Ventos do Inverno: Jaime & Brienne
8 Brienne IV
Notas iniciais
Outro sonho esquisito fizera com que Brienne saísse da cama. Assim que desceu as escadas da estalagem, esquecera completamente o que sonhara e agradecera mentalmente a bondade dos deuses. Não tinha visto resquício de Jaime Lannister no quarto e resolvera se alimentar sozinha. Era melhor assim... Ela coçou a cabeça ao se sentar à mesa, fazendo de tudo para não se lembrar de recentes acontecimentos entre ela e Jaime, mas tinha sido inútil. Não há perdão pelo o que eu fiz. Como vou encará-lo agora?
Quando a comida chegou Brienne tratou de se concentrar em obter forças para o restante da viagem, que não ficaria mais fácil.
– Não acredito naquilo que meus olhos estão vendo! – A voz de Jaime tão perto de seu
ouvido fez com que Brienne pulasse do assento e suspirasse alto tentando superar a
tensão. Jaime nem havia notado tudo isso e foi se convidando à sentar junto dela. Usava um
gibão marrom tão grande que mais parecia uma pele de urso.
– Onde conseguiu isto? – Brienne perguntou surpresa.
– É lindo não é? Menos o cheiro, acho que o bicho foi morto tem pouquíssimo tempo. Um
jovem cavaleiro e fã meu me deu este presente de bom grado! – Jaime alisava o casaco de
pele com carinho enquanto falava, mas Brienne não havia gostado de saber que o disfarce
deles havia terminado.
– Ficou louco?! Se todos já sabem quem é você aqui nós temos que ir embora logo.
– Acalme-se, garota. Já nos encontrei no mapa, não estamos nem há doze horas do meu
acampamento, já nos consegui cavalos e podemos partir assim que a milady terminar de degustar o presunto. – A informação havia deixado Brienne mais tranqüila, mas tamanha felicidade estampada no rosto de Jaime lhe deixara desconfiada.
– Oh... – Ela sentiu-se constrangida de estar ali com ele, não sabia ao certo como agir ou o
que falar. Seria o silêncio a melhor saída?
– Garota, você não estava delirando ontem à noite, estava? Eu gostei muito daquela Brienne
de ontem, ela poderia aparecer mais vezes. – O comentário foi o bastante para fazer a moça se engasgar. – Estou apenas brincando, viu? Mas precisamos resolver isto antes de partir.
– Não. Aqui não. Por favor, sor. – Respondeu após limpar a boca. Olhava pelos cantos dos
olhos para outras pessoas sentadas por perto, mas nenhuma parecia se importar com a presença deles.
– Você é quem sabe. Durante a viagem então? Disse que me amava, não tem como voltar atrás...
– Pare de dizer isso aqui! – Ela o interrompeu rispidamente. – Va-vamos embora de uma vez...
Brienne não conseguia entender a linha de pensamento de Jaime. Tudo para ele era normal e puro efeito da natureza ao seu redor. Ela sabia que tinha exagerado na noite anterior e que o cavaleiro havia pedido tempo para aceitar a situação, ela só não sabia que a reação seria tão rápida.
Os dois partiram em seguida galopando em pouca velocidade e Brienne tratou de permanecer calada o máximo que pode. Jaime por sua vez também nada falou até que os dois finalmente parassem algumas horas mais tarde para descansar.
– Mesmo que a noite caia sugiro que continuemos indo em direção do acampamento. Não
quero passar nem mais uma noite fria perto de uma floresta. – Jaime comentou enquanto descia lentamente do cavalo. O ferimento não parecia incomodá-lo como antes, talvez nem tivesse quebrado osso algum, o que tranqüilizou Brienne. – A propósito, vamos aproveitar este fim de tarde glorioso e resolver algumas questões, Brienne de Tarth. – Jaime sorriu para ela ao vê-la engolir em seco.
– Como achar melhor, senhor.
– Ah, pare com isso, me chame pelo nome de agora em diante, certo?
– Sim. Sobre o que quer conversar... Jaime?
