Volta por Cima

4 Dividir e Conquistar


Notas iniciais
Desculpem por não conseguir postar ontem, mas vou tentar postar dois hoje. Depois de atualizar minha outra fic. Queria dedicar esse capítulo pra mahmalfoy, que além de ser uma super amiga aqui do Nyah indicou a fic. *----* Espero que gostem.

1º de março

Ainda o primeiro dia de aula

Durante cerca de dez longos anos eu havia sido humilhada pela escola inteira, muito embora eu nutrisse um ódio especial pelos robôs. Eu tinha realmente motivos para acabar com a reputação de todos eles, e era exatamente isso que eu ia fazer.

O primeiro objeto do meu ódio era o Chaz, é claro. Ele que havia começado a história da Elliefantinha, embora aquela tenha sido a primeira e última vez na vida que ele me chamou assim. Obviamente ele tinha coisas muito mais importantes com o que se preocupar, como ele mesmo por exemplo, para sequer lembrar o meu nome, mesmo que eu esteja estirada na calçada depois da namorada dele ter me atropelado.

Em segundo vinha a Tom-tom. Além do fato de ela ter negligenciado minha segurança em prol da franja dela, ela tinha sido a primeira fofoqueira com a qual eu topei na minha vida. Se ela não tivesse dedurado minha fascinação infantil pelo Chaz para ele mesmo nada disso teria acontecido. Sem contar que ela sim fez questão de lembrar o meu nome, ou melhor, meu apelido carinhoso durante toda minha fatídica vida escolar. Fala sério, quando eu passava não importava se ela estava fofocando com as siamesas ou explorando a boca do Chaz ela sempre arrumava um jeito de me lançar uma piadinha. O mesmo valia para as siamesas que, como pessoas o mínimo de personalidade que eram, faziam questão de imitar a Tom-tom em absolutamente tudo, inclusive no que dizia respeito a mim.

Quanto ao Victor, nosso Dom Juan particular, como o bom artista incompreendido que era, ou pensava que era, tinha inventado quase todas as músicas da Elliefantinha, e não eram poucas. Hey, eu nunca disse que não era famosa na escola, as músicas da Elliefantinha eram cantadas como hinos de futebol. Como se as musiquinhas pegajosas já não fossem ruins o bastante ainda tinham os desenhos. O Victor desenhava bem mais ou menos, pelo menos para alguém como eu que estava acostumada com as obras-primas do Roy, mas mesmo assim eles simplesmente apareciam por aí, no mural da escola, no refeitório, na minha classe, no meu armário... Como se o apelido já não fosse constrangedor o suficiente.

Quanto ao Michel, o que se pode esperar de um trasgo como ele? Era geralmente ele quem puxava o coro das musiquinhas, eu ainda me admirava que ele conhecesse tantas, dado o tamanho escasso do cérebro dele. O Michel para mim representava o líder de todos os babacas que me humilharam pelo simples prazer de estar fazendo algo que todo mundo também faz. Se eu não podia me vingar de todos, ia me vingar de pelo menos um.

Durante as férias inteiras eu tinha pensado em planos de ataque. Mas antes de começá-los eu precisava fazer o que estava indo fazer agora. Aquele era um princípio básico de estratégia: dividir e conquistar. Eu concluí que seria difícil arruinar a vida da Tom-tom e do Chaz se eles estivessem juntos, então primeiro eu ia separá-los.

Os homens são bastante previsíveis na verdade, qualquer garoto que se preze jamais perdoaria uma traição, ainda mais um cara que prezava tanto assim sua reputação como o Chaz. Não importava o quanto a Tom-tom se explicasse, ele não ia querer mais nada com ela.

O meu plano poderia parecer um pouco cruel mas os dois eram criaturas oportunistas e sem coração que nem se amavam de verdade, só estavam juntos para unir seus poderes de influência em seres sem personalidade. E eles mereciam cada coisa que eu ia fazer com eles.

A primeira aula seria de Educação Física, perfeita pro que eu tinha que fazer, e eu não me importaria muito em matar essa aula mesmo. Eu podia emagrecer mudar as roupas e o cabelo, mas uma coisa eu jamais conseguiria mudar: eu era péssima em qualquer esporte que tentasse. E não era por causa dos quilos a mais, eu simplesmente não tinha coordenação motora.

