Capítulo 16

Primeira carta

Se não fosse a aparição de um criado de Melandra dizendo que Vollfeit havia mandado uma mensagem, Neri não saberia por mais quanto tempo seu corpo aguentaria ali, no meio das aulas de defesa. Sua mente, no entanto, estava firme e animada. Tinha relembrado a sensação de ter os pés envolvidos por uma proteção forte, dessa vez vinda por alguém que não se lembrava de seu próprio potencial. Em sua mente repassava o momento em que o poder do mensageiro chegou até ela, levando o ar para baixo de seus pés e evitando que a terra da área subisse e ultrapassasse o órgão como uma lança. Sabia que não tinha sido comandado conscientemente, mas era um progresso ótimo para a recuperação da memória do garoto.

O criado veio correndo em direção ao arco do pátio e, aproximando-se de Kyprios, disse com pressa:

— Vollfeit mandou-lhes um aviso — e entregou a carta que segurava.

Neri foi até o espião ao mesmo tempo em que o mensageiro também o alcançava. O garoto de cabelos brancos abriu o selo real colado na frente, e o que leu em seguida a fez desejar que tivessem continuado o treino.

— Não esperávamos por isso… — Kyprios falou em tom baixo.

Neri assentiu, não tinha muito o que dizer. Vollfeit havia sofrido outra invasão, dessa vez perdendo um grupo de pesquisadores de Ihene para os sequestradores misteriosos. Três guardas foram mortos e mais quatro estavam feridos. A notícia a fez desejar voltar para o seu reino e ir atrás de cada um dos inimigos envolvidos enquanto seu estômago se revirava. Agora não eram apenas crianças sendo levadas?

— Precisamos falar com o rei Dhorar — o espião disse olhando para o criado, que assentiu e os guiou até a sala real.

Passaram por todos os corredores em silêncio, o coração de Neri pesando em seu peito. Pouco depois entravam no cômodo destinado ao rei, onde o encontraram no primeiro dia. Cumprimentaram-no antes de Kyprios revelar o conteúdo da carta. Seus olhos ficaram apreensivos no início, mas parecia tentar se manter neutro enquanto respondia.

— Sinto muito pelas perdas de seu reino. O mundo não é mais o mesmo, precisamos estar atentos e ajudar uns aos outros.

Neri riu ironicamente por dentro. Tudo que o rei de Melandra falava se tornava, de algum modo, sobre apoiar seu próprio reino.

— Obrigado, vossa majestade — Kyprios deu uma pausa. — Gostaria de pedir alguns minutos antes de retornarmos às aulas de defesa.

— Ah, sim… — murmurou. — É claro… Só se lembrem de voltarem.

O trio agradeceu e se retirou, indo para seus quartos. Kyprios mantinha um comportamento calmo apesar da notícia, mas lançava olhares profundos em direção ao mensageiro hora ou outra — parecia esperar que ele os atacasse agora que despertara o ar — e o este ficara calado durante todo o caminho desde o pátio. Olhou-o de esguelha e acabou sendo percebida. Sorriu discretamente. Ele deveria estar se segurando para não disparar diversas perguntas sobre horas atrás. Deixou-o raciocinar mais um pouco enquanto se voltava para o espião, já dentro do quarto.

— O que faremos quanto a carta?

— Não há nada que possamos fazer por enquanto — balançou a cabeça negativamente. — Precisamos terminar as aulas o mais rápido possível, dar um veredito razoável ao rei sobre os ataques e, assim, partir.

— Esse reino é mais complexo do que parece — disse, sabendo da confusão que criariam entre as alianças caso fossem embora agora.

Kyprios concordou.

— Precisamos ficar por mais dois dias, depois falaremos que os ataques estão sendo feitos por todo o país por um grupo grande e novo de saqueadores.

