Vida de Monstro - Livro Quatro - Os Deuses
6 VI - Amy
Notas iniciais
VI – Amy
Como você faz para derrotar um inimigo muito mais forte do que você? Você passa meses, anos até, planejando, se equipando, treinando. Mas não quando seu grupo é formado por um bando de monstros maníacos. Ai você só literalmente bate na porta do inimigo.
Esqueci de esclarecer que nossos inimigos são deuses antigos? Isso é muito importante porque isso explica como um cara com um raio na mão está nos encarando furioso em cima do seu trono:
–Corajosos guerreiros ou idiotas suicidas. Estou com uma grande dúvida em decidir o que sois – brandiu do alto do seu trono Zeus enquanto um chiado elétrico era emitido do raio em sua mão
–Pergunte ao seu irmão Plutão, ele vai lhe dizer a resposta – falou Will com uma absurda calma, ele realmente não tinha medo e com Drake e Oberon ao seu lado eu não conseguia ver a gente perdendo mesmo conseguindo imaginar o estrago que lutar contra um dos quatro da elite de Babalathe poderia gerar – Ah desculpe, esqueci que eu mesmo o matei
–Tão engraçado que merece a morte – grunhiu Posêidon ao seu lado girando seu tridente em mãos enquanto uma tempestade parecia começar aos poucos do lado de fora do templo construído pelos próprios deuses no topo do Monte Olimpo, a montanha grega de verdade
–Ah queridos deuses garanto que vários nesse salão merecem a morte, só não sou eu. Pelo menos não agora
As paredes de chama negra surgiram cobrindo todo o templo enquanto Rubys rugia e fazia tudo tremer. Todos começaram a se armar e a golpear enquanto eu erguia a nossa proteção. Explosões e ondas de fumaças e fuligem cobriram a nossa vista enquanto minha barreira recebia todos os golpes e eu recitava palavras em busca de mantê-la estável.
Numa sincronia perfeita no momento em que os ataques paravam mesmo que por meio segundo eu desfazia a barreira e Will atacava com tudo e então eu voltava a criar nossa proteção. Tudo num piscar de olhos.
E depois de quase três minutos naquele bombardeio de super-poderes o silencio de se ergueu mortal no templo. Aos poucos fui desfazendo minha barreira enquanto Drake criava gelo ao nosso redor para erguer uma proteção mesmo que rudimentar a qualquer momento. Aquela foi a estratégia mais suicida que poderíamos ter concebido, mas aparentemente tinha dado certo. Só precisávamos acertar um golpe para garantir a vitória a não ser que o alvo fosse Zeus e tínhamos conseguido acertar todos os nossos alvos. Mais de vinte cadáveres ardendo pelo chão enquanto as chamas negras devoraram suas essências e as mandavam para o descanso eterno onde quer que os deuses descansassem.
No canto do templo, próximo de seu próprio trono, Zeus cortava sua mão esquerda sem sequer demonstrar dor. De seus olhos emanavam raios tão mortais quando o que carregava e sua fúria era palpável:
–Três pirralhos e um dragão mandam um ataque suicida a meu grupo e obtêm sucesso. É tão ridículo que deu certo – falou o deus soltando um frenético riso – Finalmente estou livre de todos aqueles encostos malditos que só queriam a minha cabeça e meu titulo. Não tem idéia de como está nos outros grandes grupos, vivendo verdadeiras guerras internas em busca do titulo e reconhecimento de nosso senhor
–Por que essa pressa toda? – indagou William visivelmente mais calmo, era quase como se tivesse caído por acidente numa mina de ouro e o ouro simplesmente começasse a vazar das paredes. Era informação sobre o inimigo – Passaram a guerra toda como vassalos e na atual querem mudar isso?
–Essa guerra vai ser bem diferente das anteriores começando pelos frontes. Onde já se viu grupos tão diferentes unidos como está ocorrendo agora? Além disso, essa será a ultima dos deuses sem sombra de dúvidas
–Como pode afirmar algo assim?
