Volta por Cima
3 Dom
Notas iniciais
Espero que gostem.
1º de agosto
Seis meses atrás
Ainda o dia em que quase morri
Eu gritei, e gritei de novo. E ninguém ouviu.
Era como se o som da minha própria voz fosse um eco distante na minha cabeça, como se eu estivesse em um poço profundo. Tentei olhar meu corpo, o que estava de pé, ele era exatamente igual ao que estava deitado. Com a camiseta do Blink 182 e tudo. Então o que estava acontecendo? Tentei tocar meu braço mas minha mão simplesmente o atravessou. Era a pior sensação do mundo, estar em um mundo gelatina onde você não sente o chão, nem seu próprio corpo, nem a brisa ao redor, e escuta as vozes com eco, como se você não estivesse exatamente ali, mas sim olhando a cena de dentro de um aquário.
Então o pânico tomou conta de mim junto com o esclarecimento. Eu estava morta. Era a única explicação. Eu estava morta e meu espírito havia saído do corpo mas eu tinha ficado por aqui porque ainda tinha coisas a resolver, como em A Mediadora. Isso eu estava morta.
E aquilo não era encorajador.
Mas se eu estava morta cadê a luz? Certo, eu precisava resolver o que eu tinha na terra para subir pro próximo andar, certo. O que eu poderia ter deixado sem resolver, além do meu ódio mortal pelos robôs? Peraí o que aconteceu comigo?
Caminhei na gelatina até me aproximar do meu corpo, o sólido. Eu não parecia tão ruim, pra uma garota morta eu quero dizer. Então olhei em volta. O carro que me atropelou estava no meio da calçada, todo amassado. Pela primeira vez na vida fiquei grata por estar bem acima do peso ideal, eu tinha feito um belo estrago ali. Engraçado eu conhecia aquele carro de algum lugar...
- Eu não a vi, eu juro. Eu estava ajeitando a minha franja no retrovisor, quando vi o carro já estava subindo a calçada, eu fiquei apavorada, sabe o que acontece quando se fica apavorada, os pés trocam os pedais, eu acabei acelerando. Nós tínhamos nossas diferenças mas eu jamais faria algo assim de propósito.
Então eu vi de onde eu reconhecia o carro. Era o Mercedes branco da Tom-tom. E agora ela estava desesperada para explicar pro guarda que ela não tinha me atropelado de propósito. Claro que não, ela só estava arrumando a franja. Eu avancei o mais rápido que pude caminhando na gelatina, eu tava com tanta raiva que queria socar aquela cara cheia de batom glitter. Embora eu não soubesse como fazer isso já que não conseguia nem tocar meu próprio corpo. Mas mesmo assim eu ia tentar. Mas alguém chegou nela antes de mim.
- Não se preocupe baby, ninguém está te acusando de ter atropelado a garota de propósito.
Baby? Mas que papo é esse? Mas confesso que nem falando uma coisa tão ridícula o Chaz deixava de ser bonito. Nem quando ele deu uma olhada feia pro guarda que se apressou em garantir que não estava acusando a Tom-tom de nada. Ninguém em um cargo público ia irritar o filho do Ministro.
O que me deixou mais irada é que nem que eu estivesse morta no chão o desgraçado lembrava do meu nome. Qual é, sou eu, a Elliefantinha lembra? Que bom que você esqueceu Chaz porque ninguém nunca me deixou esquecer essa sua célebre frase.
- Olha só o que ela fez com o meu carro. – comentou a Tom-tom quando o guarda já estava longe o suficiente pra não ouvir.
O que EU fiz no seu carro? Você viu o que fez na minha cabeça? A desgraçada dá mais valor à franja do que à vida dos pedestres e ainda reclama que eu amassei o carro dela? Eu realmente ia socar aquela cara arrogante. Ia se a Sam não tivesse sido mais rápida. Talvez porque os braços dela tivessem tido que criar músculos para sustentar os peitos, ou talvez simplesmente porque ela não estava andando na gelatina, mas foi simples assim, em um segundo eu estava encarando a cara desolada da Tom-tom, no segundo seguinte a Sam estava batendo a cabeça dela no capô do carro.
- ELA. AMASSOU. O. SEU. CARRO. SUA. VADIA. O. QUE. ACHA. SE. EU. AMASSAR. SUA. CABEÇA.
Sam acompanhava cada palavra com uma batida da cabeça da outra no carro. Ela fazia tudo muito rápido de modo que o estrago já estava feito antes que o Roy e o Chaz tentassem tirar ela de cima da Tom-tom. Chaz correu pra acudir o nariz quebrado da namorada. Não pude deixar de ficar orgulhosa da minha amiga depois de ver o estrago que ela fez no rosto da Tom-tom. Sam chorava enquanto tentava se desvencilhar do Roy. Embora os peitos ajudassem ela não tinha a menor chance contra os braços do Roy.
