Verdade
5 Capítulo V - Lágrimas
Notas iniciais
Thomas saiu do banho com as energias renovadas, deitou-se na cama e sentiu o frescor das cobertas recém-lavadas, sentia falta do perfume de Pedro, que lembrava um misto de menta e terra molhada, deu uma olhada nos livros da escola, para ver se ainda havia algo pendente, nada. Ligou o computador, e chamou as amigas para contar o que tinha acontecido. Não conseguiria esperar até a segunda feira para dizer o que houve. Estava ansioso demais para isso.
Surpreendeu-se com a janela de Pedro subindo, e chamando “oi, amor” com o símbolo de um coração e uma carinha feliz, nunca havia conversado assim com ninguém, mesmo via internet. Após ler as dezenas mensagens de Juliana contando sobre o cara fofo e especial que ela tinha conhecido em uma festa na sexta feira, Thomas teve que ir dormir, feliz com os recados e as mensagens carinhosas de Pedro.
Acordou ainda cedo, antes mesmo de sua mãe, preparou o seu café, e saiu rumo à casa do pai, que ficava um pouco mais perto do centro da cidade: era um apartamento modesto, num prédio antigo, mas que oferecia muito conforto, o pai, talvez tentando compensar alguma ausência, comprara todos os tipos de videogames, um computador moderno, e uma TV enorme, apenas para o quarto que montara para Thomas, em verdade, o garoto não se interessava tanto assim por tudo aquilo, só desejava que o pai fosse um pouco mais presente.
–Bom dia filhão! — Saudou ele, abrindo a porta e dando um abraço no filho, ainda estava de pijama, e a julgar pela bagunça que estava sobre a mesa, preparara, ou ao menos tentara preparar, um café da manhã para os dois.
–Bom dia pai! -Respondeu Thomas, um tanto animado, mas com um medo lá no fundo, de alguma forma, achava que o pai poderia suspeitar de algo.
–Senta aí, eu preparei omelete pra gente!
Thomas sentou-se a mesa, e pegou uma porção pequena, sabia do “talento” de seu pai na cozinha. De fato, a omelete parecia carvão, amargo, escuro, e com um forte, forte demais, toque de pimenta. Com algum esforço Thomas conseguiu engolir tudo, mastigando o mínimo de vezes possível. Agora era o momento em que o pai começaria com as perguntas de sempre:
–E então filho, como vai a escola?
–Vai tudo bem pai.
–Hm... Jogando muito futebol?
–Na verdade... Não. — Respondeu Thomas um tanto sem jeito, sabia o quanto o pai gostava de futebol, e sabia também que não lhe agradava o fato de Thomas não gostar.
O pai de Thomas já jogara muito quando tinha a idade dele, levando algumas medalhas para casa inclusive, para falar a verdade, decepção, apesar de ser uma palavra forte, é a que melhor descreve o sentimento do pai ante o fato do filho não se interessar pelo esporte, amava o filho do mesmo jeito, mas sentia que o amaria mais ainda se gostasse, não achava aquilo um problema, porém também não era algo bom. Tentava de toda a maneira entender o porquê, se arrependeu de não ter saído mais vezes com o filho para jogar e ver partidas, mas estava ocupado demais com o trabalho. Após o silêncio gerado por aquela resposta, decidiu mudar de assunto para descontrair a conversa.
–Entendo filho... Seu tio também não jogava muito quando tinha sua idade... Hoje que já está velho só quer saber de jogar, isso vai de cada um... — completou com um riso. — Mas, e as garotas? Pegando muito?
Thomas praticamente paralisou-se de medo, era como seus sentidos tivessem apagado por um breve instante de tempo, seu coração freado as batidas, e sua mente congelado, inspirou fundo, tentando articular alguma coisa, alguma desculpa, mas as cordas vocais permaneciam imóveis, e a voz não saia de modo algum.
Ao perceber o nervosismo do filho, o pai tentou ajudar, afinal de contas, era de certa forma normal ficar nervoso quando alguém faz uma pergunta indiscreta como aquela, decidiu dizer que ele era seu pai, e não havia nada a temer.
–Filho... Não precisa ficar nervoso, pode falar, eu sou seu pai... Se tiver algum problema pode falar comigo. Sabe, eu sei que a sua mãe é muito boa pra você, e te criou muito bem, mas existem certas coisas que um homem só pode falar pra outro, as mulheres não conseguem entender, por isso saiba que você deve me procurar cada dúvida que tiver, está bem? Apesar de eu não ser tão presente quanto gostaria de ser, eu ainda sou seu pai, e estou aqui para te ajudar.
