Voltando para o Começo
12 Capítulo 12: Faz tanto tempo que não vejo você
Notas iniciais
Parte 2
1 ano e meio depois...
Karina bufa, irritada.
Ela estava em um restaurante com Nat, acredite ou não, na Tailândia e não aguentava mais a morena implicando com ela. Acontece que Natália também havia sido convidada para treinar com Rafael Cordeiro e as duas estavam muito próximas naquele tempo que se passou, principalmente porque sua amiga era a única pessoa que sabia sobre o término de seu casamento.
—- Sério, Ka, você nunca sai com a gente da academia, você nem contou pro seu pai que vai pedir o divórcio. Aliás, vocês estão separados há um ano e não se divorciaram...
Karina olha pra baixo, tentando disfarçar seu constrangimento por estarem falando sobre sua vida pessoal.
—- Nós não divorciamos nem contamos porque... você sabe... eu to aqui na Tailândia! Eu teria que voltar pro Brasil e aturar meu pai enchendo o saco. E também, se o mestre sabe que Pedro me traiu ele o mata.
—- E? Se... ele te traiu ele tem mais que morrer mesmo. – diz sua amiga, duvidando que Pedro realmente tivesse feito isso.
Karina abre a boca para responder, mas trava, na verdade não sabia porquê tanto segredo sobre o término de Perina, mas ela se sentia melhor se não falasse desse assunto.
—- Here is your Pad Thai!— diz uma voz com um sotaque forte, um sorriso no rosto e olhos puxados e serve a comida das duas.
—- Oba! Adoro esse macarrão! – diz Karina, depois que o garçom se retira, e coloca uma boa porção do prato tailandês na boca.
Nat arregala os olhos.
—- Nossa, você ainda parece aquela adolescente dragão. – ela ri e faz uma pausa antes de prosseguir. – Mas então, Karina... você sabe néh que o Douglas sempre foi na sua.
Karina engasga com o macarrão e começa a tossir fortemente, bebe um golão de sua água. – Nossa, esse macarrão em...
—- Não muda de assunto! – diz a morena, fingindo irritação quando na verdade achava graça do jeito da amiga. – Você não saiu com ninguém esse tempo todo, além dos sacos de pancada.
Karina revira os olhos.
—- Não quero saber de macho. – responde, ríspida. – Give me a drink, please, anh... a Mekong.— ela chama o garçom, pedindo um uísque forte da região.
—- Karina! – Nat chama sua atenção e Karina dá de ombros. – O Duca e o Alan vão chegar daqui a pouco... e você vai ta bêbada?
—- Que isso... essa bebida é fraquinha e eu não fico bêbada assim.
—- Ah sei... – resmunga a lutadora lembrando de quando elas recém haviam chegado no país e Karina passava suas noites enchendo a cara com esse Mekong, choramingando sobre seu casamento acabado e vomitando aos seus pés.
Quando a bebida chega, Karina a vira com tudo, murmurando um “uh” ao final devido ao seu amargor e picância característica das bebidas do país.
—- Mas então... eu queria pedir pra você não falar nada sobre o casamento pro Duca... ele é linguarudo e vai acabar me dedando pro Gael e todo mundo. – diz a loira.
Nat nega com a cabeça, mas então tem uma ideia e sorri, encarando a amiga, que a olhava assustada.
—- Só se você sair com o Douglas!
Karina arregala os olhos.
—- Oi amor! – diz uma voz e as duas se viram a tempo de ver Duca se aproximar com seu filho dormindo em seu colo. Ele dá um beijo na boca da esposa. Os dois haviam vindo para a Tailândia para o campeonato que já ocorrera – Natália não se deu muito bem e Karina quase fora para a final, mas não fora daquela vez; as lutadoras tailandesas eram muito habilidosas já que a luta tinha origem naquele país. Quanto ao Duca, ele havia visitado o lutador e treinador Rafael Cordeiro, grande ídolo seu, por isso chegara mais tarde no restaurante. Alan, é óbvio, havia insistido em ir com ele, recém fizera três anos, mas já possuía um amor imensurável pela luta.
Duca beija a bochecha de Karina e se senta, Alan ainda pendurado dormindo em seu pescoço.
