Notas iniciais
Estava com saudade de escrever histórias pro Nyah.

Pov Joe:

O lar dos Touros, era um refúgio para os jovens desiludidos da vizinhança. Diante a fome, e aos poucos recursos que seus pais lhe ofereciam, eles vendiam sua alma à Capeline. O velho mantinha os jovens em sua teia por anos, atraindo a família deles e fortalecendo a união. Capeline se inspirava muito na Máfia Italiana e queria ser um Dom, mas lhe faltava o sangue italiano, a grande logística do négocio e principalmente os aliados.

Mesmo assim, os Touros eram a única gangue de bairro que possuía um grande número de membros com o passar dos anos de confronto, mortes e prisões. Eu notei isso quando cheguei ao sobrado, que parecia um prédio como qualquer outro, mas com muitos jovens na entrada.

Encontrei-me com o velho pirata, analisando a contagem de notas numa máquina de dinheiro. Santiago estava com ele no escritório, como seu fiel escudeiro. Eu me senti tonto, pela decoração do cômodo ser a mesma, depois de tantos anos.

— A única cria Slater restante! – anunciou o velho com uma curva em seus lábios rachados. Os dentes de ouro foram visíveis. Ele uniu os dólares em sua mão enrugada e enfiou dentro de um envelope negro. Sente-se, apontou para uma das poltronas a frente de sua mesa. À que devo a honra?

Me sentei e toda a dor concentrada em minha costela se esvaiu. Santiago pigarreou e começou a tirar da mesa todo o dinheiro e os envelopes. Ele acreditou que seria roubado?

— Não sei, eu que fui convidado. — me mantive imóvel esperando Santiago esconder o dinheiro e parar atrás do pai, que se sentou na cadeira de couro com um sorriso dourado e pretensioso. — Foi muito gentil, dispor de alguns guarda-costas para me acompanhar.

— Pensei que estivesse morto, — retrucou Capeline com desdém. — anos fugindo daqui para voltar com o rabinho entre as pernas? Tinha apenas dez anos quando o vi pela última vez, agora nem o reconheço.

— Deve estar muito desesperado para Scottsdale ser um refúgio. — soltou Santiago com veneno escorrendo de sua boca. O que ele tinha? Éramos melhores amigos, praticamente irmãos.

— Como não me reconhece? Eu sou a cara do meu irmão. — decidi ignorá-lo e conversar apenas com o pai. O velho entendeu a piada. Seus olhos castanhos avaliaram-me por segundos e o sorriso voltou a brilhar em sua boca. Naquele rápido intervalo pude notar o terno de marca que ele vestia e suas abotoadeiras de ouro puro. Os Touros não eram ricos comparados aos Romenos, ao meu ver estavam esbanjando mais do que realmente tinham.

— A questão não é o porque está aqui. E sim o que fará estando aqui. — Capeline torceu o pescoço para aliviar suas dores. Ele já quebrou diversos ossos do corpo e eu não fazia ideia de como estava vivo ainda.

— Ficarei com minha mãe até me recuperar. — encarei Santiago, e ele cruzou os braços, mantendo o olhar prepotente sobre mim. — Eu não a vejo há anos, e como posso morrer a qualquer momento, eu tenho que aproveitar. Estando com ela e com... Vocês... — Santiago riu. — Se quiserem é claro...

— Ele foi jurado de morte, pai! É uma perca de tempo o que está fazendo. — Santiago soltou antes de deixar a sala. Fitei Capeline incrédulo.

— Por onde andou nos últimos anos? Yakusa ou com os Ítalos? Ambos podem ter lhe deixado ignorante, não que você já não fosse. Então você só está aqui porque foi jurado?

— E tem outro motivo?

— Axl dizia muitas coisas e fazia outras completamente diferentes. Não conheceu seu irmão como eu, no entanto ele sempre afirmou que o cara estava vivo. — Coçou sua barba abaixo do queixo. Sua aparência podia ser confundida com a de um pirata, contudo sem o tapa-olho e a perna de pau. — Não havia certezas a respeito de Owen. Até ele surgir em Scottsdale recentemente e explodir uma cozinha de anfetamina.