– Primeiramente, dá pra acreditar que eu perdi o meu cavalo Honra? Eu adorava aquele cavalo. Eu espero que ele consiga encontrar um bom lugar para descansar. – Brienne havia desistido de entender onde Jaime queria chegar.
– Melhor não ficarmos aqui por muito tempo...
– Está prestando atenção no que digo, Brienne?
– Estou, sor.
– Jaime.
– Jaime. – Ela o encarou irritadiça, ele mantinha o sorriso no rosto e não desviou o olhar um minuto sequer. Brienne cedeu e passou a acariciar o pescoço de seu cavalo enquanto o animal bebia água de uma recém poça de neve derretida. Jaime não pode agüentar e começou a rir recebendo assim um olhar surpreso de Brienne.
– O que há agora?
– Estou me divertindo como nunca!
– Minha desgraça lhe diverte?
– Desgraça? Sua inocência. — Ele disse sem pestanejar. Brienne se calou. Aquele sorriso zombeteiro começava a tirar-lhe a paciência cada vez mais e Jaime parecia ter percebido isso.
– … Era somente isso? Podemos continuar a cavalgar?
– Não, não. Tenho mais uma coisa a acrescentar: não tenha medo de mim. — Jaime disse, no tom mais gentil que encontrara. Brienne olhou-o surpresa, não era medo o que sentia por ele, era?
– Não, Jaime. Você me entendeu errado… Não sinto medo. — Ela tentou esclarecer. Jaime aproximou-se.
– Eu sei que sente, mas não precisa… O que aconteceu antes, eu pensei um pouco sobre o assunto e.... — Aproximou-se mais um pouco. Brienne quis recuar, mas só poria em prática o que ele havia acabado de dizer, que ela estava com medo. E estava, não dele, mas da rejeição. Sabia que seu sentimento jamais seria recíproco. Escutar a verdade a devastaria de forma descomunal. Brienne nunca deveria ter declarado seu amor a ele. Nunca deveria ter mexido em seus cachos macios, sentido seu cheiro tão de perto e o gosto dos seus lábios. Essas sensações não voltariam mais, porém a assombrariam para todo o sempre. Brienne estava tão absorta em pensamentos que não tinha percebido o quão próximo Jaime se encontrava dela e antes que pudesse fazer algo a respeito, Jaime gentilmente pousara os lábios no dela enquanto segurava seu queixo com a mão esquerda. Ela sentiu que fazia a careta mais surpresa e estúpida naquele momento. — … Esta é minha resposta final. — E ele sorriu por fim enquanto se distanciava um pouco, observando a reação de Brienne. Ela permaneceu estática por um longo tempo, tanto que Jaime passou a se preocupar.
– Brienne… Está aí? — Lágrimas começaram a cair de seu rosto, assustando o cavaleiro. — Ah, deuses! Brienne, não chore! Me desculpe! Eu não achei que eu fosse… — Brienne foi chorando cada vez mais. — Eu espero que isto sejam lágrimas de alegria! Brienne, por favor, me responda…
Nem mesmo ela sabia por que chorava. Por que Jaime havia respondido seus sentimentos? Não… Era incrível ,mas não era por isso que chorava. Ela tinha posto a vida dele em perigo dias atrás, quase o matou com as próprias mãos. O mesmo homem que a salvara da morte tantas vezes e a defendera em tantos outros momentos. Que havia lhe presenteado com uma espada valiriana, pois sabia que ela era merecedora. Que havia largado sabe se lá a missão que estivesse fazendo para resgatar Sansa ao seu lado somente porque ela havia dito. Ele confiava tanto a vida dele à ela e o que Brienne fez foi traí-lo. Essas lembranças vieram à tona quando ele a beijou, tornando o sentimento recíproco.
Seu choro ficou mais forte à medida que os pensamentos vinham em sua mente um atrás do outro. Jaime parecia desesperado sem saber o que fazer, mas Brienne estava desolada demais para parar e explicar por que chorava.
