Verdade
6 Capítulo VI – Mágoas
Notas iniciais
A mãe bateu a porta chamando-o
–Acorda filho, seu pai veio te buscar.
–Eu estou acordado – Respondeu Thomas já pronto, malas feitas e uma aparência de cansaço no rosto, não havia dormido muito aquela noite.
–Coma alguma coisa, o ônibus vai sair daqui a pouco. – Aconselhou a mãe, oferecendo algumas frutas em uma bandeja. Thomas estava com fome, mas a comida o enjoava, comeu bem pouco, e desceu as escadas. O pai o esperava lá embaixo, apoiado no carro. Thomas entrou sem sequer dizer bom dia, o pai não olhava em seus olhos.
Quando o ônibus chegou ao ponto Thomas suspirou fundo, olhando para trás, e vislumbrando pela última vez aquela cidade, onde tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo. Não sabia quando voltaria, mas sabia que ia demorar. Uma lágrima escorreu de seus olhos, e logo virou o rosto para o pai não vê-lo chorando. Pegou a mochila e entrou, sentando-se numa das poltronas do fundo, onde oculto, com o rosto grudado à janela, pôde chorar o quanto quiser.
Algumas horas antes, ainda de noite, enquanto uma chuva forte caía lá fora para aliviar o calor que fazia, Pedro corria pelas ruas alagadiças da cidade até a casa de Thomas, viu os pais dele discutindo na janela, tinha medo que tivessem agredido Thomas, pensou em entrar pela janela e ver como seu amado estava, mas se fosse visto só iria gerar mais problemas. Desistiu.
Ensopado, desceu uma ladeira aos escorregões, sabia que a casa de Rafaela ficava por ali, haviam sido colegas durante muito tempo, e na quarta série Pedro fora lá estudar matemática, esperava que sua memória fosse boa para lembrar-se do lugar.
Reconheceu, mas não imediatamente: um sobrado branco com janelas pintadas de verde e algumas floreiras penduradas nas janelas. Jogou uma pedra em uma delas, e torceu para que fosse a do quarto de Rafaela. Jogou outra, nada. Mais outra, até que finalmente alguém abriu.
–Pedro, o que você tá fazendo nessa chuva? –Perguntou a moça, preocupada. – Aconteceu alguma coisa?
–Na verdade foi com o Thomas, você tem notícia dele?
–Pera, eu tô descendo.
–Pedro esperou alguns minutos até que Rafaela apareceu na porta, com um casaco enorme e velho e uma toalha.
–Poe isso e se seca um pouco, minha mãe vai me matar se molhar o carpete. – Disse ela ajudando o garoto. – Mas agora me conta: O que houve?
–O Thomas... Eu chamei ele pra sair, eu preparei um piquenique lá perto do rio... E de alguma forma o pai dele descobriu. Ele viu a gente se beijando, e me bateu. Arrastou o Thomas pro carro e levou ele pra casa! Quando eu passei lá eu vi os pais dele brigando feio. – Explicou Thomas falando rápido, tudo de uma vez só, tanto que Rafaela teve que fazer certo esforço para entender.
–Ai, não pode ser! –Exclamou Rafaela, preocupada. – Os pais dele são muito intolerantes com isso! Espero que ele esteja bem!
– To preocupado... A culpa foi minha, deveria ter encontrado ele outra hora, ele me contou que o pai dele é bem intolerante... –Lamentou-se Pedro.
–Não, não, a culpa não foi sua, infelizmente aconteceu. Mas foi um acaso infeliz. – Tranquilizou ela. – Agora não dá pra ficar se culpando. Precisamos saber como ele tá.
Rafaela pegou o notebook, Thomas não estava online. Mandou uma mensagem mesmo assim, não respondeu. Pegou o celular, tentou enviar sms, nenhuma resposta. E também não atendia as ligações.
–Não atende no face, não responde sms, não atende o celular, será que ligo para casa? –Perguntou Rafaela, visivelmente nervosa.
–É melhor arranjar uma desculpa, não fala que estou aqui. – Aconselhou Thomas.
–Ela pegou o telefone e passou a discar os números. A ligação chamou várias vezes, sem resposta alguma. Até que finalmente a mãe de Thomas atendeu:
–Alô, dona Isabel? Aqui é a Rafaela... O Thomas ta aí? Eu marquei de fazer um trabalho da escola com ele e ele não apareceu, e o trabalho é pra amanhã queria saber se aconteceu algo. – Blefou Rafaela, observando a respiração ofegante de Isabel do outro lado da linha.
