Voltando para o Começo
19 Capítulo 19: Finjo que nunca senti tanto amor
Notas iniciais
O voo demora mais do que planejado devido à chuva acumulada nos céus, e Karina e Pedro chegam passando das onze horas da noite. Eles jantam no avião mesmo e vão direto para o quarto ao chegarem. Atiram-se na cama, mortos de cansaços. Ela olha para ele e se levanta rapidamente, preocupada.
—- Pedro... agora que a Ana não ta e não estamos bêbados, acho melhor você não dormir aqui... – fala, lembrando-se de seu sonho quente e do quanto não confiava em si mesma ao lado dele.
—- Não se preocupa, Ka. Eu durmo na cama da Ana. – ele pega seu travesseiro e se levanta, mas trava ao ver o canto onde a cama de solteiro devia estar vazio. Coça a cabeça, olhando para os lados. – Eita... cadê a cama que tava aqui?
A lutadora olha para ele e franze a testa.
—- Eles tiraram a cama...? – indaga ele e ela se levanta, indo para o seu lado.
—- Não... não pode. – ela nega com a cabeça. – Por que eles fariam isso?
Ela arregala os olhos.
—- Bem... pelo visto pode. A cama da Ana não ta mais aqui. – ele olha para ela.
—- Mas... onde você... – começa a dizer a mulher, mas é interrompida por ele:
—- Não se preocupa. Eu durmo na poltrona. – ele coloca seu travesseiro na pequena poltrona ao pé da cama e ela assente, indo para a cama de casal sozinha.
—- Não tava preocupada... – diz, teimosa, antes de se aconchegar.
Ele ri. – Sei...
—- É. Eu... eu só não quero disputar a coberta com você. – afofa o travesseiro, meio agressiva.
O músico não diz nada, apenas tenta se manter confortável no pequeno sofá, mas dormir sentado não era a melhor posição. A lutadora parece notar, pois fica observando-o pela luz da lua, se vira para um lado, para o outro, mas o sono não vem. Ela se senta, bufando e olha para o enorme espaço livre naquela cama. Olha para Pedro, encolhido naquele pequeno espaço. Fecha os olhos e respira fundo antes de deixar seu orgulho de lado e dizer:
—- Pedro, você pode dormir aqui sim.
O homem olha para ela, confuso. – Ué, mas...
—- Esquece... só deita aqui. Não quero você enchendo meus ouvidos que ta com dor nas costas amanhã... – resmunga a loira, ainda sem olhar diretamente para ele.
Ele disfarça um riso e se levanta correndo, deitando-se antes que ela mudasse de ideia.
—- Só não encosta em mim e... Não se acostuma... – murmura ela, virada de costas para ele.
Ele se vira também para o lado oposto ao dela. – Não vou. – e dorme.
Mais tarde, quando ele acorda, quem está encostando nele era ela, agarrada em seu corpo em uma conchinha, fazendo-o sorrir enquanto volta a dormir, dessa vez sonhando.
Em seu sonho, Pedro estava na praia, Karina ao lado dele, vestida com a mesma roupa sensual da noite em que fizera a tatuagem. Seu decote sexy, estava ainda mais sexy agora que ele olhava de novo e de perto e aquela boca, preenchida pelo batom vermelho, lhe mandava um sorriso de lado, seus olhos brilhosos e afiados como os de um gato, envoltos por delineador, o cabelo preso de um dos lados.
Ela olhava para ele, seus olhos puxados ao sorrir, como ele sempre gostara de retratar em suas músicas. O guitarrista ouve uma risada gostosa sair de sua boca e preencher seus ouvidos, a mão dela estava em cima da sua.
—- Pedro... – a voz dela ecoa, e ele vê sua boca mexer em câmera lenta ao dizer aquela única sílaba. A respiração dele trava por um segundo.
Ela se levanta e tenta abrir seu macacão, mas quando não consegue, sinaliza para ele puxar o zíper.
—- Por favor...
Mas o homem franze a testa. – Como assim, Karina...? Você não vai tirar sua roupa, aqui, vai? – diz, rindo de nervoso.
Ela concorda com a cabeça, olhando por sobre seu ombro.
—- É pra tomar banho de mar, seu frouxo. – diz, irritada, levando-se e se forçando a abrir sozinha ao vê-lo hesitar novamente.
A roupa cai sobre seus pés, revelando seu corpo totalmente nu, sua silhueta batendo nele sob a luz da lua e das estrelas. Ele fica boquiaberto com a visão e surpreso com sua ousadia. Seu coração trava e seu corpo não emite reação alguma em primeiro momento.
