Voltando para o Começo

15 Capítulo 15: Coisas que pareceriam óbvias até para uma criança


Notas iniciais
Música: Por onde andei – Nando Reis

Naquela mesma sexta-feira, Pedro, Karina e a pequena Ana, já partiram para o Rio de Janeiro. A menina ficara encantada a viagem toda, tendo sido sua primeira experiência na estrada, e Karina se sentara lá atrás com ela, mostrando todas as placas e cenários que presenciavam pela janela enquanto o músico dirigia.

—- Podemos ir para a praia? – pergunta Aninha, quando eles chegam à cidade, de madrugada. Karina pensara que ela fosse dormir por viajar à noite, mas ela estava tão ansiosa que passara o tempo todo acordada.

—- Pela manhã, querida. – ela bufa.

Eles param para dormir em um hotel na entrada da cidade.

—- Vou buscar alguma coisa para comermos e já volto. – fala Pedro, pensando que não era muito saudável deixar a menina com apenas as besteiras que comeram no carro.

Karina assente, sorrindo levemente e se deita com a pequena na cama de casal, bocejando.

Quando Pedro volta, trazendo uma pizza, encontra as duas dormindo abraçadas, Karina agarrando a pequena perto de si em uma conchinha amorosa.

Ele sorri, deixando a pizza de lado e, num impulso, pega o celular e tira uma foto delas, olhando bobo. Ele pega uma coberta e as cobre, beijando a testa de Ana e, em seguida, a de Ka, para então perceber o que fazia e caminhar nas pontas dos pés até a cama de solteiro ao lado, como se tivesse cometido um crime.

Quando eles acordaram já era quase meio dia. Comeram a pizza amanhecida que o guitarrista levara e botaram o pé na estrada novamente, indo direto para a praia, como Ana queria.

—- Nossa, é linda! – diz a garotinha, assim que coloca os pés na areia, ela sai correndo e Pedro e Karina vão atrás.

—- Espera aí. Não vai entrar na água. – diz ele, pegando-a no colo. Ela ri, sapeca e os três deitam-se na manta que Karina coloca sobre a areia.

A pequena mexe no cabelo de Pedro.

—- Ta todo enredado. – diz, e Karina mexe no dela.

—- O seu também. – diz a loira, fazendo careta. – Pedro, o que você acha da gente...

—- Fazer penteado! – murmuram os dois, ao mesmo tempo.

A menina solta um gritinho, se levantando e fugindo deles.

—- Não! Não mexe no meu cabelo. – murmura, segurando sua cabeleira com um bico nos lábios.

O casal deitado ri e se encara, até que Pedro para, ficando sério.

—- Er... por que a gente não entra um pouco na água? – pergunta a lutadora, envergonhada.

—- Vão vocês, eu cuido das coisas. – responde Pedro e Karina assente, levantando a blusa que vestia e tirando seus shorts, enquanto ele a seca com o olhar. O seu corpo... ele estava cada dia mais perfeito: a barriga chapadinha, as pernas e seios musculosos.

Karina nota seu olhar e lhe dá um pescotapa na cabeça.

—- Aí! Que isso, isso é exemplo que se dê pra pequena?! – resmunga Pedro, apontando para Ana, que olhava tudo espantada.

Karina se enfurece mais ainda.

—- Digo o mesmo pra você. Me respeita, garoto!

—- Eu já sou homem, ta?! – afirma ele e ela ri.

—- Que homem o quê?!

—- Ta duvidando? – murmura ele, se levantando e se aproximando dela, que tinha uma carranca de raiva no rosto.

Ele fica com seu corpo colado ao dela, que desvia o olhar, nervosa com a proximidade. Se agacha e pega uma porção da areia, jogando-a na cara dele.

Ele fica boquiaberto com sua atitude, esfrega seus olhos e cospe a areia que entrara em sua boca.

—- Ah mas isso não vai ficar assim não! – diz, e pega também uma porção da areia, colocando sobre a cabeça dela.

—- Ah, eu vou te matar! – diz ela e parte pra cima dele com seus punhos.

—- Para! – interrompe uma vozinha e os dois se viram para a pequena Ana. – Vocês parecem duas crianças. – diz a menina, deixando-os envergonhados.

