Voltando para o Começo
14 Capítulo 14: É minha culpa?
Notas iniciais
—- Como assim, Pedro? – pergunta Karina, perplexa com as palavras do músico.
Ele se vira para ela e encara seus olhos, quase desconcertando-a.
—- Acho que... a gente não pode se divorciar, temos que fingir que ainda somos um casal... pela Ana.
Karina apoia o rosto nas mãos, pensativa.
—- Como a gente fez hoje? – pergunta, e ele assente em resposta.
—- Se a gente muda o pedido só pra um de nós provavelmente vão nos baixar na fila de novo. Sabe como é o processo, eles preferem casais.
Ela concorda, encarando-o novamente.
—- Mas... até quando? – pergunta.
—- Até estivermos com a guarda definitiva. Agora somos temporários, é arriscado.
—- E o meu pai e todo mundo? – ela indica o quarto onde Gael dormia com o dedo.
Ele suspira.
—- Você sabe... eles investigam com nossas famílias. Teríamos que fingir pra eles também.
Ela suspira com a mão no rosto. – Não sei, Pê...
—- A gente mora em outra cidade, eles não nos veriam muito mesmo... seria tudo igual já tem sido com você lá no exterior. Eu compro um colchão e durmo no chão lá no quarto e ninguém vai desconfiar. – explica ele, e ela olha em seus olhos para perceber que ele estava realmente falando sério.
—- Ta bem, mas nós não estamos juntos de verdade, é só cena. – diz ela e bufa. – E depois a Bianca que é a atriz... – ele ri e pega sua mão, que ela tira rapidamente dali.
Ele levanta as mãos para o alto.
—- Desculpa. Eu só queria dizer que, apesar de tudo, nós estamos juntos nessa.
—- Ta bom, mas não me toca. – murmura ela, teimosa, ao que ele responde com um aceno da cabeça.
No dia seguinte, eles almoçam como uma família e depois de Gael partir de volta para o Rio de Janeiro – sob beijos e felicitações --, eles vão levar Ana de volta.
A menina os olha, triste, quando eles descem do carro e ela vê que estava de volta ao orfanato e Karina lhe dá um longo abraço.
—- Não fica triste, Aninha. Você gostou de ficar lá na... tia?— pergunta, se atrapalhando na hora de se nomear.
A garotinha assente e Pedro dá um beijo em sua testa.
—- Vocês são legais e bonitos. – diz ela, cabisbaixa por estar indo embora.
—- A gente vai se ver de novo, lindinha, aí eu prometo que te levo na praia como você pediu. – diz Pedro.
Ela sorri, mais animada.
—- Ta tudo aí? – pergunta a lutadora, conferindo sua mochila e então entregando-a a assistente social que esperava sorridente.
—- Pode entrando, Ana. – fala a mulher e a menina entra correndo no prédio. – Tudo certo?
—- Er, sim... – responde Pedro. – Ela só ficou bem triste, queríamos poder fazer isso novamente o mais rápido possível.
A mulher concorda.
—- Que bom. É normal elas ficarem assim e fico feliz que tudo tenha corrido bem. Vocês poderão buscá-la novamente quinta que vem e, vou confiar em vocês, trazê-la de volta na outra sexta.
Karina sorri grande, e encara Pedro, que faz o mesmo.
Ao chegarem em casa, Pedro e Karina avistam com surpresa que tinham visita: Jade vem correndo em direção a sua amiga, com um sorriso de lado a lado do rosto e um bebê de quase dois anos no colo.
Karina ri ao ser apertada pela amiga, que entrega seu filho para Pedro antes de abraçá-la.
—- Você entrega seu filho assim, sem nem perguntar meu nome? – pergunta o rapaz, brincando e Jade dá um empurrãozinho nele.
—- Também senti sua falta, guitarrista. Não é porquê a Ka ta do outro lado do mundo que você não pode visitar os amigos. O Cobra ta chateado, viu? – diz a morena.
—- Papa não. – murmura o pequeno Felipe. Pedro beija a bochecha do menino.
—- O que eu falei sobre retrucar a mamãe, Fê? – ralha ela, apertando a bochecha do filho, que resmunga.
