Voltando para o Começo
17 Capítulo 17: Eu tava cansada de ser louca assim sozinha
Notas iniciais
—- Pedro, olha o que você fez?! – diz Karina, dando tapas no peito do ex-marido, incansavelmente.
Pedro arregala os olhos. – Mas eu não fiz nada, foi você quem fez... uma tatuagem. – diz, lembrando-se da noite anterior. Ele lembrava de tudo, afinal, dificilmente tinha amnésia alcóolica, exceto naquela noite do camarim...
“—O que vocês tão fazendo aqui no meio da madrugada? – pergunta Francisco, esfregando os olhos.
Karina se joga aos pés dele, se ajoelhando no chão.
—- Por favor! Por favor me tatua. – implora, e o tatuador olha para Pedro, confuso.
—- Agora, moça...?
—- Sim! – ela abre a bolsa de festa que Jade a forçara a usar, tira sua carteira e um cartão lá de dentro. – Te pago mil reais!
—- Mil reais? Você vai tatuar o corpo inteiro?! – pergunta o homem, apavorado.
Ela nega com a cabeça. – Não... um P, aqui. – e toca na própria nuca.
O homem ri, nervoso.
—- Que nem seu marido? – pergunta, apontando com a cabeça para Pedro.
Ela nega novamente. – Não. O Pedro tem um K, eu quero um P.
O guitarrista ri, bobo, seu corpo quase caindo de sono.
—- Isso é muita loucura. Acho melhor vocês irem para o quarto e se deitarem. – pede Fran, mas ela se levanta, irada e lhe agarra com uma chave de braço. – Agh... para com isso. – diz ele, tentando respirar.
Pedro se aproximar, tentando tirá-la dali, mas ela é insistente.
—- Para, Esquentadinha, vai matar o homem.
—- Só se ele me tatuar. – pede ela, irredutível. Francisco ergue o polegar em um sim e ela solta o rapaz, que ofega, apavorado.
Depois disso ela se deitou de bruços na maca enquanto Pedro segurava firmemente na sua mão e o homem tatuava sua nuca. Ela treme com o contato da agulha, mas relaxa logo após e rapidamente o rapaz termina seu trabalho.
—- Certinho. – diz, ajudando-a a se levantar e mostrando o desenho com um espelho.
Ela dá um gritinho e pula de alegria, agarrando Pedro pelos cabelos e lhe dando um selinho nos lábios. Tira o cartão e tenta passar na máquina, mas não consegue acertar o buraco, bêbada e tonta como estava.
—- Deixa assim... como presente pro casal. – diz o tatuador, vendo que ela não conseguiria nem mesmo digitar sua senha e com medo de seu gênio forte.
Ela abre um sorrisão e abraça o homem antes de sair dali de braço dado com Pedro.”
Agora, ela choramingava: -- Meu Deus, o que eu vou fazer? Meu cabelo não cobre a região como o seu... – ela puxa seu pequeno cabelo na altura das orelhas.
Ele não consegue segurar o riso e ela lhe dá outro soco no peito.
—- Para!
—- Ah, desculpa... – diz ele, passando a mão aonde ela batera. – Mas é que você disse que “nunca faria uma burrice dessas”, lembra? – ironiza.
Ela fica vermelha de vergonha e também de raiva.
—- Isso não vem ao caso agora, Pedro! A questão é que eu preciso esconder isso imediatamente... eu não tenho cabelo comprido que nem você.
Ele ri de novo e ela começa a tapear o seu corpo até que ele caia na cama, o corpo dela por cima. Ela para, de olhos arregalados ao constatar aonde estava sentada.
—- Ah... de novo vocês brigando?! – murmura uma vozinha, saindo do banheiro.
Karina se levanta do colo de Pedro abruptamente, arrumando sua postura ao ver que Ana havia deitado na cama de solteiro ao lado.
—- Ana?! – pergunta Pedro, lento.
—- Sim, vocês me arrancaram lá do quarto com as outras crianças ontem à noite, não lembram?
Karina franze a testa, mas assente, enquanto Pê esfregava seus olhos, aéreo ao tentar se lembrar:
“Ela empurra ele contra a parede do corredor e lhe dá um beijo, mas não dura muitos segundos, ela se afasta, com a mão na boca devido ao enjoo. Ele, mais sóbrio que ela, decide pegá-la no colo e levá-la para o quarto. Coloca-a na cama ao chegar, mas ela segura a mão dele antes que voltasse para fechar a porta.
—- A Ana! – diz a garota, colocando a mão na boca.
Ele franze a testa. – O que tem a Ana?
