Velas e ventanias

7 Encontro desagradável


Maura não sabia o que fazer. Já havia alguns minutos que ela estava acordada e ainda não tinha saído do sofá por não encontrar um jeito de fazê-lo sem que acordasse Jane. Estavam tão coladas uma a outra que os pés da morena se entrelaçavam com os seus, sua barriga totalmente colada nas costas de Jane e a cabeça descansando em seu ombro. E agora ela começara a choramingar algo ininteligível e a se encolher, e era sobre isso que Maura não sabia que atitude tomar. Ela sabia que Jane vez ou outra tinha pesadelos, geralmente com Hoyt, mas ela nunca tinha presenciado isso. Ela resolveu tomar o caminho que lhe pareceu mais seguro e tentou acalmá-la.

'Hey, Jane, tá tudo bem...' Ela acariciava o braço da amiga enquanto falava suave. 'Tudo bem, é só um pesadelo. '

Jane parou de resmungar e se virou de frente para Maura.

'Isso, tudo bem... Você tá segura. Ninguém vai te machucar.' Maura observava o rosto de Jane. Os cílios longos e escuros, da cor da noite, as sobrancelhas do mesmo tom, agora se contraindo; a médica sabia que ela estava lutando uma guerra interna.

'Maura, é você?' A voz rouca de Jane saiu, finalmente, em baixo tom.

'Sim, quem mais seria?' Ela disse de um jeito doce e riu.

Quem mais seria, repetiu na cabeça de Jane. Maura estava ali por ela.

'Pesadelo horrível.' Ela murmurou.

'Já passou.' Ela assegurou e acariciou as costas de Jane.

Um momento se passou até a morena se recompor.

'Eu te acordei? Desculpa por isso.' Jane fez menção de levantar, mas Maura colocou a mão nas suas costas de um jeito que a imobilizou na hora. Não tinha sido a força, tinha sido o toque.

'Não acordou. E bem, isso nos deixa quite, não é?' A loira estudou o rosto da morena, os olhos ainda estavam fechados, falava mole, ainda meio adormecida.

Jane pensou por um momento. Abriu os olhos para encontrar os de Maura. 'Pode-se dizer que sim... Oh meu Deus, eu tô te esmagando?'

'Eu não consigo me mexer muito bem, mas nada que seja desconfortável. '

Jane sabia que esse era o jeito educado da outra dizer que sim, estava um pouco apertada.

'Você dormiu bem?' Ela perguntou, colocou a mão na cintura de Maura e se afastou um pouco para dar mais espaço a loira.

'Sim, a noite toda. Quando acordei já era dia. Você?'

'Uhum. Exceto agora, pelo pesadelo...'

Maura balançou a cabeça em compreensão. Jane era mais doce ao ar da manhã, pensou Maura, estranhamente mais doce. Como se se permitisse apenas ser, sem escudos, sem sarcasmo, desarmada. Como se ainda não tivesse se vestido de detetive durona, como se tivesse deixado os problemas do trabalho fora da cama — do sofá — ou como se o mundo não existisse até que colocasse os pés no chão, ou então, como se ela tivesse dado a Maura passe-livre para entrar no seu mundo e conhecê-la melhor.

Ou talvez fosse só o sono. A médica se pegou divagando e achou melhor dizer alguma coisa, porque Jane a estava estudando como se tivesse tentando ler seus pensamentos.

'Posso saber como você veio parar aqui?'

Jane ergueu a cabeça e espremeu os olhos.

'Bem, você pediu para eu ficar aqui.'

'Eu... Eu pedi?' Maura agora estava entre envergonhada e confusa.

'Pediu!'

'Oh...'

'Eu sempre desconfiei que um dia você iria ceder ao meu charme.' Jane riu divertida, ainda que no fundo esperasse que... Rizzoli!

Maura espremeu os olhos e os lábios fingindo reprovação. 'Caia fora do meu sofá, Detetive.'

'Eu prefiro ficar.' Jane desafiou.

Isso é invasão à minha propriedade!'