–O Thomas está ocupado, e vai ter que viajar com urgência para a capital devido a um problema familiar. Apresente o trabalho sozinha, ele não vai poder voltar tão cedo. –Disse Isabel, desligando na cara de Rafaela.
–E então? – Perguntou Pedro apreensivo.
–Ela estava nervosa, falava rápido e respirava ofegante. Ela disse que o Thomas vai ter que viajar devido a um “problema familiar”. -Relatou a moça.
–Eles vão mandar ele pra longe pra não me ver mais! – Exclamou Pedro. – Eu tenho que impedir! – Disse o garoto virando se em direção à porta.
–Calma, Pedro! Não adianta nada agir assim de cabeça quente, você não vai conseguir impedir nada desse jeito, só vai piorar as coisas.
Não havia mais nada o que fazer, Pedro voltou pra casa, desconsolado, chutava pedras no meio do caminho enquanto a água de suas lágrimas se misturava a grossa chuva que caía. Não conseguia deixar de culpar-se pelo que ocorrera, apesar de no fundo saber que a culpa não era de todo sua. Mas se houvesse algo que pudesse fazer para impedir... Thomas estava sendo afastado para longe dele, aquele que o amara, que faria de tudo para proteger, estava indo para longe vítima de um preconceito ultrapassado, supérfluo e fundamentado em motivos falsos. Abriu a porta, despiu as roupas molhadas e jogou-se no sofá, derramou lágrimas de raiva, tantas que seus olhos incharam, não dormiria aquela noite.
No outro dia de manhã cedo, quando a água se acumulava nas ruas e o ar frio tomava acidade, Pedro andou até o ponto de ônibus, precisava dar um último adeus a seu único e verdadeiro amor. Cabisbaixo, Pedro andou, tentando evitar a rua que passava pela casa de Thomas, não queria se recordar daqueles momentos infelizes. Queria apenas guardar na memória as lembranças boas que havia tido com aquele garoto tão especial, tão diferente de todos os outros que já havia estado. Thomas era verdadeiro em seus sentimentos, ingênuo, puro, precisava ser protegido, conduzido, e Pedro sentia que Thomas gostava dele da maneira mais verdadeira e franca que podia existir.
Pedro desistiu de se aproximar mais ao ver o pai de Thomas, numa expressão irritada, conduzindo o filho até o ponto. Se chegasse e pedisse para dar um último adeus, Marco não iria deixar, provavelmente se encheria de ódio novamente, e bateria novamente em Pedro. As feridas ainda doíam, mas o que doía mais era o sentimento de estar tão perto, e, porém ainda tão longe, afinal não podia nem sequer dar um último beijo nos lábios de seu amor.
Assim que o ônibus partiu, uma lágrima escorreu dos olhos de Pedro, que sentou-se num dos bancos da praça, e baixinho sussurrou para si mesmo.
“não, não vá embora”
E permaneceu em meio a sua dor, esperando que por alguma reviravolta mágica do destino, Thomas pudesse retornar, descer daquele ônibus, correr para seus braços e então os dois fugiriam, correriam para um lugar onde pudessem ser felizes esquecer os problemas, um oásis em meio ao mundo turbulento.
–Escuta aqui viadinho. – clamou uma voz que surgia de súbito,. Pedro então levantou a cabeça e percebeu a última pessoa que queria ver no mundo: Marco, o pai de Thomas. – Meu filho se foi para bem longe daqui, e a última coisa que você tem a fazer é ir atrás dele! Eu não quero meu filho misturado com gente da sua laia! Vá e tente viver uma vida direita garoto! Eu não sou seu pai para te mandar, e não tenho nada que ver com sua vida, contanto que não envolva meu filho nessas suas obscenidades! – Bradou o homem, afastando-se em direção ao carro. – Senão você apanha! – Gritou do outro lado da rua.
Pedro estava abatido emocionalmente para reagir. Apenas imaginava o quão ignorantes podiam ser as pessoas, reprimindo um amor tão puro e verdadeiro como aquele que os dois sentiam, reprimindo-o apenas pelo fato de os dois serem homens. Não havia mais nada que pudesse classificar aquele amor como errado. Os dois eram sinceros um com o outro, estavam cônscios de suas ações, se amavam verdadeiramente, e se sentiam felizes um com o outro. Será que só o fato de serem homossexuais era motivo para que esse amor fosse errado?
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