Vidas em jogo

1 Capítulo um


—Anda Sakura, pra quê essa moleza toda? Desse jeito vai se atrasar.- disse uma loira colocando o pé direito pra fora do carro mostrando seu cintilante salto alto fino que era o seu preferido.

—Eu já tô indo.

A garota de cabelos tingidos de rosa saiu do banco do carona fechando a porta atrás de si, caminhou lento com os olhos cansados e olheiras visíveis. A manhã era ensolarada mas para Sakura havia uma nuvenzinha de chuva em cima de si. A mesma puxou o capuz de moletom cinza para cobrir o cabelo embaraçado com as pontas pra frente.

As duas sabiam que aquela semana era a semana de provas, no entanto, apenas a loira de longas mechas se mostrava entusiasmada pelas finais do semestre. Ela pensava que em pouco tempo estaria formada para morar em Londres com o seu namorado e estudar moda, já Sakura estaria longe disso no seu curso de medicina pediatra. Chegando na porta as duas suspiram de formas diferentes.

—Agora vejam essa rainha brilhar.- diz a loira com intenso brilho no olhar e com o sorriso de orelha a orelha.

—Uhu.- Sakura levanta uma das mãos com punho fechado torcendo, só que sem ânimo.

—Quando terminar o semestre, adeus Tokyo, adeus Japão. Vou viver livre e feliz pelas ruas inglesas que me esperam ansiosamente para que essa deusa domine.

—Ah que bom.

—Eu não acredito que finalmente eu vou viver feliz com o meu príncipe.

—Um bad boy.- Sakura corta o clima de expectativa da loira.

Sua amiga bufa revirando os olhos e se vira para ela.

—Ai Sakura o que foi? Que cara é essa? Parece que não dormiu a noite inteira.- a mesma cruza os braços franzindo a testa.- Devia tá feliz sabia?

—Eu não dormir a noite inteira ontem Ino.- ela aponta para si mesma.- Lembra do som alto que você colocou no seu quarto fazendo sua "mini festinha do pijama?"- fez aspas com os dedos.- Eu precisava estudar, precisava dormir, e advinha o que impediu?

Ino encararou a amiga fazendo biquinho e desviou o olhar se fazendo vítima da história, e tinha razão. Ino estava tão entusiasmada com o término do semestre que só pôde comemorar colocando música alta e fazendo um karaokê na maior arruaceira, além de fazer vídeo chamada para o namorado rockeiro da Inglaterra. Por outro lado, Sakura estava gritando de frustração cobrindo as orelhas com o travesseiro, seu quarto estava todos empilhados de livros e apostilas que tinha que estudar para a manhã seguinte até que num surto de raiva invadiu o quarto da amiga acabando com a festa dela e mandando calar a boca e ir dormir se ela não quisesse apanhar mais.

—Tudo bem.- disse encolhendo os ombros, Ino junta as palmas das mãos próximo o seu rosto com uma cara de cachorro pidão.- Me desculpe, não vai acontecer de novo.

Agora era a vez da Sakura revirar os olhos, empurra a amiga para o lado abrindo passagem adentrando no edifício.

Como se nada tivesse acontecido, Ino prosseguiu atrás tagarelando enquanto fazia gestos com as mãos. As duas passaram pelo longo corredor subindo a escada quase correndo, mas a loira não parecia notar já que estava ocupada demais falando de coisas trivias, já Sakura só queria achar sua sala logo.

—Quero ver todo mundo ficar boquiaberto quando verem minhas fotos no redes sociais. Já imaginou? Eu e o meu lindo em Londres? Se bem que ele já tá lá. Falando nisso, Sakura você viu como Gaara tava com o seu-.

—Ah minha sala!- entrou como um foguete e deixou a amiga falando sozinha na porta.

Meio perdida Ino coloca o rosto na batente da porta quase barrando a passagem dos outros alunos.

—Eu vou te esperar na saída viu!- gritou, depois sumiu quase sendo levada pela multidão no corredor.

Sakura se fez de surda e jogou sua mochila na carteira, deitou seu tronco em cima da mesa.

—Até que fim.- resmunga descansando sua cabeça nos seus braços.

—Nossa, você tá péssima. Parece que brigou com os livros ontem.- disse uma voz.

Com a cabeça baixa Sakura levanta o olhar espiando entre os braços uma ruiva parada ao lado de sua carteira na frente.

A garota a olha de forma moderada e solta um sorriso de canto, olhos castanhos escuro miram nos olhos verdes de sua colega como se lê-se seus pensamentos, a rosada volta se esconder entre os braços fazendo questão de não olhá-la novamente.

