Voltando para o Começo
18 Capítulo 18: Quando não houver esperança
Notas iniciais
O jeito “rapidinho” que Jade falava era de jatinho. Sim, eles estavam indo de jatinho para São Paulo, o jato luxuoso que Cobrade ganhara para ir para a lua de mel, de um ricaço que Cobra conhecera no ramo da luta. Pedro tenta a todo custo disfarçar suas mãos trêmulas de medo enquanto Ana observava a vista com encantamento e Karina dobrava e desdobrava as pernas, nervosa.
—- Pê. – sussurra ela e ele segura sua mão achando que ela também estava com medo de voar. Ela puxa a mão. – Se recompõe, Pedro. – manda, séria.
Ele arregala os olhos. – Recompor? Mas por que... eu to de boa, Ka. Achei que você quem tava nervosa.
Ela assente. Pior que estava, mas não por voar.
—- O que a gente vai dizer sobre estarmos em outro estado, Pê? – pergunta ela no ouvido dele para que a pequena não escutasse.
Ele se arrepia com seu hálito quente na orelha, mas tenta manter o foco, e a olha nos olhos.
—- Relaxa, ninguém vai perceber...
—- Aonde mesmo a gente ta indo? – pergunta Ana, olhando curiosa pela janela.
Karina se volta para ela. – Ah... a gente ta voltando pro abrigo, Aninha. A gente descobriu que não éramos para ter te trazido pro Rio.
—- Ah, mas eu gostei tanto das praias e de todas aquelas pessoas malucas! – murmura a garotinha, chateada, se virando para a mais velha.
—- A gente sabe, Ana, mas as coisas tem que ser feitas com calma. – explica Pedro.
—- Então eu não posso contar para minhas amigas da viagem? – pergunta a pequena.
—- Er... não seria bom. Mas não precisa mentir, é só não comentar... – diz ele, tentando abrir um sorriso, nervoso. Se ela dissesse para as amigas, talvez os adultos descobrissem e... sabe-se lá o que aconteceria com o processo adotivo. Eles não sabiam se fora errado levar a pequena para outro estado.
Apesar disso, Karina lhe dá uma cotovelada, contrariando-o. – Não Aninha, se você quiser falar, pode falar, ta bem? Mentir é errado.
Pê fica meio confuso ao vê-la dizer isso, mas olha para baixo, envergonhado. Não podiam pedir que Ana mentisse, mesmo que isso lhes custasse ser sua família. Ele se lembra de seu passado com a mentira: quando escondera que Bianca pagara para ele namorar Karina, de todas as vezes em que ela dissera que odiava mentira. Mal sabia ele que quem mentia agora era ela.
—- Ta legal. Eu vou ver o que digo. – murmura a criança, voltando a olhar para a janela. – Mas foi muito bom. Eu gosto de estar com vocês. – admite, voltando a olhar para eles por um segundo.
A lutadora lhe dá um abraço de lado, deixando as bochechas da pequena vermelhas de vergonha.
—- Nós que amamos estar com você. – diz o músico, sorrindo.
—- É. Você é linda, divertida -- completa a loira, tocando no nariz da menina. –, você é toda especial e inteligente como ninguém da família é.
A pequena parece não perceber que fora incluída na família deles e murmura:
—- Ah, você também é inteligente. Exceto quando bate e briga com ele. – ela aponta para o guitarrista, que faz cara de vítima.
—- É. Pobre de mim. – ele faz bico e Karina lhe dá um empurrãozinho.
—- Você também adora provocar e também briga. – repreende Ana, fazendo-o desmanchar a pose.
Karina ri baixinho. -- É nosso jeito, Ana. Não leva a sério não. Somos duas crianças.
—- Menores que você. – completa o homem, brincalhão.
A menininha franze a testa. – Vocês são bem maiores que eu.
Os dois riem.
Assim que chegam em São Paulo, eles correm para casa para pegar o restante das coisas de Ana e partem para o orfanato.
A assistente social os aguardava em frente ao abrigo, uma carranca feia no rosto. Ela leva a garota para dentro e depois volta para falar com eles à porta do lugar. Encara-os, de testa franzida.
—- Que bronzeado é esse? – pergunta, desconfiada.
—- Err... a gente... a gente foi na cachoeira aqui perto... – explica Pedro, tenso.
