Você é minha Droga
4 A Krueger
04 — A Krueger
Pov. Clary:
Os raios de sol atravessavam os pequenos espaços deixados pelas folhas da árvore. O som dos passarinhos no ninho, era reconfortante. Eu olhava para o amontoado de adolescentes comendo a minha volta, mas não fixava minha atenção em nenhum deles.
"Por que estou aqui?"
"Estou vivendo ou apenas existindo?"
Desviei o olhar para minha comida e me esforcei para engolir o bolo de carne, que tinha qualquer sabor menos de carne. Eu só queria que o final do ano chegasse logo e com ele a minha graduação naquela merda de escola.
— Clarice Krueger! — uma voz masculina me assustou, entretanto mantive minha plenitude e bebi meu suco. — Onde estão as garotas?
— Eu só sei onde eu estou. — retruquei antes de revirar os olhos. Black ocupou o lugar vazio ao meu lado e sorriu.
— A arrogância faz parte de você, não é? — como era uma pergunta retórica nem me dei ao trabalho de responder. Ele tirou uma barra de chocolate do bolso — que por acaso era a minha favorita e notando meu olhar, manteve a expressão alegre. — Você quer?
— Enfia no seu...
— Uma mesa para nós numa boa localização e na sombra. — Elogiou Wanessa fazendo questão de empurrar Black para se sentar no meio. A bandeja dela continha alguns legumes e fiz uma careta imaginando o gosto de brocólis em minha boca. — Oi amor. — Ela beijou Black para marcar território e percebi que o chocolate não seria mais meu.
Dei de ombros, Black não fazia o meu tipo. Ele tinha características físicas e uma personalidade otimista demais para mim. Voltei a refletir sobre a minha existência enquanto mexia nas migalhas do bolo.
Como em qualquer dia, a mesa dos atletas do colégio estava chamando atenção com suas risadas e exibição gratuita de estupidez. Alguém naquela mesa estava incomodada tanto quanto eu e decidiu sair de lá para se unir a nós.
— Eles se superam a cada dia. — Anne desabafou, antes de parar na frente da mesa com uma garrafa de água em mãos.
— Ainda aguardo o dia em que vão chegar na faculdade e descobrir que são estúpidos! — comentei.
— Tenho novidades! — Anne exclamou esperando alguma reação. Da minha parte não houve nada, todavia o casal se manifestou em coro:
— Quais?
— Vai rolar uma festa hoje no segundo distrito. — An ocupou o lugar a minha frente e me encarou com um largo sorriso. — Vamos?
"Vamos" que significa "Vou nessa festa, ficar bêbada e não conseguir chegar em casa sozinha" no dicionário de Anne.
— Dispenso. — A líder de torcida desmanchou o sorriso. — Hoje eu tenho que escrever uma dissertação para Filosofia sobre o propósito da minha existência.
— Não existe propósito para nossa existência. Não existe Deus, não existe céu nem inferno. Vamos todos morrer e desaparecer no espaço-tempo. — Ela argumentou sobre aquilo que acreditava, já que seus pais não tinham religião muito menos ela. — Então, não gaste sua juventude e os anos mais felizes da sua vida com trabalhos escolares sobre a sua existência. Você a pode usar para fazer coisas que realmente importam!
— Você tem um pouco de razão. — Concordou Black e Wanessa o fitou com desconforto. Ela tinha ciúmes de qualquer coisa que ele fazia.
— Eu deveria usar minha existência para zerar todos os jogos de videogame já criados pela humanidade. — Sugeri. — Inclusive E.T.
— Ou fazer algo de útil invés de ficar trancada no quarto o dia todo. — soltou Wanessa. Eu a encarei com um sorriso amarelo. — Que tal arranjar um emprego ou um namorado?
— Eu acho que todo esse mal humor e a maneira que afasta as pessoas de você, deve ser falta de amor no seu coração.
— De repente a mesa se virou contra mim? — perguntei. — Desde quando mulheres precisam de homens?
— Não estamos falando de homens e sim de amor. Você já pensou que pode ser lésbica? — eu encarei An horrorizada. As pessoas deveriam respeitar as escolhas alheias.
— Acho que não precisamos estar com alguém para ser feliz.
— Clary, é só uma festa. Não estou pedindo para vender sua alma, ou seu corpo lá! — Anne roubou minha maça e deu uma mordida. — Eu só vou por causa dele.
— Dele quem? Todo dia é um homem diferente na sua vida. — Wanessa roubou a frase de meus lábios. Aquilo jamais ofenderia Anne, ela tinha uma filosofia de vida baseada em fazer o que quiser sem pensar nas consequências e eu estava começando a ceder para esse lado. Meu primeiro ato de rebeldia foi matar a aula de Matemática.