— Espera... — levantei um dos dedos e seu olhar acompanhou. — Owen está vivo?

— Falei grego? Provavelmente foram os italianos que te deixaram assim.

— Eu estava com a Yakusa. — Se Owen estava vivo, eu tinha a chance de vingar minha família.

— Filho da puta. — O velho riu. — Fez uma merda muito grande, para a sua cabeça estar valendo milhares de dólares...

"Owen está vivo" ecoava na minha cabeça e minha mente começou a criar mil maneiras de matá-lo. — É filho do grande Joe, tem sangue Touro em suas veias, eu jamais negaria que voltasse para casa. — Capeline esfregou os dedos cheios de anéis e suspirou. — O quarto de Axl permanece do jeito que ele deixou.

— Quer que eu fique aqui?

— Você é da família. Vamos te proteger.

— E a respeito de Owen? — como um legítimo ansioso, minhas mãos já tremiam. — Vamos atrás dele, não é?

— Uma coisa de cada vez. Primeiro, eu tenho que confiar em você! — Capeline se curvou e abriu uma gaveta da sua escrivaninha. — Para isso deve renunciar ao seu direito, de ser líder dos Touros por sucessão. E até se recuperar, trabalhará para mim como vendedor de substância ílicitas.

Foi a pior oferta que recebi na vida. Capeline me protegeria da dívida com a Yakusa, não por amor a família, porque ele queria os Touros só para ele. Sendo um herdeiro, a minha volta aos Touros me daria segurança e poder para tomar decisões.

Se fosse para ter a cabeça de Owen numa bandeja, eu me sujeitaria a qualquer coisa.

— Ok. Mas não quero voltar como um fraco, um idiota que foi ferido. Quero que todos nesta gangue saibam que fui jurado.

Quando você é jurado de morte no submundo é porque fez algo terrível ou é perigoso demais para continuar vivo.

— É melhor esconder seu rastro. Vamos começar trocando a placa e a pintura do seu carro. — Capeline estendeu o contrato para mim. — Se não sabem onde você está, ninguém aparece para reclamar o prêmio. É bom que aja como um desconhecido. — ele tirou a caneta banhada a ouro do bolso do terno e colocou sobre o papel. — É seu momento de decidir se quer se reerguer como um homem!

[...]

Eu me levantei com um sorriso e ignorei a dor de meu ferimento para me dirigir até o quarto do meu irmão.

— Por que está com a cabeça a prêmio? – perguntou alguém me pegando de surpresa no corredor, eu reconheci o loiro de olhos castanhos.

— Os anos te deixaram mais feio ou é impressão minha?

— Senti saudades.

— Você matou a saudade com minhas cartas, não espera... Se ao menos soubesse ler!

— Quem abandonou os estudos e os amigos por aqui não foi eu — segui-o pelos corredores. — As cartas são uma maneira retrógrada de se comunicar com alguém. Já conheceu a iniciativa Whatsapp?

— Mercenários têm que usar chips novos a cada semana, Santi.

— O quarto se manteve intacto. Meu pai está confiando em você, por favor, não destrua isso.

— O que quer dizer?

— Sei que pouco se importa com os Touros. Na verdade, não se importa com alguém além de você, um exemplo disso é o fato de não aparecer nem para visitar Isabelle.

Acabei empurrando-o na parede entre dois quartos. Eu poderia estar ferido, todavia aquilo não impedia minha força. Seus olhos castanhos denunciavam-me, molhei meus lábios e ainda com as mãos em seus ombros falei:

— Não precisa jogar na minha cara que sou um péssimo filho. Eu sei que magoei minha mãe, todavia vou concertar isso depois de enfiar Owen em um caixão de verdade!

— Como tem tanta certeza disso?

— Axl insistia que o cara estava vivo e todos o chamavam de louco. Veja só, Owen finalmente apareceu e eu posso fazê-lo pagar pelo que fez. — Soltei-o e ambos suspiramos. — Eu não sei em quem devo confiar. A gangue tem muitos rostos novos e poucos são aqueles que se lembram de mim. Vou atrás de Kevin.

— Ele é um Romeno agora, não vai te dizer nada.