- Me deixa quebrar ela, essa vaca matou a minha melhor amiga.
- Calma querida, ela não está morta.
Não estou? Como assim não estou? Olhei de volta pro meu corpo que agora eles estavam movendo em uma maca. Mas se eu não estou morta como eu posso estar aqui?
- Eu sei disso, mas olha só pra ela.
Ela tinha razão, a coisa tinha sido feia, mas eu não estava morta afinal. Estava só desacordada. E sem muita esperança de acordar já que eu estava fora do meu corpo por alguma razão. Mas se eles iam mover o meu corpo eu devia ir junto, por alguma razão eu sabia que não devia perder meu corpo de vista. Caminhei com dificuldade e entrei na ambulância ao lado do meu corpo.
Vou ter que dizer uma coisa sobre estar fora do seu corpo: é sinistro. Tipo eu acompanhei eu mesma enquanto faziam exames e tiravam radiografias. Os médicos concluíram que fora uma perna quebrada eu batera com força a cabeça e entrara em coma.
Fiquei ao lado da minha cama de hospital enquanto assistia a mim mesma desacordada. Assisti minha mãe chorando sacudindo a barriga enorme e insistindo que ia dormir ali comigo, embora meu pai insistisse que aquele não era um lugar para mulheres grávidas, embora seja claro que o hospital é o melhor lugar para um mulher grávida, mas a intenção dele foi boa. Não preciso nem dizer que aquele foi de longe o pior período da minha vida. Eu estava literalmente no limbo. Sem ouvir direito, sem me mexer direito, sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Foi só quando a Sam foi me visitar que as coisas se esclareceram.
Sam sentou em uma cadeira ao meu lado na cama e começou a chorar. Ela achava que por alguma razão a culpa era dela, que se ela tivesse me levado pra casa ao invés de ficar se agarrando com o Roy eu não teria me machucado tanto. Eu nunca fui boa em consolar pessoas, muito menos agora que eu nem corpo tinha. Mas eu queria confortá-la de alguma forma, queria poder dizer que não foi culpa dela.
- Ah Sam.
Minha voz saiu do fundo do poço como sempre, ela não pareceu escutar. Eu sabia que não adiantava já que eu não conseguia tocar nem a mim mesma, mas coloquei o braço em torno dos ombros dela. Foi então que aconteceu.
Já que eu não tinha conseguido tocar a mim mesma e que estavam acontecendo todas aquelas coisas estranhas eu ainda não tinha tentado tocar em ninguém. Eu desviava das pessoas, já que elas não me viam. Eu achei que meu braço ia simplesmente passar através dela, mas aconteceu algo muito mais estranho.
No momento que meu braço tocou o ombro dela eu senti como se estivesse sendo sugada. Sabe aquela sensação quando você põe a mão no ralo da piscina quando ela tá sugando a água? Eu adorava fazer isso quando era criança, só que aquilo era ainda mais forte. Eu me afastei por reflexo o mais rápido que eu consegui. Aquilo estava ficando muito estranho mesmo.
O que estava acontecendo comigo? A Sam não parecia ter percebido que ela acidentalmente tinha sugado a minha alma. O Roy entrou no quarto e tentava dizer que tudo ia ficar bem. Eu e a Sam tínhamos uma certa ligação, desde crianças, talvez fosse só com ela que aquilo acontecia. Então eu criei coragem e tentei tocar o Roy. A princípio nada aconteceu, ele também não parecia notar o que eu estava fazendo. Meu braço simplesmente tinha atravessado ele. Então eu tentei mais, me aproximei dele a ponto de parte do meu corpo atravessa-lo. Eu tinha chegado à conclusão que eu estava certa, era só com a Sam, até que eu fui sugada de novo, só que dessa vez não era uma parte do meu braço que estava tocando ele, o meu corpo praticamente estava atravessando ele. Eu fui sugada com toda a força, sem que eu pudesse resistir.
De repente tudo apagou no instante seguinte eu podia sentir o chão de novo, depois de passar duas semanas pisando em gelatina sentir o chão firme era um alívio. De repente eu podia ouvir bem de novo, a Sam falava sem parar que tinha sido culpa dela, embora eu não estivesse prestando atenção. Eu realmente não sabia o que tinha acontecido mas estava feliz de ter voltado ao meu corpo. Eu ia falar pra Sam que tava tudo bem, que eu estava de volta, foi quando eu vi que meu corpo ainda estava deitado na cama. Foi quando eu gritei. E dessa vez a Sam realmente pareceu escutar.