–Tudo bem pai, eu sei. — Respondeu Thomas, desejando apenas que o tempo passasse mais rápido que o de costume para poder finalmente sair daquela situação constrangedora.
O pai realmente queria que o filho fosse mais aberto com ele, desejou ter sido mais presente, mas agora era tarde demais, e Thomas já era adolescente, tentou inspirar confiança no filho, pois não queria parecer um estranho a ele. Queria saber mais sobre Thomas, para poder ajudá-lo naquela fase difícil da vida, adolescência, a perda da inocência, e o despertar para a vida.
–Filho... Você já transou?
Thomas não teve outra reação, senão deixar cair o garfo no prato produzindo um som estridente.
–Desculpa, eu não queria ter sido tão direto, mas não precisa ficar com vergonha, eu só quero saber pra te ajudar. O quão longe você já foi com uma garota?
“com uma garota”
Aquelas últimas palavras foram as que mais pesaram na mente de Thomas, queria falar, queria simplesmente dizer “pai, eu sou gay” e queria ouvir um “tudo bem filho, eu te amo do mesmo jeito” em resposta, mas certamente isso estava longe da realidade. Não queria esconder o que ele era de seu próprio pai, mas aquela era uma questão de sobrevivência, ele nunca poderia saber, pois a reação dele seria horrível, Thomas sentiu aquela angustia no pescoço, que só o choro resolvia, mas tinha que segurar mais do que nunca àquela hora. Por que as pessoas não poderiam simplesmente aceitar o fato de que um garoto pode amar outro garoto, e que o sexo, assim como o todo o resto, é irrelevante para o amor.
–Filho?
–Não pai, não.
–Tudo bem... Tem algo que você queira saber?
–Não pai, tô ok.
O pai lamentou em silêncio, pelo menos havia tentado, mas Thomas não queria se abrir... Ele naquela época era bem mais aberto com o seu pai, e também se lembrava de já ter tido algumas garotas... Mas os tempos eram outros, e ele não tinha sido tão presente com o filho quanto o avô de Thomas tinha sido com ele. Por um instante uma vaga ideia passou pela cabeça dele, algo que lhe assombrou, mas não pensou mais naquilo... O filho não seria? Não, definitivamente não, pensou o pai, não tinha sido tão presente, mas havia o educado suficientemente bem para que aquilo não ocorresse.
Thomas se retirou dali o quão logo quanto pode, aquele tinha sido o café da manhã mais tenso que ele já tomara. Estava suando frio, será que o pai estava desconfiado de algo? Será que deixou algum detalhe passar? Esperava que não.
Entrou no quarto para trocar de roupa, mas foi interrompido pelo ruído de seu celular: Era Pedro, convidando-o para um passeio.
“me encontre na estrada que leva à capital, tenho uma surpresa pra você, espero que goste
Do seu amor, Pedro ♥”
Thomas sorriu ao receber o recado, era tudo o que precisava, passar umas horas com a única pessoa no mundo que realmente o entendia de verdade, gostava dele de todo o coração, e o protegeria de todo aquele mundo de tormentos: Pedro. O único problema era seu pai... Ele o deixaria sair? Duvidava disso. Os domingos eram os únicos dias que Marco podia ficar junto do filho, não abriria mão.
Pedro pegou uma muda de roupas e foi até o banheiro, trocar de roupa e escovar os dentes e dar um trato no cabelo, saiu com tão pouca vontade de visitar o pai que nem havia reparado na aparência. Mas o convite de Pedro havia mudado tudo: tudo precisava estar nos trinques para encontrá-lo, apesar de Thomas no fundo saber que Pedro iria amá-lo de qualquer forma, não hesitaria em estar bem para encontrar seu amor.
Ao notar que o filho entrara no banheiro, Marco agiu rápido, precisava tirar aquela dúvida que tanto o afligia, não poderia ser o que estava imaginando, mas deveria haver um motivo para o filho ser tão distante assim dele. Viu o celular jogado na cama, decidiu verificar as mensagens. “os celulares dizem mais sobre os jovens de hoje em dia do que eles mesmos podem dizer” pensou ele, pondo-se a checar as mensagens recebidas. Não havia muita coisa: alguns convites de Juliana e Carolina para uma festa, outros da operadora de telefonia, mas uma mensagem em especial, a mais recente, intrigou o pai. No lugar onde deveria estar o nome do remetente estava escrito apenas “amor” seguido do símbolo de um coração. Marco abriu um pequeno sorriso, Thomas realmente tinha uma namorada, mas seguiu-se de dúvida: porque ele não contara? Havia algo de errado? Decidiu abrir a mensagem.
