Voltando para o Começo
10 Capítulo 10: Minha cabeça trovoa
Notas iniciais
A primeira coisa que Karina vê ao acordar é uma luz forte forçar seus olhos a fecharem novamente. Em seguida, ela escuta alguém sussurrar:
-- Ela acordou. – e um movimento de passos para fora do quarto.
Quando seus olhos acostumam-se à luz, ela os abre inteiramente e sente uma mão segurar a sua suavemente.
-- Ta tudo bem? – pergunta Pedro, que ela encara, confusa.
E então... ela lembra-se de tudo: as dores, os sangramentos, o médico dizendo que ela estava grávida e depois...
-- Calma, você não pode se estressar agora. – diz a voz rouca de seu marido. Ela olha-o e então percebe que estava chorando e arranca sua mão da dele para secar as lágrimas, às pressas.
-- C-como foi? – indaga, temerosa. Agora lembrava-se inteiramente, havia baixado no hospital para fazer uma cirurgia urgente de retirada do feto que havia se alojado em seu útero ao invés de sua barriga.
Pedro dá um leve sorriso para quebrar o clima.
-- Pelo visto tudo bem. – ele pega sua mão novamente e a beija, o olhar cansado de quem passara a noite em claro ao seu lado.
-- Vai dar tudo certo, filha. – diz uma voz e ela vê Gael atrás de Pedro, com os olhos arregalados e chorosos.
A ficha de Karina parecia não cair. Nas histórias que sua irmã encenava e assistia na televisão, depois que um casal passava por poucas e boas, eles se declaravam, casavam, tinham uma pá de filhos e viviam felizes para sempre. Mas com ela e Pedro não foi bem assim. Sim, eles tiveram anos de felicidade e amor, contudo seus tempos de trevas eram tão ruins que ela esquecia desses dias felizes. É, na vida real, depois do casamento ainda tem muita história e tragédia para acontecer.
Pedro beija sua cabeça ao ver sua preocupação. Já estavam aguardando o médico faziam duas horas e ele a sentia ficar cada vez mais nervosa com a espera. Porém, ela não chorara em nenhum momento, parecia em choque e absorvendo a situação. E aquilo era mais preocupante do que vê-la berrar. Ele lembrava-se da obsessão que ela criou uns meses atrás em ter esse filho e não conseguia imaginar como seria se ela não pudesse.
-- Boa tarde, Karina, como se sente? – diz o médico, adentrando o quarto de hospital.
Gael, que estava sentado, levanta-se de supetão.
-- E-eu... correu tudo bem? Eu vou poder ter... – ela trava e engole em seco.
-- Relaxa, respira fundo. – diz o médico e ela começa a se irritar com seu suspense. – As suas chances de engravidar de fato diminuíram depois de hoje, mas...
-- Diminuíram quanto? – corta ela e ele a olha preocupado.
-- Você teria 20 a 25% da chance de uma mulher saudável engravidar.
Ela se desmancha, uma lágrima escorrendo e seus olhos perdendo a vida.
Pedro, que estava de pé ao seu lado, abraça seu corpo.
-- Eu acharia melhor você não se estressar muito com isso. Você precisa se recuperar, Karina e focar em outras coisas. – completa o médico. – Bem, vou deixá-los absorverem a notícia um pouco e mais tarde veio checar melhor.
O médico se retira e Gael vai correndo atrás dele enquanto Karina deixa seu choro descontrolar nos braços de Pedro, que chora junto por ver sua amada daquele jeito.
-- Doutor, você tem certeza... – indaga Gael, se postando na frente do médico.
-- Sim, infelizmente a gravidez ectópica já tinha acontecido a algum tempo e deteriorou bastante o útero da sua filha, por isso todo o sangramento e desmaio.
Gael assente, preocupado.
-- M-mas ela vai poder tentar de novo? Tem algum risco se ela engravidar?
-- As chances dela são muito baixas, não vejo isso acontecendo. Os dados que eu passei são completamente incertos, muito provavelmente ela nunca poderá ser mãe. Agora me dê licença, por favor. Espero que ela lide bem com isso.
Alguns dias depois Karina recebera alta no hospital e agora seu pai a deitava na cama.
-- Vai ficar tudo bem, filha. Você e o Pedro já são muito felizes assim com Flux, não precisa... é... tenho certeza que...