A mulher olha para o céu cinzento a dias, descrente.
—- Ta legal... na verdade a gente levou a Aninha para o Rio de Janeiro. – admite Ka, trêmula. A assistente social arregala os olhos, chocada.
—- Como assim? Vocês sabem que não podem tirar Ana de São...
—- Sabemos? Nunca ninguém falou nada sobre isso com a gente. – interrompe Karina, tentando se justificar. – Nós estávamos confusos. Sei que devíamos ter falado com vocês se tínhamos essa dúvida, mas...
—- Senhorita Duarte. – a mulher ajusta sua postura. – Não posso admitir isso, vou ter que reportar à vara da infância.
A lutadora se desespera, pegando em sua mão e olhando em seus olhos.
—- Por favor... – ela começa a lacrimejar. – Por favor, a gente ta se dando tão bem com a Ana. – Pedro, que olhava tudo em silêncio, sente seu coração partir ao vê-la daquele jeito. – Ela também. Ela disse que nos adora, pode perguntar pra ela... nós não podemos perdê-la.
A mulher tira sua mão bruscamente. – Então não tivessem feito o que fizeram. – murmura, fria. – Nós não admitimos mentira aqui. Muito menos que quebrem as regras. Existe uma fila imensa de pessoas querendo ser pais dessa menina e você podiam ter a sequestrado.
A mulher se vira, se afastando a passos duros. E Karina se joga no chão, em prantos.
—- Eles vão tirar ela de nós! – chora, sentindo Pedro levantá-la e abraçá-la, compadecido. Ela segura a camiseta dele e diz, desesperadamente: -- Eu vou perder... de novo.
Pedro olha para seus olhos azuis inundados em água novamente e sente uma angustia no peito. Ele se lembra dela chorando há quase dois anos por não engravidar, ele se lembra dela batendo em seu peito e dizendo que ele quebrara seu coração, há 8 anos. Abraça-a forte, sentindo seus olhos também jorrarem água. Ele não pensava nele no momento, no quanto amava a pequena Ana, no quanto queria ser seu pai, mas sim na dor dela. A dor que ele prometera a si mesmo que nunca mais a deixaria sentir.
Ele lhe afasta e a guia até o táxi, firme, e ela se senta ali, esperando que ele fosse para o seu lado, mas ele apenas fecha a porta atrás dela enquanto chuva começa a cair dos céus. Karina encara o corpo dele se afastar, com curiosidade no olhar e Pedro segue em direção ao abrigo, a cara fechada e os passos decididos.
A assistente social, que fumava sentada em um banco, olha para ele com arrogância.
—- Nem me venha com papinho ou suborno. – ela traga o cigarro.
—- Eu sei que a gente errou, mas...
—- Não tem “mas”, rapaz, eu tenho que notificar qualquer coisa que acontece no que diz respeito a essa menina. – interrompe ela.
Ele se irrita. – Qualquer coisa? Então você notificou que você liberou ela para ficar conosco por uma semana?! – murmura, fazendo-a parar o cigarro a meio caminho de seus lábios e arregalar os olhos. – Olha aqui... Vocês não nos disseram nada. Todo esse curso e vocês só frisaram que a gente não podia sair chamando de filho desde o começo, que era um processo lento, haveriam essas visitações... nunca disseram nada sobre se a gente podia levar elas pra cidade vizinha, pra outro estado ou até, para outro país. Eu sei que isso deveria ter ficado implícito, mas a gente só queria que a Ana conhecesse nossa cidade, nossos amigos. Ela falava em querer viajar, ir à praia. Ela amou tudo... – ele sorri, lembrando-se. – Sabe, quando você falou que ela passaria uma semana com a gente eu achei estranho. No curso eles falavam em visitas curtas... mas eu confiei que se você permitiu devia ter um motivo. Eu também confiei que se vocês não falaram nada sobre viagens, elas deviam ser permitidas...
A assistente continua com a expressão impassível.
