Notas iniciais
Gente, só pra esclarecer os pontos de vista dessa história são alternados. Começa com a Ana, depois Dani, Ana e assim vai..

Vanilla

Eu amava minhas manhãs, adorava como o sol parecia dar vida aos elementos e como os ramos das árvores se curvavam à vontade do vento. Adorava como os mosquitinhos, aquelas minúsculas flores brancas, pareciam estremecer diante da aproximação desses seres gigantes que devem lhes parecer os seres humanos. Mas nada se aproximava da sensação de ver aquele lindo cabelo preto e suave, dançando junto à brisa da janela, as cortinas brancas fazendo efeitos sobre as luzes indiretas da manhã. O seu perfil ficava um tanto oculto, mas nada poderia esconder as formas perfeitas da maçã do rosto, a curva sinuosa e atrevida do nariz, a boca cheia e a expressão concentrada num ponto distante que devia ser o seu pensamento.

Às vezes me pegava divagando sobre que perfume ela usava, sentia cheiro de baunilha, o que enchia minha boca de água. Outras vezes pensava na música que ela escutava, o seu passo ritmado, seus pezinhos nervosos, será que essa matéria a desagradava? A voz monótona do professor seguia seu ritmo constante como um ruído de fundo e isso tornava a presença dela mais opressiva, impossível de ignorar. Nunca havia escutado sua voz, mas já simulei diversas vezes na minha mente o dia que ela diria.. o que possivelmente ela diria? O sino toca e o ritual dessa ninfa misteriosa era levar seus all stars o mais rápido possível para longe daquele lugar. Para onde ela sempre ia?

Dessa vez eu a segui, não tão discretamente quanto eu gostaria, seus pés de fada rebelde eram rápidos e eu mal via os seus rastros deixarem o perfume de baunilha pelo corredor. Ela só pode ter entrado na biblioteca, que sempre ficava vazia naquela hora, mas eu não a vejo em nenhum lugar. Ando entre as prateleiras, o vento entra abundante e travesso pelas amplas janelas e as cortinas dançam um ritmo vigoroso, num local ao fundo onde o sol ainda batia ela estava recostada num canto que parecia particularmente aconchegante e escondido, ela parecia cochilar. Seus óculos estavam meio caídos só sustentados pelo lindo nariz arrebitado, os lábios entreabertos e a cabeça pendida sobre os ombros, as mãos abertas como se recebesse energia da natureza — criatura selvagem que era. Os jeans surrados e a camisa xadrez me faziam imaginar se ela acordou toda bagunçada e atrasada e se — de um jeito desajeitado e bonitinho — ela pegou as roupas que tinha deixado penduradas na cadeira na noite anterior.

Não vi o tempo passar de uma forma linear, mas de repente eu estava ajoelhada de frente para ela, encarando a perfeição que era o seu rosto contra a luz natural do sol, o cheiro de livro antigo e baunilha enchendo minhas narinas, o seu peito subindo e descendo lentamente. Sempre quis saber qual era a textura dos seus cabelos e contra meus dedos muito brancos eles pareciam com hera dentro da água, sedosos, grossos. O seu cheiro ficava cada vez mais potente e me atraíam para perto dela e eu me aproximei para sentir a sua essência tão provocante, tão deliberada. Fechei meus olhos como se tudo aquilo fosse um ritual sagrado e talvez fosse, pela sua impossibilidade, pela finitude. Quando eu quase posso sentir sua respiração quente e lenta abro meus olhos e aqueles dois poços negros me encaravam, e eu via seus lábios se mexerem, mas não consigo entender as palavras. O tempo parecia ter parado e ar estava saturado e não podia haver situação tão ridiculamente desesperadora quanto aquela.

— Hei garota, o que você está fazendo?

E então eu finalmente ouvi sua voz grossa de whisky, e é exatamente como eu havia imaginado.

Notas finais
Obrigada por acompanhar!