— Santiago. — An tinha uma paixão secreta por ele desde a quarta série, entretanto o destino fez com que ele fosse estudar em um colégio no subúrbio. Na verdade foi a separação dos territórios das gangues. Ela comeu a maça fantasiando algo que deveria ser impróprio para menores. — Por favor... Minha mãe só permite se vocês forem.
— Já que nossa presença é tão importante assim... — Começou Black. — Nós vamos. Eu dou a carona.
— É, faz tempo que não saímos todos juntos. — Concordou Wanessa com um sorriso.
— O que vai rolar lá? — indaguei, mesmo sabendo a resposta. Eu só queria bons motivos para me convencer a sair de casa numa sexta à noite.
— Música, bebida, drogas e uns caras bonitinhos das gangues do distrito 2. — Garotos de gangue não eram bonitos. Viviam com o rosto desfigurado devido a brigas que eles mesmo causavam e se achavam os melhores só por vender drogas ou apanhar da polícia.
— É, realmente não tem nada mais interessante do que ganhar um A em Filosofia.
— Por favor... — ela implorou puxando minha bandeja quase vazia para si. — Você pode ficar sentada julgando todo mundo com o olhar e eu prometo que voltaremos cedo.
— Minha mãe não vai deixar. — Coloquei um ponto final naquele assunto.
[...]
— Não precisa voltar cedo.
— Você está me deixando ir? — perguntei quase engasgando com minhas próprias palavras. Minha mãe me encarou confusa.
— Você deve ir. Seus amigos querem sua companhia, e faz quase um mês que você não me pede para sair de casa. — Ela se jogou no sofá da sala como se fosse uma piscina. — Só fica naquele computador falando sozinha.
— Eu não falo sozinha, eu falo com o pessoal nos jogos! — chamei horrorizada. — Aquela festa vai estar cheia de drogas, bebidas e pessoas fazendo relações sexuais sem proteção alguma.
— E daí? — ela me olhou como se eu fosse maluca. — Se divertir é diferente de se drogar e fazer sexo. Eu amava dançar, principalmente com seu pa... Enfim, vá a essa festa e me deixe em paz. — Ela esfregou os olhos antes de conferir seu relógio de pulso. Nunca teve paciência para me ouvir por mais de um minuto. — Droga, Harry vem jantar aqui.
Eu não gostava dele, não porque Harry transava com minha mãe. Ele era coberto de tatuagens de cadeia, e apesar dos anos de relacionamento, nunca a pediu em casamento ou nos levou para conhecer sua casa. Eu desconfiava que Harry tinha uma vida dupla. Um completo mentiroso que poderia ser pai de dez filhos, se chamar Hernandez e ser casado com uma tal de Jucélia.
— Eu vou a festa.
— Clarice... — ela me fitou com seriedade. — Eu quero que seja feliz, por isso não sou de prendê-la em casa ou proibi-la. Eu sei que é a garota mais responsável que conheço.
— Obrigada. — falei caminhando em direção as escadas.
— E volte bem tarde! — ouvi minha mãe gritar quando já estava no décimo degrau.
Entrei no quarto e revirei o armário em busca de uma roupa apresentável. Eu não queria despertar o interesse de nenhum garoto naquela festa (só os idiotas estariam por lá) contudo queria ir bonita.
Coloquei um vestido preto colado ao corpo. Soltei o cabelo e calcei meu par de All Stars negros. Não passei maquiagem, apenas um batom roxo bem escuro para expressar minha alegria.
Quando Anne chegou quase tive um susto, pois estava tão maquiada e cheia de ouro que parecia uma Barbie.
— Uau. — falei sem esbanjar nenhuma surpresa. — Você vai conquistar o Ken vestida desse jeito?
— Clarice e seu sarcasmo — disse ela retocando o batom rosa shock. O "shock" até assustava. — Wanessa está nos esperando, se arruma logo.
— Eu estou pronta. — Anne me fitou como se dissesse "Não parece."
— An! — exclamou minha mãe saindo da cozinha cheia de alegria. — Nossa vocês estão lindas! Eu na idade de vocês me vestia como...
— Acho que estamos atrasadas. — Anunciei querendo acabar com aquele papo e saindo pela porta sem esperar a Barbie.
[...]
Entramos no que aparentava ser um hotel antigo, An apertou meu braço ao passar por um grupo de caras que vestiam vermelho e preto. Os Touros. Essa gangue do subúrbio só tinha moral no próprio bairro, pois seu pequeno número de integrantes não conseguia fazer nada além de brigar e obedecer às gangues maiores.
Alguns assovios da parte deles, fizeram Anne se gabar enquanto me limitei a revirar os olhos pela décima vez num dia – as outras foram durante o debate da aula de história.