—- A Karina só queria que o pai dela visse a Ana. Ela tem o mesmo nome de sua mãe, sabia? A Ka nunca conheceu a mãe, ela morreu em seu parto. – a mulher parece amolecer um pouco, olhando-o mais profundamente. – E aí, quando a gente resolveu ter filhos, com muita dificuldade, surge essa gravidez ectópica. Eu nunca tinha visto minha esposa tão triste em toda sua vida. Foi o fim do mundo pra ela... e aí, surge a Ana, tão parecida com ela e comigo. Coisa que a gente nunca achou que fosse ser possível. Nós queríamos qualquer criança, é verdade, mas surgiu a criança mais perfeita pra nós que poderia ter. As pessoas na rua nos chamam de pais, eles falam das semelhanças da Ana, ela tem o nome que nós provavelmente colocaríamos em um filho, se pudéssemos ter. Quando a Karina a viu pela primeira vez, eu vi direitinho seu olhar voltar a ter vida. E agora... agora eu vi os olhos do meu amor apagarem de novo. – sua voz começa a embargar pelo choro chegando, e ele tem que fazer uma pausa para respirar.
A mulher levanta-se, vai até uma lixeira, descarta seu cigarro e se volta para o rapaz encharcado a lhe encarar.
—- Eu me empolguei quando permiti a semana. Pra isso acontecer eu tinha que ter pedido para o juiz da família. – ela olha para baixo ao admitir o erro. – Posso parecer má, mas eu me compadeço com suas histórias, tanto das crianças, quanto dos pais. E, às vezes, eu me sobressaio. Mas dessa vez alguém aqui dentro me colocou contra a parede e precisei chamá-los. – Pedro concorda, ouvindo sua explicação, e se surpreende ao vê-la começar a chorar. – Eu entrei pra essa carreira pensando em casais como vocês. – ela seca seu rosto com os dedos. – Mas não foi fácil, viu? Todo dia surge um casal arrogante querendo nos comprar pro processo ser mais rápido, surgem pessoas que só querem adotar pra receber apoio do governo, famílias tóxicas, famílias que desistem quando a criança já se apegou... não é fácil. E é por isso que a gente é muito duro com casais que somem com as crianças.
—- Mas ela ta aqui de volta. – explica Pedro. – A gente nunca faria nada pra machucar ela ou apressar as coisas.
A mulher assente.
-- É por isso que eu não vou falar nada. Por isso e porquê eu também cometi um erro.
Pedro abre um imenso sorriso e não se segura, ergue a mulher do chão em comemoração e lhe dá um beijo estalado na testa. Ela se surpreende com sua reação e ele sai correndo na chuva, feliz.
-- Mas olha, em, vou ficar de olho em qualquer erro! – grita a assistente social.
-- Pode ficar tranquila que nós seremos o casal mais relax que você acompanha! – grita ele, de volta, correndo para o táxi que o esperava.
Karina franze a testa para o rapaz, que lhe beija a bochecha e abraça, molhando-a com seu corpo encharcado.
-- Sai pra lá, maluco. – murmura a lutadora, rindo de seu jeito estranho.
-- Eu consegui, Ka, ela não vai reportar! – diz ele, ofegante.
Ela arregala os olhos. – Como você conseguiu?
-- Só falei a verdade... – responde ele. – que você já é a mãe da Ana. – ela encara seus olhos.
-- Já posso ir? O taxímetro ta rodando tem meia hora, vai sair caro, moça... – diz o taxista, rabugento.
-- Vai nessa, garotão, pro aeroporto. A gente vai pagar tudo direitinho. – afirma o guitarrista, ainda sob o olhar de Karina.
Ele sorri para ela. – Você quem me ensinou que a mentira não leva a nada. E é verdade, foi só eu dizer a verdade que tudo se resolveu.
Ela desvia o olhar dele, engolindo em seco ao lembrar que era uma mentirosa. Que ele ainda acreditava que ela era melhor que ele, que ele quem errara, apesar de ser o contrário.
Quando eles já estão no jatinho particular, ela ainda estava bastante quieta, despertando a curiosidade do guitarrista.
-- Hey? O que você tem? – pergunta ele, chamando sua atenção.
Ela abre a boca para falar, mas não surge nenhuma ideia do que dizer.
-- Pode confiar em mim. – murmura ele, vendo seu nervosismo.
Ela então endurece a face.
-- É que... sabe o camar... – mas o avião começa a decolar e ele, nervoso, agarra a mão dela fortemente, interrompendo sua explicação.
Ela ri ao ver sua expressão de pavor.