Ela se vira e sai dali batendo pé, irritada.

Pedro e Karina se encaram e então correm atrás dela, segurando, cada um, um de seus braços.

—- Desculpa. – diz Karina, piscando incansavelmente devido a areia em seus olhos.

—- A gente não vai fazer mais isso. – completa Pedro e a pequena os olha, descrente.

—- Cês juram? Eu gosto quando vocês se olham quando um não nota o outro. – diz ela, fazendo-os corar. – Não gosto de briga.

Karina assente com a cabeça.

—- A gente não vai mais brigar, juramos. – ela oferece seu dedo mindinho para a quase-filha e está agarra o seu no dela.

—- Então vocês têm que pedir desculpas!

—- Desculpa. – diz Pedro, mas ela nega com a cabeça, apontando para Karina. – Desculpa, Karina.

—- Direitinho. Vocês têm que olhar no olho, pedir desculpas dizendo o motivo e se abraçarem. É assim que a tia manda fazer lá na casa.

Karina arregala os olhos, mas se levanta, mordendo os lábios de nervoso. – Desculpa jogar areia em você, Pedro. – fala, olhando no fundo de seus olhos.

Ele também fica de pé, Ana observando-os como uma mãe.

—- Desculpa, Ka... ter olhado pro seu corpo e rebatido na guerra de areia. – ela sorri de lado, fazendo-o derreter e Aninha faz sinal para que os dois se abraçassem.

A lutadora engole em seco, mas o faz, apertando forte o corpo do ex enquanto ele sente o cheiro de seus cabelos e agarra sua cintura. Depois de alguns segundos, se afastam, olhando bem para os olhos um do outro durante o ato e sentindo o coração acelerar.

—- Prontinho. Não doeu, doeu? – pergunta a pequena e os dois negam, apesar de que era mentira, doera, bem lá no peito.

Pedro não responde, pega a criança e corre para o mar, Karina em seu encalço. Os três se divertem, espirrando água um no outro.

À noite, depois da aventura na praia, eles vão para seu antigo bairro. Karina sente uma emoção aflorar ao ver a praça e sua casa exatamente do mesmo jeito. Eles saem do carro, os corpos empapados de areia e água do mar e são recebidos por Gael e Dandara, de mãos dadas, enquanto o pequeno Miguel corre para abraçar sua irmã.

—- Oi, Mi, quanto tempo! – diz Karina, se agachando e abraçando seu irmão mais novo de volta.

Pedro cumprimenta Dandara, e Aninha fica parada no mesmo lugar, nervosa ao absorver tantos rostos novos. Karina se volta para ela, pegando sua mãozinha.

—- Aninha, eles também fazem parte da nossa família.

—- Eles são minha família? – pergunta a pequena, sem entender.

Pedro vai até elas.

—- Se você quiser pode ser, mas sem pressão. Por enquanto você pode chamar todo mundo de seus amigos. – diz o homem, agachado para ficar na altura da pequena, e Karina o olha, concordando, e surpresa com sua forma de lidar.

—- Ai que coisa mais linda. – diz Dandara, limpando uma lágrima. – Você tinha razão, Gael, essa menina é um encanto. – ela se aproxima de Ana, que oferece sua mão em um cumprimento. Elas apertam as mãos e Gael se agacha para fazer o mesmo.

—- Meu filho! – grita uma voz, vindo correndo do outro lado da rua. Delma abraça Pedro, que a princípio se assusta, mas então retribui. – Não acredito que você ficou tanto tempo sem visitar a sua mãe. – ela bate nele com um guardanapo e ele ri, fazendo careta.

Karina ergue uma sobrancelha, curiosa e Delma arregala os olhos ao vê-la.

—- Meu Deus, Karina, você ta ainda mais linda! Olha essas pernas. Pedrinho que se cuide... – sua ex-quase-futura-sogra a abraça apertado e ela sorri, embaraçada.

Pedro olha para baixo, com igual vergonha e Delma se dirige a garotinha:

—- Essa que é a sua filh...

—- Sim! Essa é a Ana. – corre em corrigir Pedro, lembrando do curso que fizera que Ana precisava nomeá-los como pai no tempo dela.

