Vida de Monstro - Livro Quatro - Os Deuses
9 IX - Arvedui
Notas iniciais
IX – Arvedui
Ainda não tinha encontrado as palavras corretas para descrever aquilo, mas o mais próximo talvez fosse magnífico. Mágico. Inimaginável. Draconiano.
Os anões talvez não pensassem o mesmo, com exceção da última parte. Era um espetáculo independente da opinião deles. Indo contra todo o conflito ao nosso redor o ovo verde não trazia morte, mas sim vida.
Deuses menores trazendo guerras e mortes e os anões recebendo aquilo de frente desferindo ataques e perdendo seus companheiros aos montes. E não apenas eles. Diversos de meus servos também pereciam naquele combate insano e ainda assim não conseguia ficar triste por suas mortes. A proximidade com o ovo talvez e o seu poder.
A cada guerreiro nosso que caia a luz dele emanava como se fossem folhas ao vento se espalhando e aonde a morte chegava ele trazia vida. Dos corpos dos elfos brotavam pequenas árvores enquanto dos anões surgiam pedras preciosas que cresciam como se fossem plantas, as lendárias gemas-vivas que diziam haver milênios atrás quando os espíritos ainda eram poderosos, numa época em que tanto animais, vegetais e minerais eram seres vivos e não apenas os dois primeiros.
E aquele ovo trazia eles de volta. Além de muito mais. Sobre os cadáveres dos elfos plantas a muito esquecidas pelas eras do próprio planeta voltavam a surgir. Só estava com o ovo a poucos dias e já tinha trazido mais vida ao mundo do que qualquer outro espírito havia conseguido desde o seu retorno. Mas também era algo mais do que esperado depois que se via seu poder em ação ao menos uma vez.
Não era em apenas corpos que a vida surgia, desde que o possui ele fazia surgir das paredes de concreto gemas-vivas, plantas brotavam do asfalto, solos mortos voltavam a ter fertilidade, águas se despoluíam, a vida fluía. Além disso, os próprios espíritos pareciam ficar inimaginavelmente mais fortes quando estavam pertos do ovo. Tanto que mesmo perdendo tantos companheiros estávamos vencendo e mantendo todos aqueles deuses tão diversos presos naquela região sem poder escapar dali e só esperando William surgir para acabar com eles. Algo que estava demorando até demais.
Ele provavelmente ainda está no caminho rumo ao Egito, mas ainda assim não sei podemos segurar por tempo até ele voltar. A cada dia o número de deuses nórdicos só aumentava e a cada dia nossas defesas diminuíam.
Cada dia mais eu sentia o ovo perto de eclodir. A cada planta nascida ou gema-viva surgindo ele pulsava com mais intensidade. E ainda assim me parecia longe demais para servir de uma ajuda verdadeira naquele combate. Mas ainda assim eu queria viver o suficiente para ver o filhote que dali sairia. Algo dentro de mim necessitava daquilo quase tanto quanto viver. Talvez mais.
Pude ouvir quando algo explodiu e cabeças começaram a voar, os deuses finalmente haviam rompido nossas defesas. Foi como uma onda de destruição avançando com toda a força que pareceram ter escondido até agora atravessando tudo no caminho e adentrando os salões subterrâneos dos anões como se não conhecessem coisas como medo ou derrota.
O poder dos nórdicos em relação a guerra era assustador demais e agora que parecemos perder nossa base armada eu temia que não pudéssemos pará-los novamente.
Os espíritos pareciam desnorteados e sem eles os anões e meus elfos não teriam poder suficiente para impedir o avanço das tropas divinas que cortavam, perfuravam e destroçavam tudo no seu caminho descendendo mais e mais nas terras dos anões.