—- Como vai a academia, Du? – pergunta ela, tentando fugir do assunto anterior à chegada do lutador.
—- Tranquilo, Ka, to amando ensinar. Acho que ser lutador de ringue nunca foi muito minha praia...
—- Pois é... nem a cara do Pedro néh Karina... – diz Nat e todo mundo olha pra ela sem entender dá onde ele havia inserido o guitarrista na conversa.
Duca franze a testa e depois ri.
—- Realmente, o guitarrista nunca teve talento algum nisso, lembra quando ele pediu que a Karina ensinasse ele... – diz rindo, mas ninguém ri de volta então ele se interrompe. – O que ta rolando?
Nat olha para o marido e abre a boca para falar enquanto Karina nega com a cabeça, apavorada.
—- AH! – murmura ela, alto e toda atenção vai para ela. – Ahh... o Douglas, aquele cara... muito legal ele. – e ri.
Nat assente e Duca continua com um grande ponto de interrogação no rosto.
—- Pode falar aquilo pra ele, Nat... – diz Karina e seu amigo fica olhando de Nat para ela tentando entender.
—- Aquilo que o Pedro, seu marido, é um guitarrista? – pergunta Natália e Karina assente, rindo de nervoso.
—- Mas o quê...
—- Não é nada não, Du, relaxa. – diz sua mulher e ele cede, se preocupando em chamar o garçom para pedir alguma comida.
Nat pisca um olho para a amiga enquanto ele faz o pedido e ela sorri, nervosa.
Karina bufa enquanto encara seu reflexo no espelho, Nat havia a forçada a colocar um vestido preto justo para encontrar o lutador, batom vermelho e delineador. Ela se sentia uma vadia. Puxa o vestido para baixo. Em todos aqueles anos ela perdera um pouco o asco a roupas femininas, mas vestido justo era demais para ela e saltos... esses ela tirara assim que a morena fora jantar com Duca e seu filho, colocando um sapatênis branco que destoava totalmente da roupa que usava.
—- Af, Nat! – grunhe, se vira para a cama desarrumada em busca de sua bolsa perdida em meio àquela bagunça. Nat sempre perguntava como ela conseguia viver no meio do chiqueiro, o que Karina respondia com um sorriso debochado. Ela olha para seu quarto e tem que concordar, vivera um ano em meio à bagunça naquele tempo. Seu guarda-roupas possuía peças atiradas e o resto do quarto também, o chão quase não visto em meio àquelas pilhas de vestimentas. Ela nunca fora desorganizada até vir para a Ásia, e terminar com Pedro. Balança a cabeça tentando focar no presente.
Escuta uma batida na porta e corre para atender e esconder qualquer coisa vergonhosa que estivesse à vista. Suspira, sorte que dividia o ap com Nat, que não deixava a bagunça vir para a sala-cozinha.
—- Boa noite, Karina. – diz o homem, quando ela abre a porta. Ele estava com um cheiro forte de perfume que enjoou a lutadora, mas estava bem vestido: camisa marinho, calça jeans, cabelo para trás. Ele se curva para beijar sua bochecha e ela cora. O homem era gigante, até mais alto que Pedro, ela sacode a cabeça novamente para afastar o guitarrista de seus devaneios. Era normal, pensava, comparar um potencial par romântico com seu ex-marido... ela não ficara com ninguém depois dele – por falta de tempo, ela tinha superado!— e ficou com ele anos suficientes para esquecer que existiam outros homens. – Ta tudo bem, Karina? – indaga Douglas.
Ela assente e o puxa para fora dali, mas ele a puxa de volta.
—- O que foi? – pergunta a loira, confusa.
—- Achei que fôssemos ficar por aqui mesmo. – diz o lutador, e ela franze a testa.
—- Não sei se você iria gostar da minha comida... – murmura, lembrando que seus pratos se resumiam a unir tudo que tinha dentro da geladeira, quem cozinhava mais era Pedro, apesar de são ser muito, suas comidas eram boas, como as do Perfeitão, ser filho de donos de restaurante ajudava.
—- Ka? – pergunta o cara e ela nota que estava de novo devaneando enquanto encarava o chão e ele falava alguma coisa.
—- Desculpa, o que você disse?
