Do que ela me chamou? “burguesinha”? Típico, a garota se acha mesmo muito “cool” por andar por aí de all star e cara de poucos amigos. Fingi não entender que ela se referia a mim, fiquei bem irritada o que ajudou a apaziguar a sensação de borboletas no estômago. Ela parou bem na minha frente, obviamente esperando uma resposta.

— Perdão, você estava falando comigo? Me fiz de desentendida.

A garota sorriu, parecendo perceber minha ironia velada.

— Sim, sim. É com você mesmo.

— Sim, veja bem não é educado chamar as pessoas por esse tipo de apelido, você nem me conhece como pode me definir com uma palavra tão pejorativa?

— Olha só, ela fala. Você saiu tão depressa depois de ficar me encarando enquanto eu dormia que não pude perguntar seu nome. Me desculpe ok?

Ela. Disse. Que. Eu. Estava. Encarando. Deus, como ela é insolente. Eu não estava encarando, ela fez parecer tão sujo, como se eu fosse uma espécie de esquisita que espera as pessoas dormirem pra se aproveitar delas.

— Olha aqui, eu só achei que devia acordar você, foi uma gentileza. Soltei quase num chiado.

— Calma, não estou te acusando. Adoro ser encarada por estranhas bonitas numa manhã de segunda-feira.

Seu sorriso charmoso me deixou desconcertada enquanto ela falava, explicitamente e sem nenhum pudor, sobre o que pensava. Ela não conhecia sutileza? Espera, ela me acha bonita? Coro como a patética que eu sou deixando-me levar pela lábia dessa raposa.

— Enfim, preciso ir, foi um prazer te encarar, digo você entendeu.

Saio o mais rápido que posso para evitar que a minha humilhação seja maior, se é que isso é possível. Sinto seus passos me seguindo e sua mão agarra a minha.

— Espera, se você estiver saindo eu te acompanho.

Ótimo. Sabe, eu dei a chance de encerrarmos esse encontro constrangedor, será que ela não entendeu a deixa? Caminho quieta para deixar claro meu desconforto, mas ela só parece aproveitar mais a situação. Se a sua intenção era me fazer objeto de sua chacota, ela ia se decepcionar muito.

— Nós somos da mesma sala certo? Ela questiona na sua voz profunda de whisky.

— Nossa, como você é genial só reparou isso depois de seis meses? Digo de forma sarcástica e ela me brinda com o sorriso mais genuíno e cheio que alguém poderia dar. Isso me desarma um pouco.

— Então você é uma pessoa esquentadinha hum? Ela diz toda sorrisos.

— Não sou “esquentadinha”. Ressalto bem a palavra — Não gosto que as pessoas façam de mim sua piadinha.

Ela parece pensar sobre minha resposta, encara seus tênis e meche na alça da mochila. Ela para o seu caminho e me encara alguns segundos em silêncio.

— É isso que você acha? Que eu estou rindo de você?

— Na verdade você parece estar aproveitando bem o show. Disparo

Ela parece decepcionada, seu rosto se contrai um pouco e pela primeira vez ela parece desconfortável. O que ela estaria pensando? Mordo os lábios e me calo, não sei o que fazer ou pensar.

— Me desculpe, essa definitivamente não foi minha intenção. Isso tudo foi um engano, vou deixar você em paz, ok? Ela se vira com a intenção de ir ao caminho oposto, meu coração pesa e sinto o ar me escapar.

— Espera!

Ela se vira e me encara interrogativamente.

— Você não quer me chamar pelo meu nome?

Ela esboça um sorriso.

— Deus, você é uma pessoa complicada.

Ela anda na minha direção, pega a palma da minha mão com aqueles dedos quentes e macios e eu quase desfaleço de surpresa e antecipação. Mal posso sentir minhas pernas e meu coração parece ter parado por uma batida. Ela saca uma caneta e escreve algo na minha mão, a sensação faz cócegas e me distrai por um momento da situação absurda que estou vivendo.

— Me manda uma mensagem me dizendo seu nome e por que você anda por aí seguindo estranhos.

