Vida de Monstro - Livro Quatro - Os Deuses
8 VIII - Michael
Notas iniciais
VIII – Michael
Ter uma boa companhia fazia toda a diferença não importava o que você fizesse. E quando o que você tinha que fazer era andar por um mundo que mudava tão rápido quanto um pensamento, ter de companhia espíritos ancestrais tão velhos quando o planeta era muito útil.
Afago a cabeça da pantera que cintilava como se fosse chamas em meio aquela escuridão. O corpo do nosso adversário estava a esquerda expelindo ectoplasma enquanto almas e mais almas pareciam flutuar para longe dali. Quanto menos almas aqueles espíritos malignos tivessem com eles mais fracos eles ficavam e isso era uma ajuda mais que bem vinda.
Meu colega cheio de escamas deslizava pelo ar como se fosse um rio indicando meu caminho e não demorei a segui-lo. Cansaço não era algo que sentia no Sonhar ainda mais com aqueles dois ali me enchendo de poder.
Quando mais fundo íamos naquele local mais obvio ficava porque o chamavam carinhosamente de Abismo da Perdição. Aquele local não era só uma perdição em algum sentido metafórico que eu jamais entenderia, mas também no sentido literal. O Sonhar já era por natureza um local em eterna mudança. Aquele lugar parecia levar isso muito a serio. Mesmo que eu andasse ali com um fio preso na minha perna e a outra ponta presa no inicio eu ainda assim iria me perder. Só era possível me guiar ali por que tinha o espírito das águas me guiando e ainda assim não podia nem piscar que corria o risco de perdê-lo.
Paredes se moviam. Sumiam. Apareciam. De pedra viravam fogo, gelo, sombras e outros elementos que nem sei se existem fora do Sonhar. Aquele lugar devia ter algum lugar bom então por que eu nunca os visitava?
Não tinha a menor noção de tempo ali se é que existia uma unidade de tempo fixa ali então eu basicamente seguia a contagem de corpos de espíritos malignos derrotados. Dois até o momento. Parecia lento demais. Mas sem tempo fixo era difícil de dizer realmente.
As distancias também não eram nada agradáveis quando unidas a esse tempo maluco. Eu podia subir uma montanha em instantes se caminhasse como também podia levar dias para correr um único quilometro. E isso não ajudava quando se estava num local como aquele com inimigos em cada lugar. Eu podia literalmente dar um passo e já estar de cara com um novo rival e tendo a sorte que eu tinha foi exatamente isso que aconteceu.
Assim que vi a silhueta surgir recuei, mas logo notei que não estava sendo atacado. Podia sentir que aquela criatura era um espírito e não era parte dos aliados. Mas ele também não atacava. Era como se eu não existisse pra ele e sabia que ele me via mesmo que a única coisa que visse dele era sua enorme sombra refletida na rocha:
–Pode sair, pequeno ratinho amedrontado. Não vou matá-lo ainda – disse a criatura finalmente se mostrando pra mim
Não era em nada como imaginava a principio, mas explicava a sombra gigantesca mesmo sem nenhuma forma de luz ali a não ser os espíritos que trazia comigo. Ele ERA uma sombra. Uma enorme sombra que parecia o estereótipo de um demônio com enormes asas e um chifre na cabeça. A única área que não era negra era onde deveria ser o local de seus olhos que tinha as cores da própria pedra em que se projetava:
–Meu Senhor está muito surpreso com seu progresso Avatar, ele jamais imaginaria que chegaria tão longe – continuou a sombra me encarando
–Diga a ele que só chegarei ainda mais longe – falei encarando aquela coisa e pude ver um sorriso surgindo naquele rosto já que ele assim como os olhos tinha as cores da pedra
–Ele me enviou aqui exatamente para impedir isso, adorável Avatar. Já foi longe demais e expulsou alguns de nossos companheiros. Não pode continuar assim se não estragará tudo assim como o pai-lobo tenta fazer
–Acha que uma mera sombra como você pode me impedir?