—- Eu disse que nós podemos encomendar alguma coisa, ta tudo lotado porque chegou temporada de turismo. – responde ele, com um sorriso no rosto.
Ela assente, pensando que se sentiria mais confortável em casa mesmo e que não queria sair. Tentava entender apenas para quê aquele sorriso patético. Ele seria bonito não fosse aquela cara alegre demais, tinha o queixo quadrado, olhos castanhos, barba perfeitamente simétrica de barbearia cara, o cabelo escuro com aqueles degradês que estavam em alta. Na verdade, ele não fazia muito o tipo dela, se é que ela tinha um tipo. Alto, magro, cabelos compridos talvez.
Eles entram na casa dela novamente e sentam-se na bancada que separava a cozinha da sala enquanto ele pede uma pizza tailandesa para os dois. Depois disso, eles ficam um longo tempo em silêncio até ele se oferecer para abrir o vinho de arroz que trouxera – e ela nem mesmo notara.
Ela bebe um longo gole, dá um sorriso falso e agradece e eles continuam em silêncio, exceto quando ele tentava falar sobre o campeonato ou os treinamentos.
—- Mas então, todo mundo falava que você era casada, eu me surpreendi quando Nat veio com essa de encontro... – diz ele, depois de alguns minutos em que Karina só virava o tal vinho.
Ela arregala os olhos e a campainha, por sorte, toca antes que dissesse alguma coisa. Era a pizza. A loira paga – aparentemente essa coisa de cavalheirismo ou até divisão da conta não era muito o feitio do lutador...
—- Hmm... picante como sempre! – murmura ela, de fato feliz com a comida, ela gostava muito de comer e também dos temperos e ardência tailandeses. Pega um pedaço, sem cerimônias e dá uma grande mordida, absorta no sabor e esquecendo-se da presença do homem.
Ele pigarreia, enojado e ela tenta parecer um pouco civilizada, mastiga mais devagar e pega dois pratos. Com Pedro não tinha essas frescuras... Af, Karina! Ele não é seu marido, é melhor. Ex—marido.
Os dois comem em silêncio e quando terminam ela junta as louças, lava suas mãos e volta sua atenção para Douglas, que encarava seus movimentos, cuidando atentamente seu corpo naquele vestido justo. Ela cora ao constatar isso e puxa o vestido para baixo para cobrir sua calcinha que quase ficara à mostra.
—- Relaxa... você não tem mais nenhuma bebida? – diz ele, rindo dela. Ela olha para a garrafa de vinho vazia, decepcionada e procura alguma coisa nos armários.
—- Por sorte a Nat ganhou essa espumante devido ao campeonato... – diz, animada enquanto mostrava uma garrafa. – Acho que ela não se importaria... – completa e depois de abrir a garrafa, os dois bebem em silêncio.
Karina não lembra quando nem como, mas estava no sofá, seu corpo estava adormecido, um hálito quente tocando seu pescoço enquanto uma mão acariciava sua vagina. Ela abre bem os olhos, empurra o corpo do homem com agressividade e este cai no chão, surpreso.
—- O que você ta fazendo?! – indaga ela, apavorada.
Douglas sorri.
—- Relaxa, você tava gostando... – ele se levanta e tenta puxá-la pela cintura, mas ela empurra ele novamente. – Que isso, mulher... você ta me machucando.
—- Você também. Sai daqui! – diz ela firme, mas ele não gosta de seu tom e agarra seus braços novamente, com força. Ela tenta se desvencilhar, mas ele não larga. – Vamos curtir o momento, gatinha... – diz, beijando seu pescoço.
Ela sente seu corpo ficar tenso e uma lágrima escorrer de seus olhos, se sentia completamente impotente, como nunca se sentira perto de um homem, mas então ela recobra os sentidos, se lembrando do muay thai e de toda sua força: lhe dá um chute nas partes baixas e quando ele se curva de dor, ela aproveita para puxá-lo pelo braço para fora dali e fechar a porta com força.
—- Qual é, Karina! Minhas coisas ficaram aí! – diz ele e ela pega sua carteira e celular de cima da bancada da cozinha, abre a porta rapidamente e atira suas coisas no corredor, fechando a porta novamente, a chave sendo virada o máximo de vezes que dava.