Subi até a sala onde estudaríamos esse ano, devo acrescentar que demorei muito mais que o normal já que não contava com o meu corpo pra me levar até lá. Quando cheguei estava tudo como sempre estivera desde a primeira série. O treinador tentava em vão acalmar a bagunça para fazer a chamada. Por alguma razão as pessoas ficavam realmente excitadas antes das aulas de educação física. A Sam estava sentada no lugar de sempre, no fundão. Percebi que ela tinha jogado a mochila dela na classe ao lado pra guardar lugar pra mim. Um dos garotos retardados do time de futebol, que eu reconheci como um dos muitos que me enchiam no intervalo estava sentado na classe da frente tentando convencer a Sam a sair com ele. Ah, o que peitos não fazem.

Minha vítima estava sentada em uma das classes da frente fofocando com as siamesas enquanto acariciava o braço do Chaz que estava ocupado discutindo com o Robert qual time ganharia o campeonato esse ano. Entrei no corpo dela e fui sugada pra dentro.

- Não acredito que ela não vai mais dar as caras por aqui, vamos perder nossa diversão.

- Tem razão, mas a amiga dela voltou. E os caras já estão babando nela. Francamente por que ela não faz uma cirurgia de redução? Aquilo é desproporcional.

Parei de me esfregar no Chaz, o que ele não pareceu notar muito, e comecei a prestar atenção na fofoca das gêmeas. Eu não podia acreditar que elas estavam falando sobre o que eu achava que estavam falando.

- O que eu perdi garotas?

- A Elliefantinha não deu as caras no colégio esse ano. E você sabe como é ela é nerd, nunca se atrasa.

- Agora a amiga peituda dela vai ter que arrumar outra pessoa pra conversar, já que o namorado estranho dela não estuda com a gente.

Eu mal podia acreditar que enquanto eu pensava que elas fofocavam sobre namorados e qualquer porcaria que passasse na MTV na verdade elas falavam sobre mim, e pior, sobre a Sam. Ah, mas aquilo não ia ficar assim. Me dirigi para a loira que tinha começado a falar primeiro.

- Eu entendo que você não tenha personalidade nem vida pessoal Amber, mas não precisava gastar sua voz falando de outras pessoas que com certeza tem muito mais dignidade que você.

As duas me encaravam chocadas.

- Mas Tom-tom...

- O que é?

- Eu sou a Kelly.

- Tanto faz. – e virei as costas pras duas.

Naquela hora o treinador começou a berrar.

- VAMOS LOGO PRA QUADRA, TODO MUNDO!

Caminhei até a porta enquanto o Chaz me abraçava pela cintura, ainda discutindo com o Robert. Me desvencilhei do abraço dele, não que ele não fosse gostoso e tal, mas eu tinha outros planos em mente. Ele nem pareceu notar enquanto eu descia as escadas apressada para alcançar o grupo de garotos mais a frente.

- Oi Tony. – eu disse da forma mais sexy que a minha recém adquirida voz esganiçada permitia.

Tony era descendente de japoneses, o pai dele era o chefe do consulado japonês. E ele seria a minha vítima para arruinar a reputação da Tom-tom. Não que ele fosse feio, não era muito pelo menos, mas era extremamente nerd.

Ele me olhou como se eu fosse à rainha dos aliens descendo da nave mãe para dizer que dominaríamos a Terra e ele tinha sido o espécime escolhido para os nossos testes, como nos seriados que ele olhava. Ele sorriu embasbacado pra mim, e foi com extrema dificuldade que ele conseguiu murmurar um oi de volta, que pareceu mais um grunhido.

- E aí, o que aconteceu em Star Trek ontem?

Os nerds em geral me olharam apavorados, não bastasse eu ter cumprimentado um deles, eu ainda estava puxando assunto.

Foi como acender um fósforo no meio do gás, mesmo que o Tony estivesse tendo um ataque nervoso por a garota mais popular da escola estar falando com ele, nenhum nerd resiste a falar de Star Trek. Tive que ouvir a narração do episódio inteiro até chegar à quadra quando o treinador nos reuniu no centro para fazer o aquecimento.

Durante toda a descida eu notei que as siamesas me olhavam apavoradas, como se eu tivesse cheirado muita acetona enquanto fazia as unhas. O Chaz de vez em quando me lançava olhares de curiosidade. Enquanto a Sam olhava nervosa escada acima, provavelmente se perguntando onde eu tinha me metido.

Fizemos o círculo e eu fiquei ao lado do Tony, do lado oposto dos outros robôs. Chaz finalmente pareceu notar que alguma coisa estava errada. Ele me lançou um olhar estranho do outro lado da quadra.

“É isso mesmo Chaz, a Tom-tom voltou pro lado bom da força, pelo menos enquanto eu estiver no corpo dela.”