—- A gente esqueceu dela. – ele abre a boca para explicar que ela na verdade ficaria no quarto 138 com as outras crianças, mas ela já tinha se levantado e corrido para o corredor, seu corpo, tonto, andando em ziguezague.
—- Espera, Ka. – pede ele, pegando seu braço e colocando sobre seus ombros.
E assim eles vão aos tropeços para o quarto das crianças.
Chegando lá, Karina bate forte na porta.
—- Filha! – grita e Pedro coloca um dedo sobre a boca dela, pedindo silêncio.
A porta abre, uma mulher com expressão irritada lhes encarando.
—- O que foi? – sussurra, olhando para os dois lados do corredor. Karina ri na cara dela. – Façam silêncio pra não acordar os bebês...
A lutadora coloca o dedo na boca, fechando-a como um zíper.
—- Desculpa, a gente só queria levar a Ana. – diz Pedro e a mulher trava.
—- Mas como vou saber se vocês são os responsáveis dela? – pergunta.
—- Quem é? – pergunta uma vozinha, e Ana surge ao lado da mulher, os olhos sonolentos sendo esfregados.
Karina chora ao vê-la e se agarra ainda mais em Pedro, se pendurando em seu pescoço. Ana encara-os, confusa.
—- Pedro e Karina? – pergunta.
—- Eles são seus pais, menininha? – indaga a babá e a pequena hesita, confusa com essas nomeações.
—- É... eles tão cuidando de mim. – explica.
—- Certo. Eles querem te levar pro outro quarto.
Ana assente e pega na mão de Pedro, que custava a conseguir segurar Karina. A mulher coloca a mochila na menina e os três saem dali. Chegando ao quarto, Ana foi direto para sua cama, confusa sobre o estado de seus tutores e Karina arrancara a roupa de seu corpo de qualquer jeito, fazendo Pedro ter que correr atrás de uma blusa sua para vesti-la. Depois disso, ela se joga na cama e ele vai ao lado dela. Ela sorri de lado, zonza e desabotoa a calça dele, mas ele segura suas mãos, parando-a.
—- A Ana, Karina. – explica e a mulher arregala os olhos ao lembra da presença da garotinha, se deita, escondendo o rosto debaixo das cobertas. Ele ri, seguindo-a, e encara seus olhos em meio a escuridão levemente clareada pela lua.
Ela aperta as bochechas dele com os dedos e começa a desabotoar sua camisa. Ele segura sua mão novamente, parando-a.
—- Ka... – pede, e ela o olha com inocência.
—- Não é sexo, só queria dormir no seu peito como antes. – diz e ele permite então que ela desabotoe, para enfim se aconchegar no seu corpo, beijando todo o caminho do seu pescoço até seu abdômen. Ele treme, tentando acalmar seu apetite sexual, mas ela para e acaba adormecendo ali, em seus braços novamente. Ele sorri, abraçando mais o seu corpo, o torpor do álcool logo o levando a dormir também.”
—- Aliás, vocês estavam fedendo demais e não paravam de se agarrar. Era nojento e estranho. – murmura Aninha, fazendo-o voltar a realidade.
A loira olha para o guitarrista, que estava com os olhos arregalados.
—- Eu... eu não fiz nada, Karina. – se defende, colocando as mãos para o alto.
Karina o fuzila com o olhar.
—- Nossa... vocês continuam com aquele cheiro... – murmura a pequena, fazendo careta e abanando na frente do nariz.
Ka cheira a si mesma: álcool.
—- É que nós fomos tomar banho na praia, aí fedemos a peixe. – mente o rapaz.
—- Não, o cheiro não era esse...
—- Aninha, minha linda. Por que você não se veste e vai descendo pro café-da-manhã? Eu e o Pedro já vamos. – interrompe Karina, correndo para a mala da menina e pegando uma jardineira jeans.
Ela entrega a roupa para a menor, que ergue a sobrancelha, mas vai para o banheiro se trocar e depois sai do quarto.
—- O que foi isso, Ka? – pergunta o músico, se levantando da cama. – A gente não pode deixar essa menina sozinha.
—- Eu sei, Pê, mas eu preciso que você me ajude a cobrir essa... essa coisa, antes de descer. Não quero nem que ela veja, se não vai ter que mentir por nós.
—- Como assim: nós?— pergunta o guitarrista, confuso.
—- Ta legal: por mim. – corrige a mulher.
—- E como você pretende esconder seu pescoço o resto da vida, o maluca?
Ela pensa um pouco. – Ah sei lá... depois eu vou lá e cubro com alguma coisa ou deixo o cabelo crescer. – explica, apesar de não crer muito nisso. – Agora me ajuda... vai lá embaixo e compra um lenço pra mim.