Karina ri. Felipe, o filho do casal Cobrade era a mistura perfeita dos dois: pele bronzeada, olhos amendoados, queixo quadrado e lábios grossos.
—- Como vai, Fê? – pergunta ela e o garoto levanta uma sobrancelha.
—- Ela é sua dinda, garoto. Você não a reconhece porque era beeeem pequeninho quando ela te viu a última vez.
—- Por quê? – pergunta o menininho.
—- Porque eu tava ocupada... dando chutes em todo mundo num lugar bem distante.
—- Como papa? – pergunta Felipe, esperto. Karina concorda com um aceno na cabeça.
—- Sim. Mas óh em, esses chutes só eram dados se a outra pessoa consentisse. – completa, fazendo pose de lutadora enquanto explicava.
Jade ergue uma sobrancelha para a amiga.
—- Que foi?
—- Parece até que você ta ensinando a ele sobre sexo e não luta. – responde a morena, rindo. Pedro ri junto.
—- Não fala essa palavra perto dele! – ralha a lutadora.
O garotinho olha confuso enquanto todos riem e então eles resolvem entrar para dentro da casa.
Lá dentro, os três adultos se sentam no sofá enquanto Felipe brinca com Flux no chão.
—- Então Ka, soube que você só veio porque chamaram do processo adotivo.
Karina arregala os olhos com a rapidez que os boatos correram.
—- Que foi? Ainda sou a rainha das fofocas. – diz a morena. – Como ta sendo? Não deve ta dando nem pra matar a saudade do sexo com essa confusão toda.
A loira pigarreia e fica com o rosto todo corado, enquanto Pedro leva sua atenção para o menino no chão, envergonhado.
—- Ah que isso... é só uma palavra. – fala a dançarina, revirando os olhos. – E não é como se vocês não continuassem sendo o casal mais esquentadinho da Ribalta.
Karina morde o lábio, nervosa e olha para Pedro pelo canto do olho. Ele encara de volta, pedindo silenciosamente para que ela não falasse nada, principalmente para Jade.
—- Ta bem seus santinhos, então como tem sido ser papais?
—- Ah sei lá, ela só veio aqui por uma noite, não tenho sua guarda. As coisas no processo adotivo são incrivelmente lentas então vai demorar até eu ser sua mãe.
Jade assente.
—- E Pedro o papai. – corrige ela.
—- É... isso. – concorda Karina, sorrindo forçadamente. Jade olha de Pedro para ela, entendendo que havia alguma coisa ali.
—- Ta tudo bem? – pergunta.
—- Ta tudo ótimo, claro! – responde o homem, voltando a se sentar rapidamente ao lado de Karina e beijando sua bochecha para convencê-la.
Karina enrubesce.
—- Então... já que vocês não vão abrir o bico eu vou levar em consideração que a coisa esfriou apenas pela distância. – diz a visitante, colocando uma mão dentro de sua bolsa e tirando um envelope dali. – Tratem de estar bem mesmo, viu, porque eu não quero minha madrinha e o padrinho do Cobra se batendo como era no passado. – completa ela, entregando o envelope nas mãos de Karina, que abre um imenso sorriso ao entender o que ela dizia.
—- Ah meu Deus! Finalmente... – murmura a loira, alto. Pedro franze a testa.
—- O quê? ...Não entendi.
Jade ri.
—- Ela vai se casar, seu idiota. – responde Karina, ríspida. Jade abre a boca em surpresa e ela trata de consertar sua fala, rindo e colocando um braço sobre o ombro do ex.
A morena franze a testa.
—- Ta legal, vou esquecer esse coice. Vocês aceitam, não é? Ser nossos padrinhos? – pergunta, ansiosa.
—- Claro que sim! – responde Karina, na mesma hora.
—- E a Banda da Ribalta vai tocar, já falei com a Sol... – diz a morena, olhando para Pedro.
—- É, claro... – concorda Pedro, vendo as duas se abraçarem animadamente. Era estranho, elas não se viam a mais de um ano e pareciam mais unidas do que nunca.
