Vanilla
4 Jackie O.
Ela conhecia sobre meus shampoos, meus gostos literários, minha música. Finjo uma confiança que, na verdade, não sinto, pois não queria admitir o quanto fiquei surpresa. Sinto um súbito arrepio na espinha diante da sensação de exposição que era ser analisado e estudado por outra pessoa – paranoica, eu? Dou uma risada diante do pensamento da garota ser uma Serial Killer, não podia haver alguém menos qualificado para a função. Invoco a lembrança de suas reações tímidas e desajeitadas, mas ao invés de rir da memória, ela me causa uma sensação gostosa de calor. Fiquei surpresa ao ver onde meu pensamento me levou. Não sabia mais se sentia apreensão, atração ou mesmo lisonja, mas o pior era a sensação de confusão, como nunca reparei nela? Além do fato óbvio de sermos extremos opostos, ela era atraente e obviamente estava prestando bastante atenção a mim, ou ela era mestre na arte de disfarçar ou eu estava excepcionalmente distraída. A resposta vem automaticamente, os últimos meses tem sido um esforço pra sobreviver um dia após o outro, o fim de um relacionamento é sempre doloroso, mas uma traição é o caminho da destruição para alguém como eu. Estava tão concentrada em manter ao menos uma aparência saudável – sei que estava falhando miseravelmente – que mal percebia o que acontecia ao redor, tudo passava como um borrão e a dor me espreitava a cada momento de distração, se eu não tomasse cuidado seria tomada por ela. Me contentava em acordar, comer, dormir, estudar, beber ocasionalmente quando a dor era insuportável, mas acima de tudo, tentar não pensar. Todo esse esquema era extremamente cansativo e estava me custando cada gota de concentração, mal conhecia meus colegas de classe que – olha que surpresa – pareciam exatamente com a minha sala do ensino médio, pessoa medíocres e imaturas, não valia o esforço de tentar me enturmar. Então a vida seguiu e sem perceber passaram-se seis meses e era o primeiro sorriso genuíno que eu esboçava em todo esse tempo.
Não existia ''modo defesa'' ou qualquer tipo de artifício que minha mente pudesse imaginar para me proteger, eu acreditava sinceramente na autenticidade ou você estava cem por cento numa relação ou não estava. Mas foi duro admitir que eu estava assustada com a perspectiva de me encontrar com a garota. Tudo foi tão repentino, mas tão natural, apesar da aparência altiva ela parecia ser ingênua e impulsiva – um gatinho que pensa ser um leão – e isso era terrivelmente atraente. Recordo as três pintinhas que ela tinha no rosto, vizinhas de sua boca, e minha mente automaticamente invoca a lenda do triângulo das bermudas, ironicamente, eu me pego sorrindo de tão absurda que era a ideia de ser a única pessoa que gostaria de me perder no triângulo que, reza a lenda, quem entra nunca mais volta.
O que será que ela estaria fazendo? Seguindo uma rotina que desconheço completamente, estaria ela lendo sobre meus livros preferidos por medo de um possível silêncio constrangedor no encontro? Passei as próximas horas imaginando o que ela estava fazendo ou tentando adivinhar o gosto dos seus lábios. Perto das 20h eu me dirigia até o local combinado e à medida que eu me aproximava, sentia um mini ataque de pânico me invadir “o que eu estou fazendo? Isso é tão estúpido, me encontrar com uma completa estranha depois de toda aquela situação bizarra”. Eu a vi de longe, fiquei um pouco escondida na entrada para me preparar. Ela estava linda, talvez para desfazer a primeira impressão ela se vestia de uma maneira um pouco mais informal – ao menos na perspectiva dela. Ela vestia um vestido preto de cintura alta e uma sapatilha de boneca, parecia a própria Jackie Onassis, os cabelos estavam presos num coque solto no topo da cabeça, o que destacava o pescoço longo e elegante. Os dedos tamborilavam na mesa e ela parecia ter se irritado com o garçom que trazia a água, o pobre coitado saiu quase num tropeço. Ela estava nervosa, ao menos eu não era a única. Me senti desarrumada, talvez ela causasse essa impressão em todos. Ela finalmente me notou e gesticulou para ter certeza de que eu a tinha visto cumprimentei de volta engatando um sorriso, ao me aproximar dou um beijo leve no rosto e nossos corpos se tocam no abraço. O mundo parece parar por dois segundos e ela me encara sem reação, os lábios abertos talvez em choque e novamente o rosado invade suas maçãs. Sinto o seu perfume doce me envolvendo, as pontas dos dedos que tocam de leve meu braço estão geladas, pobrezinha ela estava mesmo nervosa. Indico a cadeira para nos sentarmos, ela hesita por um breve instante tentando entender o que estou dizendo. Todas as suas reações eram tão adoráveis.
— Me desculpe por chamá-la em plena segunda, imagino que você seja muito ocupada. Tento iniciar um tópico leve — Obrigada pelo tempo concedido. Ela demora alguns segundos para processar e, finalmente, voltando ao normal ela sorri.
— Você é uma pessoa muito confiante não? Dá o telefone quando ninguém pediu, decide encontros sem perguntar se o outro pode. Parecia muito certa de que eu viria. Disse de uma maneira atrevida.
Ela cai na risada e não consegue se conter, depois de um momento inicial de constrangimento sou contagiada.
— Você sempre usa xavecos baratos em primeiros encontros? — Provocou.
— Só quando a beleza da minha companhia nubla meu raciocínio. — Eu certamente não sabia como parar de sorrir para ela.
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