Um som esquisito soou distante dentro da cabeça de Jane. Ela se revirou na cama e abriu os olhos. Ainda estava escuro, mas ela deduziu pelo borrão vermelho que via no relógio que eram 5:45h. Droga. As noites são mais compridas no inverno, então o dia demoraria mais um pouco para nascer. Além do relógio ela conseguiu identificar seu o celular com a tela brilhando. Talvez essa tenha sido a razão pela qual acordara. Ela esticou o braço e o apanhou e espremendo os olhos leu uma mensagem de Korsak. Pelo que ela entendeu havia aparecido algo. Ou ele estava irritado com algo? Leu de novo. Ah, são as duas coisas. Provavelmente ele tinha virado a noite procurando por algo, o que significava que Jane e Frost fariam o período inteiro do dia. Não é como se ela não estivesse acostumada a perder noites de sono, ela já não se importava. Ela devolveu o aparelho na mesa e esfregou os olhos, respirou fundo e virou-se.

Quando voltou a abrir os olhos quase se assustou com o volume ao seu lado. Havia se esquecido de que Maura estava ali. Deus, aquela tinha sido uma noite longa. Jane estudou Maura por um momento. A respiração subia e descia lentamente, tirando isso ela estava imóvel. Dormia um sono profundo, seguro, junto com alguém que se importava com ela. Jane odiaria acorda-la naquele momento, então tudo o que fez foi sair lentamente da cama e silenciosamente do quarto. Preparou um café forte para si na cozinha, ofereceu uma folha de alface para Bass e quando o relógio marcou exatas 6:00h ela decidiu que era hora de sair de casa, o dever a esperava. Trocou de roupa e depois rabiscou um bilhete as escuras — poque afinal de contas ela não queria que Maura pensasse que ela não tinha se importado.

Maura, precisei sair (muito) mais cedo. Não quis te acordar.

Há café pronto. Jane

Colocou o bilhete na geladeira e saiu porta afora.

...

'O que você tem?' Jane perguntou apressada para Frost. Ele jogou um jornal em cima da mesa. Uma foto de Maura e Jane na cena do crime do dia anterior estampava a página policial. 'Uau, como eu fico bem nesse ângulo.' Ela disparou com o sarcasmo. Pegou o jornal com as mãos e começou a ler.

Homicídio em Boston

Professora encontrada morta no rio é identificada. Os pais revelam que os detetives não têm idéia de quem possa ter cometido o crime.
As investigações andam em ritmo lento na BPD, ao que parece não há suspeitos ou mesmo pistas para serem seguidas. Segundo uma fonte, nem mesmo testemunhas deram depoimentos ainda. Os policiais pedem para que...

E a manchete continuava. Jane colocou o jornal em cima da mesa e soltou um suspiro. Pressão era o que eles menos precisavam agora, mas era assim que os jornalistas trabalhavam. Eles podiam ter uma foto chocante, mas eles precisavam era mesmo de uma boa história. E quando a história não era boa o suficiente ou quando lhe faltavam informações para contar aos leitores, eles sempre assumiam a posição de pressionar a delegacia. Uma vez que tivessem aquilo que queriam, eles poderiam fazer o seu show.

'Argh...' Jane torceu o nariz.

'Eu sei. Desprezível. Mas olha, tenho algo pra te contar. Ontem no final da tarde, assim que saíamos da casa da vítima eu dei uma volta em torno do rio. Você sabe, pra procurar por algo. Conversei com uma moradora de um prédio, é um lugar isolado, foi o que me chamou atenção. Adivinha?'

Jane de repente se sentiu mais acordada. Era a adrenalina da caça. Ela endireitou o corpo e se inclinou para frente. 'O que?'

'O filho dela viu algo suspeito, foi o que ele disse para ela. O garoto passou o dia com o pai ontem, por isso fiquei de passar por lá hoje de novo. O que você acha?'

'Espero que seja algo de útil.' Ela disse com certa esperança.

'É melhor que seja... Hey, onde está Maura?'

'Em casa, não chegou ainda...'

'Na sua casa?'

Jane fitou para Frost. Ele nunca fazia esse tipo de comentário.

'Eu quero dizer, vocês vem sempre juntas... E, bem, geralmente é você quem fica na casa dela e...'

'Frost, o que você...' Ela foi interrompida no meio da pergunta. Uma outra detetive da divisão de homicídios estava atravessando o corredor com dois copos de café na mão. Ela uma mulher alta e magra, o cabelo tão preto quanto o de Jane, a pele branca, os olhos amendoados e a boca vermelha. Diferente de Jane, ela era uma mulher bastante feminina.

