Ventos do Inverno: Jaime & Brienne
1 Jaime I
O tempo nublado não permitira que Jaime soubesse das horas exatas, mas ele sabia que devia ser bem cedo ainda. Depois do encontro repentino de Brienne e seu pedido, ele juntou alguns mantimentos e partiu em seguida sem dar demais informações aos seus companheiros, pensando que não demoraria muito a resolver o que precisava. Desde então os dois haviam cavalgado silenciosamente durante algumas horas e somente parado para dar água aos cavalos. É o momento que eu esperava, terei que enfrentar Cão de Caça e então conseguir Sansa de volta. Talvez tudo tenha salvação, talvez eu consiga dar fim à toda essa situação que o reino está vivendo, Jaime pensou, puxava as rédeas com a mão esquerda o melhor que conseguia, manter o equilíbrio numa velocidade tão grande com o passar das horas tinha se tornado mais difícil e exaustivo. Ele queria poder descansar, mas cada minuto de demora colocava a vida de Sansa em risco. A sua frente Brienne cavalgava olhando para trás algumas diversas vezes, como se estivesse checando se ele ainda a seguia, mas ele passou a perceber que o olhar que ela lhe lançava era inquieto, que seus tão brilhantes olhos azuis haviam se tornado escuros, sombrios. O que será que ela passou todo esse tempo? Jaime perguntou-se e também se deveria conversar sobre isso de imediato.
— Brienne... Pare um minuto, por favor. – Ele puxou a rédea de Honra para diminuir a velocidade do animal, distanciando-se da moça. Ela lhe lançou outro olhar antes de fazer o mesmo à sua montaria e dar a volta.
— Senhor, nosso tempo está se esgotando... Só mais algumas horas e estaremos lá. – A voz dela soava mais alarmante que seu olhar. Ela fez uma careta por conta da dor que deveria estar sentindo vinda da bochecha e depois voltou à sua feição séria esperando uma resposta de Jaime.
— Eu sei, mas, eu preciso de mais informação. Não me disse uma sequer palavra desde que tomamos rumo ao esconderijo de Sandor. Está muito distante, milady... – Jaime não tinha interesse em chamar Brienne de “garota” tão cedo, visto o seu estado e a importância da missão, irritá-la pioraria tudo, tentou parecer gentil.
— Nem mesmo eu consegui tanta informação. Apenas encontrei o maldito e o segui até o seu esconderijo... – Ela soltou um longo suspiro e desviou o olhar antes de continuar – Quando tentei salvar Sansa ele me encontrou e estipulou que te encontrasse e o levasse até ele, ou Sansa morreria. Ele me deu três dias ou... Temos que ir!
— E quanto tempo faz isso? Quanto tempo faz que cavalga até mim?
— Não sei dizer, isso não importa agora...
— Importa. Está cansada, e teremos de lutar. Tem de estar descansada, eu não conseguirei dar cabo do Perdigueiro sozinho!
— Não! Temos que ir! – Brienne não deu mais ouvidos ao Jaime e voltou a cavalgar. Irritado, ele bateu com o pé no seu cavalo para ultrapassá-la e pará-la.
— O tempo afastada e sozinha não a deixou menos teimosa. Não dorme a quase dois dias pelo que vejo. Não vai durar um duelo e nem eu também.
— Já disse que estou bem, precisamos continuar. – Ele não esperou uma resposta, desceu do cavalo e puxou-o para fora da estrada, adentrando no bosque logo ao lado. O tempo permanecia nublado, com temperatura baixa, mas a armadura e o manto o mantinham aquecidos o suficiente. O bosque tinha um odor gelado de hortelã e sangue, lobos deveriam caçar por perto, mas não à beira da estrada movimentada, isso os manteria seguros por algumas horas. Jaime prendeu o cavalo a um galho baixo e acariciou o pescoço do animal. Não houve sinal de Brienne por alguns minutos até que o trotar de sua montaria veio até o seu encontro, a parada e o salto abrupto pegaram Jaime de surpresa. Brienne levou a mão até o pescoço do mesmo e o empurrou contra o tronco da árvore. Ela era pura ira e cansaço, o rosto vermelho de exaustão, os olhos se tornaram cinzas pela leve neblina da atmosfera. Jaime permaneceu quieto, observando a garota respirar com dificuldade aquele ar congelante. Ela foi ficando mais calma, a mão que apertava o pescoço de Jaime foi afrouxando, abaixou a cabeça e então caiu sentada ao chão salpicado de gotas da geada. Jaime agachou-se para ficar na mesma altura que ela, já sabia que aquilo aconteceria.