—- Ótimo! Vai ser o melhor casamento de todos! Cobra alugou uma ilha, todos os convidados vão passar a semana no hotel, num estilo casamento americano, sabe?! Todo dia uma festa diferente, muita bebida, praia, tudo de bom...! – ela fala tudo muito rápido, não dando tempo dos dois absorverem as informações.
—- Espera... uma semana? – pergunta Pedro
—- Isso! Começa sábado que vem e termina na próxima sexta. Óbvio que passar a semana é só para os mais íntimos, tem convidado que vai só pro casamento em si que é na sexta pela manhã.
—- Mas... Jade... – começa a falar Karina, mas é interrompida pela noiva:
—- Ah não Karina, não me vem com mas que eu já tenho um ataque cardíaco.
Ela se abana, nervosa e Karina encara Pedro enquanto engole em seco.
—- É que... a gente ficou de pegar a Aninha na sexta e devolver na outra sexta.
—- Sem problemas, lutadora, óbvio que a Ana ta convidada! – murmura Jade, confiante.
—- Mas... será que podemos levar ela pra outro estado? – pergunta a loira, olhando para Pedro em seguida.
Ele dá de ombros.
—- Não sei... acho que viajar pode, mas Rio é bem longe néh...
—- Af! Se não puder vocês levam igual. Aí trazem ela na sexta bem a tempo. Vocês não vão perder meu casamento, néh?!
Karina concorda, tentando abrir um sorriso, mas fica preocupada, além do processo adotivo, ela teria que encenar felicidade em seu casamento com Pedro na frente de todo mundo que eles conheciam.
Depois daquilo, Jade vai embora, alegando que tinha outros convidados de São Paulo que precisava visitar. Karina se senta no sofá a ver televisão enquanto Pedro está no quarto tentando compor.
O estômago de Karina ronca alto e Flux olha para ela assustado enquanto essa ri, se levantando para ver o que havia na geladeira. Ela suspira ao constatar que só havia molho de tomate industrializado, pães mofados, catchup e mostarda.
Bate na porta do quarto.
—- Pedro, a gente ta sem comida, vou no mercado. Posso pegar seu carro? – grita ela, do outro lado da porta, que se abre.
Pedro estava sem camisa, apenas uma bermuda, seu cabelo todo bagunçado entre seus dedos que os bagunçavam ainda mais, frustrado por não ter a música que pediam já composta.
—- Eu vou com você... -- Ela assente, tossindo, desconfortável com seus trajes.
— Aliás, talvez a gente devesse rachar a geladeira, já que não estamos de fato juntos, cada um compra sua comida. – murmura a mulher, séria. Ele concorda, colocando a primeira blusa que vê.
—- Se assim você prefere... também precisamos comprar um colchão pra você dormir.
Ela ergue uma sobrancelha.
—- Eu dormir? Eu durmo na cama, obviamente. Fui eu quem escolheu ela, lembra? – resmunga, cruzando os braços.
—- Mas o dinheiro era meu.
—- Se for assim, a casa foi paga com o pagamento do campeonato...
Ele suspira.
—- Ta legal, foi tudo bem dividido aqui... – murmura e então seus olhos se abrem mais, tendo uma ideia: -- A gente pode deixar um dia pra cada. Um dia você fica com o quarto, outro eu...
—- Ta bem... – cede a loirinha. – Mas o Flux vai dormir comigo!
Ele protesta, mas acaba cedendo também e os dois vão para o mercado, todo o caminho em silêncio e seus olhares evitando um ao outro.
Chegando lá, Karina pega um carrinho para si e Pedro pega outro. Eles chegam no primeiro corredor, o dos biscoitos e por mais que tentem ficar longe, se esbarram algumas vezes, fugindo como se o outro tivesse alguma doença contagiosa. Karina estica a mão para pegar o último pacote de seu salgadinho favorito e percebe que ele já estava sendo agarrado, por Pedro.
—- Ah qual é?! Ta me perseguindo? – resmunga ela, puxando o alimento para si, mas Pedro não larga.
—- Você que ta. Vai comprar todas as bolachas do mercado?! – rebate ele, puxando o salgado para si. Ela grunhe.
—- Vai pegar outro, esse é meu! – murmura, alto o suficiente para chamar a atenção dos clientes que passavam.
Pedro semicerra seus olhos, encarando os dela.