Minha espada se chocou contra o lendário Mjölnir do deus Thor. Relâmpagos voaram para todos os lados enquanto a minha espada passava pelas descargas elétricas e deixava uma marca no martelo. O olhar do deus pareceu se tornar ainda mais furioso do que já era naturalmente e seus cabelos ruivos pareceram se tornar verdadeiras chamas. Mais outro ataque elétrico.
Aquele ataque teria me acertado em cheio já que meu braço que defendeu o primeiro golpe parecia ter ficado momentaneamente dormente. Por sorte eu não tinha apenas uma espada.
Outra defesa dispersando aquele poder destrutivo. Agora era meu outro braço que ficava dormente enquanto o outro voltava ao normal para conseguir me defender novamente. Oberon e Thorin. As duas espadas lendárias que foram presentes dos anões para os elfos firmando nossa aliança eterna. Uma delas havia sido perdida, mas os anões usando os restos achados por William a trouxeram de volta ainda mais poderosa do que fora no passado. Armas capazes de rivalizar com a fúria divina.
Podia sentir o poder do ovo a minha volta, ele havia caído no chão durante todo o evento repentino, mas não parecia avariado. Pelo contrário. Seu poder pulsava com ainda mais intensidade e eu me aproveitava disso. Meus braços logo não ficavam mais dormentes e eu ficava com ainda mais força. Estava com ainda mais força. Ainda mais vivo.
A energia draconiana esverdeada passava através do meu corpo indo em direção as minhas espadas. Meus golpes pareciam mais fortes. Eu podia agora suportar com perfeição os ataques de Thor, na verdade aos poucos os superava com calma. Não tinha mais que pará-los, apenas esquivava deles com maestria. E assim que vi a abertura não perdi a chance.
Ambas as lâminas se cravaram entre as costelas do deus, cada uma de um lado e atravessando os pulmões do corpo etéreo. Retirei as espadas e pulei para trás escapando de um ataque mortal de Mjölnir e antes que Thor pudesse atacar novamente o espetáculo teve inicio.
Várias trepadeiras começaram a surgir dos dois ferimentos e enrolaram em instantes todo o corpo do deus apertando-o com a força digna de um anão em fúria. Algo que tinha aos montes ali para eu poder comprovar.
Quando pensei que seria apenas aquilo vi que mais trepadeiras brotavam de outros orifícios do corpo de Thor prendendo-o definitivamente em pé como se fosse uma velha estátua coberta de trepadeiras. Ele tinha sido completamente derrotado mesmo ainda estando vivo.
Ali estava a nossa chance de parar os deuses finalmente. Avancei por entre as fileiras inimigas atacando tudo a minha frente sem nem reconhecer qual era o deus que eu feria. Minha velocidade estava maior, minha agilidade superava a de qualquer fera, minha força superava a de qualquer outro. E a cada corte mesmo sendo um mero arranhão era o suficiente para o poder das trepadeiras iniciar e prendê-los.
Não tinha idéia de quanto tempo havia se passado. Uma hora? Um minuto? Talvez um dia? Nem que fosse uma semana eu teria notado. O poder que corria por mim era tão incrível e inebriante superava qualquer orgasmo ou onda de adrenalina que já tivesse sentido.
Os anões, elfos e elfos negros que me rodeavam encarando sem acreditar no que havia acontecido. Seria assim que William se sentia na maior parte do tempo quando enfrentava os deuses? Talvez. Não importava. Tínhamos ganhado e meu corpo após todo aquele combate sentiu o peso de todas aquelas minhas ações capazes de parar um exército divino.
Cada músculo meu tremia, latejava, doía como se eu tivesse sido alfinetado por agulhas quentes num número tão grande que seria incontável no meio da dor que eu estava sentindo. Ao meu redor, uma floresta de trepadeiras crescendo a partir dos corpos etéreos e se espalhando por todos aqueles imensos salões milenares de pedras:
–Onde aprendo a fazer isso? – algum dos sete mestres anões que ainda estava vivo se sentou ao meu lado e me deu um longo sorriso, conseguimos – Agora é só esperar seu aliado para matar de uma vez por todas essas criaturas. Depois disso só restará o mestre deles e aquele grupo maldito.