— Descanso. Agora. Podemos? – Ela afirmou com a cabeça. Jaime levantou-se e puxou o cavalo dela até outro galho para prendê-lo. Da bolsa retirou uma fatia de queijo e uma garrafa de vinho e entregou para Brienne. – Antes de cochilar, coma isso, vamos. – Ele a ajudou a encostar na árvore e depois também fez o mesmo em uma próxima de frente para ela. Observou-a devorar a fatia com um leve sorriso no rosto. – Agora descanse um pouco, eu farei vigia. – Brienne não o respondeu. Colocou a garrafa do vinho ao seu lado e fechou os olhos, não demorou muito até que passasse a ressonar. Estúpida garota, burra e corajosa. Não mudou absolutamente nada. E eu, Brienne? Eu mudei? Gostaria de saber... Gostaria de ter tido mais tempo, ele refletiu. Havia muito que consertar ainda. Sansa seria um começo. Ele saiu por um momento para urinar, mas ao voltar, Brienne ainda estava imóvel, tremendo todo o seu corpo algumas vezes por conta da baixa temperatura, ou talvez estivesse tendo pesadelos terríveis. O que você passou esse tempo todo? Eu preciso saber... Jaime sentiu-se culpado por tê-la deixado partir sozinha. Ela sabe se virar, sim, mas e se ela tivesse sido atacada por um bando de ladrões no meio da noite, se tivessem invadido a estalagem que dormia, se tivessem roubado todo o seu ouro... Tais pensamentos envolveram a mente de Jaime na forma de um soco. Se algo tivesse acontecido a Brienne, ele nunca se perdoaria. Sou eu o estúpido, burro, mas covarde.
Agachou-se perto dela, tirou a luva da mão esquerda com a boca e a pousou na testa dela. Estava encharcada de suor, como seu cabelo também, e fervendo. A ação de Jaime havia a acordado, mas ela não ousou se mexer. Ela mantinha a sua dificuldade em respirar, mantendo a mandíbula aberta para inalar mais facilmente, olhou-o de soslaio e depois mirou os pés.
— Está com febre, garota. – Ele retirou a mão da testa e a passou pelo pescoço, por baixo do colete dela, tateou um grande arranhão, o local estava ainda mais quente. O movimento a fez estremecer e se encolher. Teria achado adorável e feito alguma piada zombeteira se o estado de saúde de Brienne não estivesse tão frágil.
— Já dormi o suficiente. Depois que resgatarmos Sansa poderei descansar o quanto eu quiser. – Se morrermos, descansaremos para sempre, Jaime quis responder, mas achou melhor manter-se imparcial. Ela tirou a mão de Jaime do pescoço e jogou-a para o lado, levantou de forma desajeitada e andou até o seu cavalo. Jaime suspirou, não via mais jeito em pará-la e fez o mesmo. Os dois voltaram à estrada no mesmo silêncio de antes, Jaime obrigando-a a manter uma velocidade mais baixa, a fim de não cansar os cavalos e nem a ela própria. Ela aceitou, mas apenas a favor dos animais.
As horas avançavam e o dia não se tornava menos frio. Jaime fizera Brienne parar novamente para almoçarem e para ela descansar um pouco mais, ele mesmo aproveitou e cochilou por alguns minutos. E lá estavam eles cavalgando novamente sem mais nenhuma interrupção. A febre de Brienne não abaixava e Jaime passou a se preocupar. Não há muito o que fazer, não há como voltar para Qyburn examiná-la e curá-la. Só espero que consigamos salvar a menina Stark, aguente só mais um pouco, Brienne!
A tarde começou a cair quando Brienne finalmente voltou a falar.
— Estamos bem perto agora. – e desceu do cavalo. Jaime a seguiu, esperando por mais instruções.
— O que faremos agora? Uma armadilha? Podemos tentar tirá-los do esconderijo aqui para fora, onde teremos mais chances de fugir. – Brienne não deu atenção, retirava um grande pedaço de corda da bolsa presa à cela. – Hey, já tem algo em mente então, garota? – Ela permaneceu calada sem olhá-lo, respirou fundo e finalmente o encarou e andou em sua direção. Largou a corda ao chão quando estava perto o bastante e pegou no cabo da espada Cumpridora de Promessas, desembainhou-a lentamente. – Brienne, o que significa isso? – Jaime deu um passo para trás, confuso e incerto, mas o seguinte movimento de Brienne veio como uma avalanche de dor. Ela bateu na têmpora de Jaime usando o botão da espada com uma força descomunal para alguém doente. Ele não teve tempo de reagir a não ser cair ao chão, sentir seu sangue quente derramar pela face e congelar em contato do ar gelado, sua visão se transformando em um milhão de pontos brilhantes até escurecer completamente. Voltou a se perguntar, o que fizeram a você, Brienne?
Notas finais
O desenho desta fanfic foi feito por mim. Existem outros aqui no meu blog: http://goldencave.tumblr.com/search/art
Fale com o autor