Ela corre para a água, chamando-o com um movimento da mão e ele acorda de seu torpor. Decide deixar a sanidade de lado e faz o mesmo que ela, despindo-se por completo e correndo atrás dela, que mergulha no mar e some entre as ondas. Quando ele se ergue debaixo da água, ele a procura, se preocupando com o passar dos minutos.
—- Karina? Karina... – chama, olhando para os lados e mergulhando novamente, tentando enxergar seu corpo debaixo da água. – Karina! Cadê você?! – começa a se desesperar. Mas como não tem nenhuma resposta, segue mergulhando, nunca a encontrando.
Ele levanta a cabeça de um mergulho, assustado. – Karina! – grita, sua garganta secando e seu peito batendo rapidamente devido a adrenalina. Ele olha para todos os lados, mergulha de novo, de novo e de novo, procurando por todos os cantos.
Quando ele sai da água, o desespero toma conta e ele começa a chorar copiosamente, se jogando de joelhos sobre a areia, a mão no peito com aquela dor avassaladora.
-- Karina! Karina, por favor não faz isso comigo... Karina não me deixa novamente. Não... – ele fecha os olhos e põe as mãos sobre a cabeça, tentando pensar que aquilo era um sonho, como de fato era.
Contudo, uma mão pousa sobre seu ombro. – Pê. – ele olha para o lado e a vê, com seu sorriso de lado, seu corpo encharcado e nu.
Pedro não pensa duas vezes e lhe puxa para um abraço sufocante.
-- Calma, Pedro. Eu tô aqui. – tenta lhe confortar.
-- Eu achei que tinha te perdido de novo. E dessa vez você não tava mais nesse mundo.
Karina coloca os braços envolta de seu pescoço. – Relaxa, eu ainda tô aqui. -- Ela coloca uma mão em seu peito e olha em seus olhos e ele crê naquelas palavras. Não somente sobre ela estar viva ou não, mas sobre ela estar ali, com ele, em seu coração.
Pedro perde a voz, olhando para aqueles olhos, olhos como o mar que quase a levara. Não pensa, apenas acaba com a distância entre eles, beijando-a com dor, saudade, mágoa e amor. Ela corresponde, puxando o corpo dele para cima do seu, sobre a areia. O guitarrista separa seus lábios por um segundo, passando os seus por sua orelha, pescoço, percorrendo-os por todo o seu corpo.
-- Eu ainda te amo. – diz, ofegante, voltando a beijá-la com carinho.
Quando o homem volta a olhar nos olhos da amada, os vê sem vida, apagados. O corpo dela estava inerte, como se estivesse... morto.
-- Karina, meu amor... – chama ele, colocando as mãos nas bochechas frias dela. Karina não olha para ele, apenas abre a boca e diz:
-- Você me matou.
Pedro franze a testa, confuso com sua afirmação.
-- Você me matou naquela noite, Pê. – ela olha para ele ao falar isso, seus olhos tomados pelas lágrimas e sua boca trêmula. – Você me matou naquela noite. – repete, a voz agora embargada pelo choro. – Você não me ama. – aumenta o tom de voz. – Você me matou quando me traiu.
Karina empurra o corpo dele de cima do seu, para areia, suas mãos envolvendo seu pescoço e sufocando-o. – Você me matou. – fala, desesperada e Pedro não faz nada, deixando-a fazer o que quisesse.
-- Karina, me desculpa. – pede apenas, chorando junto dela, que continuava repetindo:
-- Você me matou. Você me matou. Você me matou...
Pedro enfim acorda, a respiração ofegante, em seu peito ainda a angústia, seus olhos jorrando lágrimas involuntárias por seu rosto. Ele olha para o lado e lá está ela: deitada com os olhos fechados voltados em sua direção, a respiração calma bem diferente da que ele vira em seu sonho. Ele não consegue evitar não tocá-la e leva seu dedo cuidadosamente para seu rosto, contornando todos seus detalhes perfeitos e sorrindo ao se acalmar só de vê-la.
Karina acorda ao ser observada, seus olhos preguiçosos custando a entender o que via: seu ex-marido lhe cuidando com os olhos, sua mão a acariciar o seu rosto enquanto seus olhos escorriam lágrimas.
Ela franze a testa, confusa, mas cede ao seu carinho e fecha os olhos, apreciando-o. Quando os abre, ele ainda está a lhe encarar como se fosse uma joia rara. Ela seca as lágrimas do rosto dele com os dedos, mas não ousa perguntar o motivo delas, apenas imita seus movimentos, passando os dedos por seu rosto até chegar em seus lábios, que ela trava, encarando e depois volta seus olhos para os dele, que estavam tão intensos quanto a luz do luar.