-- Não precisa dizer nada, pai. Eu vou ficar bem. – interrompe ela, os olhos aguados e a voz fanha de chorar contradizendo sua fala.
O mestre assente, olhando-a preocupado, quando seu celular toca.
-- Alô... ele o quê? Desculpa filha...
-- Relaxa, pode falar. – diz Karina, compreensiva.
-- Ta... mas hoje eu não posso ainda tem a função da Karina e... – ela olha pra baixo, se sentindo mal por estar atrapalhando alguma coisa. – Ta, ta bom. Eu vou ver aqui. – ele desliga. – O... o Miguel... seu irmão... ele...
-- Ta tudo bem, pai, pode ir. Eu já to bem melhor. – ele a encara meio incerto. – Sério, vai ficar tudo bem. – ele pega sua mão em resposta e beija sua cabeça.
-- Sabe... você ta tão madura. Nem parece aquela menininha, já segurou o mundo nas costas. – diz ele e ela dá um meio sorriso, marejando mais os olhos.
-- Já tenho meus 24 anos, seu Gael.
Ele assente, sorrindo: é, sua garotinha crescera.
Antes do lutador sair, ele colocou Pedro contra a parede e o fez prometer – sob lágrimas – que aquilo nunca seria motivo para o guitarrista deixar sua filha. Pedro, é claro, disse que nunca deixaria sua amada e que se ofendia que ao menos pensasse isso. O lutador foi embora depois de dar um longo abraço no genro e desejar boa sorte.
Depois que Gael saíra, Pedro foi até a geladeira pegar um copo d’água, quando se virou, deu de cara com sua esquentadinha encarando-o, apoiada na parede. Ele larga o copo e sai correndo em sua direção, agarrando-a pela cintura.
-- Você não devia sair desse jeito! – afirma ele, assustado e quando vai se agachar para pegá-la no colo ela segura sua mão. Ele a encara, assustado, os olhos dela ainda sem vida e cor.
-- Nós não vamos poder...
-- Karina... – interrompe ele e ela se debulha em lágrimas novamente.
Ele a abraça contra seu peito e beija o topo de sua cabeça, em seguida suas bochechas molhadas.
-- Não importa. Eu te amo mesmo assim. – mas ela continua chorando, agarrando suas pequenas mãos na camisa xadrez dele enquanto ele embalava seu corpo.
Dois meses depois, a relação entre eles ainda estava triste. Karina não conseguia se animar de forma alguma, a ideia de que ela tinha tido a chance de ter um ser dentro dela que fosse metade ela e metade Pedro e que tivera que tirar sua vida antes que ele tivesse vida lhe causava pesadelos todas as noites. Pedro estava sempre lá e acudia seu corpo tremulante enquanto ela tomava os chás de camomila que ele levava.
Haviam dias em que ela afirmava que era pra ter mantido o feto crescendo em seu útero, não importando que ela fosse morrer, que era o seu destino já que ela mesma tirara a vida de sua mãe. Nesses dias ele sentia uma raiva e pena gritando dentro de si e repetia de novo e de novo que ela estava sendo estúpida pois o bebê não sobreviveria dentro do útero. Ela voltava a chorar, dizendo que se ele sobrevivesse ambos iriam querer isso e ele dizia que a amava muito mais do que um feto, coisa que a irritava ainda mais.
—- Ka?! – chama Pedro e Karina acorda de seu devaneio. – Suco ou café?
-- Ah... suco. – ele a serve e se senta na mesa onde iam tomar café da manhã.
— Relaxa, vai dar tudo certo.
Ela assente, mas sente vontade é de revirar os olhos. Parecia que ele falava aquela frase umas 3 vezes por dia, já estava farta. Mas também não pudera, ela andava muito pessimista nos últimos dias e finalmente chegara o dia em que ela ia voltar a treinar. Estava se sentindo enorme por ter passado aqueles meses sem se exercitar e fora ainda pior porque devido a cirurgia realmente não podia fazê-lo e espantar sua raiva do mundo, seu escape estava sendo reclamar de tudo e de todos – com todos quer dizer o Pedro, já que exceto por ele, ela vira apenas seu pai e a Dandara já que Jade viajara para o exterior com seu vagabundo, Nat se recuperava do último campeonato que ocorrera nesse meio tempo – mais um motivo pra ela sentir raiva... perdera a chance de lutar – e infelizmente ela havia quebrado a perna, Duca estava com ela, Tomtom estudava para o vestibular e o casal Joanca ainda não dava notícias...