Depois do aquecimento o treinador começou a berrar.

- Hoje vamos jogar queimado. – murmúrios de reclamação surgiram de todos os lados, não era pra menos a gente jogava essa porcaria desde a primeira série. – É isso mesmo e não adianta reclamarem. Vamos fazer os times. Desculpem mas vou ter que separar o casalzinho, Chaz e Tom-tom vocês são os capitães, escolham seus times.

Desde cedo eu aprendi uma coisa sobre professores de educação física: ao contrário do pedagogicamente adequado, eles só são legais com os atletas, enquanto deveriam ser legais com os nerds para incentivá-los a praticar esportes. O mundo é cruel, eu sei.

- Eu escolho o Tony. – e puxei o garoto apavorado pro centro da quadra.

- Ah, bom, eu escolho o Michel. – o Chaz me olhava como se perguntasse: “Você bateu a cabeça em uma pedra ou o quê?”.

Quando terminamos o meu time tinha todos os nerds e gordinhos que ninguém nunca queria em seus times. Deixei a Sam no time do Chaz, eu realmente queria que ela ganhasse pelo menos uma vez na vida.

- COMECEM. – berrou o treinador.

Levei uma bolada no braço nos primeiros segundos do jogo. Deixei a quadra aliviada, não que não tivesse doido, enquanto eu possuísse o corpo da Tom-tom eu sentia tudo o que ela sentia, como se fosse meu próprio corpo. Depois de três partidas nas quais meu time foi completamente massacrado o treinador nos liberou pra fazer o que quiséssemos, o que significava Chaz e os outros atletas jogando futebol na quadra e o resto da turma conversando nas arquibancadas. As siamesas sentaram esperando que eu me juntasse a elas mas eu passei reto. Agora era a hora de fazer o que eu tinha vindo fazer, por mais que isso me embrulhasse o estômago.

Tony estava sentado com o Clube do Spok. Eu estava ciente que os olhos do Chaz me acompanham devido ao meu comportamento estranho daquela manhã. Eu nem liguei, na verdade eu contava com isso.

- Tony eu posso falar com você?

Levei um Tony cambaleando de nervosismo até um canto mais isolado da quadra, onde eu sabia que todo mundo ia ver que eu estava indo para ter mais privacidade com o Tony.

- Tony a verdade é que eu tenho reparado em você há muito tempo e a verdade é que eu te acho muito gatinho.

Certo, o que eu estava fazendo com o Tony podia parecer maldade mas não era. Pra começar ele não ia realmente acreditar que a Tom-tom tava tipo, apaixonada por ele. Segundo o Tony provavelmente era BV, eu ia dar a ele a chance de ficar pela primeira vez com a garota mais popular da escola. Qual é, ele ia contar isso pros netos dele.

- O-o que quer dizer?

Notei que o Chaz tinha largado o futebol e estava vindo na nossa direção. Era a minha oportunidade.

- Isso Tony. – e agarrei ele.

Certo, eu nunca tinha beijado um garoto antes, e tampouco queria começar beijando o Tony, mas eu não estava no meu corpo então isso não conta. A coisa tava saindo bem desajeitada, mas o Tony não ia ter nada com o que comparar mesmo.

- Tom-tom!

Felizmente o Chaz me salvou daquela vingança nojenta. Eu soltei o Tony, que ainda estava chocado, e encarei o Chaz, que também estava chocado embora não tanto assim.

O Chaz era boxeador então eu pensei que ele ia esmurrar o Tony, talvez dar uns tapas na Tom-tom, e eu estava pronta pra deixar a pele dela se ele se aproximasse demais.

Em cerca de segundos a turma inteira estava em volta de nós, como naquele dia no primário, só que dessa vez eu não estava no meio da confusão, pelo menos não que alguém pudesse reparar. Chaz olhou em volta, era óbvio que todos esperavam uma briga feia. Ele corou um pouco e agarrou meu braço.

- Qual o seu problema? – ele murmurou e me arrastou da quadra.

Aquilo não era bem o que eu esperava, e aparentemente não era o que a turma esperava, pois todos nos olhavam com decepção enquanto passávamos.

O único motivo de eu não ter deixado o corpo da Tom-tom enquanto o Chaz me arrastava pra fora dali era porque as coisas não estavam saindo como o esperado. Eu tinha gasto bastante energia até agora e tinha cabulado a aula pra fazer isso, eu queria ter certeza que ia dar certo.

Ele continuou me arrastando até chegarmos a um canto embaixo da escada, onde ninguém podia nos ver. Ele encostou na parede e me olhou bastante sério.