'Seria se eu não tivesse sido convidada!' Jane se levantava enquanto falava, se espreguiçou e riu quando sentiu o soquinho de Maura lhe atingir o braço. 'Outch!' A morena acariciou o lugar, embora não sentisse nenhuma dor.

Maura se levantou e olhou pela janela. O dia lá fora ainda estava nublado, mas um tom de rosa se misturava com nuvens cinza, criando aquela sensação de renascimento, como se a treva tivesse sido abatida e o sol ressurgisse das cinzas, assim como uma fênix. Assim é o ciclo da vida, a natureza, não é? Ela pensou. A morte na verdade não se passa de uma transformação? Maura saiu do devaneio ao grito de Jane.

'Mas que merda!'

Ela se virou e viu a mulher segurando o celular.

'Perdi três ligações de Korsak! Tenho duas mensagens de Frost.' Ela leu em voz alta.

'Jane, achamos mais um. Endereço a seguir.'

'Jane, onde diabos está você?'

'Oh! E duas de Frankie!'

'Janie, temos um corpo. Vem logo.'

'Jane, você precisa ver isso, cadê você? Não estamos conseguindo falar com Maura.'

A loira estalou os olhos.

'Oh meu Deus!' Revirou a bolsa e pegou o celular.

'Hey Doc, onde está? Temos um corpo.' Ela leu com os olhos bem abertos.

'Oh meu Deus, oh meu Deus, oh meu Deus!' Maura repetia sem parar.

'Eu acho que nós dormimos bem de mais!' Jane observou.

'Eu vou me trocar.' Maura se apressou para o quarto.

'TRÊS MINUTOS'. Jane gritou.

...

Sobre uma coisa Maura estava certa. Algo apareceu naquele dia, mas não era algo que Jane realmente esperava.

Os rastros do temporal ainda eram visíveis na cidade. Ruas ainda molhadas, galhos de árvores quebrados, latões de lixos virados. A detetive avistou a cena de crime de longe. Num banco de ônibus uma cena surreal: Uma mulher sentada, segurando um guarda-chuva vermelho aberto, branca, muito branca, como uma boneca de porcelana, os olhos fechados. Quando Jane se aproximou da fita amarela isoladora, ela foi pega de surpresa: o guarda-chuva vermelho, agora visto de perto, era na verdade branco, fora colorido de vermelho. Vermelho de sangue. Em volta do corpo, uma poça. Nas pernas, o sangue que escorrera mais cedo do guarda-chuva e nunca chegara a alcançar o chão. Ela sentiu o estômago revirar. Olhou para Maura, seus olhos refletindo aflição, raiva. Maura sofrera o impacto tanto quanto Jane. De todas as cenas que vira antes, até mesmo a do dia anterior, não chegava a ser tão perversa como essa.

Encontraram com Korsak e Frankie, e outros policiais que reforçavam a barreia de segurança. Trocaram poucas palavras porque jornalistas já estavam fotografando, pessoas se esgueirando para ver o horror. Era da intenção de todos moverem o corpo dali o quanto antes.

Maura se aproximou e tomou fôlego antes de analisar o corpo morto. Os pés pisavam em poça de sangue, misturada com chuva e sujeira. A cabeça limpa, nenhum ferimento visível no crânio. Tirou o guarda-chuva da mão da mulher, o fechou e o entregou para o perito. Os olhos percorreram o corpo vestido, nenhuma mancha de sangue, exceto a das pernas. De onde aquilo tudo viera, ela teria que descobrir no necrotério.

Assim que acabou o exame, se direcionou a um policial e pediu para que levasse o corpo o mais rápido possível para o necrotério. Quando se virou, o sol tímido bateu no seu rosto, apontando no horizonte. Outro dia nasceu, pensou Maura, mas não para ela. E lançou um último olhar para a vítima. Ao longe, escutou Jane conversando com alguém

...

Jane observava Maura analisar o corpo. Enquanto colocava as luvas, uma idéia percorreu-lhe a cabeça. Virou-se abruptamente para procurar por Frankie, mas esbarrou em alguém com toda força e algo quente banhou sua roupa.