–Mera sombra? Ah tolo garoto, eu sou A sombra. Eu sou a sombra que se projeta na lua quando ela fica cheia. Eu sou aquele que os observa quando apenas a escuridão reina. Sou os olhos de meu Senhor onde quer que seus inimigos estejam, pois todos que fogem da escuridão vão em direção a luz. A luz é capaz de afastar a escuridão, mas eles nunca lembram que é a luz que projeta a sombra.
Vi a sombra atacando e por um momento simplesmente não me defendi, não havia como ela me ferir. Mas foi quando ela me atacou que notei que aquilo era tão possível quanto todas as outras maluquices do Sonhar. Ela havia apenas acertado minha própria sombra e não meu corpo, mas ainda assim rasgos se abriram onde ele havia acertado minha sombra e eu comecei a sangrar. Aquela coisa era capaz de me ferir mesmo não me acertando diretamente.
Não tinha idéia de como me defender daquilo e nem como atacá-la, mas então tentei fazer aquilo que tanto havia treinado naqueles dias. Canalizar o poder não apenas do Sonhar, mas também dos espíritos ao meu lado e dos sonhadores. Não havia nenhum sonhador naquele lugar, mas tinha dois companheiros ao meu lado e implorava para que bastasse.
A marca em meu ombro que era a prova que eu era um lobisomem brilhou como se fosse feita de chamas e então o poder de Coahoma se canalizou através de mim e um lobo feito de chamas voou em direção as chamas provocando apenas risos por parte do meu inimigo. Aquilo não parecia tê-lo sequer incomodado. Mas dentro de mim algo dizia que era a única forma de derrotá-lo então tinha que descobrir como.
Aumentei as chamas ao meu redor e parecia atirá-las em meio aos uivos emitidos enquanto me transformava. Sombras de lobisomem foram surgindo nas pedras que nos rodeavam e mesmo agora com mais alvos para acertar a sombra maligna não parecia mais me ferir tanto assim. O número de sombras que ele acertava só aumentava o número de ferimentos, mas de alguma forma não o dano que eu sofria. Na verdade parecia só diminuir.
Intensifiquei ainda mais as chamas enquanto terminava minha transformação e continuava a receber golpes cada vez menos efetivos. Tinham seis sombras minhas nas paredes, mas quase tão claras que se tornavam quase imperceptíveis e o mesmo efeito acontecia com o meu inimigo. Era isso que o enfraquecia naquele instante:
–Acha que um mero truque pode me derrotar? – perguntou a criatura sumindo completamente, mas ainda assim mantive as chamas acesas – Acha que só porque sua luz se tornou tão intensa que mal faz sombra pode escapar? A luz a que me refiro não é apenas essa, tolo Avatar. Refiro-me também a luz das virtudes que vocês usam para escapar da escuridão dos pecados, mas se esquecem que geram as sombras das dúvidas e dos erros
Podia então ver sombras voltando a surgir nas paredes de pedra que nos rodeavam. E não eram apenas minhas ou daquela coisa.
Era quase como se contassem uma história. E a pior história que eu poderia imaginar. Um pesadelo. Era impossível para mim não reconhecer as silhuetas de minha mãe e de Ferdinand, daquele que devia ser meu pai, o mestre de minha mãe e Miakoda. Aquele era o relato da morte deles e de como John me adotou. Eu odiava sequer pensar naquilo quanto mais assistir.
Depois vi meu combate com Ferdinand na biblioteca. A guerra contra os vampiros. Todos que gostava e considerava minha família morrendo. Minha vida sendo tirada............ E tudo voltando e se repetindo num loop infinito que já estava fazendo minha cabeça doer.
Sentia minha transformação regredindo e uma dor gigante crescendo dentro do meu peito como se quisesse explodir. Aquilo me fazia tanto mal. Eu só queria acabar com aquilo de uma vez............. Mas antes que eu pudesse fazer alguma idiotice deixei o poder das águas fluir em mim. Minha marca brilhou como águas cristalinas e senti como se tudo de ruim fosse levado de dentro de mim enquanto enormes gêiseres explodiam ao meu redor.