Corre para o banheiro, arrancando aquelas roupas nojentas e entrando no chuveiro enquanto suas lágrimas desciam pelo ralo junto d’água.
A vida de Pedro estava uma grande merda. Ele acordava tarde, alimentava e brincava com Flux – ponto alto de seu dia --, almoçava alguma besteira, ia para o ensaio, fazia algum show, voltava para casa, comia e dormia. Todo dia era a mesma coisa, salvo exceções como quando Tomtom aparecia e fazia alguma comida decente – ela vinha com frequência para São Paulo pois estava namorando um garoto de lá. Então uma vez por mês, mais ou menos, visitava seu irmão. Mesmo assim, ela não fazia ideia que Karina não estava mais com ele, achava que ele estava deprimido justamente por sua esquentadinha estar em outro país e sempre que perguntava sobre ela, Pedro dizia que estava ótima e sem previsão de voltar.
Pedro não curtia muito mentir – não depois de Karina --, mas ele não queria ser a pessoa a contar do término para todo mundo só porque Karina estava em outro país e contar para qualquer um significava contar para todo mundo. Bando de fofoqueiros...
E ainda por cima, ele estava com bloqueio criativo, a banda incomodava-o todos os dias por alguma música, mas nada saía. A banda... na verdade haviam pessoas que sabiam do término de seu casamento: sua banda, afinal, eles leram suas músicas fúnebres de amor, e souberam da confusão no camarim; até mesmo o xingaram muito depois do que ocorrera, mas Wallace pegou mais leve, alegando que eles já haviam praticamente terminado. Pedro não, ele não sabia se tinha acontecido alguma coisa, a garota desaparecera dali e ele nunca mais a vira, então foram vários meses de culpa e sentença. Se sentia hipócrita por ter julgado tanto seu pai e hoje ser igualzinho. Ao menos isso o ajudara a se aproximar mais do velho, que ficara muito ausente depois de trair sua mãe, hoje eles se falavam uma vez por semana ao telefone, apesar de Marcelo não saber de Karina nem nada de muito profundo sobre seu filho, o músico se abrira mais para contatar o pai depois do ocorrido.
—- Ah vai, Pedro. Você merece sair pra espairecer, só fica naquela casa choramingando. – diz Wallace, que estava bastante próximo do guitarrista no momento.
Pedro nega, cabisbaixo. Eles estavam no saguão do camarim, se alimentando pós-show.
Sol olha seu colega de canto de olho. Ela fora a que mais atacara Pedro pela suposta traição, mas até ela tinha que admitir que ele estava se culpando demais.
—- Olha, o negão tem uma certa razão, tenho certeza que Karina ta aproveitando muito a gringada, você devia também. Afinal, a gente nem sabe se você chegou a fazer alguma coisa com aquela piriguete lá no camarim. – diz a cantora, se referindo àquela fatídica noite.
Pedro suspira, se sentindo culpado e Wallace dá uma leve cotovelada na noiva.
—- Não sei...
—- Ah vamos! Vamos aproveitar a noite, guitarrista! – diz uma voz feminina, eles se viram para uma moça de cabelos bem curtos e platinados que tomava um copo de cerveja enquanto encarava Pedro. – Meu nome é Laura. – diz ela, e Pedro aperta sua mão sem muito entusiasmo. – Sou uma grande fã da Galera da Ribalta, até cortei meu cabelo nessa onda por causa de Rockstar e nunca mais parei. – diz ela, sorrindo.
—- Você fica linda assim, Laura! – diz Sol, colocando um braço sobre os ombros da jovem. – A Laura sempre vem nos pós-show Pedro e tinha muita vontade de te conhecer. Ela é um amor...
Pedro assente, tentando sorrir, mas sem animação, arrependendo-se de ter ficado para aquela recepção de fãs.
—- Ér... eu vou... trocar de roupa. – diz ele, retirando-se para seu camarim.
Ao ficar sozinho ele bufa de novo. Parecia que todos seus camarins eram iguais, aquele também possuía um sofá, uma mesa, uma penteadeira e uma porta para um banheiro. Ele adentra esse último, toma uma rápida ducha, coloca uma roupa e... quando saí do banheiro tem duas garotas, uma loira de cabelo comprido e uma morena com cabelo nos ombros, ambas de salto, jeans e blusas da banda.