–Vamos, Brienne! Responda. Por que choras? Suas lágrimas vão congelar se você demorar demais! — Ele brincou, tentando descontraí-la daquela tristeza repentina. E depois de vários minutos ele desistiu e deixou que ela chorasse o que tivesse que chorar. Ela estava horrível, com o nariz escorrendo, o corpo doendo, o rosto congelando por conta das lágrimas que haviam caído, mas Jaime não parava de observá-la como se ele fosse culpado por toda aquela situação. — Quando estiver melhor, me diga por que choras, Brienne… — Disse por fim antes de se virar e se recostar em uma árvore próxima sem tirar nunca os olhos dela.
Brienne foi diminuindo o choro depois de algum tempo, quando sua cabeça começou a doer. Limpou inutilmente o rosto com as costas das mãos e andou até Jaime. Ele manteve o semblante calmo e sereno, esperando a resposta da garota.
– Sor… — Voltou a chorar baixinho. — Não sou digna do seu amor, Jaime.
– O que…
– Não sou, estou tão envergonhada…Eu… — Abaixou a cabeça. Jaime pegou em um de seus braços e a puxou para mais perto dele.
– O que está dizendo? Não é digna? Ha! Eu quem deveria estar dizendo isto! — O inesperado comentário havia feito Brienne levantar o rosto e em curiosidade prestar atenção nas palavras de Jaime. — Digo a verdade. É a pessoa mais honrosa que eu tive a alegria em conhecer. E olha que eu fui próximo de Ned Stark e Sor Barristan! — Disse em tom de brincadeira. Aquilo fez Brienne rir, mas permaneceu calada deixando que Jaime continuasse. — Não tivemos o melhor dos começos, mas, eu juro a você que passaria por tudo outra vez se fosse necessário.
– Mas eu, eu tentei matar você… Eu traí sua confiança, Jaime. — Ela resmungou, abaixando novamente a cabeça e entristecendo. Jaime largou o braço dela para levantar seu queixo e olhar diretamente em seus olhos.
– Era por isto que estava chorando? — Brienne afirmou com a cabeça. Ele fechou os olhos por um momento e sorriu. — Só você seria capaz de sentir tamanha culpa, Brienne de Tarth. — E a beijou novamente, desta vez com mais vontade, como na noite anterior. Ela respondeu da mesma forma, mesmo sem saber por que ele insistia em beijá-la. Seu corpo todo queimava e vibrava por conta do toque macio do cavaleiro. A barba crescida roçando de forma prazerosa sobre seu rosto. A mão dele agora em seu pescoço, acariciando a pele por dentro do manto. Ela precisou pousar as mãos no peito dele, quente por conta do gibão (ou talvez pelo beijo), tomando cuidado para não machucá-lo onde ele ainda havia feridas.
Era de se esperar que uma hora ou outra o caloroso beijo teria de acabar para ambos pegarem ar. Brienne não ligaria se aquele beijo durasse até o final do inverno. Sua mente havia se abstraído de todos os pensamentos e se concentrado no momento que vivia. Jaime desatou dela por um instante, não antes de voltar para um pequeno selinho, olhou-a nos olhos, com aqueles verdes-esmeralda brilhando como nunca antes e disse:
– Eu ainda confio em você. — E sorriu. Brienne não pode conter o choro novamente. — Brienne, eu disse que confio em você! Pare de me assustar assim!
– Não, não, eu… Estou chorando de alegria. — E sorriu de volta. Jaime passou carinhosamente o polegar esquerdo nos olhos dela, limpando-os um de cada vez.
– Não chore. Esse último beijo foi bem gelado se quer saber! — Brincou, e Brienne riu.
– Me desculpe. E obrigada por não me odiar… — Falou sem jeito. Jaime suspirou.
– Não odeio. E sinceramente, você tem total permissão para me matar. É a única que tem este direito. Eu estaria lisonjeado. — Brienne riu mais um pouco.Jaime fitou-a de forma diferente, de um jeito mais sedutor. — E… Lembrei aqui agora uma solução boa para o fim desses beijos gelados. — Ele a agarrou pelo braço e puxou-a num giro, fazendo com que ela trocasse de lugar com ele e encostasse no tronco da árvore. Ele colou seu peito no dela e postou as mãos em sua cintura. — Eu acho que estou curado o bastante, se você estiver à fim o bastante...
– De quê exatamente?
– De mim.
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