Velas e ventanias
5 Bad dream, good feeling
Jane virou a maçaneta da porta da casa de Maura e se surpreendeu ao encontrar a porta trancada. Era de costume da médica deixar a porta destrancada até altas horas da noite. Jane a advertira várias vezes sobre isso, especialmente sobre as noites em que ficava sozinha, mas Maura nunca pareceu se preocupar com a segurança da casa. Sempre alegava que sabia que ela estava vindo ou que Angela estava por perto. Ela tinha finalmente dado ouvidos à detetive? A morena deu de ombros e tocou a campainha. Não demorou muito até que a loira abrisse a porta.
'Hey.' Disse ela com um sorriso e se afastou para que Jane entrasse.
'Hey. Medidas de segurança, hum?'
Maura fez que sim com a cabeça.
'Finalmente.' Jane fechou a porta. 'Pizza para o jantar. Não sabia se você já tinha comido, então... Metade cogumelos, metade calabresa. Com muito queijo. Porque eu mereço hoje. ' Ela esticou a pizza encaixotada para a amiga.
'Eu tenho o vinho.' Os olhos da médica brilharam. Adorava quando Jane dedicava um pouco de atenção para ela, às vezes que aparecia com o jantar ou que fazia seu café da manhã. Pequenos detalhes que Maura valorizava tanto e que se sentia tão grata. E que a fazia gostar mais de Jane.
Sentaram-se no sofá, cada uma com um pedaço de pizza na mão e uma taça de vinho na outra. Uma coberta fina cobria as pernas das duas.
'Eu estou tão cansada que poderia dormir enquanto estou comendo.' Jane disse depois de bebericar o vinho. Maura riu.
'Alguma sorte no apartamento?'
'Hum, nada. Frost disse que ia ficar na delegacia até mais tarde, recolhemos alguns documentos, agenda telefônica, recibos. Vamos ver se conseguimos algo a partir daí. Pobre mulher.'
Maura suspirou.
'Sinto muito se não pude ajudar com mais nada.'
'Oh, Maur, não. Você fez tudo o que podia fazer. Tenho certeza de que amanhã encontraremos algo.'
Jane sorriu para a amiga, olhou de relance para a mesa da cozinha e saltou do sofá quando se deu conta da bagunça que estava ali em cima.
'Oh meu Deus, Maura! O que é isso?'
'Sua mãe decidiu enfeitar a casa para o halloween.' Disse ela, naturalmente.
'E você concordou com isso?' Jane estava revirando alguns dos enfeites ali em cima. Morcegos de plástico, aranhas, tecidos branco que Jane suspeitou que dariam belos fantasmas.
'Bem, as pessoas geralmente enfeitam as casas por aqui, achei que poderia ser divertido. Você sabia que nessa data os celtas acreditavam que o mundo ficava ameaçado por espíritos malignos e por isso celebravam a data com figuras bizarras e medonhas para afastar os demônios e fantasmas?'
Jane arregalou os olhos. Processou por um segundo o que a loira havia lhe dito.
'Assustar fantasmas com outros fantasmas. Que brilhante, como não pensei nisso antes?' Jane disparou com o sarcasmo. Era maior do que ela. Ela apontou o dedo para a amiga e advertiu: 'Maura, você não tem idéia de onde você se meteu.'
'Acho que passei a ter depois que ela mencionou a festa. A fantasia.'
Jane jogou os ombros para frente e resmungou.
'Maura. Por que?
'Oh, Jane, ela pareceu tão animada com tudo isso.'
'Você sabe que ela vai te fazer usar uma fantasia, não sabe?'
Maura foi capaz de segurar o sorriso, mas seus olhos a entregaram.
'Oh meu Deus! Você está gostando da idéia!' Jane estava de boca aberta.
'Eu nunca tive um halloween, Jane!'
'Eu não vou usar nenhuma fantasia.'
'Nós vamos comprá-la amanhã.'
Jane ergueu uma sobrancelha.
'Você está assim tão empolgada, Dr. Isles?'