- Certo, qual o seu problema afinal?

Era incrível como ele ficava gostoso com os braços cruzados, um olhar severo no rosto e sol entrando pelos vãos da escada iluminando o cabelo dourado dele. Mas eu não ia me comover, ele não tinha coração.

Eu tinha achado que tudo tinha ficado bastante óbvio, mas aparentemente ele precisava de uma explicação. Ah saquei, atletas sabe como é, não pensam muito.

- Olha Chaz me desculpe mas eu cheguei à conclusão de que não dá mais pra nós dois. Juntos, um casal sabe como é?

Ele arregalou os olhos pra mim.

- É, isso mesmo. É o que eu tô tentando te dizer há meses.

Agora era a minha vez de ficar chocada.

- Como é que é?

- Não dá mais pra gente ficar junto, eu terminei com você lembra? Há seis meses, mas você pirou. Disse que de jeito nenhum eu ia abandonar você, me ameaçou, disse que ia se matar, até atropelou aquela garota...

- COMO É?

A Tom-tom me atropelou. Porque o Chaz terminou com ela?

Como assim?

- Eu queria terminar, você ficou descontrolada. Não me admira que tenha entrado na calçada e acertado a garota, você tava fora de si. Depois do acidente você parecia tão arrependida, me pediu pra voltar e eu aceitei. Agora você faz isso.

Ah meu deus. Então eu acabei no hospital por causa da tentativa frustrada do Chaz de se livrar da Tom-tom. Mas fazia sentido, naquele dia eu achei estranho ela não estar junto com ele no estacionamento. Mas ainda tinha uma coisa que eu não entendia.

- Mas por que você queria terminar comigo?

Ele suspirou, como se já tivesse tentado explicar aquilo umas cem vezes.

- Por que a gente não tem NADA em comum. A gente nem se gosta de verdade e você sabe disso. Não faz sentido ficarmos juntos só por convenção, é perder o seu tempo e o meu.

Cara, aquilo tava ficando estranho.

- Mas se você queria tanto terminar comigo, por que a gente voltou depois do acidente?

- Bom você tava muito nervosa, tive medo que você se machucasse. Eu tenho coração ora!

Ele disse aquilo com tanta ênfase que eu quase acreditei. Logo eu que sempre pensei que o Chaz tinha tanto coração quanto o Homem de Lata. Foi então que eu percebi que eu nunca tinha conversado com o Chaz de verdade, isso se você não contar a vez que ele me chamou de Elliefantinha mas ele nem estava dirigindo a palavra pra mim de verdade.

Ele me olhava com intensidade. Então pareceu se lembrar de uma coisa e se apressou em dizer.

- Mas vamos fazer o seguinte, nós dois chegamos à conclusão de que não tá dando certo né? Então vamos terminar e eu vou esquecer esse episódio da quadra e vamos ser só amigos né?

Eu estava chocada demais pra responder.

- Então tá, desejo tudo de bom pra você e pro Tony.

Ele me deu um abraço e saiu. Eu ainda estava chocada demais pra me mover. Tá certo que eu tinha acabado com a reputação da Tom-tom, mesmo que ela desse um fora no Tony e jurasse que tinha sido possuída por um espírito do mal o estrago estava feito, ela sempre seria lembrada por ter ficado com o maior nerd da escola. Mesmo assim eu não estava totalmente satisfeita.

O Chaz não tinha sofrido nada. Um cara popular como ele ia sair dessa numa boa, principalmente quando a Tom-tom começasse a implorar pra voltar com ele. Eu tinha até feito um favor pra ele, ele não sabia como se livrar da Tom-tom, agora ele tinha uma ótima desculpa.

Voltei pra quadra e meu dia melhorou consideravelmente. Todos me olhavam, ou melhor, olhavam pra Tom-tom como se ela fosse à coisa mais engraçada do mundo. Todos cochichavam, alguém até me lançou uma piadinha! Quando o sinal tocou e todos se aglomeraram pra subir a escada Tony chegou perto de mim e disse:

- A gente se vê no intervalo, princesa. – e me deu uma piscadinha.

Deixei o corpo da Tom-tom com as siamesas e corri pro banheiro o mais rápido que pude. Meu corpo estava no mesmo lugar, voltei pra ele satisfeita por não estar muito dolorida, e por não ter amassado muito a roupa. Eu tinha que me apressar para a aula de história. Mas antes me dei ao luxo de fazer algo que eu queria muito fazer. Me inclinei pra trás e chorei de tanto rir.

Notas finais
Bom, esse é apenas o começo.
Deixem reviews.