macho escroto.
Pedro começa a respirar pesadamente para tentar acalmar a raiva e ela se assusta.
—- Me solta! – grita novamente, se desesperando.
Ele larga o aperto, colocando as mãos na cabeça em seguida.
—- Ah, Karina, por que você tem que ser tão burra?! – murmura, meio baixo.
—- Burra?! Eu? – ela nem acredita que ele a chamara disso.
—- É. Você. – e então empurra o corpo dela contra a parede.
A lutadora fica tensa novamente, a respiração incansável, os olhos arregalados olhando para os dele, em busca de uma explicação para aquilo. Seu peito batia tão alto e rápido que ela podia escutá-lo.
—- Como você não percebe, em?
Ela coloca as mãos no peito dele, tentando empurrá-lo, mas não se esforça muito para isso, querendo ver até aonde aquilo iria.
—- Percebo... o quê? – indaga, lentamente, absorta em seus olhos.
—- Percebe que foda-se a Gabriela, foda-se esse surfista... olha pra gente.
Ela de fato olha, olha para o peito dele sob seus dedos, suas pintinhas, seu maxilar – tenso, no momento --, seus lábios grossos. Ela ofega, se lembrando de todas as vezes em que ele a deixara assim naquela viagem, para depois sair correndo fingindo que nada aconteceu.
—- De novo, néh? De novo você e seus joguinhos... – murmura, magoada, enfim empurrando o corpo dele pra longe. – Me provoca, me deixa confusa e depois sai. Nada de romance. Frouxo.
Ele engole em seco, seus olhos sem desgrudar dos dela em nenhum segundo.
—- Não me chama assim... – pede.
—- Frouxo.— repete a moça. – É isso que você é. Fazendo gato e sapato de mim, achando que pode vir aqui e mexer com minhas estruturas. Não tem mais Perina! – ela gritava tudo aquilo, sem ligar se alguém os ouvisse, pensando – quer dizer, não pensando – apenas nos sentimentos que preenchem seu peito: raiva, mágoa, paixão, ira.
Ele fica furioso, empurra o corpo dela contra o muro novamente, dessa vez cobrindo sua boca com a mão.
—- Shh... não fala isso.
Ela morde a mão nele, fazendo-o tirá-la dali e soltar um palavrão.
—- Por quê? É a verdade!
—- Porque as pessoas vão escutar. E também... – ele olha nos olhos dela. – porque dói.
Ela ri, assustando-o, e quando olha para os lados, nota que está encurralada contra a parede.
—- Me deixa sair. – manda.
Ele nega com a cabeça, sério e ela tenta empurrar ele, que não cede. A lutadora o olha com fúria e começa a socar seu peito.
—- Me deixa, Pedro! Me deixa! – murmura, sem parar de socá-lo. Ela era lutadora, sim, mas quando estava com ele seu soco era de uma pobre menina. Ela não conseguia mais usar força bruta com seu ex-marido. – Eu te odeio.
—- Eu quem odeio. – rebate o guitarrista e ela lhe dá um empurrão, fazendo-o desequilibrar e cair, mas não sem antes puxá-la junto. Ela arregala os olhos ao ver que estava em cima dele, o vestido minúsculo que vestia subindo por suas coxas. – Eu odeio tudo que você faz comigo. – completa ele, trazendo a atenção dela para si.
—- Foda-se. – murmura ela, para então grudar seus lábios nos dele.
Uma mistura de sentimentos permeia o coração de ambos e esses sentimentos são todos depositados no beijo, não deixando-os pensar direito, apenas agir. Foi um beijo furioso, assim como fora seu primeiro há anos, no show do NX Zero. A rapidez dos movimentos surgindo pela saudade e necessidade do corpo um do outro. Os braços dele, agarrados no vestido dela, levantam-no um pouco demais e isso é o que desperta a sanidade dela, que se afasta, ofegante e arrependida.
Ela se levanta do chão, arrumando sua roupa.
—- Não, não... isso não devia acontecer... – murmura, com a mão na boca.
Pedro também se levanta. – Eu sei... a Ana...