—Eu tive um pesadelo em que eu estava no meu quarto e uma certa loira tocava música alta bem no meu lado.

A ruiva achou graça nisso.

—Que pesadelo hein. Fica de olho pra não sonhar com as provas finais também.

—Vai se ferrar.- disse com a voz abafada.

—Aí.- A ruiva se senta de frente para a mesma.- Sabe que eu te amo né e... não é por nada não mas os seminários vão valer metade da pontuação final.

—Porcaria. Eu não quero mais viver.- Sakura se lamenta fazendo uma voz chorosa ao lembrar que quase perdeu seu seminário por causa das sujeiras que teve que limpar da sua amiga. Ino exagera muito nas festas universitárias.

—Aaah não fica assim não, as crianças precisam de você.- A ruiva faz um leve carinho na cabeça da Sakura.

—Tayuya olha isso aqui.

Um dos colegas chamou, atraindo a atenção da ruiva até que o professor entra na sala dando início as orientações das provas.

Os alunos guardam seus pertences e, nesse momento o celular da Sakura começa a vibrar. Cuidadosamente ela tira o celular do bolso da mochila olhando de esgueira a mensagem pela tela de bloqueio. Era o Sasuke.

"Preciso falar com você, é importante."

Sakura franziu a testa pensando no que poderia ser. Será coisa boa ou uma coisa ruim? Porque tinha que ser logo agora? Será que é algum problema? Não sabia o que era mas tinha que tirar isso a limpo.

Durante as provas, aquela mensagem ficou martelando em sua cabeça tanto que não conseguia se concentrar em uma única questão, o suor caia pelo rosto tentando lembrar das noites mal dormidas estudando. Leu e releu cada questão mas parecia que as palavras estavam embaçadas impedindo sua compreensão. Tentou terminar isso o máximo que pôde, até que quando deu por si era umas das últimas na sala, nem mesmo Tayuya estava mais lá. Com as mãos trêmulas e suadas terminou rapidamente o cartão resposta tendo a certeza que metade daquelas questões estavam erradas. Sua mãe a mataria se soubesse que seria reprovada logo no segundo ano de medicina. Assim que terminou confirmou seus erros, com a folha na mão e o rosto pálido entregou as provas e saiu em disparada encontrando um corredor vazio, fora uma cabeleireira loira parada entre os armários.

—Sakura!- Ino levanta as duas para que a rosada olhe para a mesma. Parece até cômico que mesmo que ela estivesse sozinha ali, precisava levantar as duas mãos para ser vista.

Sakura riu disso e foi até ela.

—Como foi as provas?- disse empolgada, a rosada nem iria se dar o trabalho de fazer a mesma pergunta já que só pela sua expressão dizia tudo.

—Péssimo.- disse simples.

O brilho da amiga se apagou em segundos.

—Poxa amiga, que pen-.

—Sasuke falou comigo disse que tinha algo importante para me falar.- interrompeu ainda pensando na mensagem, nessa hora bateu uma aflição em seu peito, várias possibilidades poderia ter acontecido e ela não sabia. Sakura tinha receio daquele tipo de mensagem.

—Eu preciso vê-lo agora.- diz ela preocupada.

Ino compreende o desejo da amiga e assente com a cabeça. As duas caminham caladas até a saída.

—A gente se vê depois então?

—Claro.- Sakura dá um sorriso fraco e se vira até o campo meio vazio na proximidades. Ino segue para o seu grupo sentado em uma roda na grama.

Longe o bastante, ela para e senta pegando o celular na mochila, mandou mensagem pro namorado.

"O que aconteceu?"

Dois minutos se passaram até que ele visualiza e responde.

"Me encontra na lanchonete."

O que foi agora?

Sua ansiedade aumentava com o mistério, deveria ser importante a ponto de não falar pelo celular. Mordeu a ponta da pelesinha do lábio. Sasuke está com problemas. Cogitou.

Depois de um tempo decidiu ir na lanchonete onde ela sabia bem.

...

Na lanchonete, não demorou muito para encontrar o moreno sentado no fundo do local perto de uma janela. Caminhou devagar para ganhar tempo controlando seu nervosismo, enxugou as mãos suadas na calça e parou na frente para o namorado.

—Sasuke.

O moreno a olhou e se levantou dando um abraço apertado.

—Que bom que está aqui. Queria tanto falar com você.

—O que aconteceu?

—Espere.- ele se afastou olhando-a nos olhos.- Deixa que eu explico primeiro. Vamos nos sentar.

Os dois se sentaram e Sasuke chamou a garçonete pedindo um suco e uma água, assim que a garçonete se afastou o moreno segurou as mãos de sua garota.

