Verdade
15 Capítulo XV - Mudanças
Notas iniciais
Um sonho estranho passava pela cabeça de Thomas, não sabia descrever o que acontecia, contudo a sensação era horrível. Se sentia queimado por dentro, dentro de um forno, com um peso enorme sobre suas costas, como se fosse condenado, culpado por um crime horrivel ou como o mal o tivesse corrompido e o feito fazer algo errado, havia sujeira dentro dele, ervas daninhas que cresciam e o sufocavam com seus espinhos.
Acordou suando a bicas, levantou-se e lavou o rosto, observando as olheiras que haviam se formado devido ao choro compulsivo de ontem. Então olhou em direção aos seus lábios. Lembrou de tudo que havia feito com eles, os beijos que havia dado naquele homem nojento, e relembrou também o trajeto que fizera com os lábios no corpo daquele rapaz. Limpou-os com sabão, sentiu raiva de si mesmo por ser tão bobo, durante toda a sua vida fora um perfeito idiota, acreditava fielmente que a vida é um conto de fadas, como foi só agora que viu que isso era mentira? Como pudera ser tão imbecil?
Tentou voltar a dormir, desta vez era Pedro que aparecia em sua mente, primeiro ele o beijava, depois seu pai o feria. Para cada beijo dado, vinha um soco do pai, Thomas parou de beijá-lo, o beijo, o gosto da boca de Pedro se misturava com o gosto amargo do sangue dos ferimentos... Uma sensação ruim vinha de seu pai, um asco, uma repugnância... Thomas não queria que seu pai sentisse aquilo por ele, e começou a chorar copiosamente, seu pai bateu nele com mais força ainda, até que ele soltou a mão de Pedro e pôs se em pé sozinho. Tinha que parar de chorar, levantou-se e deixou Pedro ir embora, o pai não lhe levantou a mão, o gosto do sangue secou. A sua boca tornou-se limpa como antes.
Thomas se acordou febril, o sol nem havia nascido, tomou um banho frio que fez seus ossos tremerem, e na cozinha preparou um café escuro e amargo, queimou a língua no primeiro gole, e com o amargor e a queimadura parou de sentir asco de seus lábios. Pelo menos a dor curava o nojo.
–Bom dia Thomas, já acordado essa hora? – Era regina bocejando no corredor, ainda de camisola, talvez tivesse acordado com o barulho da cafeteira, os cabelos estavam embaraçados como uma palha de aço enferrujada e os olhos semicerrados como se não gostassem da claridade.
–Já. – Respondeu Thomas com um tom soturno enquanto observava a chuva fina a cair na janela e tomava café.
–Tá chovendo? Droga, vou ter que ir de ônibus. – Exclamou ela enquanto pegava uma caneca de café para si e bebia em poucos goles até finalmente “se acordar” e conseguir abrir os olhos. –Vou tomar banho.
Thomas quase ignorou a presença dela, sua atenção se prendia no céu cinzento e nas gotas de chuva que escorriam na vidraça, abriu-a, para sentir o vento frio e úmido que chegava, estremeceu com a frieza do ar. Seu olhar se direcionava para o nada, para a imensidão fria, úmida e cinzenta daquele céu, e sua mente começou a ser tomada de pensamentos. Não queria ser magoado novamente, por que haveria de se sujeitar aquele bando de cafajestes e pessoas falsas? Por amor? Amor parecia algo tão bobo... Por que alguém iria gostar de você incondicionalmente e querer estar do seu lado sempre? Motivo nenhum. Amor é só na cama, fora dela depender de alguém é ser fraco. E Thomas estava cansado de ser tão fraco assim. Ora, era dono de si mesmo, não precisava de alguém para completá-lo, ele já era inteiro. Não precisava de ninguém para protegê-lo, ele faria isso sozinho.
–E aí Tom, dormiu bem? – Regina voltava, com os cachos ruivos já domados e bem menos “zonza” de sono do que antes.
–sim. – Respondeu ele, seco.
–Nossa... Tá monossílábico hoje hein? Esqueceu de instalar o “vocabulário.exe”? – Brincou ela, terminando de preparar dois sanduíches: um para comer agora, outro para o lanche.
–Não. – Thomas continuava a observar apenas a janela, como se responder fosse apenas uma obrigação.
–Escuta Tom, você ainda tá mal por tudo aquilo? Pode desabafar.... – Disse a prima se aproximando, e se ajoelhando na frente do primo, com um olhar preocupado. Percebera que algo não ia muito bem.
–Quer saber Regina? Melhor impossível. – Disse ele num tom irritado.
–Nossa Thomas, tem certeza? Eu to te achando tão... Sei lá, infeliz... Você foi sempre tão delicado, tão doce... Agora mal responde a gente.... – Regina percebeu, ao menor sinal, que algo não estava muito bem com o primo.