E por um momento acreditei nas palavras dele. Vi os sorrisos estampados nos rostos dos meus servos, nos dos poderosos anões que se diziam incansáveis e no elfos negros que por tanto tempo foram nossos inimigos e agora nos auxiliavam com praticamente tudo. E eu realmente quis acreditar nele.
Mas não era possível. Não depois de ver a lança passando pela sua garganta e me acertando entre as costelas.
Gemi de dor e antes mesmo de conseguir tirar a lança, ela havia simplesmente levitado e ido em direção a um alvo que mesmo sem ver era possível saber que era ele. As chamas ao seu redor queimando minhas trepadeiras enquanto o olho que ele não deveria ter brilhava formando o nó infinito nórdico era algo que apenas Odin poderia fazer.
Sangue saia pelo ferimento que por poucos milímetros não havia acertado em cheio meu coração e logo notei a figura divina surgindo na minha frente girando aquela sua lança maldita enquanto eu tentava levantar e pegar minhas duas espadas:
–Realmente acreditou que míseras plantas poderiam prender o rei dos Aesir? – a voz de Odin ecoava pelos salões de pedra enquanto uma série de anões começava a cercá-lo e dezenas elfos apontavam seus arcos – Eu prendi a mim mesmo na lendária Yggdrasil por nove dias usando minha própria lança e acredita que algum arbusto idiota vai ser capaz de me parar? Subestima minhas runas e minha força, rei dos elfos? Nidavellir, as malditas terras dos anões, vai cair sob os meus pés e logo será a vez de toda a Midgard!
Todos esperavam apenas o meu sinal ou o avanço do deus. O que viesse primeiro desencadearia todo mais um novo combate. O problema era que não acreditava que tivéssemos chances de vencer daquela forma. Não sem o poder do ovo.
Ao fundo vi surgindo os últimos dois mestres anões vivos e minha cônjuge Alatariel. Eles estavam só esperando a deixa para atacar também, mas não entendiam a loucura desse ato. Odin sozinho havia eliminado mais dos nossos do que estavam ali o cercando e de todos os mestres anões que caíram apenas um não foi pelas mãos dele. Não teríamos chance.
Foi ai que a onda de poder esverdeado voltou a me cobrir. E como ela me acalmava. Fazia eu me focar no que importava. Curava meu corpo. Dava-me uma ordem simples e direta. Parar o deus.
A lança Gungnir que sempre acertava seu alvo foi apontada para mim enquanto eu girava minhas espadas e apontava para ele também. A qualquer momento o ataque decisivo para a sobrevivência de três raças iria acontecer e antes que tomasse a decisão de avançar senti o poder dos espíritos ao meu redor. A terra sob meus pés parecia mais firme e parecia gritar que me auxiliaria enquanto eu estivesse pisando nela. O vento que corria por mim falava que me tornaria leve e ágil como ele. Mas foi apenas quando o ovo pulsou novamente que finalmente avancei.
Percorri a distância entre nós tão rapidamente que os arqueiros demoraram segundos até notarem que eu tinha atacado. As pontas de flechas cortaram o ar mirando no deus enquanto a lança dele se cravava no meu estômago e seus poderes músculos faziam ela me erguer do chão tomando ainda diversas das flechas que deveriam tê-lo acertado.
Senti meu corpo sendo jogado para trás e se chocando contra o chão quebrando várias flechas e cravando suas pontas ainda mais fundo na minha carne. Meus pulmões tinham sido destroçados e algum dos meus ventrículos estava perfurado enquanto tripas saiam pelo ferimento da lança. Estava acabado, mas se ele achava que isso me pararia estava muito enganado.