-- Um morango pelos teus pensamentos. – fala Pedro, colocando um morango grande e bonito na frente dos olhos puxados de sua esposa.
Ela sorri de lado, tentando pegar a fruta, mas ele é mais rápido e coloca na boca. Ela o encara aguardar que ela roube o alimento de seus lábios com um beijo, mas não faz menção de fazê-lo então ele morde o morango e suspira.
-- Ka... ta na hora de você voltar. – ela sabia ao que ele se referia, ela não andava mais na Terra depois do ocorrido, passava o dia agarrada no cachorro assistindo televisão, comendo besteira e dormindo.
Ela olha para baixo se sentindo culpada e ele coloca a mão sobre a dela, leva o restante do morango para a boca e...
Karina rouba a fruta de sua boca, sorrindo com os olhos e ele corre para rebater o movimento, mas é tarde demais. Ela mastiga, risonha e ele fica feliz em vê-la assim, ri junto e então se inclina sobre a mesa e beija sua boca. Uma memória vem na mente dos dois: 7 anos atrás, trancados num banheiro, dividindo aquela bala em seu primeiro dia de namoro.
Até que um latido interrompe seu momento e os dois direcionam sua visão até a porta de entrada, que recebia tímidas batidas.
Pedro se levanta e abre a porta, fica parado por alguns instantes em que Karina tenta enxergar quem estava ali. Ele se move para o lado e Bianca entra no recinto.
-- Oi, Ka. – diz a atriz, tímida e Karina arregala os olhos ao ver um pequeno volume em sua barriga. Bianca se cobre, envergonhada.
Assim que Pedro viu o clima estranho que ficou no ar, saiu da casa junto com João, que aguardava do lado de fora e soltou um longo suspiro.
-- Eu era pra ter contado que sabia. – diz, em relação ao fato do amigo e da cunhada estarem esperando um filho.
-- Que isso... isso era tarefa da Bianquinha. – diz o comediante, e depois olha pra baixo, se sentindo como um jovem inconsequente, como era quando ele, Pedro e Bianca inventavam cada coisa, até mesmo esconder que Pedro fora pago pra namorar Karina por tanto tempo.
-- Você acha que elas fazem as pazes depois dessa? – pergunta o guitarrista, temeroso.
-- Ah fazem, elas não fizeram depois da treta do namorado de aluguel?
-- Não fala assim. – murmura Pedro, ainda culpado. João ri e dá tapas nas costas do amigo.
-- Isso já faz anos e você ainda se arrepende.
-- Óbvio, vou me arrepender pra sempre.
-- Pelo menos vocês tão bem, casados, felizes e a história fica mais emocionante com esse pequeno fato.
Pedro assente, pensando que de bem e feliz a relação deles não tinha nada no momento.
-- Desculpa, Ka. Eu queria te contar... – murmura Bianca já chorando e Karina se levanta rápido em sua direção, assustando-a.
-- Relaxa, eu entendo. – diz a loira, para a surpresa da atriz.
Acontece que Karina já não abominava tanto omissões, ela preferia a verdade, mas não era mais aquela jovem incompreensível de antes que não tentava ver o lado do outro. Ela pega a mão da irmã e a encara nos olhos.
Bianca chora ainda mais e abraça a caçula, quase se desmanchando.
-- Eu juro que queria te falar... é que eu já tava antes da Jade, mas demorei a contar pro papai. Foi apavorante sabe, eu tava filmando novela e tudo, tinha que esconder de todo mundo e o papai... sabe como ele é, fiquei com medo. Ai eu contei no aniversário do Miguel...
-- Mas a gente tava brigada... – completou Karina, mas sua irmã negou.
-- Eu não... eu não tava mais brava naquela época, tava mais com vergonha do que falei. Sempre fico me metendo na sua vida, até no modo que você escolhe se casar, sinto muito.
-- Tudo bem, Bi, sei que é com boas intenções. – afirma a lutadora.
-- Eu já nem sei mais o que se passa na minha cabeça, você não é eu. – Karina, por um instante, pensa: “realmente, não sou, olha só pra você com essa linda barriga”. Bianca parece perceber porque corre para se corrigir: -- Quer dizer... nós somos diferentes néh, sobre estilos, desejos e tal...