–Delicado? Doce? E o que eu ganhei com isso? Dois socos e um pé na bunda! Porra... Eu cansei de ser a bichinha idiota que cai na lábia desses viados! Eu não quero ser fraco como uma mulher! Que droga, como eu fui idiota, com todo aquele mimimi de eu te amo,que desgraça, onde eu estava com a cabeça Regina? E aquele Pedro... Meu pai me jogou pra fora de casa por culpa dele... E ele? Provavelmente deve tá fodendo alguém e nem se lembra mais de mim... E eu ainda escrevi cartas... Droga, droga, por que eu fui tão burro. Eu deveria ter parado quando ele me beijou! Que nojo de mim mesmo Regina, que nojo!
Regina estava chocada. Nunca, em toda a sua vida ouvira Thomas falar um palavrão, aliás, era raro até que ele ofendesse alguém. Sempre fora tão amoroso, carinhoso, era como uma criança ingênua e inocente... E agora parecia cheio de raiva e rancor. Regina chegou a se assustar, parecia outra pessoa. Até os olhos inocentes e puros mudaram para frios e sem vida.
–Calma aí Thomas.... Credo... Volta pra si! Nunca te vi assim. – Regina teve que levantar a voz, não estava reconhecendo o próprio primo. – Aliás... Mulheres não são fracas, são muito fortes! E você também tem que ser Thomas, eu sei que você se magoou feio, e é normal “explodir” em algum momento. Mas raiva, rancor, agressividade.... Não são resposta, você tem que superar, você está certo sobre ser ingênuo, você foi demais, e isso nem sempre é bom... Mas mesmo assim... Não desconte isso com sentimentos negativos... A vida segue em frente... Não culpe o Pedro, não foi por culpa dele que seu pai te tratou daquele jeito... O que acontece é que as pessoas as vezes tem pensamentos mais antigos e levam tempo pra se acostumar, como é o caso de seu pai, ele ainda vai aceitar que você é gay, tudo vai se resolver Thomas, não adianta ficar com raiva do mundo, é só ter paciência, confia em mim. Agora por favor, traz o Thominhas fofo e legal de volta tá?
–Olha Regina, eu admiro muito suas intenções, eu sei que você quer me ver feliz e tal... Mas o “Thominhas” “fofo” e “legal”, ele morreu. Morreu essa noite, e vai ser sepultado hoje, entendeu. Aquele meu jeito bobo e idiota... Eu cheguei a conclusão de que não dá pra ser assim! O Mundo não foi feito pra gente como AQUELE Thomas. Eu não podia continuar me iludindo e me magoando daquela forma. Não tem jeito.
Thomas saiu de subido, pegando uma maçã e mordendo-a com raiva, bateu a porta e não avisou para onde ia, Regina ficou preocupada. O que estava acontecendo com ele? Ele não suportou ser deixado... Não pela segunda vez... Esperava que ele superasse aquilo logo.
Thomas foi direto para a academia, queria levantar o dobro do peso que fazia, queria descontar a raiva naquelas barras de ferro, queria tornar-se forte, de uma forma o de outra. O Treinador recomendou que parasse um pouco e maneirasse, mas ele nem sequer dera ouvidos, a face estava vermelha e as mãos doloridas, Thomas descontava toda a sua ira naqueles pesos, imaginava que Ivan estivesse entre eles e fosse amassado por cada golpe quando ele fazia aquelas barras de ferro levantarem-se e caírem novamente. Sentia uma raiva cega, destruidora, um impulso primitivo, se Ivan estivesse ali naquele momento seria capaz de fazê-lo em pedaços, bateria tanto nele, tanto que aquele desgraçado não se levantaria sem muletas. A raiva que Thomas sentia não era só de Ivan, mas do mundo que parecia conspirar contra ele, por que era tão difícil ser feliz? Parecia impossível encontrar alguém que desse certo, talvez fosse algo inútil, é mais fácil ser sozinho, assim ninguém pode te magoar.
Thomas terminou exausto. Mas seu sangue ainda estava quente, nem mesmo a água gelada da ducha que tomou amenizou sua raiva. Nem mesmo a dor de ter forçado tanto assim os músculos o fez parar. Começou a andar sem rumo pela cidade, a pensar em tudo que havia vivido. Encarava com raiva os casais apaixonados... Em breve seriam como ele. Por que tudo tinha que dar errado? Daqui pra frente seria diferente, não ia mais amar ninguém, gostar de ninguém, ficar com ninguém, apenas si mesmo, seria alguém forte, e não precisaria de ninguém para dar satisfação ou esperar carinho ou retribuição, não queria ser destruído pelo amor de outra pessoa, amor é destruição, ser sozinho é ser forte.