A lutadora sente o coração falhar, o estômago borbulhar e o corpo arder de desejo, ela se aproxima dele rapidamente, até que para a meio centímetro de seu rosto, seus hálitos misturados naquela brisa de verão chuvoso. Ele pega a mão dela que estava em seu rosto, firme e afasta-a.
-- Nós não devemos... – diz ele, ofegante, sentindo os lábios dela chegarem a encostar nos seus.
Pedro se levanta dali com uma velocidade que ela não consegue nem pensar.
-- Sem romance. – afirma, sério.
Ela se sente tola e insistente.
-- Claro. Você quem veio me olhar com esses olhos de peixe morto... – fala, orgulhosa, tentando jogar a culpa para ele.
-- Eu tive um pesadelo. Só isso. – ele se levanta, pegando a toalha e uma roupa e indo para o banheiro.
Ela grunhe quando ele sai, pegando o travesseiro e socando-o com força.
-- Idiota! Moleque imbecil...
Por sorte – ou não – hoje o dia tinha sido tirado para as garotas irem às compras. Dessa forma, Karina teria que ver Pedro somente à noite e não lidar com seus joguinhos de gato e rato.
-- Ta tudo bem, lutadora? Você parece estressada. – diz Jade, apertando os ombros da amiga para tentar tirar sua tensão.
Karina assente, mas Tomtom a olha, sabendo direitinho que havia alguma coisa na relação dela e do irmão. A jovem estava observando-os há dias. Óbvio que havia algum tipo de amor no ar, mas ela também sabia que havia algum tipo de distanciamento. Ela os vira na praça, na lancha, no hotel e até aquele dia na praia com as crianças: conversavam, debochavam, mas na hora que se aproximavam... eles fugiam. Parecia que ela tinha voltado no tempo, na época em que eles ainda não sabiam que se amavam.
Bianca mostra uma canga para a irmã, que faz cara de nojo e Tomtom aproveita para se aproximar.
—- Então, Ka, vocês estão me devendo aquela entrevista sobre a relação de vocês. – Karina parece congelar ao ouvir aquilo. Bingo.
—- Ah Tomtom, acho que não vai sobrar tempo. Tem tanta coisa pra ver, sabe...
A cacheada olha para a amiga mais velha e sorri.
—- Claro que dá, amanhã a gente se encontra antes do almoço, no seu quarto. – ela não pergunta, afirma, sabendo que Karina não tinha o dom da mentira e não sabia dizer “não”.
A lutadora engole em seco.
—- Aliás, Ka... depois você tem que me devolver a roupa, viu?! Não esquece que era empréstimo. – diz Jade, surgindo novamente ao lado da amiga.
Karina arregala os olhos, lembrando-se do macacão cheio de terra e vodka atirado no quarto e do sapato que ela não fazia ideia de onde colocara.
A morena parece perceber.
—- Que foi? Não vai me dizer que você e o guitarrista rasgaram em sua noite tórrida de amor? – ela tenta rir, mas transparece preocupação com a peça.
—- Ah... na verdade eu...
—- Ah não, Karina! Você tem que me devolver. É peça da minha primeira coleção de São Paulo Fashion Week. Tem valor sentimental.
A lutadora faz cara de confusão. – Eu só virei bebida nele...
—- O quê? Vinho?
—- Não, vodka.
A estilista parece relaxar um pouco. – Certo, pelo menos vodka não mancha, manda lavar a seco e me traz com os calçados.
—- Ah... sobre os saltos... – Jade já coloca a mão na cabeça, desaprovando a atitude de Karina. – Eu não sei onde estão, mas vou achar, juro. – A morena suspira.
—- Ta legal. Vou confiar.
Mais tarde, depois do jantar, Karina fora para a praia buscar os tais calçados de Jade, mas não obteve sucesso algum e já começava a se desesperar.
—- Ka! – chama Tomtom, de um grupo mais perto da orla.
—- Oi, Tomtom. – diz a lutadora, ainda olhando a sua volta.
—- Ta procurando os saltos da Jade, néh? – indaga a jovem, surpreendendo-a.
—- Sim. Você viu? Eram aqueles de salto reto, com umas tiras sabe...
—- Na verdade eu não vi. – Karina parece murchar. – Mas um amigo meu falou que achou uns saltos aqui na praia.
—- Sério? – pergunta a loira, esperançosa.
Tomtom assente com a cabeça.
—- Sim. Ele...
—- Hey, Karina. Vem aqui pra roda com a gente. Seu marido parece tão tristinho. – interrompe João, abraçado em Pedro, que olha para ela como se tivesse sido pego roubando.