—- Eu peguei primeiro! – diz.
—- Você quer apanhar, é?! – ameaça a pequena.
—- Não tenho medo de seus socos.
Alguém pigarreia, interrompendo sua troca intensa de olhares matadores. Os dois se viram e dão de cara com uma garota de cabelos curtos, castanhos claros e olhos azuis intensos.
—- Toma. Você pode ficar com o meu. – diz ela, entregando para Pedro um pacote do salgadinho, que ele pega, chocado.
—- Viu, Karina, nem todo mundo é fominha feito você. – diz o guitarrista, largando o salgado todo amassado e quebrado nas mãos da ex—esposa.
Ela bota a língua para ele e segue pelos corredores, rebolando enquanto ele encara sua bunda descaradamente: algumas coisas não mudam...
—- Você me parece similar. – diz a menina que lhe “salvara”. Pedro volta sua atenção para ela.
—- Ah... eu sou guitarrista da Galera da Ribalta.
A menina abre a boca, chocada.
—- Sério? Eu amo essa banda! – diz, empurrando o braço dele.
Karina olha-os de longe, as sobrancelhas cerradas de raiva.
Ele ri, encarando sua ex pelo canto do olho e coça a cabeça.
—- Pois é...
—- Sabe, eu sempre sentia que vocês estavam cantando pra mim. – diz ela, animada, Pedro encara-a pela primeira vez: seus olhos claros, cabelo curto, estatura baixa.
—- Nossa, é verdade, você parece muito com a Esquenta...— ele mesmo se corta -- com a pessoa que inspirou as músicas.
A menina sorri.
—- Me chamo Gabriela.
—- Prazer, Pedro. -- ele olha para trás e vê que Karina ainda olha. Ela, pega no ato, tenta disfarçar mexendo nas prateleiras, mas ele pega a mão de sua recém conhecida, beijando-a. – Encantado.
As narinas de Karina abrem e fecham de raiva e o pacote de batata palha em suas mãos é amassado.
—- Aquela moça é alguma coisa sua? – pergunta Gabriela, apontando para Karina com o olhar e se encolhendo ao ver sua raiva. Karina vira para o outro lado, envergonhada.
—- É uma longa história, mas eu to solteiro. – responde o músico.
—- Hmm... espero então que algum dia você me explique essa história.
—- Você não quer meu númer...
—- Se a gente se ver de novo, eu te passo meu número. – interrompe ela, piscando um olho e sai, enquanto ele encara seu corpo se afastar.
—- Interessante... – sussurra ele. Fazia muito tempo que não achava isso de alguma mulher. Seu olhar vaga para frente até encontrar com o de Karina novamente.
Ela franze a testa, enojada e dobra para o próximo corredor, empurrando o carrinho de compras com fúria.
Depois de colocar as compras no carro, Karina corre para o banco do motorista, mas é barrada por Pedro, que segura a porta.
—- Eu quem vou dirigir. – diz, sério.
—- Mas...
—- O carro é meu. – murmura o homem. – Esse fui eu mesmo que paguei.
Ela encara seus olhos.
—- Eu não dirijo há muito tempo. Não tinha carro na Tailândia.
—- E... o que eu tenho com isso? – pergunta ele, grosseiramente.
Ela cerra o maxilar, irritada.
—- Por que você quer controlar tudo o que faço?!
Ele devolve com a mesma intensidade seu olhar, aproximando mais o rosto ao dizer:
—- Não to nem aí para o que você faz. O carro é meu, eu dirijo.
Ela larga a porta tão ferozmente que ele cai sobre o carro, volta para o porta-malas e o abre bem quando um trovão ressoa pelos céus. Arranca suas compras dali enquanto a chuva começa a cair.
—- O que você ta fazendo, sua maluca?! – indaga Pedro, segurando seu braço.
—- Eu vou embora, pedir a guarda da Ana só pra mim, não aguento olhar nessa sua cara feia! – responde, gritando para que ele a ouvisse enquanto a água caia com mais intensidade.
—- Por que você ta fazendo isso? – pergunta o rapaz, puxando-a para perto.
Ela trava, a boca em uma carranca, seu corpo colado ao dele.