Ele franze a testa.
—- Mas ta mó calor...
Ela lhe dá um tapa na cabeça. – Foda-se que ta calor. É só pra cobrir a tatuagem, oh inteligência.
Ele acaricia aonde ela batera.
—- Não precisa partir pra agressão, Esquentadinha. Eu só tava me perguntando que desculpa você vai dar pra se vestir assim.
Ela hesita.
—- Ah... eu... eu digo que tô doente. Com dor de garganta!
Ele assente, por mais que não acreditasse que aquela fosse uma boa ideia, ia só chamar mais atenção para a tatuagem. Mesmo assim, ele arruma sua roupa e sai em busca do tal lenço.
Enquanto ele vai lá, ela decide entrar para o banho e tirar aquele cheiro horroroso de areia, sal e vodka do corpo.
Ele volta rápido, trazendo um lenço rosa com flores por cima do ombro.
—- Ka? – chama, mas como não é respondido ele crê que ela já não está mais no quarto. A maluca deve ter desistido dessa ideia de esconder o pescoço em um calor de 50 graus.
Ele tira sua roupa formal, jogando-a no chão e pega uma toalha na mala.
—- Agora eu te confesso o quanto eu já sabia...— cantarola Karina, saindo dançando do banheiro, uma toalha enrolada no corpo ainda molhado.
Pedro se vira ao ouvir sua voz, e ela o vê bem na hora em que seus corpos se tombam. Arregala os olhos e, em meio a sua confusão, sua toalha cai.
Ele olha para ela: nua, molhada, os olhos azuis quase saltando das orbes, sua mão apoiada no peito nu dele.
—- Er... – murmura a mulher, e se agacha, pegando rapidamente sua toalha do chão e cobrindo a parte da frente de seu corpo. – O que cê ta fazendo, Pedro?! – grita, irritada.
Ele engole em seco e dá um passo para trás, esquecendo-se da mala no chão e caindo. Seus pés engancham nos dela no processo e ela acaba caindo sobre ele. Entre eles: apenas a toalha branca do hotel e a pequena cueca dele.
Os dois se encaram, as mãos do rapaz envolvidas nela, tocando em suas costas, seus olhos captam todos os detalhes dos dela: o azul virando verde em alguns pontos, a pupila escura e dilatada direcionada para a boca dele. Ele prende a respiração, tenso, seu corpo inteiro ciente dela novamente, como um dependente químico que volta a ter contato com seu vício. Sua pele se arrepia até nos dedos do pé. Ela nota, seu corpo imitando o dele, seus peitos enrijecidos como se sentissem falta de calor, calor dele, sua boca tremendo, como se para chegar mais perto.
Ele volta a respirar, ofegante – ele diria que por prender o ar, mas na verdade era pela proximidade. Ela apruma sua cabeça para mais perto, em direção a boca dele, mas ele pisca os olhos, entendendo a situação, e empurra o corpo dela para o lado.
Ela bufa, cobrindo a nudez com a toalha quando seu corpo dizia para fazer o contrário, descobri-lo. Ela afasta a ideia que seu corpo lhe passava, irritada.
—- Idiota! Não viu que eu tava no banho, não?! – murmura, a voz trêmula pelo que passara.
Ele se levanta, ignorando-a e pegando qualquer roupa de dentro da mala. Vai em direção ao banheiro, mas para, virando-se para ela.
-- Não esquece do nosso combinado... sem romance. – e sai para o banho, fechando a porta atrás de si com um baque.
Ela pega um travesseiro e se permite gritar nele. Quem ele pensa que é? Óbvio que eu lembro do combinado! Era só ele não surgir daquele jeito... cheio de mãos bobas e peito sarado. Ela sacode a cabeça. Burra. Ta se iludindo, Karina, pensando que ele quer alguma coisa mais com você.
Na verdade, pensa ela, mesmo se ele quisesse eles não deveriam. Pelo bem da Aninha. Isso, pelo bem da Aninha eles não podiam complicar mais as coisas.
Depois de alguns minutos, Karina e Pedro finalmente descem para o café-da-manhã. Ela vestia uma regata preta, shorts jeans e o lenço rosa que ele comprara – ela o fuzilara com os olhos ao constatar o modelo que comprara, totalmente o oposto de seu estilo, mas acabara tendo que vesti-lo mesmo assim, no desespero.
-- Ah, finalmente chegou o casalzinho. – diz Bianca, quando os dois vão ao encontro de todos na grande mesa de café da manhã. Ela aponta para dois lugares vagos ao seu lado.
