Vizinhos
2 Capítulo 2 - Change of Course
Notas iniciais
Aquela vizinhança pacata virou palco para uma das disputas mais estranhas e divertidas que já se viu. De um lado do “ringue”, Jack era conhecido por ser um adolescente divertido e imprevisível, com uma imaginação cheia de ideias loucas; Do outro lado, Aster era um homem sério e se irritava facilmente com as atitudes do rapaz, parecia que não conseguia levar nada na brincadeira. Observando essas informações, era certo apostar que o mais novo venceria a guerra, não é? Mas outra característica de Bunnymund era ser cabeça dura e enfrentar qualquer traquinagem que pudesse vir de Frost. Sendo assim, as coisas poderiam se complicar um pouco para o garoto.
Logo de manhã, antes de sair para ir ao colégio, o albino pegou uma lata de spray que havia comprado no dia anterior e desenhou no portão do mais velho. Novamente fez um coelho, mas dessa vez fez ele bem gordo e com uma cara monstruosa, escrevendo embaixo um “eu vou vencer!”. Ria só de imaginar a cara de bravo que Aster faria ao ver o desenho e saiu de fininho dali. Um tempo depois, o maior saiu de casa para comprar algumas coisas que faltavam em casa quando se deparou com aquele desenho e realmente ficou possesso, mas havia prometido a si mesmo que não deixaria o garoto vencer, então foi fazer suas compras e quando voltou, pintou o portão com uma cor diferente. Depois fez uma placa e colocou no quintal, na direção do quarto do mais novo assim ele poderia ler quando olhasse para fora.
Jack chegou do colégio na hora do almoço, pode ver que seu desenho fora pintado, mas não deu tanta bola assim. Comeu com sua mãe e a mesma saiu, avisando que voltaria tarde naquele dia, iria aproveitar que pegou folga do trabalho para ir ao comercio. Depois de lavar a louça, o rapaz subiu para seu quarto e jogou a mochila sobre a cama, indo dar uma espiada na casa de seu rival pela janela. Foi quando viu a placa e o que estava escrito nela: “Eu desenho muito melhor que você, mas pelo menos devo te agradecer porque eu já estava querendo pintar o portão há algum tempo”. Frost ficou imediatamente emburrado, afinal queria ver aquele “coelho” furioso, não agradecido.
Um pouco depois o garoto teve uma ideia e ligou o rádio de seu quarto, colocando um rock pesado para ouvir e aumentou o volume de forma absurda, tendo certeza de que não só o vizinho como quase a rua toda poderia ouvir. Ficou balançando a cabeça no ritmo da musica, curtindo até que viu o mais velho abrir a janela da sala e espiar furiosamente para a janela de seu quarto. Não resistiu em rir ao vê-lo gritar e fazer gestos para que ele abaixasse o volume, mas Jack apenas fez sinal de que não estava conseguindo ouvi-lo, o que era verdade. Aster praticamente se descabelava na janela com vontade de pegar alguma coisa e atacar naquele infeliz, mas apenas fechou a janela com força e procurou por um abafador de ouvido, mas nem isso resolvia. “Maldito Jack Frost!” era repetido diversas vezes na mente do mais velho.
O adolescente só abaixou o volume uma hora depois, caindo na cama e gargalhando ao se lembrar das expressões de Bunnymund. Ah, como isso era divertido... Embora se lhe perguntassem o porquê, Jack não saberia responder. Sempre foi um garoto que gostava de pregar peças, mas nunca havia ficado tão fixado em atormentar uma única pessoa como era com seu vizinho. Desde o primeiro momento que viu aquela expressão tão séria no rosto do mais velho, quis colocar alguma expressão diferente no rosto dele... Talvez um sorriso, mas tudo o que conseguia eram expressões de ira, ainda assim sendo muito divertidas. Precisava bolar seu próximo plano para irritá-lo, não dar tempo para que o maior pensasse que estava livre dele.
Aster havia ficado com uma dor de cabeça terrível depois do som tão alto ecoando pela casa inteira, estava curtindo o tempo em silencio agora para poder se recuperar e tentar se focar no trabalho. Porem sabia que não podia baixar sua guarda, pois o garoto poderia aprontar alguma coisa logo em seguida e não queria lhe dar mais o gostinho de triunfo. Como suspeitava, logo o silencio foi quebrado por um barulho alto vindo do quintal e espiou pela janela para ver do que se tratava. Sentiu o sangue ferver ao ver Breu, o cãozinho negro do mais novo pelo quintal, correndo atrás de uma bolinha enquanto pisoteava suas plantas. O mais velho saiu armado com uma vassoura para enxotar o animal, mas foi impedido de se aproximar por um jato de água surpresa, já que Jack o esperava do outro lado do muro com a mangueira e mãos.
