Brienne sentia muito enjoo, os cochilos que Jaime lhe forçara a ter não lhe ajudaram de verdade. Ao acordar sua dor de cabeça aumentava ainda mais. Todos os músculos de seu corpo doíam a cada golfada de ar que dava e muito mais quando galopava, e como se tudo isso já não bastasse sentia vontade de chorar até que seu corpo secasse por completo.

Amarrava um Jaime desacordado com cuidado e mais gentileza do que a necessária. Mordia o lábio, a ardência na bochecha havia voltado. Maldito Dentada, eu matarei todos eles quando isto terminar, pensou. Sentia o peso de seus votos e promessas, da cabeça e do restante do corpo doído. Posso te entender agora, Sor Jaime...

– Não precisa fazer isso se não quiser... – Ele sussurrou dando à ela um leve susto. Não... Não fale assim. Ela respirou fundo, sentiu seus olhos se encherem de água. Não, agora não, não na frente dele. Depois terei muito o que chorar. Seu corpo todo queimava e entrava em conflito com a pouca temperatura do ambiente. Nada mudou... Passou a corda em volta de Jaime quase dando-lhe um abraço, É o mesmo que terei para recordar. Como com Renly.

– Não, não deixe tudo pior, senhor Jaime... – Fez uma careta. Falar fazia sua bochecha arder ainda mais. – Eu fiz um juramento, não tenho escolha.

– Fez um juramento ao Perdigueiro? – Jaime gritou esbaforido, piscou rapidamente, parecia não acreditar no que escutava. Brienne não respondeu, precisava se concentrar, por mais que toda a dor de seu corpo lhe negasse. Levantou num salto e arrastou Jaime junto para cima segurando-o firme pela corda. – Devagar, por favor, garota. Aquela pancada que você me deu... Ainda estou muito tonto. Parece que voltei a ser seu prisioneiro como nos velhos tempos. É seu jeito de dizer que sentiu saudades? – O empurrou para a frente, obrigando-o a andar e calar a boca. A voz dele fazia seu peito queimar e doer.

Jaime permaneceu quieto durante o percurso até o esconderijo dos Homens Sem Lei e Lady Coração de Pedra, o que não animou Brienne em nada. Morrerá em silêncio então? Lembrou de acontecimentos passados quando a dor de cabeça deu-lhe uma trégua.

– MATAR! – Gritou. Foi a palavra que gritou à Lady Coração de Pedra. – Eu escolho matar! – A senhora mandou um de seus capatazes aguardar, pos a mão à garganta e grunhiu ao sacerdote.

– Ela quer um juramento. Faça um juramento de que irá matar o Regicida! — Ele gritou à moça. Ela choramingou. Matar Jaime? Uma dor no peito lhe atingiu mais rápido que uma flecha.

– Lady...Sor... Não faça isso! Não mate ninguém por mim! Não! – Podrick gritou. Haviam afrouxado a sua corda, ele tocava o chão novamente, o que deu certo alívio à Brienne. Ela mexeu a cabeça e voltou para encarar Catelyn revivida.

– Lady, eu juro que matarei Sor Jaime! Pelos deuses antigos e novos, eu juro! Nunca lhe quebrei nenhuma promessa, sabe disso. Não quebrarei esta também. — O suposto Cão de Caça se pos na frente dela.

– É uma cadela mentirosa e apaixonada! Vai fugir com ele, vai foder com ele e seus filhos virão atrás de nossas cabeças! – Brienne encarou-o de volta no seu melhor olhar de pura ira que podia fazer no estado que se encontrava.

– Você também eu juro que matarei com minhas próprias mãos. – A Lady Catelyn rosnou para os dois e voltou a falar ao sacerdote.

– Ela lhe conhece. Ela aceita. Terá três dias para encontrar e trazer o Regicida até nós, depois mata-lo em nossa presença. – O sacerdote disse sem rodeios, dois outros rapazes lhe soltaram e lhe entregaram de volta a espada Cumpridora de Promessas.

– Vocês também precisam jurar que não farão mal aos meus amigos, Podrick e Hyle em minha ausência. – Brienne disse, a ferida na bochecha passou a incomodar.

– Não está em posição de pedir nada, puta do Regicida! – Cão de Caça vociferou. Aquele apelido lhe irritava, mais do que quando Jaime lhe chamava de garota. Lady Coração de Pedra voltou a falar algo inteligível aos seus ouvidos e o Sacerdote prestou atenção.