O celular escorregou das mãos de Marco, porém por sorte caiu em cima da cama, fazendo quase nenhum ruído. Em silêncio também estava o pai, até sua respiração havia parado por segundos, e uma série de imagens havia passado por sua mente, que outrora congelada pelo choque, começava a processar a informação. Não poderia ser, talvez fosse uma brincadeira dos amigos, ou talvez um defeito do aparelho celular na identificação dos contatos. Nada demais afinal. Existiam tantas explicaçoes possíveis, mas isso porque Marco não queria ver a verdade. Deixou o celular no mesmo lugar que o vira, para que o filho não notasse o acontecido e foi à cozinha, precisava de um pouco de água, sentou-se na poltrona e bebeu o copo num gole só, e parou, massageando as têmporas e murmurando qualquer coisa praticamente inaudível.
Ouviu o trinco da porta do banheiro, e o ruído da mesma se abrindo, Fechou os olhos e os apertou em um impulso que dizia “não fale nada ainda”, tentou disfarçar o nervosismo, e calmamente perguntou:
–Vai sair filho?
–Err... Na verdade vou sim pai, vou encontrar uns amigos. — Disse Thomas vagamente, torcendo com todas as suas forças para que o pai deixasse. — Mas eu não vou demorar muito. — Completou ele, tentando mesmo que sutilmente, dizer algo que inclinasse o pai a ceder.
–Tudo bem filho, pode ir. — Assentiu o pai, não queria encarar o filho por muito tempo, simplesmente deixou-o ir para poder pensar melhor sobre aquela situação que parecia inverossímil. Thomas, um tanto surpreso, deixou a sala, pegou a mochila, desceu as escadas e saiu, caminhando em direção as escadas.
Já passava das dez horas, o dia estava quente, e a única coisa que impedia Thomas de suar era a fresca brisa que corria do rio. Após passar pelos últimos prédios do perímetro da cidade, tudo que existia era uma paisagem rural: plantações, estradas secundárias, alguns bosques e arbustos. Não havia nenhum sinal de Pedro, até que sentiu o celular vibrar no bolso.
“vire a direita, pelos arbustos”
Era Pedro. Thomas prontamente obedeceu, entrando num arbusto alto e passando pela densa folhagem. Avistou apenas mato, mas seguiu em frente, e ao ver o que se seguia esboçou um enorme sorriso no rosto, tentou dizer alguma coisa, mas faltou-lhe voz, e mesmo assim não teve tempo, pois Pedro veio para abraçá-lo e enchê-lo de beijos, antes que pudesse reagir.
A clareira estava totalmente enfeitada com flores do campo, e uma toalha de piquenique estendida, com frutas, doces, salgados e bebidas, tudo preparado por Pedro da melhor maneira possível. Ali os pássaros cantavam e o ruído das águas do rio invadia o ar criando uma atmosfera de calma.
–Nossa, mas para que tudo isso? –Perguntou Thomas surpreso com tudo aquilo feito especialmente para agradá-lo, nunca ninguém havia se dedicado tanto assim a criar algo para ele. Mas mal teve tempo de continuar, Pedro o tomou nos braços e o puxou pela cintura, beijando o novamente nos lábios, e então, olhando em seus olhos, respondeu-lhe:
–Foi apenas a forma que eu encontrei de demonstrar o meu amor por você.
Thomas apenas sorriu e beijou-lhe de volta, não sabia o que responder, mas não era necessário, apenas um olhar bastava para expressar: “eu te amo” e de mãos dadas os dois sentaram se na grama aproveitando aquele momento juntos, contando histórias, beijando-se, fazendo carinho e cuidando um do outro, quiseram que aquele momento durasse para sempre.
Metros dali Marco andava pela estrada, tentando descobrir se o que dizia a tal mensagem era verdade ou mentira. Caminhava de um lado a outro, tentando achar algum sinal dos supostos amigos que Thomas iria encontrar, chegou ao ponto de ligar para a mãe do garoto para pedir o contato de alguns, sem saber de amigOs, de Thomas, a mãe apenas deu o contato de Juliana, que havia deixado o celular desligado, preocupando ainda mais a Marco.