– Bom garoto, Breu! – o rapaz elogiou seu cãozinho quando o mesmo veio para perto do muro com o rabinho abanando e ele fez um esforço para alcançá-lo, tirando-o dali antes que um Bunnymund ensopado pudesse pegá-lo.
– FROST! – o mais velho berrou quando o mesmo se afastou da cerca com o animal para sua própria segurança – O que eu disse pra você?! Eu não queria mais essa fera no meu jardim!!
– Eu não tive culpa, eu estava brincando com ele a joguei a bolinha muito longe sem querer... – a expressão inocente do albino seria digna de Oscar se o outro já não estivesse bem acostumado com a cara de pau do garoto – Quando eu vi, ele já tinha pulado a cerca.
– Sei, como se essa bola de pelos pudesse pular tão alto assim. – era improvável e ainda tinha um porem – E essa mangueira? Vai me dizer que não me molhou de propósito?!
– Eu só estava pensando em regar um pouco as flores da minha mãe... – o sorriso de anjo do albino fez uma veia pulsar na testa do maior.
– O seu cinismo me assusta, garoto. Como pode ser assim? Que tipo de educação anda recebendo?
– A melhor possível, mas o meu caráter se distorceu sozinho. – Jack deu de ombros, deixando seu cãozinho no chão e o mesmo logo sumiu para os fundos da casa – Admita Coelhão, você não consegue aguentar as minhas brincadeiras.
– Maldição, já disse pra não me chamar assim! – Aster trincou os dentes, em seguida apontando para o menor – Pode tentar o quanto quiser, mas eu não vou cair no seu joguinho. Quer me deixar louco, mas não vai conseguir! Espere e verá!
O mais velho se afastou do muro novamente, andando a passos duros para dentro de casa. Por mais que tivesse dito que não enlouqueceria, se irritar tantas vezes como acontecia quando era provocado por Frost poderia sim lhe causar algum dano. Porque se deixava levar por um adolescente insuportável como aquele? Tinha que aprender a se controlar, manter a calma... Se quisesse sair vencedor daquela guerra, precisava mostrar o quão maduro era e não entrar num joguinho infantil. Era com essa determinação que Bunnymund conseguiu se acalmar e escolher sabiamente suas ações e decisões para as futuras travessuras do menor.
... X ...
Ia completar uma semana desde a declaração de guerra entre os dois e Jack continuava tendo vantagem, mas pequena dessa vez. Aster parecia se controlar mais antes de perder a calma e mesmo quando explodia de raiva, conseguia retomar a consciência mais rapidamente. O albino estava começando a se incomodar com isso, afinal a diversão estava em tirar o mais velho do serio e agora estava começando a ficar difícil... Mas quem disse que o adolescente não gostava de desafios? Isso só lhe mostrava que precisava criar artimanhas mais audaciosas para deixar o vizinho completamente fora de si.
No momento Frost estava na rua com alguns amigos jogando futebol, algo simples e divertido que poderia dar um pouco de descanso para o maior, afinal a vida do garoto não se resumia em apenas importuná-lo, ainda tinha o colégio e os amigos para lhe distrair. O som das risadas dos meninos e o barulho de seus passos apressados correndo atrás da bola dominavam a rua e pelo menos as mães estavam tranquilas sabendo onde e o que eles estavam fazendo. Porem Jack estava tão empolgado com o jogo que quis fazer um gol de bicicleta, mas colocou tanta força no chute que a bola voou coincidentemente para a casa de Bunnymund e o barulho de vidro sendo quebrado pode ser ouvido por todos.
Os garotos se olharam entre si, preocupados. Com certeza o mais velho ficaria uma fera! Para a surpresa de todos, o próprio albino se dignou a ir pegar a bola, dizendo que a culpa era dele afinal já que tinha chutado tão forte. Mesmo que não tenha sido proposital dessa vez, o adolescente esperava encontrar o outro bufando de raiva e com faíscas nos olhos assim que soubesse que era ele quem havia chutado. Será que ele era masoquista? O garoto não sabia dizer, só sabia que gostava de provocar aquele homem. Assim que chegou à frente da casa dele, preferiu entrar em sua própria e depois pular a cerca que os separava, assim já se encontrava no quintal alheio.
O sol já estava quase se pondo no horizonte e a primeira coisa que Frost pode ver foi a janela da sala quebrava por causa da bola, até fazendo uma careta ao imaginar o quão bravo poderia estar o mais velho e mesmo assim não se intimidou, caminhando lentamente até a porta que estava aberta. Aster nunca trancava enquanto estava em casa e como o garoto sabia que ele não precisava sair para trabalhar, sabia que ele estava lá. Adentrou pela sala e não demorou a encontrar a bola, mas deu uma boa olhada ao redor para ver se o homem não estava apenas esperando que se aproximasse para dar o bote. Aproveitou também para analisar a casa dele por dentro, já que nunca havia estado ali.