A pista de dança transmitia um ar de festival eletrônico no meio da floresta. As luzes pirotécnicas cegavam qualquer um e todos estavam tão drogados que dançavam como se estivessem tendo uma overdose.
Anne logo aceitou o primeiro copo que lhe ofereceram e se misturou na multidão esquecendo a minha presença e a do casal. Black e Wanessa se acomodaram no bar e pediram cervejas, eu recusei a bebida e me contive a uma latinha de refrigerante.
— Vou ao banheiro. Já volto. — Wanessa deixou sua cerveja comigo e desapareceu. Ela, com toda a sua independência não fazia questão de companhia. Entretanto, ficar sozinha com seu namorado nunca fora agradável para mim.
— Você está linda. — Black me elogiou. — Wanessa também, mas a supera.
— É com ela que você está e lhe deve respeito.
— Porque você me deu um fora.
— E pretendo dar outros. — Tomei o refrigerante e dirigi minha atenção para Anne. Ela dançava e virava um copo atrás do outro, pois qualquer garoto queria lhe embebedar. O trabalho de cuidar dela quando fosse vomitar tudo aquilo, seria meu.
— Por que não me deu uma chance antes? — continuei sendo incomodada.
— Porque não fiquei interessada.
— Prefere um cara que te maltrate?
— Prefiro um cara que me conquiste. Você não foi capaz disso, então aceita a derrota. — Retruquei e uma das banquetas do bar ficou vazia, aproveitei a chance para me sentar.
— Vou atrás de Wanessa. Procure outra carona. — Não queria generalizar, todavia porque homens não aceitavam um simples não?
Anne encontrou um dos jogadores do nosso colégio e pareceu ficar feliz com a oferta de uma bebida colorida que ele tinha. Suguei meu refrigerante e me esforcei para acompanha-los porque algumas pessoas começaram a entrar na frente deles.
Meu olhar pairou sobre um garoto de jaqueta preta parado na multidão. A fraca iluminação não proporcionava uma visão perfeita, entretanto notei que ele me encarava com um sorriso. Seu rosto poderia ser considerado comum, mas os lábios incrivelmente desenhados e os traços ao redor dos olhos, o deixavam com uma aparência única e ao mesmo tempo maquiavélica. Me permiti sorrir também, pois pela primeira vez em muito tempo, eu havia ficado atraída por alguém.
— Preciso ir ao banheiro. — An surgiu me puxando pelo braço. — Por favor.
— Mas eu...— queria ficar.
Depois que ela saiu do banheiro cambaleando, a fitei com um pouco de raiva.
— Preciso sentar e tirar esse sapato. — Me devolveu o olhar, todavia com desespero. — Acho que eu encontrei Santiago, mas estou com vergonha de chegar nele.
— Vamos encontrar um lugar isolado e quando o álcool lhe subir a cabeça, você chega em Santiago.
Na verdade, eu só queria fazê-la me ajudar a encontrar o garoto da jaqueta. Voltamos para o saguão, entretanto meus olhos não o detectaram em nenhum dos cantos do primeiro andar. Subimos uma enorme escadaria em busca de um local distante daquela loucura e achamos um sofá vazio num dos corredores – os outros estavam ocupados com dois corpos se esfregando. Lado a lado, logo notei o garoto da jaqueta fumando encostado na parede.
— Duvido você chegar naquele cara e o beijar — começou An com seus desafios. A minha sorte é que nunca cumpri nenhum. O sofá cheirava a mofo.
— É bem normal que as pessoas cheguem a beijar desconhecidos... — meu sarcasmo não funcionou porque ela concordou seriamente. — Aliás, ele fuma. O gosto de sua boca deve ser horrível.
Não queria que An percebesse meu interesse no cara. Seria pior vê-la empurrando-o para mim.
— Não exagera — ela revirou os olhos — Acho que ele é um Touro.
Eu tive que rir com sua idiotice, ele parecia pertencer a algum grupo de motoqueiros prontos para sair no soco com qualquer um. Não parte da gangue dos idiotas.
— É só um garoto fumando.
As mãos dele eram tatuadas, e provavelmente o resto do corpo também. Os cabelos negros caindo um pouco pela testa e a expressão em seu rosto lhe garantiam um certo estilo. Por algum acaso, o garoto levantou o olhar para nós. A fraca luz do corredor se refletiu em sua íris azul e percebi que o encarava, então desviei o olhar o mais rápido possível.
— Acho que já reuni coragem o suficiente para chegar no Santiago e beija-lo. Já volto. — An se levantou e ainda tentei puxá-la de volta, contudo correu.
A maneira que o garoto me fitou quando ficamos sozinhos me fez sentir uma pontada na barriga. Então, ele se moveu em minha direção.
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