Vanilla
5 Fica, fica comigo
Tento disfarçar meu nervosismo com banalidades, mas ao invés de parecer interessante eu parecia desesperada — O que não estava tão longe da verdade. O mais estranho é que ela prestava atenção em mim como se eu tratasse do assunto mais importante do mundo e ria de tudo como se eu fosse realmente engraçada. Que doce mentirosa.
Fico calada talvez pela primeira vez na noite, ela me olha calmamente e o silêncio parece não incomodá-la. Ela me olha diretamente nos olhos e eu pareço derreter na cadeira. Não consigo devolver seu olhar, encaro meus pés e sinto o calor subir e invadir minha face, queria tanto desaparecer me sinto perdida e desolada como uma garotinha. Toda a situação é incrivelmente assustadora, eu estou aqui sentada diante da garota mais bonita e interessante que eu já vi e ela me faz sentir coisas que nunca havia sentido antes por ninguém, finalmente tive a chance de conversar com ela, mas me sentia tão, tão impotente.
As luzes estão baixas e uma música indie é tocada num volume muito agradável ao fundo.
“Up with your turret
Aren't we just terrified?
Shale, screen your worry from what you won't ever find”
Tento disfarçar minha respiração que parece alta demais aos meus ouvidos, sinto que todos estão me olhando e rindo de mim, as pontas dos meus dedos estão insensíveis por causa da pressão que minhas mãos fazem na cadeira. Sinto um formigamento estranho e gotículas de suor se formam na minha nuca. Meu pescoço está tão tenso que sinto que a qualquer momento ele vai se partir como uma corda tensionada demais.
“Don't let it fool you
Don't let it fool you... down
Down's sitting round, folds in the gown”
Meu mundo está ruindo por dentro e tudo que eu vejo é ela sorrindo de um jeito meigo, as luzes projetando formas no seu rosto. Não sei se ela percebeu minha guerra interna, mas, sem dizer uma palavra, ela muda de lugar e se senta ao meu lado, segura minha mão por baixo da mesa e me consola silenciosamente.
“Sea and the rock below
Cocked to the undertow
Bones blood and teeth erode, with every crashing node”
Eu pareço tão perdida quanto eu estou? Nossa conversa silenciosa parece preencher todo o espaço entre nós. Ela encosta seu braço no meu e fica em silêncio observando o nada. Meu coração parece que vai simplesmente explodir, as lágrimas sobem aos meus olhos, mas eu não as deixo livres pra me envergonhar, seguro suas mãos com força num compromisso que só nós podíamos entender.
“Wings wouldn't help you
Wings wouldn't help you... down
Down fills the ground, gravity's proud”
Ela olha pra mim e parece tentar ler meus pensamentos como um profeta, estende a mão e traça o meu rosto com a ponta dos dedos tão levemente que mal parece tocar em mim. Sinto de novo o perfume de baunilha que emanava do pulso e fecho os olhos pra que o mundo não invada essa redoma.
“You barely are blinking
Wagging your face around
When'd this just become a mortal home?”
Mas então as lágrimas encontram livre espaço para seu caminho desenfreado e ela beija cada uma delas. A umidade e o calor se encontram e eu sinto que não posso mais suportar nenhuma dessas sensações.
“Won't, won't, won't, won't”
Finalmente me rendo e puxo seu rosto pra perto do meu, selo todo o tempo, o medo e a tristeza num beijo marejado de lágrimas. Meu peito não dói mais e meu coração parece andar no ritmo certo. O beijo é como nos meus sonhos doce e lento como se o compasso do mundo não fosse permitido ali e as mãos que agora enlaçavam minha cintura, pareciam querer me proteger. E eu deixo.
“Won't let you talk me
Won't let you talk me... down
Will pull it taut, nothing let out”
A noite parece exercer algum tipo de magia e eu repouso minha cabeça nos ombros dela e todo medo e todo o resto desaparece e só restamos eu e ela. Não consigo entender muito bem como tudo isso aconteceu tão rápido ou se eu me engano a tanto tempo que quero acreditar que não imaginei esse momento tantas vezes. Ela me acharia ridícula por não confiar nos meus desejos e sentimentos. Me acharia fraca por não assumir minhas preferências. Me acharia boba por eu estar tão irremediavelmente envolvida por ela antes de sequer ouvir sua voz. Aproveitava essa magia porque sentia que ela desapareceria assim como ela surgiu, uma misteriosa ninfa de all star. Ela deve me achar louca e tem pena de mim, por isso não saiu correndo e eu, não me importo, nesse momento minhas lágrimas levam meu pudor e se eu tiver de perdê-la que eu pudesse absorver cada momento pra me lembrar depois.
— Você me acha louca não é? — Tento confirmar o que já sei.
Ela ri baixinho.
— Se eu dissesse que eu te entendo você acredita em mim? – Ela diz baixinho no meu ouvido.
— Você não pode entender, eu mesma não entendo, não sei o que deu em mim – Digo em tom de desculpa.