—- Ah, que coisa mais lindinha. Tem o seu cabelo, Pedrinho. – e coloca a mão na bochecha enquanto seus olhos marejam.

—- Delma tem razão, Pedro, ela é linda. – diz uma voz, e todos observam René chegar, abraçando a namorada por trás.

Ana se encolhe, constrangida e Karina nota.

—- É... acho melhor a gente ir pra um hotel. Suas casas devem estar cheias e a Aninha precisa trocar esse maiô. – diz ela, abraçando a pequena em seu colo. Ana agarra seu pescoço e sussurra em seu ouvido:

—- Não gosto deles me olhando. – a lutadora olha para ela, concordando com a cabeça.

—- Que isso, Karina, vocês podem ficar aqui! Miguel dorme no outro quarto. O seu e da Bianca ta livre. – fala o mestre.

—- E lá em casa tem a cama do Pedrinho.

—- Convenhamos, Delma, que eles precisam de mais de uma cama agora. – murmura Gael.

Delma não gosta muito de seu tom, mas acaba por concordar.

—- Realmente...

—- Tudo bem, a gente fica, mas... – começa a dizer Karina, largando a menina no chão e puxando seu pai para um canto afastado. – A Aninha é tímida, pai, se vocês puderem não ficar em cima o tempo todo...

Gael sorri, colocando uma mão carinhosamente no rosto da filha.

—- Que nem você. – Karina sorri de volta.

—- É, pior que é...

—- Pode deixar, filha, faremos de tudo pra ela se sentir confortável na família. – e beija o topo de sua cabeça. – Já precisamos mesmo ir para a cama, já que amanhã saímos cedinho.

—- Vocês não querem jantar no Perfeitão? É por conta da casa. – diz Delma, quando Karina volta para a roda.

—- O que é Perfeitão?— pergunta Ana.

—- É o meu restaurante. – responde Delma, orgulhosa.

—- Ah... eu to com fome. – diz a menina e a mãe de Pedro ri, oferecendo sua mão.

—- Então vamos comer? – a garota assente, mas não pega sua mão, ela olha para Pedro e Karina.

—- Eu posso comer no seu quarto, tia?— pergunta, se direcionando para a lutadora.

Karina concorda, entendendo que a menina não queria ser o centro das atenções.

—- Vocês já estão alimentados? – pergunta Pedro, para Gael e Dandara, que concordam com a cabeça, já se passava das nove da noite. -- Pode trazer então três marmitas pra viagem, mãe? – pergunta o guitarrista e Delma assente, surpresa.

Pedro vai com Delma buscar a janta, enquanto Karina e Ana seguem para a casa de Gael. A pequena observa tudo com atenção e corre para um porta-retratos da família Duarte.

Karina vai para perto dela.

—- Essa aqui sou eu. – diz, apontando para sua figura mais nova na foto.

—- Parece você, mas também não parece. – fala Ana, olhando da fotografia para a mulher ao seu lado. Seus cabelos estavam um pouco mais longos, seu corpo mais desenvolvido e seu olhar mais carregado, mas a lutadora continuava com as mesmas feições.

Karina dá seu sorriso de lado.

—- Entendo. Não sou mais a mesma, mas ainda tenho muito dessa garota.

Ana ignora sua fala, absorta em outras fotos, como a da mãe de Karina, grávida.

—- Quem é? – pergunta, apontando para a última prateleira que não alcançava. Karina se ergue na ponta dos pés, pegando a foto em suas mãos.

—- Ela se chamava Ana, como você, era minha mãe.

—- Era?— indaga a menor.

Karina engole em seco. – Sim, ela...

—- Ela ta com os meus pais lá no céu. – responde a garota, surpreendendo Karina, que a encara, seus olhos marejados. – Não chora. – pede.

Karina sorri de lado.

—- Você é muito forte, menina. – diz a loira, acariciando sua bochecha.

—- Não sou não, não tenho músculos, olha. – responde a pequena, mostrando seus braços magros e fazendo a lutadora rir.

Gael, que observava tudo dá porta com Dandara e Miguel, solta um soluço e é percebido pelas duas.

—- Desculpa. – diz, secando o rosto com as costas da mão enquanto sua mulher acariciava seus ombros.