'Não quer saber o que eu planejo vestir, Detetive Rizzoli?' Maura lançou um olhar provocador e de repente Jane se viu sem palavras. Deus, Rizzoli lutou com todas as suas forças para não imaginar Maura Isles vestida com qualquer roupa sexy, mas toda vez que pensava em algo, falhava. Qualquer que fosse a fantasia que Maura escolhesse, de duas, seria uma: ou algo muito ridículo ou algo muito sexy. infelizmente Rizzoli não conseguia pensar em nada ridículo para rir, então fechou os olhos e respirou, apontou o dedo para a mulher.
'Maura, eu...', ela apontou o dedo para o quarto, 'cama... Noite.'
A discussão estava encerrada. Jane deixou a sala atordoada. Maura se limitou a rir com a atitude da mulher, satisfeita por ganhar a discussão. Juntou as taças e o resto da pizza e colocou ordem no lugar. Em seguida se retirou para seu quarto.
...
Maura estava deitada em sua cama. Em seus sonhos o quarto parecia mais frio do que era para estar. A escuridão em volta a deixara em estado de alerta total. Um arrepio gelado percorreu suas costas. Tinha ouvido um vidro se quebrar? Sentou-se na cama, espremeu os olhos para tentar enxergar algo através da escuridão. Era noite de lua nova, nenhuma claridade entrava no quarto. No instante em que levou a mão para acender o abajur, sentiu uma mão forte segurar o seu pescoço, outra cobrir sua boca. Seu corpo foi empurrado contra a cama, o agressor era forte demais para ela. Maura tentou resistir, o medo fazendo a adrenalina disparar pelo corpo. O homem sussurrou bem perto do seu ouvido, uma voz grossa, maligna, rouca, a própria voz do mal.
"Você vai morrer, doutora. Você é a minha próxima." O homem deslizou a mão do pescoço de Maura para baixo, entre os seios, a barriga. "Mas antes vou me divertir com você."
Maura sentou-se na cama com um pulo. A respiração pesada, o corpo suado apesar da pele gelada. Ela acendeu o abajur o mais rápido que pôde. Não havia ninguém no quarto. Olhou para o outro lado da cama e viu que estava vazio. Desejou que Jane estivesse ali agora, ela se sentiria segura. Em primeiro lugar, ela desconfiou que se a morena estivesse ali, nem pesadelos ela teria. Espera, Jane tinha ficado na casa dela, não tinha? Receosa, Maura levantou-se da cama e caminhou lentamente até o corredor. Escuridão. Considerou se deveria ou não acender a luz, mas achou melhor prosseguir no escuro. Se houvesse alguém na casa ela não alertaria o invasor sobre sua localização. Não seja ridícula, Maura, não há ninguém aqui. Ela caminhou hesitante, passo após passo, atenta a qualquer barulho repentino, até o quarto de hóspede, abriu a porta lentamente para conferir se Jane estava ali.
Oh sim, ela estava.
E estava apontando a arma para ela.
...
Jane havia dormido profundamente até aquele momento. Foi quando voltou para o sono REM, o sono mais leve de todos, que ouviu a porta do quarto se abrindo. Poderia ser um sonho, Jane estava acostumada com eles, mas de algum modo soube que não era e agiu instintivamente. Agarrou a arma na mesa de cabeceira e apontou cegamente para a porta. Deus, ela mal tinha acordado ainda. Tudo o que via era um borrão preto. Não sabia exatamente onde estava. Era em seu quarto? No quarto de hóspedes? Maura estava do outro lado da cama? Seu coração disparou. Parte de si estava preparada para isso desde que Hoyt aparecera em sua vida. Todos os dias dormia com sua arma ao lado ou em baixo do travesseiro, não importava onde ou com quem. Era a única forma de se sentir um pouco mais segura e muitas vezes não era suficiente.
'Jane, sou eu!' Maura exclamou quando entendeu a situação. Jane soltou um gemido e abaixou a arma.
'Por Deus, Maura! Não faça mais isso, eu quase atirei em você!'
'Sinto muito, não quis te assustar, eu...'
Maura realmente parecia assustada, ligeiramente mais assustada do que Jane.
'O que aconteceu? Você ouviu alguma coisa?' Agora Rizzoli estava jogando o edredom para o lado, seus pés alcançando o chão.
'Eu não tenho certeza, eu tive um pesadelo e...' Maura se calou. Ela havia realmente dito aquilo? Eu tive um pesadelo e vim para seu quarto? Agora ela se sentia como uma criança tola.