Podia ouvir o barulho de alguma coisa grunhindo e reconheci como sendo da sombra, mas na escuridão que surgiu não era capaz de vê-lo e sabia que se usasse minhas chamas ele poderia me ferir então simplesmente fiquei alguns segundos apenas analisando a situação e me transformando de novo. Aquela coisa não tinha cheiro, gosto e meu tato era tão inútil quanto minha visão se ele não surgisse. Só tinha realmente uma chance de acabar com ele.
Aquele era o mundo dos sonhos. Pra algo acontecer eu só precisava acreditar que isso aconteceria. Ia por isso a prova mais uma vez.
Deixei que as chamas surgissem de novo e logo ele surgiu novamente. Rindo histericamente e com um enorme sorriso no rosto ele estava a poucos centímetros da minha sombra. Se aumentar a iluminação facilitava para mim então também deveria facilitar para ele então era melhor eu deixar daquela forma. Era hora de arriscar tudo naquela dimensão maluca.
Fiz com que a poeira dourada ao meu redor se reunisse formando uma espada feita de pura trevas. Aquela criatura não era como Abolete e os outros que derrotei antes, ele não tinha almas ao lado dele para diminuir meus poderes, ele realmente confiava nas suas habilidades e para mim ele tinha que continuar a acreditar cegamente que era superior.
Minha sombra também adquiriu uma espada e era tudo que eu precisava. Deixei o poder dos espíritos ao meu lado fluir por mim e avancei atacando o vazio. Mas se eu cortava apenas o ar, a minha sombra atacava aquele espírito corrompido. E era isso que importava.
A criatura grunhiu de dor e vi que seus olhos se esbugalharam ao notar que havia sido ferido. De alguma forma aquela maluquice havia dado certo, criar uma espada de sombras era capaz de ferir uma sombra. Ao menos no Sonhar e por hora bastava.
Não dei tempo para o espírito fugir. Corria tão rápido quanto meu corpo transformado permitia e era mais do que o bastante para acompanhar os movimentos dele. Cortei, retalhei, transpassei aquela coisa até ter certeza que ela não teria mais forças para se opor a mim. Deixei a silhueta dela cair no chão fazendo movimentos que me pareciam lembrar alguém respirando pesado. Não era possível reconhecer algo como ferimentos ou sangramento, mas sabia que ele estava ferido e estava para morrer:
–Como? – a frase dele mal conseguiu sair enquanto ele definhava
–Você sabe a resposta – disse regredindo a minha forma e girando a espada em mãos – Eu sou o Avatar. O dono mestre deste local. Aquele que matou um deus. O amigo dos espíritos. O filho do pai-lobo.
Cravei a espada no local onde deveria ficar seu coração e no meio de um grito ensurdecedor o corpo sombrio se desfez soltando pó dourado no ar.
Sentei no chão cansado e finalmente sentindo minhas feridas sofridas arderem pelos ataques que recebi. Minha respiração foi ficando ofegante aos poucos e senti o calor de Coahoma próximo e me reconfortando como ele tanto fez ao longo da nossa jornada. Limpei o sangue que escorria das feridas e me forcei a levantar. Tínhamos que continuar e muito a andar.
Podia ver a luz roxa cada vez mais próxima e a cada passo também a sentia ainda mais fundo. Ali estava a minha única chance de voltar. E algo dentro de mim só sabia me mandar fugir para bem longe dali. Se ali era onde eu poderia voltar a vida também era ali que eu poderia confirmar a minha morte. E essa não era uma boa opção. Eu tinha que voltar. Pessoas precisavam de mim. Ella precisava de mim e de alguma maneira eu sabia disso.
Pelo fato de estar no plano que eles vem ao dormir para sonhar e os sonhos serem os reflexos da alma? (diga-se de passagem nem lembro quem disse isso, mas Amy sabe então perguntem a ela) Não sei. Talvez nunca saiba. Mas eu sentia que tinha que voltar. Não tinha contas para acertar. Mas tinha a quem proteger e de alguma forma isso me parecia algo ainda mais importante do que qualquer vingança que já pensei em concretizar.
Eu iria voltar. Por Ella.
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