-- Ué... na vinda você não tava com tanto medo assim.
Ele respira fundo 3 vezes.
-- É que... eu tava... tentando... ser forte... pela Ana. – diz, entre pausas para respirar.
Ela ri ainda mais. – A Aninha não tinha medo algum... ela amou voar, seu frouxo.
-- Ela sabe disfarçar. – os dois riem e o avião enfim estabiliza no céu.
Ela olha para a mão dele ainda agarrada na dela. – Agora você já pode largar.
Ele solta sua mão, constrangido. – É... certo. Desculpa.
Karina confirma com a cabeça e se ajusta melhor na poltrona, vendo pela janela o céu escurecer e a chuva apertar. Não demora muito para ela adormecer. Quando ela acorda, Pedro está olhando para ela.
-- Eu... – ela olha para os lados, confusa, esquecendo-se de onde estava. Esfrega seus olhos.
-- Foi boa a soneca? – pergunta ele.
A lutadora concorda, vendo que a mão dele agarrava a sua. – Pedro... – ralha, puxando sua mão dali.
-- O que foi? – pergunta o guitarrista, inocentemente.
-- Nada de romance, lembra? Você mesmo quem disse...
Ele franze a testa. – Foi uma coisa estúpida a ser dita.
Ka olha para ele, perplexa com sua fala e ele encara intensamente seus olhos, aproximando-se. Ela vai inconscientemente para trás, até que seu corpo esbarre na janela. Ele ri.
-- Eu sei que você também quer. – diz, sua voz rouca se aproximando, seu hálito encostando na pele da moça, que ofega, coração e respiração acelerados.
Karina leva seus olhos azuis para a boca de Pedro, a um dedo de distância e não é ele quem acaba com aquela distância, é ela, puxando-o pela camiseta e pescando seus lábios. Ele tira seu cinto de segurança e ela pula para seu colo, agradecendo por ser um voo particular. Suas pernas agarram a cintura dele e sua boca investe voluptuosamente, cheia de saudade, os dedos ainda agarrados em sua roupa enquanto os dele agarravam em sua nuca. Ele geme contra sua boca e ela separa seus lábios dali para descer por seu pescoço, explorando a pele e... ela vê a aeromoça olhar para eles, envergonhada, e tenta esconder seu corpo atrás do dele, que olha para ela, confuso.
-- Que foi? – pergunta o rapaz e ela coloca o dedo sobre sua boca, pedindo silêncio.
-- A aeromoça nos viu. – sussurra, enrubescendo e ele ri de seu jeito.
Pedro a tira de seu colo, se levanta e puxa Karina pela mão, levando-a até o banheiro. Ela não gosta muito da ideia no começo, mas começa a rir ao se apertar ali dentro com ele e logo já está aprumada em seus braços novamente, levantando a camiseta dele com afinco e jogando-a sobre a pequena pia. Ele faz o mesmo com a blusa dela e os dois se despem com rapidez, sedentos por contato novamente. Ele põe o corpo da lutadora sobra a pia, e ela puxa a calça e cueca dele completamente, sentindo-o se jogar dentro dela enquanto se beijavam.
-- Pê... – geme a garota e quando abre os olhos sente o avião chacoalhar em uma turbulência, a mão de Pedro agarrada a sua naquela poltrona. – O quê...
-- Foi boa a soneca? – pergunta ele, vendo-a piscar sem parar.
Ele estava definitivamente vestido, ela notara. Tira sua mão debaixo da dele, olhando em seus olhos.
-- Nada de romance, lembra?! – murmura, querendo testar se seu sonho fora uma premonição.
Pê concorda com a cabeça. – Desculpa. – e olha para o outro lado, se ajustando na poltrona, enquanto ela observa ele, sentindo seu coração palpitar no peito. Coloca a mão ali, tentando acalmá-lo e depois em seu rosto quente. Na verdade, ela estava inteira quente depois daquele sonho...
O músico lhe espia e ri. Ele a vira gemer o seu nome e a conhecia o suficiente pra reparar em seus movimentos quando tinha sonhos eróticos: rosto vermelho, corpo quente, peito subindo e descendo sem parar, pernas se abrindo... Ele olha para baixo, pensando que, por mais que ele quisesse, isso deveria ficar apenas em sonhos, ele não a merecia depois do que fizera.
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