Saqueadores? Neri não queria mentir, ainda mais para encobrir o passado — e o presente — de Vollfeit, mas não poderia dar mais motivos para fundar um caos. Dizer ao rei Dhorar que seu precioso reino estava sendo atacado devido a um outro, sedento por vingança em cima de Vollfeit, não criaria uma boa imagem deles.

— Vamos demorar uma hora para resolvermos isso, então vocês podem descansar… — Kyprios falou meio sem jeito.

Neri assentiu distraída, mas depois percebeu. Controlou as sobrancelhas quando finalmente notara que Kyprios tinha pedido um tempo ao rei para que ela se recuperasse, e não para resolver o que fariam com a carta — pois dez minutos eram mais que o suficiente para isso, caso fosse a situação. Aquilo a surpreendeu.

— Obrigada — disse, guardando silenciosamente a ideia de que, talvez, tê-lo perto não fosse um grande incômodo, e saiu com o mensageiro.

No corredor deu dez passos até a próxima porta, parando em frente a seu quarto e observando seu antigo oponente. Este a fitava profundamente, como se tentando extrair respostas sozinho. Ele parecia a ponto de explodir por tanta curiosidade e confusão.

— Bem… — deu um sorriso ligeiro, achando graça, e abriu a porta, convidando-o com a cabeça. — Vamos.

O rapaz entrou e Neri pôde fechar a porta atrás de si. Foi até a cama e se sentou na beirada, agradecendo mentalmente pelo conforto e descanso. Expirou forte, organizando mentalmente o que poderia ou não contar, e começou a falar; deveria usar aquela conversa para instigar as lembranças dele.

— Antes de te conhecer, ganhei alguns machucados um tanto sérios — desviou o olhar, não queria expor culpa através de seus olhos. — Desde então estou me recuperando, por isso não pude lutar de verdade hoje... Além disso, não é certo expor toda a sua força para desconhecidos... Principalmente aqui — sentiu-se um tanto aliviada pelo rapaz não questioná-la sobre os machucados, mesmo que seus olhos tivessem brilhado por um momento.

— Vocês não confiam neles, certo? — ele se colocou encostado na janela, que tinha as cortinas fechadas.

— Nunca vim aqui antes — disse após concordar com a cabeça. — E acredito que Kyprios também. Não conhecemos ninguém aqui e as pessoas não transmitiram uma boa impressão até agora.

Ele deu aquele sorriso de lado, enchendo sua voz de ironia.

— Os olhares que recebemos mostram como eles são receptivos e simpáticos.

— Talvez os guardas de Vollfeit sejam melhores nisso.

— Sem dúvidas — sorriu.

Ficaram um tempo em silêncio antes de Neri continuar.

— Eles acham que controlo a terra porque usei o ar em volta para segurá-la como eu quisesse. Como se fosse uma pinça pegando cada bloco. O tanto de ar que consigo controlar ainda não é grande, talvez eu demore mais uma semana pra voltar ao normal. Então naquela hora… Seria muito difícil eu me defender. O ar de outra pessoa me ajudou — encarou-o com expectativa.

— E essa pessoa… Não seria Kyprios — disse pensativo, examinando a poltrona ali perto como se ela fosse afirmar sua resposta.

— Não seria — respondeu. Tinha ciência da suspeita do garoto, e ele estava certo. Ele só precisava aceitar aquela ideia.

O garoto a fitou, provavelmente com mil ideias passando por sua mente.

— Naquela hora… Quando entendi que Aalix ainda iria te atacar, lembrei de algo. Borrado... Mas vi uma criança escondida perto de mim, e alguém a encontrou e lançou uma rocha grande na direção dela — disse, seus olhos guardando um aborrecimento estranho.

— Foi a única coisa que conseguiu se lembrar?

O garoto assentiu pesarosamente.

— Descobrimos que Aalix conseguiu ser útil em alguma coisa — falou após um tempo, um sorriso discretamente sarcástico em seus lábios.