–Fábio, limpa a mesa 7, atende a mesa 6, pega as tigelas de sopa e lava as folhas de couve, ok? – Mandou o chefe Alberto enquanto se ocupava flambando um par de trutas numa frigideira de cabo longo. A cozinha era quase um caos naquele horário de almoço, panelas fumegantes, gordura espirrava, pessoas andavam de um lado para o outro, o calor era forte, o barulho de pratos, facas, colheres deixava qualquer um zonzo, mas Fábio estava acostumado com tudo aquilo, outra pessoa teria esquecido de todos os comandos, mas ele executou cada um, e para sua alegria, quem o esperava na mesa 6 era Regina.
–Bom dia moça, o que vai querer? – Disse Fábio com um sorriso engraçado, como se não conhecesse Regina, que sorriu de volta.
–Estou meio indecisa... Qual é o prato do dia?
–Hoje o chef vai preparar Coq au vin Blanc d’alsace, e para a sobremesa eu recomendo o Crêpe Suzette, é um prato tradicional, porém sofisticado, desenvolvido no século XIX pelo chef Henri Charpentier, cozinheiro pessoal do Rei Eduardo VII, da Inglaterra. –Explicou Fábio, Regina achou a pronúncia dos nomes engraçada.
–Ah sim, pratos com nomes complicados em francês, tradicionais chiques e clássicos?
–Exatamente. – Respondeu ele, com um sorriso.
Regina Riu.
–Perfeito, me vê aí um bife, arroz, feijão e ovo frito que eu to com fome. Pra beber pode ser um suco de laranja.
–Providenciarei seu pedido, Mademoiselle. – Sorriu o garoto.
–E vem cá.... Monsieur, Que horas é seu horário de almoço?
–Daqui a meia hora. – Disse Fábio, que não parara de sorrir desde que vira Regina.
–Te espero lá então. Monsieur. –Disse ela com uma de suas gargalhadas meio altas demais.
Fábio trabalhou sorrindo durante aquela meia hora restante, não sabia explicar direito, mas depois que via Regina parecia não se importar tanto com o barulho ou com calor, nem mesmo com as ordens do chefe ou com o estresse, parecia que seu dia ficava mais leve. Nem se importou com a pilha de louça que teve que lavar ou com a panela queimada que teve que limpar. A sua única preocupação foi a meia hora de atraso que teve. Não queria deixar Regina esperando.
Quando finalmente foi ter sua hora de almoço foi correndo encontrar Regina, que o esperava ao lado de um quiosque.
–Desculpa a demora... Tive trabalho extra hoje. – Desculpou-se o rapaz, com a respiração rápida por ter corrido.
–Imagina... Tá tudo bem... E aí... Vai um café? — Ofereceu ela.
–Não, não, obrigado... Acabei de almoçar... – Desculpou-se ele.
–Ué... Eu também e to afim de um café. – Riu Regina.
–Na verdaaade, o problema é que to sem grana pro café mesmo. – Disse ele e seu rosto corou.
–Ain... Que isso, eu que convidei, eu pago. Senta aí. – Disse ela, quase puxando o rapaz pela mão. – Ô moço, me vê dois expressos?
–Imagina, Regina, não precisa se incomodar...
–Incomodada eu vou ficar se você implicar com isso, teimoso. –Censurou ela, como sempre com seu bom humor. Fábio foi obrigado a aceitar.
–E aí, como foi o dia?
–Ai... Posso abrir o jogo? Eu não queria ser chata, mas eu to afim de desabafar... Eu espero que você entenda. – Disse Regina ficando séria de repente.
–Imagina, tá tudo bem... Tem a ver com aquele cara?
–Não... Não... Eu cheguei a te falar que meu primo tá passando as férias comigo?
–Sim, falou sim...
–Poisé... Bem, eu acho melhor te contar tudo, sei lá... Geralmente eu dou conselhos, mas desta vez to precisando.
–Nossa, pode falar. –Fábio parecia surpreso. Não sabia se era capaz de dar um conselho a alguém tão genial como Regina. Se nem ela mesmo sabia o que fazer, por que ele saberia?
–Bem, o meu primo, o Thomas... Ele é gay sabe?
–Sim, entendo.
– Eu espero que você não tenha nada contra e, aliás, se tiver, tchau, porque vamos combinar que...
–Não, não, tudo bem, nossa, longe de mim ter qualquer preconceito. – Interrompeu Fábio.
–Ótimo... Menos mal. É bom saber que já tem mais pessoas de mente aberta no mundo. – Disse Regina, mais tranquila. – Bem, o problema é que o Tom namorou com um rapaz lá na cidade dele.... E o pai dele, meu tio, descobriu, e meio que “expulsou” ele de casa, sabe?