—- Oi, Pedro!! – murmuram as duas em uníssono, alegres.
— Você pode nos dar um autógrafo? – pergunta a loira -- ...na verdade dois. – completa, rindo e lhe passando uma caneca permanente.
Ele assente.
—- Assina aqui. – diz a morena, apontando para o espaço livre da camiseta sobre seus peitos. Ele engole em seco, mas assina para ambas, que não saem depois de feito.
Ele sinaliza a porta.
—- Relaxa. Sabe... – diz a loira rindo e sua amiga se aproxima do músico, acariciando seu rosto com suas longas unhas postiças. A loira tranca a porta e Pedro franze a testa.
—- A gente pode se divertir, nós três, se você quiser... – diz ela, se aproximando também dele.
Pedro agarra a mão da morena e a afasta bruscamente de si e então se afasta das duas, abre a porta e sinaliza para que saíam.
—- Ui grosso... – diz uma delas ao sair e ele fecha a porta e se atira no sofá, irritado.
No dia seguinte, Pedro acordara com um som de choro vindo do lado oposto da cama, seu cachorro estava deitado no chão ao lado da cama, um objeto caído quebrado em sua frente. O guitarrista liga a luz e se aproxima, vendo que Flux olhava para um porta-retratos que caíra da cômoda e que tinha ele e Karina agarrados, com Flux sorrindo de língua para fora no meio deles.
O cachorro olha para ele, como que pedindo desculpas por ter quebrado o objeto e Pedro acaricia suas orelhas em resposta.
-- Você deve sentir muita falta dela, néh amigão?! – diz o homem, que pega seu celular e coloca um áudio para tocar:
“Oi Flux, que saudade, logo a mamãe vai voltar pra te afofar bastante. Não pensa que dei tua guarda pra ele não, eu só to viajando, depois você vai poder ver sua mãe. Te amo muito.”
O cão abana o rabo ao ouvir a voz de Karina e se anima um pouco, parecia saber o que ela falava. Pedro sorri, sentindo seu coração doer ao ouvir sua voz. Ela mandava áudios uma vez por semana para o cachorro, era a única forma de Pedro saber que estava viva e única comunicação entre ambos.
Ele se lembrava quando voltara de sua turnê: a casa vazia, um bilhete, seco:
“Flux ta na sua mãe, ninguém sabe nada ainda, mas acabou. O Flux é nossa única ligação agora, não pense que vou abandoná-lo. Quando eu voltar, a gente vê sobre ele e sobre o divórcio, por enquanto eu vou mandar áudios pra ele lembrar de mim no grupo 'Flux' que fiz, deixa ele ouvir quando estiver triste.”
Pedro sorri tristemente, os olhos marejados. Na época ele chorara copiosamente no chão ao ouvir sua voz e perceber a mulher incrível que perdera, que se importava tanto com quem amava. Ele engole em seco e seca os olhos. Hoje ele ainda tinha uma certa admiração por ela e só. Fazia mais de um ano, ele era adulto, não tinha ressentimentos e nem amor mais, fazia-se acreditar.
Seu celular começa a tocar e ele atende-o, aéreo. Quando ele escuta o que estão falando, arregala os olhos, perplexo.
—- Então, Ka, como foi com o Douglas? Vi que até abriram minha espumante... – diz Nat, aproveitando que Duca estava no banheiro, se arrumando para sua última saída na cidade.
Karina levanta o olhar e sorri de lado.
—- Foi tudo... normal. – responde e Nat procura alguma expressão no rosto da amiga.
—- Ah qual é, Karina... não rolou nada?
Karina treme, lembrando do que acontecera e sentindo nojo de si mesma. Por sorte, seu celular toca e ela não precisa responder. Corre para pegá-lo e trava ao ver o nome de Pedro estampado no aparelho.
O que ele queria? Será que Flux estava bem? Ela sente um nó na garganta e atende, temerosa.
—- Alô... – diz, a voz saindo em um fio.
—- Ka... Karina, – diz a voz dele, e ela sente suas estruturas tremerem. – eles ligaram... – ela franze a testa, confusa. – a vara da adoção ligou. – ela trava, os olhos arregalados. – Eles... eles acharam uma criança pra gente.
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