—Antes de mais nada, quero que saiba que só peço sua compreensão pelo o que vou dizer aqui.- ele diz sério. Aquilo deu calafrios na rosada.

Ela aperta suas mãos com o coração saindo pela boca.

—O que tiver que me contar, eu estarei do lado.- diz com convicção.

—Eu...

—Aqui está.

A garçonete volta com os pedidos depositado na mesa. Sasuke diz apenas um obrigado e ela se afasta deixando os dois a sós. Sasuke volta a falar.

—Então eu...

Nesse momento um carro desgovernado passa pelo outro lado do vidro buzinando alto e dois carros de polícia logo atrás com as sirenes ligadas atraindo a atenção do casal.

Sakura sem entender volta sua atenção para o moreno a sua frente.

—Então... eu...

Nesse momento ocorre uma passeata com música instrumental e desfile de escola na rua. Sakura não entende o motivo disso, nem era época do ano para desfile. Deixou os músicos se afastarem e voltam para o assunto principal.

—Sakura.- Sasuke chama sua atenção, ela olha para ele.- Eu...

Entra na lanchonete uma mulher com cinco filhos na costa todos fazendo birra e ela gritando a doidada com eles atraindo atenção de todos ali.

Sakura sentiu pena da pobre mulher e iria até se levantar para ajudar porém Sasuke a puxa assustando a mesma.

—Sakura eu finalmente consigui finalizar aquele jogo que passei meses programando.- falou de uma vez.

Sakura encarou estática pelo o que ouvia. Realmente não acreditava que se preocupou atoa, achou que era algo sério, quase teve um infarto por isso? E suas provas então teve certeza que se chegasse na média era muito.

—Sasuke...

—Eu sei, é incrível não é? Vou ganhar milhões com isso e- foi interrompido quando viu a mesma se levantar e de súbito bater as duas mãos na mesa.

— Está me dizendo que esse tempo todo era só por causa do seu joguinho?

—E o que mais poderia ser? Eu consegui alcançar meu objetivo.- ele diz na maior cara de pau com o seu sorriso farsante. Mas para Sasuke ele realmente estava feliz pela sua conquista.

Sakura ficou incrédula não acreditando no que ouvia.

—Sasuke eu me dei mal na prova hoje preocupada pela sua mensagem. Achei que era algo sério.

—Mas isso é algo sério Sakura!- Sasuke disse se levantando também.

—Ah faça mil favor né.- se vira para ir embora. No instante seguinte Sasuke a segura pelo braço.

—Ainda não falei tudo.

— E nem quero ouvir, na verdade não quero ouvir nada que venha de você por hoje. Cansei. Tchau.- se dirigiu para a saída.

—Sakura.- Sasuke a chamou não saindo do lugar.- Sakura isso é algo importante!

De costas ela mostra o dedo do meio para o moreno e saiu batendo a porta do estabelecimento.

Furiosa ela seguiu para o trabalho a passos rápidos e precisos, a cara de mau que fazia assustaria qualquer um. Seu turno sairia puxado, já era quase cinco da tarde, estava de cabeça quente pela conversa ridícula do Sasuke. Jurou que se ficasse mais um minuto sairia na porrada com aquele imbecil.

Como ele pode fazer isso com ela? Ela de fato pensou que era algo sério, ele só podia está tirando com a cara dela.

Perto do restaurante em que trabalha se sentiu estranha, começou a ter tonturas forte que precisou se sentar um pouco para se acalmar, mal conseguia levantar a cabeça de tão tonta. De repente tudo ao seu redor começou a rodopiar.

A rua, as pessoas, os prédios, por onde olhava tudo girava como vários cata-ventos oscilante em cores vibrantes. No fundo, bem no fundo ouviu uma música romântica operesca que acreditava ser do tempo da sua bisavó. Era como estar no filme do Dumbo só que chapado. Será que era isso? Ela estava chapada? Sakura realmente não sabia, mas tava adorando a sensação que até começou a dançar no ritmo da música que vinha do além.

Rodopiou por diversas vezes e viu a pessoas das ruas rodopiarem juntas. Riu das imagens distorcidas, era engraçado como via as pessoas com cabeça de animais de desenho antigo. Ficou nessa até sentiu alguém a segurar nos braços, olhou na direção do indivíduo e viu um urubu a carregando. Ou será um corvo?

Não sabia ao certo, começou a rir como uma verdadeira louca. Ria por várias horas até sentir sua consciência se perder pela escuridão.

Notas finais
O que será que aconteceu com Sakura pra ficar assim? Descobriremos no próximo capítulo então? Até a próximaaaa. ❤