–Nossa... Que barra. – Lamentou Fábio atento ao que ela dizia. –É triste quando isso acontece.
–Pois é, o coitadinho morria de amores pelo rapaz, e ainda apanhou do pai por causa disso... Mas esse foi o começo dos problemas... Depois de umas semanas, o Thomas conheceu outro rapaz (amigo do cara que tentou me agarrar, por sinal) ai o Thomas se envolveu com ele, e o cara era um cafajeste, só... sabe? E daí partiu pra outra, agora o Thomas tá desconsolado.
–Nossa, coitado. – Afirmou Fábio com complacência, na verdade ele também sabia como era ser deixado de lado.
–O pior de tudo, é que ele ficou agressivo sabe? Não para de falar palavrão, tá com raiva do mundo, tá agindo como um mal-educado sabe? Eu acho que ele se revoltou de ser “golpeado” pela vida... E agora tá tentando sei lá, contra atacar. Mas eu to preocupada, eu não quero que ele se torne alguém amargo, agressivo sabe?
Regina parecia preocupada, mas Fábio baixou os olhos e começou a falar.
–Olha Regina, eu também já sofri bastante sabe, nem tanto por amor e tal, mas já apanhei e muito da vida. Eu já fiquei revoltado e achei que o mundo tinha algo contra mim sabe? Quando meu pai se foi então... Sério, eu queria sei lá, explodir o mundo... Mas ai eu pensei na minha mãe... No meu irmão... Irmã... Todo mundo, eles já tinham perdido alguém importante, imagina se eles perdessem a mim também... Sabe? Por mais que aconteçam coisas ruins conosco, e está tudo bem ficarmos irritados com isso, mas é errado querer se isolar ou se revoltar contra o mundo, é egoísmo. Existem pessoas que gostam de nós... Que precisam de nós, e nós precisamos ser fortes, por elas. Eu tenho certeza que o pai do Thomas ama ele, por mais que ele não aceite algumas coisas, o amor de pai é incondicional. O Thomas é amado sim, ele não pode sair por ai odiando todo mundo, existem pessoas que precisam e que gostam dele sim.
–Nossa... Você fala como se conhecesse ele. – Disse Regina, quase perplexa pelo conselho do garoto.
–No fundo, as pessoas são muito parecidas... E eu aprendi muito com a vida sabe? Eu posso falar com alguém que tem experiência em “engolirsapologia”, por exemplo. – Riu ele.
–Ai Fábio, sério mesmo, obrigado, eu tava tão preocupada, isso me aliviou um monte. – Disse Regina, abraçando o Rapaz, que a abraçou de volta, num gesto sincero.
–Regina? Você não devia estar na faculdade? – Quem chegava era Alberto, pai de Regina. Chefe de Fábio, e sua expressão não era muito feliz.
–E você Fábio, não deveria estar na cozinha?
–Pai... Hoje eu não tenho aula nenhuma de tarde.
–E eu to no horário de almoço seu Vitor, mas eu já tava voltando para o restaurante. – Explicou Fábio meio tenso.
–Então vocês se conhecem é? – Perguntou o pai de Regina, nem um pouco satisfeito com as explicações.
–É... A gente se conhece. – Respondeu Regina.
–Da onde?
–Do... Do Restaurante. Eu tava passando lá esses dias, e ele me atendeu. – Continuou Regina, gaguejando.
–Hum. Parecem bem íntimos.
–É... A gente foi conversando... Ficando amigo, agora... –Tentou Explicar Fábio, que percebeu o mal-humor do chefe.
–Ficando amigo... Escuta então garoto... Aparece lá em casa pra jantar essa noite... Eu também quero “ficar amigo”, afinal não é todo o dia que meu funcionário sai com a minha filha sem que eu saiba. – Convidou Alberto, mas na real aquilo parecia mais uma ordem do que um convite. – Agora volta lá no restaurante que as mesas não se limpam sozinhas.
–Pai, isso é jeito de falar? O Fábio é só um amigo... A gente só veio se falar hoje e... Convidar pra jantar? Pai EU to conhecendo ele faz pouco tempo, você quer mostrar a família inteira, que vergonha, vai intimidar o garoto! – Censurou Regina, tentando, ao mesmo tempo se explicar.
–Ué, se vocês estão “ficando amigos”, e ele é meu funcionário... Eu conheci primeiro... E não tem nada de errado em “ficar amigo” – Repetiu o termo com acentuada ironia todas as vezes – e entender bem essas suas “amizades” não é Filha?
Regina suspirou. Essa seria uma noite e tanto.
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