Vollfeit - Diellors e ihenes
17 Capítulo 17
Capítulo 17
Viagem
Seu corpo estava exausto após mais de um dia — ou mais que isso, não sabia dizer — balançando numa carroça de madeira apertada, com mais duas pessoas presas junto a ele. Sua garganta estava seca como seus lábios, que só receberam uma pequena dose de água há horas atrás através de uma portinhola mínima na madeira, e o estômago começava a reclamar pela falta de comida. Apesar da situação, Idris mantinha a calma. Precisava manter ou não acharia um modo de se livrar dos inimigos.
A carroça passou por alguma pedra ou obstáculo parecido e a chacoalhou, fazendo as duas garotas também aprisionadas baterem a cabeça na lateral dura. Elas choramingaram durante mais de três horas até que adormecessem, sem nem notar as batidas que suas cabeças davam nas tábuas duras. O astrônomo não entendia o desespero delas; tudo teria uma solução se as pessoas quisessem procurá-la. De repente a movimentação e os sons que vinham dos outros transportes pararam e, em seguida, o ar foi sugado. Uma sensação nauseante atingiu Idris e sua visão escureceu. Cerrou os olhos e só os abriu após perceber que a luz havia retornado. Ao seu lado e em sua frente as garotas despertavam com expressões confusas, encarando-o brevemente antes de voltarem a chorar em tom baixo. Idris continuou quieto, esperando que o mal estar repentino passasse. Queria poder entender o que acabara de acontecer, mas a carroça nem sequer tinha janelas para espiar lá fora.
A viagem parecia se estender por tempo indeterminado, acompanhada pelos sons das carroças da frente e de trás e alguns pássaros tímidos. Idris usou as mais de, provavelmente, trinta horas confinado pensando no que acontecera até então. Sua mente voltou para o dia em que o grupo de astrologia e astronomia visitaram o monte Ulugh. Os gritos, o sangue se espalhando na terra e seu próprio esforço em enrolar os inimigos… Tudo dera errado. A defesa de Vollfeit não chegara a tempo de impedir a fuga. Agora dependiam de nada menos dos misteriosos invasores. Mas por que sequestrá-los? Não eram crianças e os mais novos do grupo não podiam ser considerados realmente daquela forma. Então por que… Idris cruzou suas mãos em cima do colo e encostou a cabeça na madeira grossa. Por que estavam ali? O que fariam com um grupo de astrônomos e pessoas que acreditavam na influência dos astros na vida humana? Ali, na solidão estranha daquela carroça, conseguia pensar em inúmeros motivos, apesar de bizarros.
A carroça balançou mais uma vez e as garotas emitiram um sussurro assustado. Idris ficou com os olhos cerrados, aumentando sua concentração para captar tudo ao seu redor. Após algumas horas o som de uma corrente de água o atingiu minimamente. Em algum lugar distante, um rio seguia seu fluxo sem percebê-los. Sem ninguém, além dos inimigos, percebê-los. Depois a portinhola do transporte se abriu novamente e uma mão manchada com pintas negras apareceu, jogando três pães nas tábuas do chão.
Idris esperou que as meninas pegassem seus pedaços para coletar o último. Sua boca salivou involuntariamente enquanto dividia o pão, perdendo um pouco da vontade ao sentir a dureza do alimento — estava velho e a ponto de mofar. Comeu lentamente, obrigando-se a engolir; não sabia quando teria a próxima refeição, e no melhor dos casos.
A viagem se alongou mais. O som do rio se tornou constante até a mesma diminuir gradativamente, com algumas corujas começando a piar, avisando-o de que a noite chegara outra vez; provavelmente tinham se afastado das águas para acamparem num bosque, onde seria mais difícil de encontrá-los. Idris sentiu a carroça descer e subir inclinações, causando um desconforto teimoso em seu corpo cansado de estar na mesma posição, até pararem de vez por algumas horas. Se ao menos os deixassem sair, poderia se esticar e matar o tempo observando o céu… Mas sentia que não teria a companhia das estrelas por um longo período.
O dia seguinte, e — provavelmente — os três que vieram depois, não apresentaram uma rotina melhor; o que mudara é que receberam autorização para sair, de olhos vendados, para transformar os arbustos ao redor em banheiros temporários. Eram pouquíssimas as vezes em que conseguiam autorização, mas era melhor que nada. Após uma pausa durante a quinta noite naquela viagem desconfortável, as carroças voltaram a se mover. Idris passou as horas com os olhos fechados para ouvir com clareza o canto dos pássaros e o rio, que voltara após pouco tempo; já estava enjoado daquelas paredes de madeira ao seu redor, além do cheiro estranho que as mesmas acondicionavam.
A sensação ruim de antes o atingiu mais três vezes, uma por dia. Sentiu sua pele ser sugada brutalmente por algo invisível e seu estômago se torcer junto com a cabeça, que só deu um alívio ao homem após quase duas horas; talvez não tivesse sido tão ruim se sustentasse uma situação melhor, onde estaria descansado e alimentado. Na última vez em que fora invisivelmente atacado, algo mudou — e para a pior, muito pior. Sua garganta pareceu se fechar, impossibilitando-o de respirar na frequência normal, enquanto a cabeça explodia e sua pele parecia ser castigada por pedras de gelo. Idris começava a pensar nas diversas possíveis causas para aquilo quando a porta da carroça se abriu. Um homem alto e de cabelo esverdeado — estaria ele começando a ter alucinações pela falta de oxigênio? — invadiu o pequeno espaço com braços fortes, puxando-o primeiro, e depois as garotas, para fora. O trio de Ihene caiu num chão duro, que piorou a situação de frio intenso que os corpos entraram anteriormente.
— Podemos deixar eles aí mais um pouco? É bom ver eles sofrendo — um homem se aproximou enquanto Idris se esforçava para levantar o rosto até eles. Seus músculos tremiam de dor e frio, como se não estivessem no verão de Vollfeit...
— Faça logo o que precisa e vamos beber — o outro respondeu, sua voz sem qualquer indício de piedade.
Ao lado, o choramingo das astrônomas voltara. Idris se esforçou ainda mais na tentativa de se mexer, inclinando um pouco a cabeça para cima. O cenário que tomou seus olhos fez um frio ainda mais torturante percorrer sua espinha. Em sua frente, um portão cinza escuro que parecia se estender até o céu tomava toda a área, tendo três túneis grossos construídos com espaços incrivelmente calculados. Ao redor — pelo menos o que os olhos de Idris conseguia enxergar — muralhas tão imponentes quanto o portão os cercavam.
Antes que pudesse enxergar mais, uma náusea forte o tomou, fazendo-o abaixar a cabeça.
— Ande logo, Rhyto — o homem de antes disse.
— Que seja — respondeu e, falando em uma língua que Idris nunca ouvira antes, tudo se apagou. O astrônomo sentiu toda a sua energia ser roubada de seu corpo, enfraquecendo-o até sua consciência o abandonar.
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