–Nosso grande inimigo está lá fora nos esperando de braços abertos com sua elite se reunindo. Nosso Senhor está fazendo o mesmo. Quando isso acabar seus maiores guerreiros serão ainda maiores, os pequenos ainda mais esquecidos. Por isso a guerra interna frenética por poder
–Ainda não consigo ver como Zan poderia se opor a vocês, deuses
–Você é idiota, demônio? Como você se opõe a nós?
–Dragões......... – o ar parecia ter esquentado, algo ruim estava vindo e o rugido de incomodo de Rubys reforçava tudo isso – Mas é impossível. Os únicos dragões vivos estão do nosso lado
–E desde quando necromancers como aquele ser precisam de seres vivos para suas finalidades horrendas? Ou você realmente pensa que o poder draconiano que ele usa vem de um dragão vivo?
Era tudo tão obvio que já tínhamos também pensado nessa hipótese. Zan usava o poder de esqueletos de dragões a muito mortos para poder executar tão poderosos feitiços. Mas isso não tirava o credito dele. Tentei fazer a mesma coisa usando uma lasca de escama de Rubys e foi inútil, para se canalizar o poder era necessário ser um cavaleiro de dragão e conhecer o idioma deles. Ou seja, ele continuava sendo forte. Além do quê se as estatísticas e pesquisas do dragão-rei vermelho estiverem certas mesmo o cadáver de um dragão pode oferecer muito poder. E ele tem muitos cadáveres.
Antes que qualquer dialogo continuasse um poderoso raio se chocou contra nós, mas por sorte a barreira de Drake se provou resistente o suficiente para agüentar aquilo sem se desfazer. Na verdade mal tinha se destruído. Talvez fruto da alimentação desenfreada que ele tinha tendo mesmo com os Caçadores na cola dele. Ou, como eu teorizo, ser fruto do seu sangue artificial que agora por ser o único a existir dentro dele pode liberar todo seu real potencial. Um potencial bem superior ao do sangue antigo de Caim.
Logo os dois monstros ao meu lado sumiram da minha vista e quando notei estávamos novamente no meio de uma luta.
Tinha Rubys ao meu lado observando aquela maluquice digna de um bom anime shonen. Realmente ser uma caçadora-bruxa-namorada de um demônio, não ajudava em nada a minha busca pela normalidade e pela paz. E o fato deu poder ficar parado no meio daquilo tudo com um escudo invisível me protegendo também não ajudava:
–Você pode me ensinar ao menos uma palavra? – perguntei ao dragão realmente querendo aprender, fazia semanas que estudava aquela língua e por mais que soubesse de palavras comprovadamente provenientes do draconiano eu não conseguia usar seu poder, como Will gostava de dizer eu tinha que me mostrar digna de aprender, mas por tudo pelo que passei será que eu ainda não era digna?
A virada de cabeça com uma soprada de fumaça pelas narinas foi toda a resposta que precisava. Pensar que tinha visto Rubys do tamanho de uma lagartixa e agora ele se estendia por dezenas de metros fosse de comprimento ou de envergadura. O crescimento dele era assustador assim como o crescimento do poder do William. Eles realmente estavam em sincronia até biologicamente. E não nego que nutria certa inveja da relação dos dois. Era a coisa mais intima que podia ser feita, era uma ligação quase de almas se ambos tivessem almas.
Quando vi o corpo de Drake indo ao chão quase me desesperei, mas ele se levantou tão rápido quanto caiu e desferiu uma precisa estaca de gelo no ombro direito de Zeus o fazendo gritar de raiva. O deus tirou aquilo zangava sem notar que no meio do trajeto o projétil de gelo tinha sido interceptado pelas chamas negras que agora queimavam seu ombro. Quando o deus grego se deu conta já era tarde demais, toda aquela parte de seu corpo já estava sendo consumida e com a guarda aberta foi fácil para eles o exterminarem.