O próprio chão pareceu me dar forças para me levantar e vi o corpo de Odin “sangrar”. As flechas que tentaram acertá-lo havia sido queimadas pelas runas que ele desenhava no ar e os anões que tentava atacá-lo eram repelidos por golpes de lança tão fortes que moviam o próprio ar como se fosse uma série de balas. Minhas espadas que tinham o feito soltar seu precioso éter por dois cortes no peito.
Até mesmo o Aesir parecia surpreso com eu ter acertado e aquilo era apenas o começo. Enquanto tivesse os espíritos ao meu lado meu corpo não cairia a não ser que fosse destroçado e se eu durasse tempo o suficiente aqueles dois cortes se tornariam um milhar de rasgos.
Estava a cada passo mais rápido e ágil. Atacando dez vezes enquanto Gungnir só me acertava uma vez estava causando um estrago visível, mas sempre que aquela arma me acertava eu tinha mais tripas indo ao chão ou um novo buraco que ou era na garganta ou era no peito. Em alguma ele mirou na minha perna me pondo a baixo e o corte que devia ter destroçado suas costelas acertou sua barriga fazendo ele por tripas para fora como eu também fazia.
Já deveria estar, mas tomando forças emprestada do ovo draconiano eu me pus erguer todo o meu corpo e uma de minhas espadas acertando em cheio o olho de Odin que ela ainda possui o jogando para trás com a mão no rosto e gritando em fúria.
Antes que ele conseguisse lançar Gungnir novamente eu enchi suas costas de rasgos tão fundos que acertaram seus órgãos etéreos. Notava as runas flamejantes queimando meu corpo, mas aquilo não me pararia, não quando eu notava que o deus finalmente parecia enfraquecer pela perda de éter.
E olhar ao meu redor só me deu mais forças. Os corpos antes presos por trepadeiras agora pareciam dentro de enormes carvalhos tão grossos de tronco que só era possível se reconhecer certos pedaços dos corpos divinos. Os salões de pedras dos anões agora lembravam mais imponentes florestas contendo plantas já extintas e gemas-vivas que davam diamantes, rubis e safiras tão grandes quanto um punho humano. A natureza dominava e isso me fortalecia.
Acertei tantas vezes o lendário Odin que ele caiu no chão e dei a batalha como acabada. Elfos urraram vivas a mim gritando a todos os ventos sobre o rei feérico que havia acabado de derrubar um membro da elite do deus dos deuses. Por um momento todos acreditamos na vitória absoluta. E mais uma vez estávamos enganados.
Gungnir se cravou no meu queixo e senti meu corpo sendo levado para cima enquanto ela afundava no meio crânio e destroçava meu cérebro passando por toda a extensão da minha cabeça e retornava a seu dono. Não era capaz de ver Odin ou qualquer outro enquanto rolava pelo chão sentindo a morte me dominar. Não era mais sequer de processar alguma coisa com quase um terço do meu cérebro destruído. Iria morrer.
As espadas saíram de minhas mãos rumo ao chão e o poder dos espíritos me abandonou. Estava acabado e só era uma questão de segundos até eu sucumbir ao abraço da morte.
Tinha que pedir perdão a William. Não havia conseguido trazer um dos Primeiros de volta a vida. Eu falhei miseravelmente com ele e com todo o meu povo os deixando a mercê de uma divindade viciada em matança. Havia condenado todo o planeta graças aquilo.
E ainda assim me senti bem. Podia sentir vida brotando do meu corpo como se o poder do ovo agora fizesse comigo o que fez com todos meus amigos já a muito caídos. Mas não sentia como se aquilo fosse um sinal de minha morte iminente. Na verdade, sentia-me ainda mais vivo. Minha consciência que quase havia caído na escuridão estava retornando e gritando uma palavra.
O ovo me trazia de volta e como divida eu deveria apenas dizer aquela palavra que queimava em mim assim como aquela luz esverdeada que agora cobria até onde a vista alcançava.
Mera!
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