Vanilla
6 The lion and the Lamb
Notas iniciais
Nunca pensei que eu teria um vício, mas passei a noite olhando aquele anjo dormir. Sua respiração quente no meu pescoço me fez imaginar essa cena se repetindo noite após noite e logo em seguida na nossa casa de cerca branca, grama verde e nós duas cuidando da nossa própria horta. Deus, sou uma idiota. Eu mal conhecia a garota e essa noite com certeza foi a mais estranha, a mais apaixonante, a mais exaustiva que eu já tive alguma vez na vida e foi só nosso primeiro encontro. Eu podia sentir que o que quer que eu tivesse com ela não seria um caso ou alguma coisa simples, se eu resolvesse continuar o que quer que existia entre nós eu devia estar preparada para turbulência. A questão é: Eu queria minha vida complicada agora? Ela dormia feito criança, uma perna jogada sobre a minha, uma meia faltava no seu pé, seu ventre se mostrava aqui e ali entre faixas do tecido do moletom velho que ela usava como pijama, os cabelos castanhos revoltos sobre o travesseiro e o rosto completamente pacífico. A imagem me faz suspirar, é claro que ela valia o risco.
Repentinamente me dou conta que a manhã já está avançada e que ainda estou na cama com ela. Pequenos feixes de luz entram pela cortina e percebo várias presenças no quarto. Minúsculos olhos brilhantes aparecem aqui e ali, ela era uma gateira, os felinos me encaravam interrogativamente questionando quem era a estranha que tomava a cama que eles dormiam. Com muito cuidado e pesar me soltei daquele abraço aconchegante e pacífico e sentei na cama, procurei pelo meu tênis e vi que uma pequena gatinha estava dormindo sobre eles. Calmamente envolvi as mãos na pequena bola de pelo e a coloquei no meu colo, calcei meu tênis e devolvi a gatinha aos lençóis, sorri uma última vez para aquela garotinha de pijamas adormecida em sono profundo e resolvi ir para casa. Escrevi o refrão da música Ela chora do rapper Projota em um post it e colei no livro que estava meio jogado sobre sua estante. O quarto era o seu oposto: uma bagunça muito feminina de livros, maquiagem e objetos fofos que estavam jogados por toda a parte. Minha doce garotinha estava lendo Foucault, quais eram as chances? Estava com medo de dar de cara com a avó dela acordada e saí apressada sob o olhar desconfiado e interrogativo dos gatos.
Em casa, tomei um banho rápido, escovei os dentes, vesti um moletom preto com jeans e chamei um taxi, estava atrasada para a aula. Meu mundo parecia mais colorido, a vida parecia ter dado um jeito de me compensar por tudo o que aconteceu de ruim, o que não foi pouca coisa. Eu estava acelerada, mil coisas vinham à mente, mal podia esperar para chegar à faculdade e poder vê-la, mas acima de tudo, eu estava apavorada não sabia em que pé as coisas estavam. Não tinha parâmetro para o que estava acontecendo entre nós, foi tudo muito rápido e intenso, era como acordar num dia normal e decidir pular de paraquedas, a sensação de pânico tomava conta de mim. Será que estou exagerando? Mas a sensação de que ela iria desaparecer assim como surgiu – como mágica – não deixava o meu peito.
Desci do táxi, paguei e agradeci ao taxista e corri para o bloco de aulas. A ansiedade por ver seu rosto era como de uma criança à espera do presente de natal. Entrei na sala e a vi de longe, ela parecia distraída e conversava com a colega sentada na fila ao lado, caminhei sorrindo e sentei na carteira à sua frente. Ela olhou para mim ao ouvir o barulho do ranger da madeira e num impulso – como se houvesse somente eu e ela no meu mundo imaginário – proferi um sonoro e alegre “oi”.
— Oi – Ela respondeu em tom baixo e continuou a conversa com a moça da carteira ao lado.
O tempo congelou. Senti meu corpo gelar e minhas faces ruborizarem. Ela não queria ser vista comigo. Dessa vez era eu que segurava as lágrimas.
Voltei até o meu lugar, mas não sei como cheguei até a carteira meu corpo parecia se movimentar sem a minha consciência. A aula passou como um borrão, não tenho ideia do que foi dito. Tenho uma vaga consciência das pessoas deixando a sala e percebo que o período acabou e não sei o que fazer, levantar parecia algo extremamente doloroso agora. Recolho minha mochila como um zumbi e ando até a porta de olhos fixos na minha frente, não poderia suportar cruzar com seus olhos. Ando meio entorpecida pelo corredor e chego à biblioteca por algum milagre, vou até o fundo e sento na poltrona banhada pelo sol e então as lágrimas fluem. Me sinto tão estúpida, a coisa toda foi imaginada por mim? Será que eu não aprendo nunca? Eu parecia uma piada do destino.
Ainda estou chocada e magoada, a garota de ontem e a de hoje são duas pessoas completamente diferentes. A frieza e distância dela demonstram claramente que ela se arrependeu de tudo e só quer esquecer. Ela não quer se lembrar de mim. Meu coração parece que vai explodir e eu quero gritar. Porra, eu não procurei por isso, eu estava juntando meus pedacinhos quieta sem perturbar ninguém. Essa menina vem até mim e bagunça ainda mais minha vida nada simples, eu não pedi por isso. Minha cabeça começa a latejar por causa do choro. Decido que não quero que ninguém me veja assim, vou matar os últimos horários não suportaria ficar no mesmo lugar que ela. O sinal bate e as pessoas se dirigem até suas salas, espero alguns minutos e saio pelo corredor vazio até o pátio externo da faculdade. Vou até o mercado e compro umas cervejas, pego o ônibus e chego em casa sem dizer uma palavra aos meus avós. Subo até o quarto e jogo a mochila em qualquer lugar, tiro os tênis, coloco meus fones de ouvido e seleciono uma playlist qualquer do spotify e aumento o volume até níveis ensurdecedores. Abro a cerveja e termino de beber muito rapidamente. Logo um torpor e uma tontura deixam minha cabeça mais leve. Abro a próxima e a próxima, já estou perto da inconsciência, uma música começa a tocar nos fones e eu não reconheço:
God and His priests and His kings
All were waiting
All will wait
As they go over
O telefone vibra na minha mão e com muito esforçor e eu abro a mensagem que chega. “Onde você tá?” Como se você se importasse. É ela, claro que é. Não respondo e a música constinua.
Held between heaven and hell
As they're dancing
As they dance over and over
Over
Cold
Cold
O celular vibra novamente e meus olhos mal estão abertos mas consigo ler a mensagem sonora e garrafal “ONDE VOCÊ ESTÁ??????” dessa vez respondo “felizmente longe de você” o sono ameaça me tomar por completo
Crimson and bare as I stand
Yours completely
Yours as we go over
Sing for the lion and lamb
Their hearts are haunting
Still hunts hope ever and ever
Ever
Cold
Cold
Sinto o telefone vibrar uma última vez, mas meu corpo já não está mais acordado, estou protegida no reino dos sonhos onde nada pode me machucar, mas estranhamente as imagens de um leão e de um cordeiro permanecem vivas na minha mente e eu não sei dizer quem é o predador e a presa.
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