Parou na mesa de Rizzoli e colocou o copo ali em cima.

'Bom dia detetive. Posso te oferecer um café?'

Pega de surpresa, Jane olhou para Frost e depois para a moça. Sem jeito, abriu um sorriso amarelo e fez que sim com a cabeça. 'Aham. Ahn... obrigada.'

'Não por isso.' A mulher se afastou sorrindo para ela de um jeito... sensual? Jane estava vendo coisas? A noite mal dormida de sono já estava lhe causando delírios? Segundo Maura, uma pessoas começava a ter delírios após o quarto dia sem dormir. Ela dormira meio. Isso não estava certo. Tão logo a mulher se afastou, ela inclinou o corpo sobre a mesa e sussurrou para Frost entredentes.

'O que foi isso?'

O homem deu de ombros e riu. 'Parece que alguém está interessada em você.'

Jane balançou a cabeça. Era só o que me faltava.

...

'Desculpa por eu não te esperar, precisava vir mais cedo.' Jane dizia para a amiga no necrotério. Havia feito algumas ligações e agora estava esperando o retorno. Ela e Frost iriam para a casa do garoto depois do almoço, enquanto isso iam processar papeladas, tentar falar com o noivo da vítima para levantar informações. Na pausa, Jane desceu até o andar para checar Maura. Não tinham tido a oportunidade de conversar no café da manhã e Jane queria saber como ela estava por conta da noite anterior.

'Tudo bem.' Disse Maura. Ela sabia como a amiga ficava quando tinha um caso em aberto. Exigia o máximo de si, por vezes esquecia de comer, dormia pouco ou não dormia. Dependia da gravidade do caso. 'Eu encontrei seu bilhete.' Ela ia falando enquanto fazia a autópsia de um corpo. Jane preferia não olhar.

'Hum. E você tá bem? Você pareceu bem assustada ontem...'

'Oh. Me desculpe por isso. Foi uma bobagem minha, eu não deveria ter...'

'Hey, Maur, não, qual é! Eu só quero saber se você tá bem. Você sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa. Certo?' Jane queria segurar a mão da amiga, até que se deu conta de que estava suja de sangue, mas ficou satisfeita com o sorriso agradecido e o olhar tímido de Maura.

'Certo... Certo. Eu estou bem.' A médica balançou a cabeça em sim para reforçar o que disse.

'Ótimo. Hey, sabe que aconteceu uma coisa estranha agora pouco?'

Maura levantou os olhos para Jane.

'Eu tava na minha mesa e uma detetive... Helena Stevens, conhece ela? Ela veio até minha mesa e me entregou um café. Eu acho que ela deu em cima de mim.'

Maura franziu a sobrancelha. 'Por que ela te entregou um café? Bem, eu já te entreguei um café.' Ela ressaltou e deu de ombros.

'Não, Maura, por Deus! Depois que ela me entregou o café ela saiu andando com, você sabe, aquele olhar...'

'Que olhar?'

Maura, sempre com problemas para entender essas situações. Jane pensou por um minuto.

'O mesmo olhar que você lançou para mim na tua casa, se lembra? Quando me perguntou se eu não estava curiosa para saber sobre sua fantasia...'

'Oh...' A médica refletiu por um momento. 'Então você está dizendo que eu estou afim de você?'

Jane não esperava por isso e ficou atônita. Ela não queria colocar as coisas daquele jeito, principalmente enquanto sabia que não era uma boa comparação, Maura as vezes fazia e dizia coisas na inocência e nem percebia. Para a surpresa da detetive a médica desatou a rir.

'Oh sim, tire sarro da detetive.' Jane disse quando entendeu que era uma brincadeira. Mas uma vez que a loira não parou de rir, Jane a acompanhou. Maura fazendo brincadeiras? Ela estava num bom dia, Jane não queria estragá-lo, até mesmo porque ela adorava a risada da loira, enchia os seus ouvidos e se sentia mais feliz quando a razão era ela.

'Oh, e bem lembrado. Fantasias. Hoje vamos ver as nossas durante o almoço!'

Não era uma pergunta, Maura já tinha decidido e uma vez feito Jane sabia que nada mudaria sua cabeça. Você e sua boca, Rizzoli. Maravilhoso.

'E você é um imã para atrair mulheres. Eu não fico surpresa.'