Karina e Pedro se sentam, tensos, Aninha do outro lado, atracada em um sanduíche, sem prestar atenção nos dois.
Jade franze a testa para o visual da amiga.
—- Ta com frio, Karina?! – pergunta Cobra, irônico.
Ela sorri, constrangida. – Ah... eu to... acordei com dor de garganta hoje. – murmura, fingindo uma tosse – mas ser atriz não era seu forte...
—- Poh Karina, não sabia que você tinha mudado tanto o seu estilo lá na Tailândia. Quer dizer: rosas e flores... pensei que seu estilo fosse mais... básico. – fala Jade.
A lutadora revira os olhos para ela, pegando a jarra de suco e servindo-se.
—- O Pedro, esse maluco... pedi pra ele algo pra mim me cobrir devido a... dor... na garganta, e ele trouxe esse lenço fru-fru. – explica-se, sem olhar ninguém diretamente nos olhos para não ser pega na mentira.
—- Dor de garganta, sei... parece até que levou um chupão. – resmunga João, colocando uma garfada de omelete na boca.
Bianca sinaliza para que ele fique quieto, Pedro arregala os olhos e Gael, do outro lado da mesa parece despertar, largando firmemente seu copo na mesa. Todos os olhares se desviam para ele, esperando um grande surto, mas ele fica sério por um tempo e então, solta uma gargalhada.
—- Minha filha não tem idade pra isso não, João. Ela já é adulta, tem sua própria família e é muito responsável pra fazer burrice de adolescente. Meu genro, por sinal, cuidaria dela pra que não acontecesse uma bobagem dessas.
Karina e Pedro se olham. Muito responsáveis, os dois. O músico ri nervosamente.
—- É... o mestre tem razão. A Ka só ta com... dor de garganta mesmo.
—- Estranho... você parecia bem hoje mais cedo, quando tava gritando com o Pedro. – murmura Aninha, inocentemente, enquanto escolhia um morango e o colocava na boca.
A loira treme nas estribeiras e sente uma mãozinha puxar o lenço de seu pescoço e sair correndo dali.
—- Miguel! Miguel, meu amor, não faz isso com a sua irmã, filho. – ralha Dandara, puxando o garoto para perto de si e entregando o lenço de volta para Karina.
Mas, antes que a lutadora tivesse tempo de pegar a peça de volta, Bianca move sua cadeira para trás e dá uma espiada em sua nuca, arregalando os olhos ao constatar o que sua irmã escondia.
—- Que foi, Bi?! – pergunta Gael, tenso ao ver a expressão da filha.
A atriz relaxa sua expressão. – Nada pai, relaxa. – e toma seu café, quieta.
—- P. – murmura uma vozinha, chamando a atenção de todos. Era uma criança do hotel, com uma mãozinha agarrada na mão uma mulher e a outra apontando para as costas de Karina, que cobre a nuca. O pequeno menininho, recém aprendendo o alfabeto, ri e repete: -- P.
—- Que brincadeira é essa? – indaga Gael, se levantando.
Karina, ainda cobrindo a tatuagem, se levanta também. – Nada não, pai. – e finge uma tosse. – Eu só vou... indo. – ela caminha de costas, enquanto Pedro também se levanta. – Minha garganta ta doendo tanto... acho que vou pro quarto e passar o resto da vida lá.
Ela se vira para sair correndo, mas seu pai é mais rápido e segura seu punho, tirando-o dali e expondo a todos sua nova tatuagem. O mestre fica boquiaberto por alguns segundos, todos na mesa observando sua reação.
—- Mas que porra é essa?! – grita ele, esquecendo-se de todas as pessoas, inclusive crianças, presentes.
—- Gael, olha a boca! – repreende Dandara, se levantando também e indo acalmar o marido.
—- Desculpa, amor, mas... – ele diminui o tom de voz. – Karina, o que você andou fazendo?! – e vira o corpo da filha para si, vendo sua expressão de pavor no rosto.
—- Relaxa, Gael, isso é só... bobagem de jovens. – tenta apaziguar Delma, também se aproximando.
—- É. Minha mãe ta certa, mestre. – murmura Pedro.
—- Cala a sua boca, Capiroto! A culpa é toda sua. – o professor de muay thai olha para seu genro – que costumava ser – querido.
—- Minha? – indaga Pê, confuso. – Eu não tenho nada a ver com isso. Essa louca aí que quis fazer uma homenagem...
—- Atah! – interrompe Karina. – Agora a culpa é minha? Você quem começou fazendo a sua!
—- A dele? Como assim? – pergunta Delma confusa. Involuntariamente, o rapaz coloca a mão sobre o cabelo que cobria sua tatuagem.
