Vanilla
7 Wicked Game
Notas iniciais
— Por que ela não responde a porra da mensagem?! – Digo pra mim mesma.
Saio da sala depois do último período apressada e com o celular na mão, meu coração batia rápido e sentia minhas mãos tremerem levemente. Ainda não sei explicar o que aconteceu essa manhã, saí de casa tão feliz, o cheiro dela impregnado pelo quarto, o lado da cama que ela dormiu ainda estava quente quando acordei. A noite tinha sido perfeita e eu mal podia esperar por vê-la essa manhã. Qual não foi minha surpresa ao ouvir minha própria voz fria e distante cumprimentando a Dani com tanta distância e formalidade. Seu rosto estava radiante e vi a profunda mudança no seu semblante, a dor penetrando cada traço do seu lindo rosto. Não imaginava que fosse reagir assim, ela veio sem pudor algum e me cumprimentou como se partilhássemos um grande segredo. O que não era mentira.
Todos da sala sabiam que ela era gay, o jeito de se vestir, a atitude indiferente diante do sexo oposto, alguma coisa nela emitia esse sinal. Já havia escutado várias piadinhas de uns babacas da sala nesse sentido e no momento que ela se aproximou tão feliz e íntima, minha reação imediata foi “não na frente de todos!”. Eu sei, sou uma ridícula. A imagem que as outras pessoas faziam de mim ainda era algo muito importante e acho que foi justamente a atitude dela, de não ligar pra ninguém ou o que era dito a seu respeito, o que me atraiu. Eu vivia numa bolha, numa grande trama cheia de mentiras. As pessoas mais próximas a mim não tinham ideia de quem eu era, não sabiam minhas opiniões ou meus autores favoritos. Elas simplesmente supunham que meu sorriso simpático, minhas notas e minhas roupas perfeitamente respeitáveis bastavam para me qualificar como uma boa pessoa. Eu não era.
Eu não sei como tudo isso começou ou como faço pra romper o círculo vicioso, mas acabei de cagar com a noite mais perfeita da minha vida e isso me corrói por dentro e me enche de medo de nunca mais ouvir sua voz ou de ver seu olhar carinhoso sobre mim. Não sei mais o que fazer, não posso esperar pelo dia seguinte para esclarecer a idiotice que fiz. Poderia ir até a casa dela se eu soubesse onde ficava, tenho uma ideia. Vou até a secretaria e me jogo em cima do atendente na esperança de que ele me forneça os dados dela, o que dá certo. Homens. Tento me lembrar qual ônibus vai até a casa dela pra não tentar imaginar como ela me receberia. Depois de confirmar com o motorista entro no ônibus e tento, em vão, relaxar. Desço no ponto próximo a sua casa e sigo até o endereço indicado, a cada passo meu coração parece que vai explodir de ansiedade.
Paro diante de uma casa antiga, com gramado verde e anões de jardim. A tinta estava desgastada em alguns lugares, mas o conjunto fazia o lugar parecer confortável e gracioso. Toco a campainha e minha alma parece ter deixado o corpo, meus movimentos são automáticos. Uma senhora simpática aparece na porta, protegendo os olhos do sol para tentar enxergar quem poderia ser.
— Pois não?
— Bom dia, eu sou colega de turma da Dani e temos um trabalho pra fazer em dupla. – Minto deslavadamente para a velha senhora.
— Ah! Colega da Dani? Entra, por favor. – Ela indica o caminho.
— A Dani chegou mais cedo, não devia estar bem. – Ela franze a testa, demonstrando preocupação. Meu egoísmo parece se espalhar como um vírus atingindo pessoas que sequer conheço. Meu coração afunda.
— Dani! – A senhora bate na porta e abre uma greta.
— Pode deixar que eu acordo essa dorminhoca. – Tento brincar e impeço a velhinha de abrir a porta, logo sinto o cheiro de álcool e sei que ela não gostaria de ver a neta dessa forma.
— Ah ela vai adorar ser acordada por uma colega! Se precisarem de alguma coisa, por favor me chame tá? – ela toca meu braço de um jeito simpático e sai feliz pela escada. Minha consciência nunca esteve pior, sinto enjoo.