— Eu espero que você seja incompreensível sempre – Ela dá um sorriso misterioso e eu fico sem entender.
Ela envolve meus ombros com o braço e canta baixinho a música que toca, no meu ouvido como uma música de ninar. Isso me acalma automaticamente e o calor do seu corpo me dá conforto, mas sinto um peso no coração enquanto sinto os minutos se esvaindo e a magia acabando.
— Temos aula amanhã. – Minha voz soa mais triste do que eu gostaria.
— Ainda bem que estamos na mesma sala, certo? – Ela diz de um jeito divertido.
— Mas é diferente.
— Não tem que ser.
Ela sente meu corpo se tensionando e retira os braços dos meus ombros. Meu corpo parece sentir a ausência como se eles sempre tivessem disso uma parte de mim. Quero me bater de tão fraca que sou, como eu era detestável.
— Não é o que você está pensando. – Tento miseravelmente me desculpar.
— Não precisa se explicar, nós acabamos de nos conhecer não quero invadir seu espaço. – Ela diz isso de um modo tão impessoal que dói.
— Isso tudo é muito novo pra mim. – As lágrimas ameaçam voltar e minha voz sobe alguns oitavos.
— Eu não estou chateada, mas foi você quem veio atrás de mim, lembra? Quando você procura algo deve ter certeza do que quer. Existem mais sentimentos envolvidos além dos seus.
Pela primeira vez vejo por um segundo uma expressão de dor passar pelo seu rosto, mas ela se controla tão rápido que me pergunto se foi só ilusão. Pagamos a conta e saímos em silêncio pela rua, a noite está fria e meus braços se arrepiam com o vento. A distância entre nós é tão grande apesar de estarmos lado a lado que me sinto estranhamente vazia. Num rompante de coragem pego sua mão e a guio silenciosamente pela calçada de pedras tão conhecida por mim, ela não diz nada. Chego na porta de casa, tiro as chaves da bolsa. Minhas mãos tremem. Ela toma as chaves da minha mão e abre a porta, olho pra ela por um segundo numa das nossas conversas sem palavras e sigo pela porta adentro, ela me segue. Subo as escadas na ponta dos pés, passamos pelo quarto de minha vó – seu ronco sonoro me diz que ela dorme profundamente – entro no meu quarto e tento não me importar com a profusão de objetos rosas e infantis que conspiram contra mim, fecho a porta ainda em silêncio pego meu conjunto velho e favorito de blusa e calça para dormir e vou até o meu banheiro. Tiro minha maquiagem, escovo o dente e visto rapidamente o conjunto, tentando não lembrar que a garota que me beijou está sentada na minha cama, a cama em que eu durmo toda a noite. Mal posso controlar o tremor das minhas mãos, confiro uma última vez meu rosto pálido sob a luz florescente do banheiro, não há nada a fazer ignoro minha aparência assustada e vou ao seu encontro.
Ela está de olhos fechados, deixou seus óculos sobre o criado mudo e tirou seus tênis, suas meias com listras coloridas me tiram um sorriso. Pego a colcha de retalhos que eu mais amo e jogo sobre ela, logo me enfio debaixo da colcha ela se vira para mim e ficamos frente a frente.
— Você pode dizer alguma coisa agora por favor? – Ela diz baixinho.
— Fica comigo, por favor? — Minha voz sai tão triste e indefesa quanto eu me sinto agora.
Ela suspira, olha pra mim e me puxa pra mais perto, me abraça e eu me afogo nos seus cabelos.
— Você é uma garotinha. – Eu não consigo contestar.
— Não sei o que aconteceu comigo hoje. – Sinto seus dedos massagearem minhas têmporas e meu corpo relaxa.
— Qual parte, seguir estranhos, beijar uma garota, chorar com essa mesma garota ou chamar essa estranha que você seguiu, beijou e com quem chorou pra dormir com você?- Ela diz num tom divertido, mas me afundo no seu peito de tanta vergonha. Não posso encarar seus olhos.
— Não se sinta envergonhada, adorei cada parte desse dia. – Ela beija carinhosamente o topo da minha cabeça.
— Você já sentiu uma afinidade tão forte por uma pessoa que você simplesmente podia relaxar? – minha voz é abafada pelos seus cabelos.
Ela fica em silêncio e não sei como interpretar isso. A exaustão finalmente toma conta de mim e meus olhos vacilam, o perfume doce e os dedos que se movimentam sobre meus cabelos são como sonífero.
— Eu gosto tanto de você.. – meu inconsciente já despido de toda timidez confessa num último suspiro antes que eu ceda completamente ao sono.
Suspiro já num sono profundo, tentando descansar de tantas emoções que o dia proporcionou. Ela estreita seus braços e sua testa se contrai numa expressão preocupada.
— Deus me ajude.
Uma prece é oferecida a noite que é amiga dos amantes e daqueles que precisam de sua proteção. Por uma noite a paz reinaria naquele lugar e não haveria nada além do amor.
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