'Que diabos?!' Praguejou a mulher. Abriu a boca para repreender a pessoa, mas então ouviu a voz...

'Oh! Detetive me desculpe, eu não previ...'

Jane levantou os olhos.

'Stevens? O que faz aqui?' E ela já havia esquecido do café, o que iria perguntar a Frankie e todo o resto.

'Eu ouvi na delegacia sobre isso, sai de lá agora pouco. Tô trabalhando em um caso, você sabe.' E ela sorriu com certa cumplicidade.

'E decidiu passar por aqui...?'

'Moro do outro lado da rua.' Ela apontou e foi tomar um gole do café que não estava mais no copo. Parou no meio do caminho.

Tão como eu, pensou Rizzoli. 'Sinto muito pelo café.' Ela observou, a voz baixa. 'Parece que estou te devendo um agora.'

'Não! Eu que sinto por ter esbarrado em você.'

'Bem, por um momento foi até agradável, você sabe, o calor... Mas agora esfriou mais ainda!' Ela disse batendo uma mão na roupa molhada e de repente parou. O que ela estava fazendo?Flertando com a outra detetive?

'Eu te empresto uma blusa. É só atravessar a rua.' Disse a outra, decidida.

'Oh, não... Não. Tudo bem, eu posso me trocar mais tarde.'

'Por favor, não quero ser a culpada por um resfriado. É o mínimo que posso fazer. Além do mais, você me deixa fazer essa pequena gentileza e eu esqueço o café.' A morena propôs.

'Bem... Não quero parecer mal educada. Se você insiste. Me espera um minuto?' Jane estava se sentindo encurralada, mas cedeu. De certa forma ela estava gostando da atenção.

'Espero o tempo necessário.' Um sorriso de satisfação se insinuou nos lábios de Stevens.

...

'Maura, o que me diz?'

'Sobre você flertando na cena do crime? Sobre a mancha de café na sua blusa?' Ela disparou. Rizzoli franziu o cenho e depois riu.

'Eu não estava... E eu quero dizer sobre o corpo.' Mudou de assunto, até mesmo porque era o que realmente queria saber.

'Preciso examiná-la no necrotério. Não vejo nenhum sinal de feridas, preciso despi-la.'

'Okay'. Jane divagou por um momento.

'Aquela é Stevens, correto?' Maura retomou o assunto.

'É... E sobre isso, ' ela apontou para a mancha na blusa, 'preciso dar um jeito.

'Podemos voltar em casa. Não é assim tão longe.' Maura acrescentou.

'Hum, eu tenho outra opção na verdade.' Ela se virou e gritou. 'Hey Stevens, você tá voltando para a delegacia?'

'Pode apostar.' Gritou a mulher de volta.

'Consigo uma carona?' Jane replicou. Stevens só sorriu e afirmou com a cabeça.

'Maur, te encontro lá, okay? Ela apertou o braço da amiga.

'Okay.' A médica murmurou. Observou de cenho franzido enquanto Jane se afastava e andava com a outra morena. Uma pontada de irritação correu por dentro.

...

'Eu juro que não faço isso sempre. Derrubar café nos outros, você sabe.' Ela disse entregando uma blusa limpa para Jane. Um perfume forte e doce invadiu suas narinas. 'Voltei para casa para pegar uns arquivos que deixei aqui de um caso antigo que estava revendo. Acontece que acho que ele está relacionado com esse que tenho. Tô dobrando o expediente,' ela se explicou, 'os bandidos nunca dormem, não é mesmo?'

'Nunca. Eu sei bem.' E indicou com a cabeça para a janela, onde sabia que daria vista para a cena do crime lá em baixo.

Stevens apontou o banheiro. 'Sinta-se em casa. Só preciso de um minuto.'

E Jane se trocou, e Stevens recolheu o que precisava. Saíram as duas juntas do prédio, conversando sobre seus casos, nada muito particular, para o alívio de Jane. Não é que não fosse de amigos, mas era fato de que não gostava de se abrir para ninguém.

'Aqui você encontra o melhor burrito da região.' Stevens disse, apontando uma pequena lanchonete enquanto faziam o caminho para o carro.