O que isso queria dizer? Jane ergueu uma sobrancelha e olhou perplexa para ela. Maura aproveitou o silêncio como deixa e se adiantou:

'Eu só estou dizendo. Eu fico observando, você sabe. Algumas mulheres daqui certamente se sentem atraídas por você. Pelo menos é o que expressam quando você passa por elas. Seu corpo sem dúvidas chama atenção, sua estrutura óssea, eu quero dizer...'

'Eu nunca notei que me olhavam. Quer dizer, homens sim, mas não as mulheres.' Jane riu sem graça.

'Hum... Você deveria prestar mais atenção nos sinais.'

O celular de Jane vibrou, ela leu uma mensagem e se apressou. 'Okay, essa conversa tá tomando um rumo estranho. E eu preciso ir.'

Maura assentiu com a cabeça e parou de falar notando o desconforto de Jane.

Quando a detetive saiu do necrotério tudo o que conseguia pensar era: você precisa prestar mais atenção nos sinais. De quem exatamente Maura estava falando?

...

'Eu estou tão empolgada com o halloween!" Disse Maura entrando em casa, mais para si do que para Jane.

'Oh, sim, eu posso ver.' A morena vinha carregando as sacolas com as compras, além da própria bolsa. 'Nós poderíamos fazer isso todos os anos.'

'Você acha?' Maura virou para Jane, o sorriso de animação sendo substituído por uma careta. Jane estava sendo sarcástica, é claro. A morena riu consigo da inocência de Maura. Ela sempre acreditava, nunca conseguia identificar o sarcasmo a tempo.

Jane colocou as sacolas no sofá e se jogou nele. O dia estava quase para acabar. Quase. Ela só precisava examinar mais alguns arquivos, cruzar alguns nomes e endereços. Quanto tempo ela levaria com aquilo? Duas horas no máximo? Talvez se ela pulasse o jantar... A morena massageou as têmporas e inclinou a cabeça para trás, o conforto do sofá era tentador e ela realmente queria descansar. Droga. Antes que caísse no sono ali mesmo resolveu tirar da bolsa o envelope que Frost havia lhe entregado mais cedo. O volume de papel era maior do que ela se lembrava e ela sentiu um desânimo tomar conta novamente. Três horas? Merda. Abriu e começou a separar por categorias. Não levou muito tempo para que o tapete tivesse virado um mar de papéis no qual ela mesma mergulhou.

Do outro canto da casa, Maura preparava — esquentava — uma lasanha que Angela havia deixado para as duas mais cedo e hora ou outra lançava olhares para Jane. Se ela já não a conhecesse tão bem teria se espantado com a rapidez com que havia se desligado do mundo, sentada ali no chão, entre folhas e mais folhas, analisando, separando, grifando. Assim era Jane. Devotada. Sagaz. Obstinada. Maura a admirava por ser tão boa no que fazia, por ser capaz de descobrir uma mentira por um olhar, de criar laços de confiança tão rápido, por ser verdadeira, por nunca se vender, por ser tão boa com pessoas. Por ser tão boa comigo, ela pontuou. Jane lhe fazia um bem tão grande que ela era incapaz de descrever, mesmo com o vasto vocabulário. Maura saiu do devaneio quando o forno apitou. Ela serviu uma taça de vinho e agarrou uma lata de cerveja, serviu a lasanha em dois pratos e levou tudo para a sala em uma bandeja.

'Jane,' ela chamou quando a morena nem notou sua presença, 'que tal comer um pouco?'

'Oh... Obrigada, Maur.' As duas sentaram no sofá e comeram em silêncio. O cansaço dominando ambos os corpos. Quando terminaram, Maura juntou a louça e devolveu na pia, retornou ao sofá com o copo de vinho e observou Jane voltar ao trabalho. Alguns comentários surgiam durante a investigação, mas a maioria de murmúrios Maura não pôde distinguir. Ao que tudo indicava, Jane só se fazia ouvir quando realmente queria alguma opinião, ou então quando apontava um lugar e dizia: 'se lembra da vez que passamos aqui?' E desenterrava uma história sobre as duas. A certa altura da noite, Jane balançou a cabeça e voltou a se sentar no sofá, para o espanto de Maura que estava quase dormindo.

'Eu fiz tudo o que pude, não consigo mais nada. Só me resta fazer umas ligações amanhã. Que desgraçado.'

'Jane...' A loira tentou advertir.

'Maura, eu não entendo. A única testemunha a ver algo foi aquele rapaz. Nós só temos a cor do carro, quer dizer, quais são as chances?'

'Bem, você disse também que era um carro alugado. Considerando o número de...'

Jane lançou um olhar para Maura.