Aos poucos aquela imponente figura foi definhando nas chamas, seria quase poético de alguma forma bizarra, mas não consigo no momento imaginar como:
–Quem diria que sua idéia suicida daria certo? – disse Drake visivelmente cansado se sentando num canto aleatório do chão, só agora reparei o quanto ele e Will estava exaustos, a manobra suicida não era tão simples quanto parecia
–Foi uma idéia minha, seu idiota, claro que daria certo – replicou meu namorado em resposta caindo ao meu lado e agarrando minhas pernas, ele estava respirando pesado, usar tanto poder de uma vez e de uma maneira tão rápida parecia ter destruído ele – Faltam agora só três membros da elite, Odin não é um problema no momento, os anões estão fazendo um bom trabalho cuidando dele lá no norte da Europa. Se as palavras de Zeus forem verdade então os outros dois, Rá e Enlil, estão com problemas com seus deuses então vamos aproveitar e ir contra eles
–Quem primeiro? – tinha um fato bem interessante que acho digno de compartilhar, eu não conhecia uma única criatura na terra que não gostasse de um bom cafuné e isso incluía o demônio ali deitado que nem uma criança nas minhas pernas
–Enlil, os deuses sumérios não têm mais o mesmo poder e influencia de outrora então não devem estar tão fortes quanto o resto
Se íamos partir acho que o cansaço venceu. Os dois lutadores continuavam deitados respirando pesado enquanto Rubys apenas ficava rolando pelo chão com seu corpo gigante parecendo mais um animalzinho do que um dragão enorme. Na verdade naquele instante todos ali pareciam bem mais pessoas normais do que monstros numa guerra maluca que podia marcar o fim de tudo que conhecemos. E dentro de mim eu queria que fosse desse jeito quando tudo aquilo acabasse. Só viver como uma pessoa normal:
–O que a atormenta? – as palavras de Will realmente me incomodaram, estava tão visível assim?
–O futuro – pelo aceno dele a minha resposta ele já parecia suspeitar disso – Já ganhei e perdi tanto nessa maluquice que não sei mais o que esperar. Ganhei e perdi uma mãe num espaço de tempo tão curto que não sei o que sentir pelo meu pai. Os dois grupos ao qual pertenço tiveram absurdas falhas. Meu irmão, que na verdade é meu primo, morreu, mas pode voltar. Tudo é uma maluquice sem tamanho
–Você é uma Caçadora, devia estar acostumada
–Quem se acostuma com a loucura é um louco também, não é?
–Talvez. Realmente importa se ainda temos algo como sanidade?
–Nem um pouco. Mas é que se fosse louca talvez não tivesse tanto medo. Cada dia mais parece que estou mais distante da realidade e isso me assusta muito. Tenho medo de ir tão longe que não consiga mais viver no mesmo mundo de antes
–Isso pode chocá-la, mas o mundo que vai vir após essa guerra não será o mesmo mundo que viveu antes. Tudo vai estar diferente e apenas alguém como você que cresceu nessa maluquice vai ser capaz de manter tudo nos eixos
–Acredita mesmo nisso?
–Você não tem idéia
Teríamos nos beijado por um longo tempo se um certo vampiro não fizesse questão de emitir o barulho de falsos vômitos varias vezes:
–Se não fosse uma peça vital do plano estaria morto agora – comentou William e recebeu como resposta apenas mais um blergh – Quanto antes partimos mais cedo acabamos com isso. Nosso destino agora são antigas ruínas de Ur
–Em quantos eles estão? – perguntou Drake começando a esticar seu corpo
–Entre cinco e sete. Não devem ser um problema tão grande assim
Já íamos sair montados em Rubys quando notei algo que me forçou a descer do dragão e correr na direção do trono de Zeus. Só agora notava que no trono do deus, bem atrás de sua cabeça, havia uma serie de desenhos em tabuas de pedra que pareciam contar uma história. Não sabia grego para entender o que se passava, mas era visível que alguém havia sido sacrificado e um enorme poder parecia ter chegado a Terra vindo de outro plano. O trio me encarava sem entender nada, mas algo me dizia que aquilo era importante então usando de algumas magias consegui encolher as peças e as guardei comigo e logo parti com eles. Nenhum deles também parecia saber do que aquilo tratava, mas ainda assim não iria me desfazer delas.
Quando dei por mim já estávamos alçando vôo. Cá entre nós quem precisa de primeira classe se pode se voar em um dragão? Só não peça por um bom cabelo depois disso, mas é um preço pequeno a se pagar.
Não demoraria para nossa segunda investida kamikaze e se naquela eu já não havia gostado muito algo dentro de mim dizia que eu odiaria a próxima.
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