—- Por que você ta chorando, se machucou? – pergunta Ana, inocentemente.

Gael nega. – To chorando porque vocês são muito lindas.

—- Não entendi. – retruca a menina.

—- É choro de felicidade, linda. Quando a gente fica assim, muito feliz, a gente acaba até chorando. – explica Karina. – Agora vamos para o quarto que temos que acordar cedinho amanhã! – ralha ela, beijando a bochecha de seu pai. – Boa noite, mestre.

As duas vão para o antigo quarto de Karina e lá a lutadora se surpreende com quão intactas estavam suas coisas: tudo em seu lugar, as camas, a escrivaninha, o guarda-roupa... até mesmo suas antigas fotos com Pedro do início do namoro atrás de sua cama, seus rostos felizes. A primeira coisa que Ana nota são justamente essas fotos, aproximando-se e tocando-as com suas pequenas mãozinhas.

—- É você e o Pedro. – diz ela. – Às vezes eu acho que vocês se odeiam e às vezes que se amam. Mas aqui vocês parecem só se amar. – completa, tocando em uma foto em que Pedro beijava o pescoço de Karina.

Ka tenta disfarçar seu incômodo e diz: -- Eu nunca odiei Pedro, nós... brigamos assim... porque nos amamos. – ela sorri, dizendo para si mesma que o que dissera era uma mentira, mas necessária para que Ana não dissesse no orfanato nada de ruim sobre sua relação e espantasse, sem querer, suas chances de adoção.

Ana franze a testa, confusa. – Quem briga, ama?

Karina ri. – É complicado. Às vezes a gente ama tanto uma pessoa que ela chega a ser irritante.

—- Tipo o Caio lá da escolinha? – pergunta a menininha, pensativa.

—- Que Caio? – indaga a mais velha.

—- Deixa pra lá. É só um garoto que me incomoda. – responde a menor e Karina ergue uma sobrancelha, surpresa que tão pequena Ana já houvesse embarcado nessa de amor e ódio.

—- Trouxe comida! Quem quer uma a la minuta no capricho?! – diz uma voz, adentrando o quarto animadamente.

—- Eba! – diz Ana, pegando sua marmita.

—- Não sabia o que você iria gostar então pedi o básico. – murmura o rapaz.

Ana assente, colocando uma batata-frita na boca.

—- Eu como qualquer coisa. – fala, de boca cheia.

Pedro ri e olha para o quarto em seguida.

—- Nossa, ta idêntico àquela época.

—- Pois é, Miguel não ficou com esse quarto, não sei porquê. Acho que meu pai é mais coruja do que eu pensava, mantendo tudo assim. – deduz Karina.

Ele concorda com a cabeça e observa as fotos na parede. A lutadora enrubesce.

—- Até isso ele deixou. – fala ele, baixinho.

—- É... parece que sim. – concorda Karina, olhando para ele, que devolve o olhar.

Os dois são interrompidos por um longo arroto da pequena.

—- Desculpa. – diz ela, envergonhada, fazendo cara de inocente enquanto os dois riem.

—- Que desculpa o quê... você sabia que eu era campeã de arrotos no passado? – pergunta Karina, exibida.

—- Mentira, eu sempre ganhava! Você nunca conseguiu reproduzir o “eu te amo” em arrotês. – diz Pedro, rindo, mas então ficando vermelho por lembrar.

—- Er... acho melhor comermos antes que esfrie. – murmura Ka, tentando quebrar o clima. – Papai e Dandara já foram dormir pra acordar cedo amanhã então acho que podemos comer aqui mesmo.

Eles jantam e, após, Karina se deita na antiga cama de Bianca junto de Ana. A menina adormecera instantaneamente e agora a loira acariciava seus cabelos cacheados. Ela não gostava que mexessem em seu cabelo, mas naquele momento não pareceu se importar.

Pedro estava na antiga cama de Karina, por esta ser menor, a cabeça apoiada nas mãos enquanto olhava para o teto, até que decide se levantar.

—- Onde você vai? – pergunta Ka.

—- Não consigo dormir. Acho que vou dar uma caminhada por aí... – Karina assente, e ele sai.