Caminhando perto de alguns arbustos que cresciam poucos metros das margens da rodovia, Marco ouviu uma voz familiar e algumas risadas, acompanhadas de outra voz masculina mais grave. Sem pensar duas vezes arrastou-se sutilmente pelos arbustos, até se deparar com uma cena que o chocou por completo. Viu Thomas, seu filho, beijando-se descaradamente com outro homem. Estavam deitados no chão, Thomas estava por baixo do outro rapaz, que o beijava e passava as mãos em idas e voltas pelo corpo de seu filho. Marco teve ânsias de vômito apenas em ver aquela cena, e não se pode explicar a fúria que sentiu ao pensar que se tratava de seu filho. Era nojento, revoltante!
Marco não pensou duas vezes, e estando os dois jovens de olhos fechados, não perceberam sua aproximação, foi quando o pai, tomado de fúria, chutou tudo que havia em cima da toalha, e puxando Pedro pelo pescoço, separou o do filho, trovejando ofensas contra ele.
– Seu viado nojento! Sem-vergonha! Sai de cima do meu filho! Desgaçado!
Thomas não entendeu direito o que aconteceu, não entendeu como Marco descobrira que estavam ali. Não queria acreditar que aquilo estava acontecendo.
–Pai, para, por favor, tá machucando ele! –Intercedeu Thomas, tentando ajudar.
–Cala a boca! Cuido de você depois. – Resmungou o pai, desferindo um soco na cara de Pedro, que caiu no chão, com um pequeno corte ao lado da boca.
–Agora vamos de uma vez! Em casa a gente conversa! – Gritou Marco arrastando Thomas pelo braço, enquanto Pedro estava caído no chão, Thomas sentiu o medo tomar-lhe o sangue, não queria pensar em como o pai reagiria.
Marco abriu a porta do carro, que estava estacionado alguns metros adiante na estrada, e atirou Thomas para dentro com toda a força. Thomas não conseguiu conter algumas lágrimas, seu braço estava vermelho de dor no local onde o pai o segurara.
–E vê se não chora! – Gritou o pai girando a ignição e batendo a porta com força, dirigiu rápido, e pelo retrovisor Thomas podia notar o olhar de ódio que o pai sentia. Marco dirigiu até a casa de Isabel, mãe de Thomas, e parou na porta, com uma freada brusca. Puxou o garoto para fora do carro, e seguiram em silêncio até a porta. Quando Isabel abriu, surpresa pela visita do ex-marido e mais surpresa pelo olhar apavorado do filho, perguntou:
–Marco, mas o que aconteceu?
–Pergunte pra esse viadinho sem vergonha! – Trovejou o pai, empurrando o garoto para dentro e dando-lhe um pesado murro no queixo e batendo a porta com força.
–Mas o que é isso! Por Deus Marco, você enlouqueceu? – Protestou Isabel ajudando Thomas a se levantar.
–Pergunte, pergunte a esse sem-vergonha por que eu estou assim! Responda! Responda a sua mãe, viadinho! Responde! – Ordenou o pai, batendo novamente no filho.
–Pare com isso, Marco! – Disse Isabel, segurando seu braço. – Ele é seu filho!
–Eu não tenho filho veado! Ele não é meu filho até tomar jeito e viver como gente direita!
–M-mas o que é isso Marco? Isso é lá jeito de falar?
–É, é sim, porque esse moleque aí é um viadinho, uma bicha, pederasta. Peguei ele lá na beira da estrada se agarrando com outro viado, estavam quase se comendo esses dois sem-vergonhas!
–Não, não é verdade. – protestou a mãe atônita.
–É, é sim. Vai mentir pra sua mãe também, viadinho? – Perguntou Marco, dirigindo-se para Thomas, que com o rosto machucado, e quase chorando, apenas assentiu com a cabeça.
Chocada, a mãe apenas disse:
–Vai já pro seu quarto... Depois conversamos... Eu vou me entender com seu pai.
Thomas prontamente obedeceu, subiu as escadas correndo, um tanto cambaleante e fechou a porta do quarto. Lá embaixo os pais discutiam, podia ouvir através da porta os gritos enfurecidos de ambos:
–Culpa sua! Você sempre mimou demais esse garoto! Se ele se machucava você vinha e dava beijinho, chamava de anjinho, amorzinho, e essas coisas! Vivia sempre na saia da mãe, não brincava com os outros garotos, só ficava com você e conversava com as mulheres! Nunca quis aprender a jogar futebol! Você transformou meu filho num viado! – Esbravejou o pai.