— Ele cresceu conosco. É nosso irmão. — Relembrei-o. Éramos os três mosqueteiros: Kev, Joe e Santi.

— Nosso irmão de criação que se tornou o inimigo. Desde que foi expulso dos Touros, ele se transformou noutra pessoa e quando nos encontramos, finge que não me conhece! — Seu olhar soava desesperado para me convencer. Lealdade é muito mais importante que laços de sangue.

— Nós saímos algumas vezes em Las Vegas, ele amadureceu. Kevin é a minha única esperança.

Santiago começou a rir como nos velhos tempos.

— Se é a sua ultima esperança, imagino o pior. Mas eu jamais te abandonaria, — me surpreendi quando seus braços me envolveram num abraço apertado. — Mesmo que pedisse.

— Eu te amo. — Aquela frase transmitiu a verdade. E ele soube disso.

— Eu também. — Ao nos afastar, rimos. — Vem, vou te ajudar a arrumar seu quarto.

Alguns garotos passaram pelo corredor com pressa, em direção a sala de Capeline. Mesmo assim, Santiago me acompanhou até o quarto de Axl, e parou na porta.

— Então... Sexta-feira, tem uma festa rolando no bairro. Quer ir comigo?

— Isso é um convite de amigos ou um convite para um encontro? — perguntei sem coragem para abrir a maçaneta.

— Para sua infelicidade é um convite de amigos. Vai ter outros homossexuais por lá, talvez você goste de algum cara. — ele pegou minha mão e deixou a chave entre os meus dedos. Estávamos falando asneiras, mas pensando na dor que abrir aquele quarto nos resultaria.

— Eu gosto de mulher — alertei sem me incomodar com a brincadeira. Coloquei a chave na maçaneta e me preparei psicologicamente para entrar. — E é disso que preciso.

[...]

Os Touros permaneciam na entrada conversando com copos de bebidas ou drogas nas mãos. Santiago se uniu a eles e aproveitei seu momento de distração e me afastei para ver se conseguia vender alguma coisa. Várias garotas dançavam bêbadas e algumas beijavam qualquer um que se aproximasse, eu me daria bem naquela festa.

Menos de trinta minutos no meio daquela multidão – e me esforçando para ficar em pé – quase tudo o que eu tinha nos bolsos foi trocado por dólares. Vender drogas para jovens desesperados para fugir da realidade, sempre foi fácil.

Observei uma morena ao longe sentada no bar usando um vestido negro e tomando refrigerante pelo canudo. Seu batom escuro lhe dava um ar de mistério e a forma como sugava o canudo seduzia qualquer um que prestasse atenção em si, por mais de um minuto. Todavia as pessoas naquele ambiente, se ocupavam com a trivialidade em ficar bêbado ou fora de si. Por alguns segundos seu olhar esteve sobre o meu e um sorriso surgiu em seus lábios.

— Meu amigo disse que você tem umas paradas. — Um garoto se aproximou deixando o dinheiro na minha mão. — Pode ser qualquer coisa, contando que me deixe louco. — O pequeno papelote de cocaína em seus dedos o fez sumir entre a multidão permitindo que eu voltasse minha atenção a garota, mas ela havia desaparecido.

Após vender os últimos papelotes que eu tinha, subi uma enorme escadaria de mármore e me deparei com vários corredores. Escolhi um deles para ficar encostado na parede e descansar. O corredor escuro e vazio auxiliou o meu desejo de solidão, então deslizei os dedos para meu maço de Marlboro no bolso da calça e coloquei um cigarro na boca. Com meu isqueiro acendi-o e traguei algumas vezes enquanto a fumaça passava por minha traqueia e a sensação de alívio surgia.

Não sei quanto tempo levou até que restasse apenas três cigarros, contudo foi o suficiente para que duas figuras femininas acabassem com o silêncio do ambiente.

As garotas sentaram-se num sofá na parede oposta e seus sussurros e olhares na minha direção começaram a me incomodar. Fitei uma delas e notei que era a mesma do bar.

Eu sorri e acendi mais um dos cigarros prometendo a mim mesmo que não a deixaria sumir novamente.

Notas finais
O que estão achando?