Ela fica alguns minutos na cama até que decide se levantar também, cedendo à insônia. Abre a geladeira de seu pai e pega duas cervejas, pensando que Gael não havia de se importar agora que já era adulta.

Ao sair, ela observa as ruas vazias, exceto pelo Perfeitão e vê uma figura sentada na praça, o olhar longe. Vai até ele e lhe entrega uma das cervejas.

—- Ainda ta gelada. – Pedro olha para ela, surpreso e ela se senta ao seu lado, abrindo sua lata e virando um gole generoso em sua boca. Ele copia seu gesto.

A mulher observa melhor o cenário: Ribalta, agora unida à academia de seu pai, QG, Perfeitão e a antiga casa de Pedro e sua própria casa, do outro lado. Era tudo tão familiar e ao mesmo tempo tão distante. Era a história dele voltando em sua memória novamente: as confusões, os tabefes, os socos, as brigas, os beijos, abraços, chutes.

—- Isso tudo... – começa a dizer ele. – Ver isso tudo é tão... estranho.

Karina acena com a cabeça, entendendo o que ele dizia.

—- É, parece que eu voltei no tempo, mas não sendo mais aquela menina inocente. Só... velha e magoada.

—- Você não é velha! – protesta Pedro. – Ainda tem muito chão a percorrer.

—- É, pode ser, mas me sinto velha aqui dentro. – diz a garota, colocando a mão com a lata de cerveja sobre seu peito.

Ele coloca sua bebida no chão, suspirando.

—- Acho que a gente ficou tão desesperado em ter filhos que nem percebeu que tínhamos muitos anos ainda pra isso. Não temos nem 30 anos.

—- É verdade. Se tudo der certo a Ana vai ser a neta mais velha do Gael. – ela bebe mais um gole e olha para ele. – Mas acho que... eu não vou ter essa chance novamente. – completa, pensando na gravidez ectópica que tivera e sua baixa probabilidade de engravidar. – Eu não posso perder essa chance.

—- Eu sei. Eu também não posso. Não poderia encontrar uma criança mais a gente do que a Aninha.

—- A gente? – pergunta ela, tensa, pensando que não havia mais a gente.

—- É. Ela é uma mistura perfeita de nós dois, parece até de sangue.

—- E isso é ruim? – pergunta ela, olhando-o mais profundamente.

—- Claro que não. – ele a olha de volta e vira o corpo em sua direção. – Karina, eu sei que nossa relação foi por água abaixo, mas eu... eu gosto... quer dizer, eu tenho muito carinho por você. E eu adoro que ela seja parecida.

Karina sorri de lado.

—- É, eu amo que os cabelos dela são bagunçados como o seu. – diz, passando a mão nos cabelos dele, escabelando-o. – Lembra que eu sempre falava? Que queria que nosso bebê tivesse seus cabelos?

Ele concorda com a cabeça, lembrando-se de sua juventude ao lado dela. Os dois, jovens, sonhando com um futuro perfeito juntos. Pena que nem tudo correra como queriam...

—- Pois é, os cabelos dela são parecidos. Enredam tanto quanto o meu, já viu? E pra pentear... é uma luta. – fala ele, tentando mudar de assunto, nervoso. -- Quero ver como vamos fazer para arrumá-lo para o casamento. E, ainda, não compramos o tal vestido.

—- Verdade. Por mim ela ia com qualquer roupa... sei como ela é se sente, mas a Jade...

—- Vai ser difícil domar essa ferinha, assim como foi com você. – murmura ele, tomando um gole.

Karina faz bico. – Ah vai, eu não era assim tão selvagem...

—- Não era?— indaga ele, olhando-a com as sobrancelhas erguidas.

Ela ri, empurrando-lhe. Os dois ficam em silêncio por alguns segundos até que ela toca em sua mão, trazendo sua atenção a ela.

—- Sabe... acho que a gente tem que parar. – diz, nervosa, olhando em seus olhos. – Temos que parar de brigar, pelo bem dela. Ontem ela parecia nervosa nos vendo daquele jeito.

—- Tem razão. Se a gente não consegue convencer nem ela de nossa estabilidade, como vamos convencer as assistentes sociais?!