—- Porque você é insuportável! – grita, ofegante.
Ele sente a respiração dela bater contra seu pescoço, seus olhos como duas lâminas.
—- Como isso daria certo se você flerta com qualquer pessoa a céu aberto? Eles vão descobrir nossa farsa e eu vou perder meu bebê. Não vou deixar que você acabe comigo de novo. – murmura, sua voz tremendo. Empurra-o.
—- Calma, Karina... – diz ele, em resposta, sentindo-se culpado e lembrando de tudo o que fizera com a relação deles: a mentira, o camarim...
Ela respira fundo, grata pela chuva mascarar suas lágrimas.
—- Eu não vou sair com ninguém, a Ana é muito mais importante que qualquer coisa na minha vida. Não vou te decepcionar. – diz o rapaz, depois de alguns minutos de silêncio. Ele a puxa novamente, mas ela empurra sua mão.
—- Ta bem. Eu só... preciso ficar sozinha. Não precisamos estar perto enquanto ela não estiver conosco. – fala a lutadora, encarando-o seriamente.
—- Certo. Eu te levo pra um hotel. – ela assente e os dois entram no carro.
Antes de ir para o hotel, Karina passara em casa para pegar suas malas e o cachorro. Prometera que não se distanciaria novamente dele, e assim o faria. Quando ela saiu, Pedro a encarou, sentindo-se culpado e ofereceu as chaves do carro para ela.
—- Eu tava sendo mesquinho. A gente comprou tudo isso juntos, você também tem direito ao carro. – ela pega a chave sem muita cerimônia e vai embora sem olhar para trás.
Assim que chega ao hotel, Karina desaba no chão, Flux olhando curiosamente para ela, que enfim deixa as lágrimas escorrerem.
Sua visão fica distorcida e ela começa a pensar em mil coisas ao mesmo tempo, sua mente retornando ao passado: Douglas tocando-a a força, seu olhar sádico, as discussões com Pedro, as mentiras durante sua adolescência. Ela engole em seco: aquele dia.
Ela fecha os olhos se lembrando:
Assim que saíra do prédio, Karina correra pra o aeroporto de Minas Gerais, mas infelizmente só teria voo pela manhã, então ela ficara chorando em um banco, sentindo que seu mundo ruía, até que uma mão pousa sobre seu ombro.
—- Eu... – diz a garota que estava no colo de Pedro e a lutadora tem que se segurar para não agredi-la. – Sinto muito. – Karina a empurra e ela cai no chão, chorosa, se arrependendo em seguida.
—- Você nem devia saber néh, que ele era casado. – diz a lutadora, secando algumas lágrimas e ajudando-a a levantar.
—- Na verdade eu sabia. Todo mundo sabe. Você é a Esquentadinha dele.
Karina franze a testa. – Era.
—- Não... – diz a menina. – não faz assim. Droga eu estraguei tudo.
—- Relaxa, já tava tudo estragado mesmo.
—- Mas não aconteceu nada! – afirma a mais jovem. Karina a encara, confusa. – Sério, eu sempre apaixonadinha por ele e aí... eu bebi demais e invadi seu camarim e sua privacidade.
Karina leva sua atenção para a moça.
—- Então não aconteceu nada? – a garota concorda. – Não precisa acobertar ele...
—- É sério. Não acaba essa relação por causa de uma jovem bêbada. Vai atrás dele.
A loira assente e corre para a rua para pegar um táxi.
Quando ela chega novamente no prédio, ela vê seu marido sentado no cordão da calçada, chorando, Wallace acalmando-o.
—- Cara, foi errado sim ficar com aquela menina, mas você já não vinha reclamando a meses da Esquentadinha? Que a relação de vocês tava uma droga?! – murmura Wallace e ela gela.
—- É, mas...
—- Pra mim a relação de vocês foi no dia que ela perdeu o bebê. Vocês nunca mais foram os mesmos. Você só chora, reclama e nem compõe mais. Pensa nisso como positivo.
Pedro encara seu amigo, concordando.
—- É verdade. Faz tempo que a gente não é mais os mesmos. Eu tenho saudades de quando a gente mal se conhecia.