'Tudo bem, Maur. Fica aqui, eu vou conferir. ' Jane já havia levantado e estava indicando a cama para a loira, arma em punho.
Ela demorou um tempo até checar a casa inteira, cada janela, cada porta. Nada de errado, tudo trancado. Ela voltou para o quarto.
'Tudo certo, Maur. Talvez tenha sido só um pesadelo.' Ela se sentou na cama ao lado da amiga.
'Eu sinto muito Jane, não queria te acordar. Só precisava saber que você estava realmente aqui comigo. Foi muito real e assustador e quando eu acordei...'
'Hey, hey...', Ela estava ficando agitada de novo e Jane a cortou antes que começasse a hiper-ventilar ou que tivesse um ataque de pânico. Ela segurou a mão da loira. 'Quer me contar o que foi?'
Ela fez que não com a cabeça. Havia acordado Jane e era o mínimo que poderia fazer, mas no momento queria tirar aquelas imagens da cabeça.
'Tudo bem. Porque você não se deita aqui comigo?'
Maura não pensou duas vezes, concordou com a cabeça e se deitou de um lado da cama. Não queria passar o resto da noite sozinha. Sabia que Jane a protegeria de qualquer coisa, e ficar ali com ela era quase uma garantia de uma boa noite de sono. Ou do que restava dela.
Jane deitou do seu lado e olhou para a loira. Estava começando a suspeitar de que algo havia assustado Maura; primeiro ela havia trancado a porta, o que era incomum, agora um pesadelo que a fizera sair da cama para procurar por Jane. Bem, ela não queria pressioná-la. Se algo estivesse incomodando, ela contaria para Jane mais cedo ou mais tarde. A morena sabia respeitar sua hora, tudo o que Maura precisava agora era de sua companhia, de segurança.
Jane ponderou o que estava prestes a fazer por um minuto, até que passou o braço por baixo do pescoço de Maura e trouxe seu corpo próximo ao dela. Ela segurou a respiração com medo de uma rejeição, até esperava por isso, mas não houve resistência. A outra mulher simplesmente virou-se de frente para ela e passou um braço por sua barriga. Ela respirou aliviada. Passou também um braço pela cintura de Maura e acariciou suas costas.
'Tá tudo bem, Maur. Somos só eu e você.' Ela sussurrou com a voz rouca.
'Obrigada...' Maura sussurrou, foi quase inaudível. Ela encostou a cabeça no ombro de Jane e relaxou. Sim, agora estava segura. Agora conseguia respirar normalmente, porque num mundo cheio de coisas erradas e ruins, Jane parecia a coisa certa. Ela era seu porto seguro, os dedos de Jane desenhando em suas costas lhe acalmavam como uma solução mágica. O subir e descer da respiração da mulher era como uma canção de ninar hipnotizante, e Maura sentiu os olhos pesando conforme os minutos se passavam.
Jane, que agora se encarregara de cuidar do conforto de Maura em seus braços, quase sentiu o coração explodir quando a médica encostou a cabeça em seu ombro. Maura tinha um cheiro adocicado que combinava com sua personalidade. Era delicada, quase frágil às vezes, mas tinha um reservatório secreto de forças. Era um pouco atrapalhada quando se tratava de relacionamentos e quase nunca entendia o sarcasmo na voz das pessoas. Era praticamente o oposto de Jane, mas os opostos se atraem, pensou ela. E talvez fosse justamente por isso que gostava tanto da médica.
Ela continuou dançando com seus dedos nas costas da mulher, até que a respiração se igualou e ela sentiu o corpo pesando sobre o dela. Ela não se importou. Se tratava de Maura e ela simplesmente não se importava de tê-la dormindo ali em seus braços. Oh, não. Ela estava gostando da sensação. E quase se sentiu culpada por isso. Maura só estava ali por conta de um pesadelo horrível, quão egoísta ela estava sendo? Mas ela não estava agradecida ao pesadelo. Não. Ela nunca desejaria tal coisa a Maura.
Ela estava vendo isso de outra maneira; estava ignorando todo o resto e só focando naquele momento. Na sensação da respiração quente de Maura batendo na sua pele, no movimento involuntário dos dedos apertando levemente sua barriga vez ou outra, os pés de Maura se cruzando com os seus por baixo do cobertor. Jane fechou os olhos numa oração para que as batidas do seu coração não acordassem a mulher.
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