Ela olha para baixo. – É... – diz, sem graça. Não era bem nisso que estava pensando, mas era verdade: se Ana falasse alguma coisa sobre eles brigarem o processo todo podia ir por água abaixo. Mas ela esquecera-se completamente do processo adotivo momentaneamente, parecia até que estava com ele de verdade: agindo como um casal, uma família.

Ela retira sua mão de cima da dele e morde os lábios. Ele, conhecendo-a, sabe que algo a incomoda, então puxa seu queixo em sua direção.

-- Eu não vou deixar que nada tire a Aninha da gente. – Pedro olha no fundo de seus olhos azuis. Castanho no azul novamente, seus olhos se afogando na maré das orbes dela.

Então, um vulto corre em sua direção, abraçando-os por trás e deixando-os sem jeito.

-- Tomtom?! – pergunta Pedro e a, agora jovem adulta, sorri.

-- Meu casal favorito: Perina! – ela beija suas cabeças, deixando-os vermelhos. – Ah, desculpa, eu interrompi os pombinhos? – indaga e diante do silêncio: -- Cês não iam de novo começar aquelas sessões de amassos aqui na praça, iam?

A lutadora arregala os olhos.

-- Que isso, Tomtom... – ri. – E nossa... você ta enorme! – diz, olhando para a menina alta e magra diante dela, seu corpo crescido, mas o mesmo cabelo e sorriso. – Parece uma modelo.

-- E não é? – diz Pedro, orgulhoso de sua irmã.

-- Ah parem, assim vocês me deixam envergonhada... – diz a garota. – Tava com muita saudade do meu casal favorito junto de novo. Meu irmão parecia à beira do precipício sem você, Ka. Mas agora eu vejo que o brilho de seus olhos retornou.

A lutadora olha para o músico, que desvia o olhar.

-- Ah para Tomtom, não exagera! – fala ele, fazendo sinal para ela não falar do assunto.

-- Ta legal, Pê, eu não falo da sua fossa. – murmura sua irmã mais nova. – Mas... – ela olha para eles, divertida. – preciso de vocês pro meu trabalho da faculdade.

Pedro ergue as sobrancelhas, curioso. Tomtom cursava Letras, pois pretendia se tornar escritora.

-- Claro que ajudamos, Tomtom, mas o que seria? – diz Ka, inocentemente, Pedro lhe manda um olhar repreendedor.

-- É pra cadeira de escrita. Eu preciso observar alguns casais da vida real, como são as relações amorosas, pegar histórias interessantes e estudá-las para escrever com mais veracidade.

Karina dá um sorriso falso, arrependida.

-- Ah Tomtom... você sabe o quão envergonhada eu sou. – resmunga, com medo de sua encenação ser descoberta pela menina.

-- E... a história minha e da Ka já esfriou, não tem nada de interessante, maninha. – completa o guitarrista.

Tomtom bufa.

-- Ah, qual é, vocês ainda são o casal mais interessante que eu conheço e agora tem o processo adotivo. Me ajudem, vai! – pede, fazendo biquinho.

-- Ta legal. Mas sem falar do passado. – diz Pedro, deixando a mais nova confusa.

-- Mas por quê? A história de vocês do passado é tão bonita...

-- Seu irmão quis dizer que... você já sabe nossa história do passado de cabo a rabo. – explica a loirinha.

Pedro concorda com a cabeça e uma voz ao longe chama pela caçula:

-- Tomtom! Amanhã acordamos cedo!

-- Foi mal, a gente vê isso lá no casamento. Foi bom ver vocês! – diz a cacheada, se despedindo e indo até Delma.

Pedro e Karina voltam-se um para o outro, se olhando.

-- Isso vale pra nós também. – fala o rapaz, oferecendo uma mão para sua ex-esposa. – Sem falar do passado... assim nós não brigamos.

Ela assente, pegando sua mão e olhando fundo em seus olhos.

-- Sem passado e... sem romance. É apenas encenação.

Ele hesita, mas acaba concordando e apertando firme em sua mão.

-- Nada de romance.

Notas finais
E ai, será que eles vão cumprir com esse combinado? suasaha óbvio que não né Muita fofura da Ana nesse capítulo néh? E altos atos de cupido! Pera que vai ter mais!