- Meu deus, o que foi?
Mas se meu corpo estava na cama, e eu definitivamente podia sentir um corpo agora, que corpo era esse. Eu já podia adivinhar mesmo antes de olhar meu reflexo na janela. Eu podia sentir o cabelo nas minhas costas, o calor do sobretudo preto e o desconforto das botas militares, eu estava no corpo do Roy. E gritei de novo.
- O que deu em você, isso aqui é um hospital Roy.
A Sam não percebeu nenhuma mudança no Roy, mas o que tinha acontecido afinal? Tudo bem eu tinha sido sugada, mas por quê? Bom, eu era uma alma sem corpo, e tinha sido sugada para o corpo mais próximo. Talvez se eu tivesse entrado no meu próprio corpo eu pudesse ter voltado.
Então eu entendi o que aconteceu comigo afinal.
Quando a Tom-tom me atropelou por alguma razão minha alma tinha se separado do meu corpo. Por isso eu estava vagando, e por isso meu corpo físico estava em coma, porque minha alma estava aqui fora. Minha alma precisava de um corpo então encontrou o primeiro que apareceu. Embora o corpo fosse outro, a alma ainda era minha. Ótimo, agora como eu faço pra sair daqui?
- Roy, tá tudo bem com você?
Eu devia parecer uma maluca enquanto pensava todas aquelas coisas. Ou melhor, maluco.
- Tudo bem sim, eu só preciso checar uma coisa.
Cheguei perto do meu corpo e toquei meu braço. Eu esperava ser sugada pra dentro mas nada aconteceu. Eu pensei com todas as forças em voltar mas não deu certo. Então um pensamento me chocou. Se eu estava possuindo o corpo do Roy, onde a alma do Roy estava? Eu olhei em volta tentando ver se ele estava vagando por aí. Mas é claro que eu não via nada. E agora como eu ia sair dessa?
Foi quando meus pais entraram no quarto acompanhados de ninguém mais ninguém menos que a Tom-tom e o pai dela. A cínica segurava flores que ela pôs teatralmente ao lado da minha cama e um lencinho que ela levava aos olhos para enxugar as lágrimas imaginárias. Percebi com satisfação que ela trazia um band-aid no nariz. Ela soluçou e abraçou o pai que lançava um olhar severo para a filha. E não era pra menos.
O senhor Deville, pai da Tom-tom, era dono de uma enorme rede de bancos, uma das maiores do país, e não tinha construído sua fama por perdoar erros. A filha atropelando uma garota na frente da escola não era uma publicidade positiva pra ele, e deus sabe que ele precisava de publicidade positiva esses últimos dias. É claro que o único motivo de eles estarem ali era convencer meus pais de que tinha sido um acidente para que eles não resolvessem dar queixa na polícia ou algo assim. O senhor Deville enchia meus pais de condolências enquanto a filha chorava de arrependimento. A Sam parecia prestes a esmurrar a Tom-tom novamente.
Aquilo era tão nojento. Alguém precisava dizer pros meus pais que era tudo mentira que ela tinha me atropelado porque estava preocupada demais com a franja dela e que depois só ficou reclamando que eu tinha amassado o carro dela. A raiva era tanta que eu queria pular no pescoço dela, mas não ia usar o corpo do Roy pra isso, não queria problemas pra ele. Eu tremia de raiva e o desespero de tentar sair daquele corpo. Foi quando aconteceu.
Do mesmo jeito que eu tinha sido sugada eu fui empurrada pra fora. De repente eu estava no mundo da gelatina de novo e o Roy estava lá, de pé, com uma expressão confusa olhando pra todos na sala.
Então eu entendi que enquanto eu possuía o corpo dele a alma do Roy estava em stand by, esperando o corpo vagar pra voltar. Caminhei como podia até meu corpo até que olhei pra Tom-tom. Não sei direito o que me motivou a fazer algo tão tolo e arriscado, só sei que eu sabia que ela precisava de uma lição, ela e o pai que provavelmente sabia o que a filha tinha feito e tentava colocar panos quentes. O mais rápido que pude entrei no corpo dela. A princípio só fiquei lá parada, mas logo a sensação de ser sugada me invadiu novamente. Quando abri os olhos estava no corpo dela.
- Tom-tom chegou em casa arrasada e pediu pra vir até aqui. Eu disse que vocês estariam nervosos e que era melhor dar um tempo para a família. A pobrezinha se sente muito culpada, apesar de a Ellie estar no meio da rua e a Tom-tom não a viu enquanto olhava no retrovisor. Não é querida?