—- Não só a Ana. Tudo. A gente é toxina um para o outro, Pê. – diz ela, irritando-se. – Droga, por que você faz essas coisas...
—- Que coisas? Foi você quem me beijou. – afirma o rapaz, irritado.
Ela fecha a cara. – Mas você quem fica me agarrando!
—- Claro, você é uma descontrolada! – rebate o músico e é o que basta para ela avançar contra ele, de punhos fechados. Ele segura suas mãos no ar.
—- Eu conheço todos os seus golpes, Karina. – murmura, empurrando-a novamente contra a parede e agarrando suas mãos por sobre sua cabeça. Ela arregala os olhos e vai sinalizar um não com a cabeça, quando ele pesca seus lábios novamente e larga suas mãos, para se direcionar para sua cintura.
Ela se entrega novamente, agarrando sua camiseta e aproximando seu corpo ainda mais, quase fundindo-se nele. Larga sua roupa e sobe suas mãos até o cabelo dele, que é puxado com forçado enquanto suas bocas se sentiam. O sentimento de raiva se transforma em calor e paixão. Eles sentem cada parte de seus corpos ocupadas um pelo o outro, nenhum centímetro estava livre de seus toques. As mãos dele, que passeavam por sua cintura, descem até suas pernas e ele a ergue, fazendo-a agarrar seu corpo, sem se importar com a exposição que o vestido curto causava.
Karina estava em chamas, seu corpo puxando o dele para perto e mais perto, seus dentes mordiscando a boca dele, cada vez mais sedenta. Ela sente o volume em suas calças, enquanto suas bocas continuam batalhando, naquele calor infernal que preenchia seus corpos.
—- Karina... – chama uma voz, e a lutadora empurra Pedro para longe, ajustando seu vestido rapidamente. Jade ri baixinho deles. – Pós DR é sempre bom, néh... vocês ainda parecem aqueles jovens safados. – a lutadora enrubesce. – A Tomtom tava te procurando, mas acho que o que ela quer pode ficar pra depois... – diz a dançarina, maliciosa, piscando e entrando para dentro novamente.
Karina olha para Pedro, apavorada e ofegante.
—- Eu... eu vou pro quarto... dormir. – murmura, fingindo que nada acontecera.
Ela sai dali às pressas e ele não vai atrás dessa vez, fica na festa por mais uma horinha, forçando-se, mas não fala com ninguém direito, absorto em seus pensamentos. Depois de pouco tempo ele acaba decidindo ir dormir também.
Karina estava deitada, mas seus olhos estavam bem abertos. Ele se deita do lado oposto, os dois de costas um para o outro, em silêncio, até que se viram ao mesmo tempo e se encaram por alguns segundos. Rapidamente, Karina engatinha até Pedro, subindo em seu colo enquanto os dois engatam novamente em um beijo voraz. Ele agarra sua cintura com força e puxa seu vestido para longe enquanto ela faz o mesmo com a camiseta que ele vestia. Unem seus lábios novamente, ansiosos, calorosos. O rapaz desce sua boca para o pescoço da moça e é aí que tudo vai por água baixo.
Karina trava, sentindo sua espinha gelar, seu coração falhar e seu estômago roncar, enjoado. A loira empurra Pedro para longe, afastando-se como se fosse uma presa, para a ponta da cama, onde se encolhe, os braços agarrados nas pernas, cobrindo seus seios nus. Ela começa a chorar, o ar parecendo não entrar em seus pulmões. Inspira, expira, inspira, expira...
—- Ka... – chama Pedro, preocupado, mas ela não responde, a expressão de pavor em seu rosto deixando-o confuso. – Ta bem, Karina?
Ela não consegue responder, absorta em tentar respirar. O músico lhe abraça, tentando acudi-la. Ela olha para o peito nu dele exposto e só consegue se lembrar daquele dia, daqueles toques indesejados enquanto ela dormia, ela dizendo não de novo e de novo sem ser ouvida.
—- Não... – murmura, sem raciocinar direito.
—- Não se preocupa, Ka. Eu não vou fazer nada. – com isso, ela se debulha ainda mais em lágrimas, agarrando-se ao seu pescoço enquanto tentava respirar à todo custo.
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