Violin
7 Dia 7 — Yesterday
Notas iniciais
John gostava de dormir do lado direito da cama.
Sherlock abriu os olhos. Passou a mão pelo rosto pálido e tirou as cobertas de cima do corpo, mas não se levantou. Encarou, por longos segundos, o teto, enquanto fingia que havia alguém do seu lado direito que ainda estava dormindo.
No entanto, o frio que emanava daquele lado e o vazio em seu coração não lhe permitiram fingir por muito tempo.
Logo, estava de pé.
Ainda era muito cedo. Mesmo para os padrões de Sherlock, que estavam longe de serem normais, levantar da cama às três da manhã era incomum.
John gostava do seu chá sem açúcar, só com um pouco de creme.
Foi para a cozinha. Colocou a chaleira no fogo, mas logo percebeu que estava sem chá. Suspirou. Nenhuma loja abriria em, pelo menos, cinco horas, e ele não podia ir até a senhora Hudson àquela hora da manhã.
Sentou-se no sofá, puxou o próprio laptop e abriu sua página do blog. Ela tinha muito mais movimento — pelo menos de sua parte — do que jamais tivera antes. Sherlock tentava ocupar cada segundo de cada dia com um estudo diferente, com um caso diferente, com qualquer coisa que o fizesse esquecer, temporariamente, a dor que sentia.
Sozinho, não era nem metade do homem que era com John.
O pior de tudo é que sabia em que errara, mas se recusava a admitir. O seu erro não fora o primeiro e nem era imperdoável, só tinha aparecido na pior ocasião possível.
Aquela maldita lei de Murphy que se provava certa uma vez mais.
Na ocasião, inclusive, Sherlock se mostrara indiferente. Porque raramente demonstrava seus sentimentos, as pessoas frequentemente assumiam que ele não sentia. John, o seu John, porém, sabia que não era bem assim. Ou deveria saber.
Por isso que eles estiveram juntos, para início de conversa.
Quando Sherlock deixara escapar, aquela primeira vez, o que estava em seu coração, John reagira da maneira mais imprevisível possível. Imprevisível, pelo menos, para Sherlock.
Ele sorrira.
Fora John quem começara o namoro, e ele também quem tomara a iniciativa para o primeiro beijo. De todas as ocasiões românticas que ele podia se lembrar, só uma ou duas tinham sido orquestradas por Sherlock.
John era o que os mantinha juntos.
E o que o mantinha são, também.
Por isso, se ele começara a pegar casos mais perigosos ou se passava horas e horas tocando o violino sem nem parar para comer, a culpa não era exclusivamente sua.
Grande parte da culpa era das memórias e da saudade.
Porque com a dor ele sabia lidar — passara grande parte de sua vida escolar sofrendo com o bullying e a solidão. A dor, para ele, era uma velha conhecida.
Mas a saudade... ah! A saudade era uma coisa nova.
E ele ainda não aprendera a lidar com ela.
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