–Se eu não estivesse com ele quem estaria? Você só queria saber de trabalhar, e vinha pra casa tarde, passava horas, garanto, se encontrando com alguma vagabunda por aí, bebendo, e só lembrava que tinha família quando raiava o sol! O menino não teve uma imagem masculina, ele não pôde se inspirar num homem de verdade, foi por isso que ele se tornou afeminado. – Defendeu-se a mãe.
–Homem de verdade? Eu dei meu sangue e suor para nunca faltar nada nessa mesa, eu vinha tarde porque ficava trabalhando SIM, e só bebia porque é difícil aguentar tanto estresse! Eu me esforcei para cuidar dessa família, e você nem soube criar o menino direito!
–Você se esqueceu do principal, foi ausente o tempo todo, eu não precisava do seu dinheiro, eu podia trabalhar se você me ajudasse com a casa e com a criança, não precisava ficar fora o tempo todo, mas você não quis minha ajuda, e agora vem me culpar! Se o Thomas está assim, a culpa não é minha!
–Isabel! Vamos ser racionais! – Interrompeu o pai. — Poderíamos passar a noite inteira nos culpando, precisamos é de uma solução.
–Tenho certeza que é apenas uma fase, acontece com alguns garotos... Vai passar.
–Mas é preciso fazer algo antes que piore... Eu não quero passar vergonha por aí com meus amigos falando que meu filho é um pederasta. – Protestou o pai.
E assim foram discutindo por horas, lá em cima Thomas chorava, estava tudo acabado, qualquer que fosse a decisão dos pais, certamente não o deixariam ver Pedro nunca mais. Apenas chorou baixinho e abraçou-se a um dos travesseiros, queria ter sido mais cuidadoso, queria que nada daquilo tivesse acontecido, poderia ter marcado o encontro outro dia... Talvez se não risse tão alto o pai não os encontrasse. Mas agora já era, estava feito. Os ferimentos doíam, mas só conseguia pensar em Pedro, estaria bem? A internet havia sido desligada pelo pai, e o celular havia caído enquanto estava carro, não conseguiria avisá-lo de nada, só restava esperar.
–Pra sala, eu e seu pai precisamos falar com você. – Falou a mãe, abrindo a porta, com uma voz pesarosa e um sentimento triste no olhar.
O pai estava sentado numa poltrona, cabeça apoiada nos braços e um olhar ainda irado nos olhos, porém mais calmo. Não encarou Thomas nos olhos em momento nenhum, falando enquanto mantinha o olhar em direção a um quadro na parede.
–Sua mãe e eu tomamos uma decisão: você vai passar uns meses na capital, na casa de seu Tio Alberto. Vai estudar lá, fazer algum curso, inglês, francês, academia, qualquer porcaria para manter a cabeça cheia e não pensar em bobagem.
–Vai ser melhor para você meu filho... Você precisa sair um pouco dessa cidade, conhecer lugares novos e pessoas decentes, essas amizades não são boas para você. Eu liguei pro seu tio, e ele vai marcar uma consulta num psicólogo da cidade, tudo isso vai ajudar você a ser uma pessoa normal.
“uma pessoa normal” Aquelas palavras foram as que mais encheram Thomas de dor, por acaso, não seria normal ser homossexual? Um homossexual não era uma pessoa como todas as outras? Amar alguém era errado apenas devido ao sexo da pessoa? Ser homossexual e decente era impossível? Thomas simplesmente não entendia aqueles conceitos defendidos por seus pais, queria discutir, mas preferiu ficar em silêncio, não queria que o pai ficasse mais irritado ainda.
–Faça as malas. Você vai amanhã de manhã, eu vou te levar à rodoviária, e sem reclamações. Isso é tudo, pode voltar pro quarto. – Disse o pai com severidade.
Thomas nem dormiu aquela noite, apenas chorou, enquanto uma chuva forte caía lá fora, lavando o calor que fez durante o dia, lágrimas escorriam do rosto do garoto, molhando-lhe o peito. Lágrimas, lágrimas de dor, não apenas pelos ferimentos, mas também por ser separado do amor de sua vida, de não poder mais vê-lo, e tudo isso simplesmente, por que era homem e ele também, Thomas sentiu a dor de não ser aceito como é pela própria família, que deveria amar e respeitar o seu jeito de ser.
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