O pai dela me olhou. Então agora a culpa era minha? Eu que estava no meio da rua? Veremos então.
- Sim, eu estava olhando no retrovisor. – achei estranho minha voz sair daquele jeito esganiçado que eu tanto odiava o senhor Deville me olhou com aprovação – Eu estava ajeitando a minha franja que estava caindo no rosto de um jeito horrível, eu nem vi quando o carro subiu a calçada. – meus pais me olharam chocados, mas nem se comparava à expressão do senhor Deville – Sim, porque ela estava na calçada. Quando eu vi era tarde e eu confundi os pedais, provavelmente devido a esses sapatos enormes. De qualquer forma eu acelerei e bati com tudo na garota. Mas eu realmente me arrependo muito, quero dizer, eu queria ter atropelado uma garota mais magra, essa aí acabou com o meu carro, acho que nunca mais vou conseguir desfazer aqueles amassados.
Estava feito. Meu pai estava embasbacado, minha mãe olhava pro senhor Deville como se fosse trucidá-lo enquanto ele lançava exatamente o mesmo olhar pra mim. O que eu tinha feito não era errada, era exatamente o que tinha acontecido e como a Tom-tom se sentia sobre ter me atropelado. Eu não queria estar na pele dela agora.
E foi simples assim, eu pensei isso e de repente estava sendo empurrada pra fora. Eu estava ficando experiente nisso.
- Vem aqui um minuto querida. – o senhor Deville rosnou e levou a filha confusa da sala.
- Ah, mas ele não vai sair dessa assim não. – eram nessas horas que a minha mãe parecia realmente a filha de um general.
Eu morria de rir enquanto escutava minha mãe gritando furiosa que ia processar o senhor Deville até arrancar o último centavo dele. Sam tentava explicar ao Roy em que momento toda aquela gente tinha entrado no quarto, e o quão estranho ele estava agindo.
Enquanto isso eu fiz o que tinha que fazer. Caminhei até minha cama e deitei no meu corpo. Senti minha alma sendo sugada e finalmente acordei no meu próprio corpo.
Eu não sabia muito sobre almas mas pensava duas coisas: uma que eu não lembraria de nada quando acordasse, como no filme Se Fosse Verdade, errado eu lembrei de tudo com detalhes, principalmente da sensação de estar no limbo. Duas que minha alma tinha rompido temporariamente e uma vez que encontrasse meu corpo ela não sairia mais. Errado de novo, como eu iria descobrir.
Um mês depois eu já tinha tirado o gesso e estava comemorando o fato de a Tom-tom ter perdido o carro como castigo. Quando em uma bela noite eu acordei ouvindo os cachorros latindo ao longe como se estivessem do lado de fora de um vidro, tentei levantar da cama mas não senti a cama, na verdade eu não sentia nada, e gritei de novo. Essa situação se repetiu várias vezes ao longo dos meses, eu dormia no meu corpo e acordava fora dele. Eu sempre conseguia voltar mas era meio desconfortável.
Depois de um tempo eu comecei a fazer experiências. Certa noite quando acordei fora do corpo de novo sai para caminhar e encontrei meu pai tomando água na cozinha, então eu encostei nele, e minha alma foi sugada novamente. Quase deixei cair o copo de surpresa. Então minha alma havia definitivamente se descolado do meu corpo ou algo assim.
Depois daquele dia comecei a fazer experiências. Até então minha alma só tinha saído do corpo por acidente, quando ela queria. Eu queria ter certeza que eu podia fazê-la sair se quisesse. E realmente consegui depois de algumas tentativas.
Depois de praticar muito nas férias aprendi algumas coisas importantes sobre meus novos poderes: a) antes de sair do seu corpo coloque-o em uma posição confortável, eu tive muita torcicolo depois de andanças por aí. b) deixe seu corpo em um lugar seguro, você não vai querer seu corpo maculado enquanto você está fora. c) tenha em mente o que quer fazer, porque andar por aí sem corpo gasta um bocado de energia.
Por isso quando voltei para a escola naquele ano eu estava muito confiante de me vingar dos malditos robôs. Eu fazia algo que ninguém mais podia fazer. Sem querer a Tom-tom ao invés de me prejudicar me atropelando me deu justamente as armas para acabar com ela.
Sentada no banheiro feminino eu repassava o plano na minha cabeça. Encostei a testa na porta do banheiro e fechei os olhos. Senti minha alma sendo empurrada para fora. Atravessei a porta com a sensação conhecida de estar no limbo mas pela primeira vez eu não me importei. Eu tinha trabalho pra fazer.
Notas finais
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