Faço menção de dizer mais alguma coisa, mas ela se vira e sai andando como se nada tivesse acontecido e eu, aqui, em frangalhos, meus nervos por um fio. Minha mão estava escrita de caneta roxa “Dani xxx-xxxx” um coração completava a mensagem. Toco a palma ainda sensível com meus dedos da mão esquerda e fico parada no meio da calçada como uma louca, encarando a mão. Não sei bem o que fazer, mas meus passos me levam inconscientemente ao ponto de ônibus, chego em casa, não sei bem como, me sento na cama e saco o celular. Ainda não sei bem o que aconteceu essa manhã, tudo tão diferente da minha rotina organizada por causa dessa punk maluca, dessa linda, linda punk maluca. Solto uma risada sinistra para a ideia de explicar por que eu a segui, também não sei bem o porquê.

Lembro-me da primeira vez que a vi, sentada numa das cadeiras desconfortáveis do auditório no primeiro dia de aula, de fone nos ouvidos e uma atitude “não me incomode”. Éramos as únicas que haviam chegado lá, eu de Tailleur e sapatos fechados, tentando deixar claro que era uma estudante de direito e ela com sua camisa politicamente incorreta e seus coturnos. Era quase um insulto, mas alguma coisa nela me fez olhar pela segunda vez. Ela ouvia a música de olhos fechados, os dedos tamborilavam no ritmo da canção – que parecia ser lenta ao contrário do que eu poderia imaginar – o livro que repousava embaixo das mãos, no colo, era uma ficção que eu já havia lido. A obra era de uma sensibilidade que eu não esperava que alguém como ela apreciasse e comecei a imaginar se ela era diferente do que aparentava, como se você tivesse de olhar atentamente para descobrir o seu segredo. Desse momento em diante, meus olhos se dirigiam a ela automaticamente e aos poucos fui descobrindo detalhes que montavam melhor o quebra cabeças que ela era.

Ela defendia suas ideias sem ter medo de desagradar às pessoas, expunha aquilo que pensava e de certa forma era uma romântica incurável. Seus ideais ingênuos de justiça e a forma como ela os defendia e se agarrava ferrenhamente a eles, denunciava uma pessoa muito mais justa e pura do que ela gostaria de demonstrar. Ela às vezes tinha olheiras, o que me dizia que ela não era uma pessoa diurna, principalmente matinal. Às vezes eu a pegava com um ar sonhador olhando pela janela e daria tudo pra saber se ela queria sair voando pelas nuvens de algodão. Era uma leitora voraz, mas seus gostos eram exóticos, ela lia de ficção a manuais de matemática. Como um aluno de direito lê manuais de matemática? Ela devia querer parecer inteligente, mas definitivamente ela não precisava desse artifício, ela tinha esse ar sabe? O ar de quem sabia o que estava falando, o ar de quem é curioso e quer saber como o mundo funciona na sua estrutura molecular.

Ela ficaria assustada se soubesse que eu reparo essas coisas, sou uma pessoa normal, eu juro. Mas a fascinação que ela despertava era totalmente diferente de tudo que eu já havia experimentado. Outra coisa muito exótica é sentir isso por outra garota, sempre me relacionei com meninos e apesar se estar satisfeita no geral sempre esperava sentir algo que não sentia. Sempre achei que isso era resultado de anos de romance de época e homens idealizados, mas o que eu senti por ela foi tão único que me assustou e me atraiu. Como uma mariposa perto demais da luz, eu sentia que isso era certo e tão, tão errado. Pego o celular e digito rapidamente.

“Oi, me desculpa toda a confusão essa manhã, você pode ter entendido tudo errado. Meu nome é Ana, aliás.”

Suspiro de frustração e num rompante de coragem apago a mensagem e escrevo outra no lugar.

“Oi, meu nome é Ana. Não persigo estranhos, estranhos não sabem que você gosta de Carl Sagan, não sabe que você usa shampoo de morango e essência de baunilha, não sabem que você escuta a mesma música da Lady Gaga de manhã. Sei que agora realmente parece que sou uma stalker, mas não é isso eu juro. Sei que um stalker diria isso. Ahhh você entendeu. Bjs”

Espero o que parece uma eternidade e finalmente o aparelhinho vibra.

Vou esperar sua defesa hoje à noite. Me encontra no café XXXX às 20h. Bjs”

Minha segunda-feira termina com um emoji piscando.

Notas finais
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