— Algo assim — retornou o gesto por um breve momento. Depois seu rosto se fechou. — Não vi o que aconteceu antes daquele estrondo. Tudo estava igual, mas… — ele parecia tentar escolher as palavras com dificuldade, porém acabou disparando-nas num suspiro. — Bem, acho que senti o ar ouvir o que eu queria. Como pedir pra ele me trazer um copo de água e, depois, um copo vir voando até mim. Eu imaginei uma barreira em você e o ar pareceu seguir meu pensamento.

Neri riu delicadamente com a resposta. Por mais que o garoto tivesse se esforçado, era realmente difícil explicar a sensação de ter o ar como um amigo.

— É como se sentir livre pra fazer muitas coisas… Como ser leve a ponto de ser levado por ele a todos os lugares que quiser — disse, sua voz saindo involuntariamente arrastada. O ar era algo que a acompanhava por muito tempo, tornando-se parte de si. Uma parte importante e insubstituível.

— Acho sua definição melhor — o garoto brincou. — Essa sensação… É como se tivessem aberto muitas portas na minha frente. Não que eu vá usar alguma pra escapar.

Neri sorriu, observando os olhos, agora mais vívidos, do outro.

— Bem, acho que precisarei das suas aulas. Mas não me faça lutar contra você — pronunciou após um tempo, com um sorriso livre de sarcasmo.

— Tem certeza? Parece divertido.

— Você luta incrivelmente bem — respondeu com uma expressão esperta. — Não que eu tenha visto outras lutas, no entanto.

Por aquele breve momento Neri se deixou rir verdadeiramente, sem se importar com os problemas que existiam fora daquele cômodo. Conversar com o mensageiro era incrivelmente natural e divertido. Depois o peso causado por Vollfeit voltou aos seus ombros, fazendo sua mente turbilhonar com teorias e planos maléficos feitos pelos inimigos misteriosos.

— Você pode aproveitar esse tempo pra explorar escondido o castelo ou descansar também. Ou treinar suas novas habilidades — acrescentou com um sorriso. — Ficarei aqui até que nossa preciosa uma hora de reunião acabe — sugeriu; não tinha medo de deixá-lo sozinho e incitar uma fuga. Ela o acharia de qualquer forma.

— Irá dormir? — perguntou após assentir.

— Não, vou apenas fechar os olhos e deixar meu corpo morrer aos poucos — sorriu.

— Se quiser dormir, ficarei na porta como vigia caso Aalix queira se vingar de você — devolveu o sorriso.

— Parece possível — divertiu-se e parou para pensar por um tempo. — Pode ficar aqui se quiser, ficarei no sofá caso queira dormir.

— Eu seria um péssimo guarda e decepcionaria os de Vollfeit se dormisse — virou-se para a porta. — Descanse bem, Neri — e andou para lá, sentando-se.

Observou-o por dois segundos antes de se deitar no colchão de lençol bege e fechar os olhos. Antes de dormir costumava pensar em algo fixamente, mas eram tantos pensamentos naquele dia que Neri achava não ser capaz de pegar no sono por semanas. Pensou em Aldith e Belchior, mas os dois a levavam até a possibilidade de que, um dia, eles a esqueceriam por estar sempre sumindo — e a lembrava da situação preocupante de Vollfeit. Então pensou no mensageiro, a metros de distância. “Acho que senti o ar ouvir o que eu queria”. Ele realmente quisera protegê-la contra Aalix? Se sim, então… Talvez ele não fosse ruim como inimigos costumavam ser. “Eu imaginei uma barreira em você”. Suspirou internamente, pensar naquilo era desgastante.

Migrou, mais uma vez, de lembranças em lembranças até achar algo que mais a reconfortasse que preocupasse. Em sua mente criava uma floresta calma, com o céu azul claro lá em cima e com uma família de lobos passeando por entre as árvores. Repassou as funções de cada lobo em uma alcateia até que pegasse no sono.

Se ela pudesse fazer parte de um, conseguiria ser um lobo útil para o grupo?