Vanilla
2 Anjo
Notas iniciais
Estou feliz por ter levantado hoje e percebido que não vomitei em mim mesma. Não me lembro de muita coisa, mas ainda não encontrei os meus óculos e sem eles eu continuo enxergando como bêbada. Ah, sinto eles escorregarem até a ponta do nariz, estavam aqui o tempo todo. Minha cabeça saturada acusou uma presença ao meu redor, relutei em abrir meus olhos o mal humor me invadindo, mas um cheiro de roupa limpa invadiu meus sentidos anuviando um pouco a sensação de enjoo. Abri os olhos devagar, e o sol os machucava, só podia ver uma sobra contra a janela. Aos poucos fui me adaptando à luz e ela surgiu, tão perto que eu sentia a respiração ofegante, os olhos enormes de surpresa por ter sido pega. Talvez eu estivesse tão inconsciente do meu estado que desmaiei sem perceber ou fiz alguma coisa estúpida, suspiro de exasperação. Ela parece despertar de seu torpor, toda a situação parecendo meio ridícula e então eu resolvo perguntar:
— Hei garota, o que você está fazendo?
Ela balbucia algo sem sentido e me surpreendo ao achar adoráveis os pontinhos rosa que aos poucos preenchiam suas maçãs do rosto numa cor tão suculenta, suas pupilas se dilatando, sua reação tão atrapalhada. De outra maneira poderia ter sido engraçado, mas minhas reações lentas ou talvez outra coisa me faz sentir uma atração imediata. Eu devia estar muito bêbada. Ela sai correndo num rompante, totalmente desalinhada em total contraste com sua roupa social de quem tem certeza do que está fazendo, só consegui assistir seu vulto contra as forças da inércia. Não pude deixar de perceber o quanto era formal, aliás, formal demais para tentar contato com alguém como eu, não pertencíamos ao mesmo mundo. A situação me deixava cada vez mais irritada, queria eu que tudo fosse simples e exato como os números, um simples conjunto de regras rege tudo, a resposta está absolutamente correta ou totalmente errada, não existe espaço para ambiguidade, não há zona cinzenta. Afinal, o que aquela garota de rosto angelical poderia querer?
A senhora que procurou pelo livro que pedi parecia tão mal humorada que me senti arrependida de ter levantado daquela poltrona. Como alguém que trabalha numa biblioteca pode ser infeliz ao redor de tantos livros? Coloquei o volume na mochila e agradeci enquanto caminhava em direção à saída. Sem dar tempo para me preparar eu a vejo encostada na barra vermelho sangue que sustenta a passarela de saída. O vidro detrás dela só fazia ressaltar sua beleza elegante, vestida em tons escuros e camisa social branca de botões. Alguns fios de cabelo castanho se soltaram do topo da cabeça e pendiam sob a face, disfarçando parcialmente seu rosto no que parecia uma tentativa furtiva de olhar para alguma coisa. O que seria? A posição rígida do seu corpo indicava que algo a incomodava, sua expressão acanhada e nervosa denunciava que ela estava desconfortável e ansiosa, o que não combinava com seu rosto quadrado e queixo bem desenhado que demonstrava arrogância, talvez alguém acostumada a ser obedecida. Noto que nossos olhares se encontram e desconfio, pela primeira vez, que ela talvez esteja me procurando. Não sou dada a sutilezas, especialmente essa manhã, não podia mais continuar conjecturando possibilidades.
─ Hey, burguesinha. Precisa de ajuda para achar a saída?
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