—- Pois é, cara. Deixa pra conhecer outras novinhas agora, cê ainda é novo. E aliás, você tem certeza mesmo que não foi só exagero dela isso de traição.
—- Não sei, cara. Na real que eu acho que do jeito que as coisas estavam eu era bem capaz de trair minha Esquentadinha nessa turnê. Eu sou um covarde, devia terminar com ela, mas eu insistia, pensando que ia passar. Só queria terminar bem com ela, não ter a magoado.
—- A Karina vai superar. Ela é forte, passou por muita coisa.
Os dois entram num táxi que Sol chamara, irritada com a suposta traição do amigo e Karina fica ali alguns instantes. Eles já estavam fadados ao fim.
Ela sabia. Ela sabia que Pedro não tinha a traído, que a garota tinha entrado aquela hora dentro do camarim e se jogado em seus braços. Mas ela sempre escondera aquilo de todos, até dela mesma. Ele estava infeliz, talvez, eventualmente, ele faria aquilo. Ela achara que ter encontrado sua música fosse um sinal naquele dia de que não havia terminado, mas na verdade vê-lo deitado com aquela moça em seu peito é que fora. Um sinal para ela ir até ele e ouvir aquilo, que ele estava infeliz. Ela sabia que se não tivesse sido daquele jeito, seria pior ou então, não seria, eles passariam o resto da vida infelizes. Achara a chance perfeita para terminar seu relacionamento, para que ele seguisse em frente sem ela. Mas hoje, ela tinha dúvidas se fizera a coisa certa. Hoje era doloroso vê-lo seguir em frente, e ela não segurava sua raiva. Apesar de tudo, ele não tinha culpa. A culpa era dela e ela só queria que seus caminhos não tivessem se cruzado assim novamente.
Ela pensa em sua vida miserável, não ganhando campeonatos há três anos, no significado que ela tinha para os homens: uma presa, como Douglas havia deixado claro. Se encolhe, sentindo nojo de seu próprio corpo ao lembrar da sensação dele tocando-a. Pedro lhe machucara diversas vezes, mas nada se comparava ao abuso, e hoje ela recebia cada olhar malicioso com medo, até mesmo o toque de seu marido despertava isso nela: e se ele descobrisse que ela fizera-o pensar que a culpa de tudo era dele, quando era dela? Ele ficaria tão furioso... nunca a fizera nenhum mal físico, mas ela também nunca o machucara tão firmemente quanto agora, manipulando sua mente para achar que era um traidor.
Ela soluça e Flux coloca a cabeça em seu colo.
Na verdade, ela sabia que ele nunca tocaria nela com maldade, mas sua cabeça pregava peças quando ela estava assim.
Na sexta-feira, Karina pegara Pedro em casa e ambos foram buscar Ana.
—- Ta tudo bem? – pergunta ele, encarando a ex-mulher.
Karina arregala os olhos, preocupada. – O quê? Tem alguma coisa errada na minha aparência? – pergunta, colocando a mão no rosto.
Ele nega, ainda a encará-la. – Não, você ta perfeita... quer dizer, muito adequada. – aponta para sua calça de sarja e blusa leve. Ele coça a cabeça, conhecia-a o suficiente para entender os pequenos sinais de problemas emocionais: suas olheiras mais proeminentes, lábios levemente inchados, suas mãos inquietas, como se ela não soubesse o que fazer com elas. – Ka... – ele coloca sua mão sobre a dela. – Eu te conheço.
Ela engole em seco.
—- Ta tudo bem! Agora vamos de uma vez... quero ver ela. – e os dois seguem o caminho.
Logo depois que Ana entrara no carro, Pedro se virara para trás para falar com a menina.
—- Então, Aninha, você sabia que eu e a Karina temos um casamento para ir?
Ela nega, séria.
—- Você sabe o que é casamento néh? – pergunta o rapaz.
—- É tipo os que tem nas novelas com aqueles vestidos horrorosos cheios de fru-fru. – responde a pequena e Karina ri, na direção.
—- É, isso aí. Você não quer ir com a gente? – pergunta ele, olhando para Karina, que engole em seco, nervosa. Eles nem haviam combinado o que fariam sobre o casamento Cobrade e ela havia, sinceramente, esquecido disso.