– Ela jurou não fazer nenhum mal aos dois garotos, Podrick e Hyle até a sua volta. Mas até lá eles são nossos prisioneiros e se você não voltar no prazo estimado, mataremos um ou outro.

– Combinado. – Foi tudo o que as dores novas lhe deixaram dizer. Depois tudo passou rápido demais. Deram-lhe um cavalo com comida suficiente para apenas um dia, uma garrafa d’água e uma corda.

– Não pense em fugir ou iremos atrás de você, mais cedo ou mais tarde! – Cão de Caça gritou ao longe à Brienne já aos galopes em busca de Jaime. Fez o máximo para não parar, enquanto corria pela estrada do Rei pedia alguma informação aos camponeses por que passava, um deles lhe ajudou a fazer um curativo no rosto em troca da comida que ela levava. Absorta demais pela dor, aceitara de bom grado a ideia e logo após descobrira sobre o paradeiro de Jaime, que para a sua sorte não era assim tão distante. Não dormiu ou comeu para poupar tempo, caso Jaime não quisesse ir com ela. Pelos boatos ele comandava um exército de mantos vermelhos, imaginava se ele os usaria para defende-lo, se a mataria quando soubesse do juramento, se a ajudaria, não, teria de mentir. Sansa. Poderia usá-la. Cão de Caça está com ela e a mantém como refém... Ele precisa ir sozinho ou ele a matará e sua chance de honra morrerá. Dos dois.

Os deuses insistiam em brincar e se divertir com os sentimentos de Brienne. Ele havia aceitado ajuda-la sem pestanejar. Havia caído na mentira e a seguia de encontro com o seu fim. Isso tornara tudo pior. Eu terei de mata-lo. Ele me salvou diversas vezes da morte e eu agradecerei lhe tirando a vida. Não conseguia pensar em como escapar disto. Mal conseguia pensar com toda aquela dor e mágoa lhe consumindo o corpo. Não precisa fazer isso se não quiser, ele disse à ela. Preciso salvar Podrick, ele é inocente.

Jaime avistou a entrada da caverna e riu para ela, depois voltou a olhar para a frente.

– Não é um urso, é, Brienne? – Brienne observou o punhal no cinto de Jaime, havia esquecido de tirar. As mãos dele estavam presas para a frente, ele precisaria estar solto para usar a adaga, a espada dele agora estava junto ao cinto dela com a Cumpridora de Promessas, presente do próprio Sor Jaime. O maior presente que já recebera de alguém. Mas nada disso importava mais. Entraram na caverna escura.

– Num é que a puta trouxe mesmo o seu querido sor? – Cão de Caça foi o primeiro a vê-los, tudo o que falava era naquele tom zombeteiro. Brienne gostaria de por fim em sua língua de uma vez. Adentraram mais na caverna até encontrarem o salão com a grande fogueira e o restante da Irmandade sem Estandarte, o sacerdote e Lady Coração de Pedra.

– Brienne, eu desisto. Quem são essas pessoas? O que querem comigo? – Jaime olhava para todos os lados, pareceu se lembrar de quem eram então. Homens que deveriam ter matado Gregor Clegane. Falou o nome de cada um e depois voltou-se para a Lady Coração de Pedra sem acreditar no que via.

– Senhora Catelyn?!

– Silêncio, Regicida! Você já está pra morrer! – Cão de Caça gritou. Brienne procurava, mas não encontrava seus amigos em canto algum.

– Antes, onde estão Podrick e Hyle? Quero vê-los! – Sentiu que Jaime lhe olhava, mas não tinha coragem de encará-lo. Cão de Caça soltou uma gargalhada abafada por conta do capacete.

– Como é ter a própria puta como carrasco, Regicida?! Ahhahahaha!

– Bem, acho que finalmente entendo o meu irmão. – Respondeu com certa tristeza.

– Onde está Podrick! – ela continuou sem dar ouvidos aos dois. O arqueiro então saiu das sombras e jogou um corpo para o meio deles.

– Aí está a sua criança, moça! – Todos riram, menos a Lady Coração de Pedra e seu sacerdote. Brienne caiu ao chão de joelhos, chocada, era o corpo de Podrick, imóvel, largou as cordas de Jaime no processo, mas ele permaneceu quieto e cabisbaixo.

Notas finais
Não esqueçam os comentários pls