'Não diga!'

'Sério. Você precisa experimentar. É quase um crime as pessoas não conhecerem esse lugar.'

'Anotado.'

Entraram no carro. Jane se sentiu estranha sendo guiada por outra mulher que não conhecia. Era sempre ela quem dirigia. De qualquer forma, a conversa até a delegacia foi mais agradável do que ela pudera imaginar. Quando desceram do carro pensou que, talvez, pudessem voltar a conversar outra vez. E por que não?

...

Croissant é o que elas iriam comer naquela noite. Maura e Angela tinham começado essa coisa entre elas de cozinharem juntas uma vez por semana. Fazia mais ou menos dois meses, quando Maura mencionou durante uma janta a macarronada de Angela, e a mulher se ofereceu para ensiná-la a fazer. Na noite seguinte, quando médica e detetive chegaram em casa, sacolas de compras jaziam sobre a pia e Angela apontou no meio da cozinha dizendo para Maura se trocar que ambas iriam começar. Jane só cortou os tomates, mas a pequena colaboração nada teve a ver com o jogo que passava na tv. Ela vira os olhos de Maura brilhar enquanto a mãe ensinava para a loira a mistura correta de ingredientes para a massa, o segredo do molho, enquanto os minutos se estendiam e se transformavam em horas. Naquele dia foram jantar mais tarde do que deveriam, Maura não reclamou da farinha branca, e no final da refeição a casa cheirava a molho de macarrão e estava aquecida por um tipo de calor que Jane sabia que Maura encontrara poucas vezes com sua família: calor humano.

Desde então, Jane não se metia, apenas sentava no sofá e ficava assistindo TV. Ela entendia que era como um momento mãe e filha, como quando ela era criança e as duas batiam um bolo juntas, e no final de tudo Jane ganhava de Angela a tigela para lamber. Um dos momentos que Maura não tivera com a mãe, e Jane simplesmente ficava feliz em vê-la feliz experimentando isso agora.

O que raramente deixava Jane infeliz era quando a conversa girava em torno de si. Como estava acontecendo agora.

'...aquele moça é detetive também, Angela.' Dissera Maura.

Jane virou o pescoço para encarar as duas, estava sentada na sala com uma cerveja na mão.

'Oh, Jane tem uma nova amiga?' Perguntou a mais velha. A morena revirou os olhos. Maura lhe lançou um olhar indecifrável.

'Imagino que sim. Jane convidou-a para se juntar a nós durante o almoço.'

'Ela é boa pessoa?'

'Ma!' Advertiu Jane do sofá.

'Bem... Ela me chamou de Rainha da Morte. Não gosta de yoga. Não sabe quem é William M. Bass. E ela não come azeitonas.'

'Sim, essa é a pior parte. As azeitonas.' Jane começou com o sarcasmo.

'Oh, Maura, ela te chamou disso?' Perguntou Angela, reprovando o comportamento da mulher.

'Sim, ela chamou.' Um tom leve, mas notável, de mágoa saiu com as palavras.

'Ma, não dê ouvidos a ela, ela está apenas com ciúmes!'

'Jane Clementine Rizzoli!' A morena revirou os olhos mais uma vez e se afundou no sofá enquanto a mãe batia com o guardanapo no balcão da cozinha. 'Maura, querida, Jane jamais irá encontrar uma amiga tão boa quanto você.' Ela segurou o rosto de Maura e lhe deu um beijo na bochecha. Lançou uma careta brava para Jane em reprovação a sua atitude, mas a morena já estava sorrindo e disparou em seguida.

'Quer saber? Minha mãe está certa, Maur. Você é a melhor. Ninguém está a sua altura.' E era verdade. Jane não conhecia qualquer pessoa que pudesse ser comparada com Maura, não encontrava em outras pessoas o que encontrava na médica. 'Você é minha melhor amiga.' E eu queria que fosse mais do que isso. Mas essa ultima parte ela não falou.

E os olhos negros brilharam quando viram o riso delicado brotar no rosto da loira.

Tão perfeita.