—- Não sei... – diz Ana, pensativa.
Karina morde a boca. – Sabe Ana, eu também não gosto dessas coisas muito arrumadas... mas tem um lado bom.
—- O quê? – pergunta a criança, curiosa.
—- Tem muita comida boa e a gente ainda pode ir no shopping, ver um filme no cinema e comer sorvete enquanto vê uma roupa pra você.
Os olhos da pequena Ana brilham.
—- Então, você vai querer ir com a gente? – pergunta novamente o rapaz, ao que a menina responde com um aceno animado da cabeça.
Karina sorri para seu ex-marido, contente que ela aceitara ir, apesar de não ter certeza se poderia tirá-la do Estado. Ela dá a volta com o carro, levando-os em direção ao shopping mais próximo.
Chegando lá, a primeira coisa que eles fazem é comprar um sorvete para a pequena e enquanto ela se lambuza, os três entram em uma loja de roupas formais.
Ana arregala os olhos e Karina crispa os lábios olhando para a menina. Quando pensara em ser mãe de menina não pensara que teria que fingir gostar de coisas femininas.
—- Bonito esse, não? – pergunta, segurando o vestido menos cheio de detalhes – fru-frus, ela diria --, mas que pra ela continuava sendo feio, sinceramente.
Ana faz cara de nojo, a bola de seu sorvete quase caindo no chão. Pedro a salva, pegando o doce na mão e melecando-a inteira.
Karina e a garotinha riem e ele devolve a bola para a casquinha.
—- Olá... – diz uma atendente vestindo um daqueles uniformes caros de lojas de grife e olhando enojada para a meleca que o músico fizera. – Posso ajudá-los em alguma coisa...
—- Eu queria uma roupa menos... – começa a dizer a menina, olhando com nojo para as roupas. – fru-fru.
A mulher olha para a garota, surpresa e Pedro e Karina riem.
—- Vocês não podem comer aqui dentro. – fala a vendedora, com severidade.
A menina coloca o resto do doce na boca e fala, de boca cheia:
—- Ninguém ta comendo nada.
Karina tem que morder a boca para não rir.
—- Estou falando sério. Eduquem sua filha se não eu educarei. – retruca a mulher.
A lutadora não gosta nada nada de seu tom, cerra as sobrancelhas e se aproxima dela, os punhos armados.
—- Ka... -- chama Pedro, colocando a mão que estava menos suja em seu ombro.
Ela respira fundo.
—- Vamos lá, Ana. Vamos achar um lugar melhor pra comprar seu vestido.
—- Ah mas eu não quero usar vestido! – protesta a pequena. Karina sorri, acariciando seu cabelo cacheado.
—- Tudo bem, eu também odeio usar vestido. – diz, saindo da loja junto da menina.
Pedro fica para trás.
—- Se você falar assim com a minha família novamente...
—- Você fará o quê? – pergunta a vendedora, surpresa. – Pelo visto é uma família de trogloditas mesmo.
Ele a olha seriamente.
—- Senhora, você seria a gerente? – indaga o rapaz a uma mulher que passava.
Ela assente.
—- Sim, senhor, algum problema? – pergunta a moça, educadamente.
—- Contrate funcionárias menos arrogantes. – diz ele, ainda a olhar para a sua atendente, que engole em seco. – Essa senhora não sabe como lidar com a clientela. – e sai, sem olhar para trás.
Karina, que assistia a tudo da porta, com Ana, o olha, surpresa.
—- Posso lamber? – pergunta a pequena, puxando a mão dele. Ele ri e oferece a mão cheia de sorvete para ela, que se delícia.
—- Ta bom esse sorvete, néh Ana?! – diz Ka.
—- Ta sim, prova. – responde Aninha, colocando a mão melada de Pedro em sua frente.
—- Eu to bem, pode comer. – diz, envergonhada.
Pedro sorri em resposta e lambe seu dedo enquanto Ana se distrai com a vitrine da loja de brinquedos. Karina se aproxima dele.
—- O que foi isso?— pergunta, apontando para a loja que saíram.
Ele olha para a pequena criança e então para ela:
—- Apenas protegendo minha família.
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