Delma vai até ele, rápida, e puxa o cabelo do garoto para cima, mostrando o “K” estampado ali. Ela coloca a mão na boca.
—- Não acredito que vocês dois possam ser assim tão imprudentes! Já não são tão jovens assim pra esse tipo de coisa...
—- Ah também não é assim, gente. – começa Lucrécia. – É romântico. Pode ser burrice, mas é romântico.
—- Sim. Você se lembra de quando a gente bebia e saia por aí se declarando pra meio mundo... – começa a contar Edgar, empolgado.
-- Poh, Cobra, você nem pra fazer uma dessas em homenagem a mim... – resmunga Jade, cutucando o noivo.
-- Viu? Ta sobrando até pra mim... – protesta o lutador, largando seu garfo e faca na mesa.
-- E como que isso foi parar aí da noite para o dia? – se pergunta Tomtom, fazendo todos pensarem.
-- Er... desculpa. – diz uma voz na mesa vizinha, e então uma figura se levanta: Francisco. – Essa moça apareceu ontem no meu quarto chorando, pedindo pela tatuagem.
Karina cora.
-- Como assim...
-- Eu tava bêbada, pai. – explica ela, antes que ele terminasse a pergunta.
-- Mas então o Pedrinho não tatuou ontem? – indaga Dandara.
O guitarrista nega, engolindo em seco.
-- Eu fiz quando a Ka viajou... também bêbado.
-- Ah mas alguém faz o favor de nunca mais deixar esses dois beberem. – diz Joaquina, rindo com Lírio, mas param ao verem que todos estavam sérios.
-- Deu pessoal, já deu. – interrompe Bianca. – Tenho certeza que o Pedro e a Karina... fizeram isso no impulso. Acontece, pai.
-- Acontece? Mas isso... mas isso é uma tatuagem, é pra sempre! Eu sempre disse que nunca ia admitir piercings e tatuagens. Muito menos uma tatuagem com o nome desse guitarrista dos infernos!
-- Tecnicamente, não é o nome, é só uma letra. – corrige João, e sua esposa sinaliza novamente para que ele fique quieto.
-- Pai, eu... er... eu... – Karina se enrola toda para falar. – Eu sei que foi idiotice fazer isso, mas...
-- Mas a gente se ama demais, seu Gael. E depois de beber, a gente acabou fazendo essa besteira. Nosso amor não cabia no peito e teve... que ir pra pele. – interrompe Pedro, surpreendendo a moça.
Gael faz uma cara de enojado.
-- Escrevesse de caneta, na folha, na parede, em uma música... mas na pele, Capiroto?
-- Desculpa. – diz o guitarrista. – Mas agora já foi.
A pequena Ana, se esforçando para entender sobre o que eles falavam, se levanta.
-- O que tem, seu Gael? Eles só desenharam. Eu também gosto de rabiscar na Luísa lá do abrigo. Eu rabisco porque gosto dela. Acho que a Karina e o Pedro também se gostam, apesar dos socos e gritos.
-- Eu... eu... – o mestre fica sem palavras ao ver a pequena fechar a cara para ele, até que solta um suspiro. – Ta legal... vocês venceram. O que eu poderia fazer mesmo, néh? Vocês já são adultos e essa coisa não sai assim da pele... Mas vou continuar achando essa a maior burrice que vocês já fizeram.
-- Ah pai, para com isso. O Pedro e a Karina são inseparáveis, nunca terminariam ou deixariam de se amar, ou nada do tipo. – diz Bianca, fazendo os dois se olharem, envergonhados pela mentira que escondiam.
Até que o celular de Ka toca, e ela corre para atender ao constatar quem que ligava.
-- Sim. O quê? Hoje? ... Não, claro, a gente... a gente ta no... spa, com ela. Isso, ela só vai terminar a massagem, aí vamos para casa, tomar banho, comer, pegar as coisas e... em 8 horas estamos aí. – ela faz uma pausa, escutando e Pedro vai para o lado dela, curioso. – Sim, eu sei que 8 horas é demais. Chegar antes das 16 horas? Tem que ser mesmo? Ahn... eu te ligo, pode ser?
Ela desliga a ligação, Pedro observando-a, confuso, a expressão perguntando silenciosamente quem era.
-- Era do abrigo. – ela responde. – Precisamos levar a Ana o mais rápido possível pra São Paulo. Parece que houve uma confusão na liberação.
Ele arregala os olhos, mas Jade surge às suas costas.
-- Não se preocupa, lutadora, tenho um jeito de você chegar rapidinho em Sampa.
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