-- Sim, eu entendi. – assente Ka, cabisbaixa.
-- Ai Ka, desculpa. – diz a mais velha, abraçando-lhe forte enquanto sente a irmã chorar em seus braços. – O que eu quero dizer é: desculpa. Desculpa por ter feito você se sentir mal, por mentir de novo, por ser metida...
-- Ta tudo bem, Bianca, sério. – diz a pequena, secando seus olhos com as costas da mão. Bianca a olha nos olhos.
-- Não, não ta. Depois, quando eu quis te contar, eu soube disso tudo e não quis piorar, mas não deu pra adiar pra sempre. – Karina assente. – Eu não acredito que isso foi acontecer... era pra ter sido comigo.
A grávida chora mais, sentindo seu coração em farrapos por ver sua irmãzinha passando por aquilo.
-- Não era não, não fala assim. Até porque fui eu quem matou a mamãe.
-- Não fala assim, Ka! – murmura Bianca, furiosa. – Uma coisa não tem nada a ver com a outra e você vai sair dessa, vai sair ilesa!
-- Eu já nem sei mais, Bi.
-- Sabe sim... olha aqui irmãzinha, você tem razão...se isso acontecesse comigo eu estaria estirada no chão, sem forças pra levantar, mas você? Você é forte, vai seguir em frente e tem um marido que te ama muito do teu lado pra ajudar.
Karina fica pensativa: -- Será? Às vezes acho que Perina ta na beira no abismo novamente. – murmura.
-- O Pedro não ta te apoiando? – pergunta a morena.
-- Ta, claro que ta. Eu que já não sou o suficiente pra ele. Já to em fragalhos e não sirvo mais pra nada.
-- Karina... se você ta falando sobre gravidez o Pedro te ama muito mais que isso, e você vai superar essa dor.
A loira cai em lágrimas novamente e é segurada pela irmã que a leva até o sofá, onde Flux lambe sua perna, preocupado. Ela acaricia sua cabeça.
-- Viu? Nem o Flux gosta de te ver assim. – Karina sorri de lado em resposta.
-- Ai Bi, eu queria tanto esse filho e pensar que só deu errado porque ele brotou no lugar errado.
-- Nunca pensei que você quisesse tanto ser mãe assim.
-- Na verdade eu nunca pensei sobre isso, mas com o Pedro... eu queria contar nossa história pra alguém fruto da gente, aprender com ele a criar alguém, dividir nosso amor com mais um ser.
Bianca sorri e abraça Karina.
-- Eu entendo, Ka. Mas... você ainda tem a opção de adotar se quiser.
-- Não. Não seria a mesma coisa. Eu não poderia ver aquelas pintinhas no rosto, a voz esganiçada, o cabelinho bagunçado... não seria nosso.
-- Mas Ka... você já tem essas características no Pedro, e tenho certeza que ele vai estar contigo até a velhice.
Karina olha para ela, pensativa e, atrás dela, Pedro ouvia a tudo atentamente.
Mais tarde, depois que o casal Joanca partiu, Karina foi para o treino e Pedro andava de um lado para o outro na sala. Adoção. Ele nunca pensara nisso. Sempre imaginara um bebê com os olhos azuis puxados de sua esposa e aquele seu sorriso. Devaneava imaginando os dois ensinando um serzinho a caminhar, lutar, tocar, mas nunca pensara que esse bebê poderia vir de outro lugar que não deles mesmos. Mas a ideia era... era tudo o que eles precisavam depois do que acontecera. Ela queria ser mãe e podia dizer que queria do jeito tradicional, mas ele sabia que ela ia amar qualquer criança que fosse.
-- Oi Pê. – murmura Karina, chegando em casa. – To morta... faz um xis Gael pra mim? – Ela se senta no sofá. – Pedro?
-- Oi amor. – diz o guitarrista, beijando sua cabeça e sentando ao seu lado, feliz. Ela estranha.
-- Ta tudo bem? – pergunta a moça e Pedro pega o notebook e lhe mostra uma página.
Karina olha para o computador, confusa.
-- Entrei com o pedido de adoção. – ela encara o marido, surpresa, mas abre um leve sorriso ao ouvir a notícia.
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