Entro devagar dentro do quarto, as cortinas estão fechadas, a mochila está jogada de um jeito descuidado sobre a cama e os tênis estão em locais opostos do quarto. Os óculos estão no chão próximos aos dedos dela, seu braço pende para fora da cama, ela está deitada de bruços, os cabelos revoltos sobre o rosto, algumas latas de cerveja vazias estão largadas em cima da cama. Me aproximo e afasto os cabelos do seu rosto, os cílios estavam úmidos. Não tenho o direito de estar aqui. Deixo a bolsa e os livros em cima da escrivaninha perfeitamente arrumada. Recolho as latas vazias e levo até a lixeira do banheiro, sento na cama e a observo por alguns minutos, tentando descobrir o que farei. Beijo a sua cabeça e sinto o cheiro inconfundível de morango, quando me afasto ela se meche, murmura alguma coisa e seus olhos se abrem devagar. Ela olha para mim sem me enxergar realmente, após alguns segundos ela me encara tentando entender minha presença no seu quarto. Ela parece assustada e se levanta de repente.
— Que porra você está fazendo aqui. – Ela diz baixo e devagar.
— Você não responde minhas mensagens. – Digo simplesmente.
— Daí você invade o quarto das pessoas?
— Você conheceu meu quarto, achei que te devia uma visita. – Tento descontrair.
— Você acha isso engraçado?! – Consigo ouvir a mágoa na sua voz.
— Dani, você me pegou de surpresa , eu não esperava..
— O que, você não esperava que eu te cumprimentasse de manhã, logo após sair da sua cama, do seu quarto, da sua casa?!
Permaneço em silêncio.
— Você não esperava que eu conversasse com você depois de VOCÊ me perseguir, VOCÊ me beijar, VOCÊ me pedir pra dormir na sua cama?! – Ela grita e eu deixo ela me atacar.
— Que porra se passa na sua cabeça?! – Ela fecha os olhos e não consegue conter as lágrimas.
Eu a envolvo num abraço e ela luta contra mim, mas eu não solto.
— Nunca pedi por essa porra! Não mereço isso! Não preciso que uma patricinha esfregue na minha cara que eu não sou boa o suficiente por ser gay! Não vou passar por isso de novo! – Ela grita contra o meu peito e suas lágrimas molham meu colo.
— Me desculpa, me desculpa, me desculpa.. – repito várias vezes no seu ouvido.
Ficamos em silêncio durante vários minutos e ela parece se acalmar. Ela levanta seus olhos pra mim e eles estão inchados, seu lindo rosto está molhado de lágrimas. Seco seu rosto com meus dedos e eu a beijo devagar com ternura, minha língua explora a sua boca e ela se deixa levar aos poucos. Quando me afasto ela ainda não diz nada.
— Eu estou assustada. – Digo sem rodeios.
— Eu sei. – Ela diz com um fio de voz.
— Não sabia que era bi. – Digo meio envergonhada.
Ela ri baixinho e em resposta à minha expressão ela esclarece.
— Você é tão gay. – Ela diz entre risadas.
— Sua sapata ridícula. – Cutuco ela e acompanho sua risada.
— Você não pode bagunçar minha vida assim, quero tanto ficar com raiva de você. – Ela diz meio triste, meio cansada.
— Eu mereço, eu sei. Mas você precisa me dar uma chance, sou nova nisso.
— Nova em quê, nova em se apaixonar? Sou um ser humano como qualquer um, que diferença faz se tenho peitos? – Ela diz numa voz muito magoada.
Eu que sempre tenho muito a dizer, fico calada. Deito de lado e a convido com os braços para se juntar a mim. Ela deita nos espaço entre meus braços e se encolhe numa bolinha. Noto seu celular ainda reproduzindo música com seus fones de ouvido ainda conectados. Coloco um fone no seu ouvido e o outro no meu, a música toca e nos embala no momento.
The world was on fire and no one could save me but you
It's strange what desire make foolish people do
I never dreamed that I'd meet somebody like you
And I never dreamed that I'd lose somebody like you
No, I don't wanna fall in love
(This love is only gonna break your heart)
No, I don't wanna fall in love
(This love is only gonna break your heart)
With you
(This love is only gonna break your heart)
What a wicked game to play, to make me feel this way
What a wicked thing to do, to let me dream of you
What a wicked thing to say, you never felt this way
What a wicked thing to do, to make me dream of you and
I don't wanna fall in Love
Ela chora baixinho.
— É uma grande merda se apaixonar por você. – Ela diz, os olhos profundos me encarando.
— É uma grande benção se apaixonar por você – Digo suavemente.
— Sua hipócrita de merda. – Ela diz.
— Também te amo.
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