Karina assente, fingindo um sorriso e se sentando ao lado de Bianca, que também estava na roda. Lírio, Joaquina e o namorado de Tomtom também estavam presentes.
—- Então esse que é o Diego, Tomtom? – pergunta Karina, vendo a amiga ser abraçado pelo rapaz.
Pedro revira os olhos, enciumado e a lutadora ri dele.
—- É sim, Ka. – a jovem sorri, os olhinhos brilhando de paixão.
—- E é por isso que o Pedrinho ta triste, cheio de ciúmes da irmã. – provoca João, bebendo um copo de vinho. Bianca lhe dá uma cutucada e ele reclama.
—- Na verdade eu to preocupado é com esse vinho que ela ta bebendo. – resmunga o guitarrista.
Karina ri ainda mais dele. – Ela é maior de idade, Pê.
—- Ela é cabeça-dura, isso sim. – rebate o homem, cruzando os braços.
—- Ah deu de caretice néh, guitarrista. – murmura Lírio, sorrindo com escárnio.
Pedro revira os olhos para ele.
—- Ah gente, chega disso. Aqui todo mundo é adulto. – diz Joaquina, mas se contradiz ao colocar uma garrafa vazia no centro do círculo. – Agora vamos jogar verdade ou consequência!
—- Mas isso é coisa de criança, Joaquina! – diz Bianca, rindo da maluca.
—- Na verdade a Jô tem razão. É só pra descontrair! – fala Tomtom, tendo uma ideia.
As pessoas acabam cedendo, exceto por Pedro e Karina, que não falam nada, apenas se olham.
—- Que foi? – pergunta Bianca, notando seus olhares. – Vocês têm algo a esconder?
—- Claro que não! – corre em afirmar Pedro.
—- É... eu que tenho... vergonha. Lembra? Eu sou envergonhada e esse jogo tem um monte de micos. – tenta explicar Karina. O guitarrista concorda.
—- Sem a Ka eu não faço. Sabem como a gente é grudado...
—- Relaxa Ka, não vamos colocar nada vergonhoso na consequência. – tenta acalmar Tomtom, para que não houvesse desculpa para os dois escaparem dessa.
—- Ah! Não vai ter ninguém pelado?! – reclama Lírio, fazendo todos rirem.
Ka olha para o ex-marido, que dá de ombros, crendo que eles poderiam se virar na mentira ou pedir consequência. Assim, os dois concordam em participar.
A garrafa roda algumas vezes, fazendo Bianca se envergonhar ao ter que contar de uma cena de sexo que fizera em uma novela, Lírio precisar dar um selinho em João, Diego contar que ele e Tomtom ainda não haviam transado, até que a garrafa para em Tomtom e Pedro – exatamente o que ela queria.
O guitarrista trava quando sua irmã pergunta o que ele preferia, mas acaba escolhendo consequência, para sua segurança.
—- Fala pra ele colocar o macacão da Ka daquela noite! – pede Bianca.
—- Não... pede pra ele entrar pelado na água! – grita Lírio.
—- Shh... gente. Eu quem escolho. – murmura Tomtom, sorrindo sapecamente. – Eu quero que o Pedro dê um daqueles beijaços na Ka.
Todo mundo reclama, dizendo que isso o Pedro já fazia todos os dias. Mas para o ex-casal, aquele pedido era o mais tenso que poderia haver. Karina olha para Pedro, de olhos arregalados e coloca o copo de vinho de João na boca, virando-o para manter sua boca ocupada.
O pessoal da roda encara o guitarrista cuidar os movimentos da suposta esposa e respirar fundo. Todos ficam confusos com suas reações, mas o guitarrista realiza sua “penitência”, pegando o rosto de sua mulher e puxando-o para o seu. Ele a beija como Tomtom pede, vorazmente, seus hálitos tornando-se um só, suas línguas acariciando uma a outra enquanto as mãos dela agarram os cabelos dele, puxando seu corpo para mais perto. Esquecem-se do público, os corações parecendo não caber no peito e o estômago borbulhando de emoção. Ela se empolga tanto que seu corpo cai sobre ele em um frenesi apaixonado.
João pigarreia, constrangido, e eles lembram-se de onde estavam, afastando-se, ofegantes.
Lírio bate palmas para o casal. – Quase uma década e vocês ainda têm fogo, em?!
A roda inteira ri, enquanto o casal tenta se reestabelecer, Karina vermelha de vergonha.
—- Ér... acho que deu pra mim. – ela se levanta, saindo correndo.
—- Ué, mas ela ainda é assim tão envergonhada? – pergunta Joaquina, enquanto Pedro se levanta também e sai correndo atrás de seu antigo -- ou nem tanto --, amor.
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