'Oh, sim. Modo de falar...' Ela concluiu por si só.

Jane resmungou alguma coisa e afundou no sofá. Lá fora um trovão soou distante.

'Vai chover...' Um comentário aleatório, afirmando o óbvio. Esfregou as mãos e depois acrescentou com um suspiro: 'Talvez a chuva lave alguma evidência.'

Maura franziu os lábios e pensou por um momento. Ela sabia que a falta de pistas deixava Jane sem direção, literalmente. Ela estava de mãos atadas e se tinha algo que Jane odiava, era isso. Se sentir impotente perante algo que queria combater, mas que não tinha ferramentas para usar a seu favor. Mas de uma coisa Maura sabia: Jane Rizzoli nunca desistia. Ela corria atrás de bandidos se necessário; ela fora pregada no chão pelas mãos, o bisturi cortando sua carne e arruinando ossos, e lá estava ela de volta. Ela atirara em si mesma para salvar a vida do irmão, colocando em risco a sua própria vida, e mais uma vez ela estava de volta. Jane sempre encontrava um jeito, uma saída; ela era uma guerreira. E parte disso, Maura também sabia, era porque Jane nunca desacreditava, ela via a luz no fim do túnel enquanto ninguém mais via.

A médica sentou-se mais perto da morena, segurou a mão dela com a sua e olhando nos seus olhos disse calmamente:

'Jane, é como você disse, você fez tudo o que pôde. Tenho certeza de que algo vai aparecer amanhã.'

'Como você pode ter tanta certeza?' Ela não quis parecer grossa, mas não era do feitio de Maura supôr algo tão incerto.

'Bem... Alguém me ensinou a ter um pouco de fé.'

'Oh, é mesmo?' Jane pareceu surpresa. 'Quem?'

'Você.' Maura disse suavemente, mas como se fosse óbvio, aquele jeito adorável que era único dela. E para derreter mais ainda o coração de Jane, ela pousou um beijou em seu ombro e encostou a cabeça ali.

Jane simplesmente não sabia o que fazer. Ela tinha ensinado aquilo para Maura? Logo ela que desconfiava que Maura soubesse de todas as coisas? Ela sentiu seu coração aquecendo e sorriu. Apertou a mão de Maura que ainda estava na sua.

'Obrigada.' Ela disse em voz baixa. Maura não respondeu. Um tempo se passou.

Um trovão soou mais alto, as árvores do lado de fora balançavam num ritmo frenético e uma janela aberta fazia a cortina da cozinha dançar ao vento.

'Uma tempestade tá chegando.' Jane observou, a voz rouca. 'Maura?'

Outra vez sem resposta. A loira havia dormido ali mesmo, sua cabeça pesando no ombro de Jane. A morena se levantou com cuidado e posicionou Maura no sofá, fazendo o máximo para não acordá-la. Ajeitou sua cabeça numa almofada e a cobriu com uma coberta. Andou até a cozinha e fechou a janela, uma lufada de ar gelado bateu de encontro com seu rosto. Ela trancou a porta, acionou o alarme. Deu uma ultima conferida em Maura.

'Hey, Maur... Não prefere ir para cama?' Ela dizia enquanto acariciava o rosto da amiga. Ela mal movimentou e cabeça e sibilou um não. A única luz acesa oscilou. A força provavelmente seria desligada.

'Okay. Boa noite.' Respondeu Jane sem saber se ela tinha ouvido. Pousou um beijo na testa dela e quando foi puxar o cobertor para aquecê-la, Maura procurou por sua mão e a segurou.

'Fica.' Ela disse baixinho.

'Maur, você tá no sofá...'

'Só fica.' Ela ergueu a coberta, convidando Jane para se deitar ali, os olhos ainda fechados. O que ela faria agora? Um tremor percorreu seu corpo. Deus, ela queria tanto aquilo. E ela se estranhava tanto por querer. Ela nem sabia se era Maura consciente quem falava. Dane-se. Jane deslizou para dentro da coberta e Maura passou o braço em volta de sua cintura e apertou. Jane descansou sua mão em cima da de Maura. A respiração quente e o contato dizia que ela também tinha encostado o rosto na sua nuca. O sofá, apesar de extremamente confortável, quase não dava conta de duas pessoas deitadas assim, não necessário dizer que uma estava totalmente colada à outra. A chuva finalmente começou a cair, as gotas se chocando contra o telhado criando um som hipnotizante.

Jane relaxou e fechou os olhos, ela tinha certeza de que dormiria bem a noite toda.