Como era esperado, Bunnymund era bem organizado com suas coisas e tinha certo bom gosto para moveis e decorações. Jack chegou a ficar curioso sobre um ovo de porcelana pintado a mão com pequenas imagens muito bem feitas e que felizmente não havia sido quebrado pela bola, ficando tão entretido que não ouviu o barulho de passos vindo pelo corredor ao lado. Só se deu conta de que o dono da casa estava ali quando o mesmo deu um grito de horror e o albino acabou caindo sentado no chão, erguendo o rosto para encará-lo. Ele deveria ser sensato em pegar a bola e sair dali correndo no mesmo instante, mas no momento ele não conseguia. Estava imóvel enquanto encarava o mais velho com os olhos arregalados.
Aster estava tomando banho e por isso não ouviu o barulho de sua janela sendo quebrada. Ao sair do banheiro, havia enrolado apenas uma toalha em torno da cintura e foi até a sala buscar seu celular que havia esquecido no sofá e só então descobriu o desastre ocorrido e o causador do mesmo sentado no chão com uma expressão surpresa. “Ficou chocado por ser pego em flagrante?!” pensou o maior, já fechando completamente a expressão na direção do albino. Mas esse não era o motivo para Jack estar tão impressionado... Na verdade era pelo próprio Bunnymund que o garoto estava assim. O corpo moreno e muito bem trabalhado do homem lhe deixou admirado, chegando até a acompanhar algumas gotículas de água que escorreram pelo peitoral alheio e se perderam no que estava oculto pela toalha.
Era um momento estranho, era como se estivesse vendo o mais velho pela primeira vez na sua vida ou pelo menos o vendo de outra forma. Até o rosto fechado de raiva de Aster lhe parecia ser algo novo, pelo menos o observando com mais atenção. Sua analise foi interrompida assim que o maior agarrou o braço do adolescente e o fez se levantar, lhe dando uma sacudida que o fez finalmente despertar e sentir o perigo.
– O que pensa que está fazendo aqui? Chegou a quebrar o vidro da minha casa só para me deixar irritado?! Como ainda tem coragem de entrar na minha casa, seu vândalo?!
– Me solta! – Frost gritou e puxou seu braço para longe, pois por mais irritado que estivesse, o mais velho não estava o segurando com muita força – Eu não quebrei de propósito, estamos jogando futebol na rua e acabei chutando forte demais...
– Acha mesmo que vou acreditar nisso? – Bunnymund não confiava no garoto e quando notou a intenção dele de pegar a bola, foi mais rápido e a segurou em mãos – Isso vai ficar comigo pra você aprender a nunca mais detonar a casa dos outros!
– A bola não é minha!!
– Não importa, e avise a sua mãe que vai ser ela que vai ter que pagar o vidro da minha janela.
Aster estava muito serio enquanto falava, já tomando o controle de sua ira e vendo o garoto ficar ainda mais inconformado. Pelo visto ele que havia ganhado naquele dia, então fez um gesto para que Jack saísse logo de sua casa e o albino obedeceu, mesmo que bufando de raiva. Que ironia, fora ele a sair mais irritado daquela vez... Pediu desculpas aos amigos e prometeu que daria uma bola nova ao verdadeiro dono, depois entrando em casa e tendo que contar a sua mãe o que fez. Teve que ouvir um longo sermão dela para ser mais cuidadoso e parar de provocar tanto o vizinho, mas ela se comprometeu de boa vontade em pagar o prejuízo. Quando finalmente pode subir para o seu quarto, o rapaz estava exausto físico e mentalmente.
Tomou um banho demorado e se jogou na cama em seguida, suspirando profundamente. O que foi aquilo? Porque simplesmente não conseguia se mexer enquanto encarava o mais velho? Seria pelo fato de ser a primeira vez o viu com tão pouca roupa? Mas que influencia isso teria em si? A imagem de Bunnymund recém saído do banho e só de toalha voltou a surgir em sua mente e sentiu suas bochechas se esquentarem. O maior era um homem feito, com boas medidas e inegavelmente bonito... O garoto apenas nunca tinha parado para pensar nisso antes. E porque estava pensando nisso agora?! Tantas perguntas estavam confundindo a mente do mais novo que decidiu dormir de uma vez. Ele só não poderia escapar da imagem tão sedutora que o acompanharia até mesmo no mundo dos sonhos.
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