Acordei em um quarto escuro, parecia ser o quarto onde o mordomo havia me deixado durante o baile, seria tudo aquilo um sonho? O casal no quarto e a mordida no pescoço, talvez eu realmente estivesse mal da cabeça. Me levantei e fui até a porta, era manhã e o hall estava vazio, era domingo e a porta de entrada estava fechada, não poderia forçar a saída, então teria que sair por onde entrei, me dirigi as escadarias e procurei a cozinha, mas tive uma sensação estranha, como se houvessem pessoas trafegando pelo castelo, mesmo que tudo que eu conseguisse escutar fossem meus próprios passos e o ar dançando, o castelo estava fechado para visitantes, então talvez fosse o pessoal da limpeza, mas era domingo, ninguém limpa nada nos domingos, pensei que mais uma vez o meu cérebro estava tentando me pregar peças, mas eu conseguia escutar passos no andar de cima, isso me lembrou que agora eu estava sozinho, e que seria definitivamente o momento perfeito para averiguar o quarto, considerando que eu não seria levado para um harém da morte mais uma vez.

Eu já tinha o mapa até o local do quarto na minha cabeça de tantas vezes que eu havia repetido o processo, mas dessa vez o quarto estava vazio de verdade, empurrei a cama para perto da porta e puxei o alçapão, então me dei conta de o quão fácil havia sido empurrar uma cama daquele tamanho, mas eu estava mais curioso para saber o que tinha no alçapão, era uma escada longa, a iluminação era estranha, era como se estivesse em cores invertidas, um tom azul escuro misturado com preto e branco, pensei que fazia parte do ambiente e desci.

Quando cheguei àquela paralisia havia voltado ao meu corpo, parecia ser uma sala de tortura, sangue por todo o chão, cheiro de mofo e alguns materiais de tortura, uma espécie de monumento em formato de X usado na antiguidade para prender as pessoas, e caixões, dois caixões no fundo da sala, aquela sala era de longe a coisa mais bizarra que eu jamais havia presenciado.

O sangue nas paredes estava seco, o que significava que não era recente, mas em contrapartida o do chão ainda estava relativamente fresco, mais uma vez senti ter escutado passos pela casa, aquilo estava me deixando realmente perturbado, eu precisava mostrar o alçapão para alguém, apenas contando ninguém jamais acreditaria, então decidi pegar meu celular e tirar algumas fotos para ao menos convencer o Alan a averiguar. Quando abri a câmera do celular algo estranho aconteceu, a câmera estava completamente escura, mesmo que o ambiente estivesse relativamente claro, talvez eu tivesse me deitado por cima da câmera e quebrado ela, mas para ter certeza ativei o flash e tirei uma foto, surpreendentemente dessa vez a câmera pegou a imagem, mas era estranho, as cores da foto não eram as mesmas cores que eu enxergava, talvez a falta de oxigênio estivesse afetando meu cérebro, talvez um pouco de ar fresco me fizesse bem.

Subi para o quarto mas me lembrei que não haviam janelas, teria de ir até o patio se quisesse respirar ar puro. Conforme andava pelos corredores eles começaram a parecer mais largos, maiores, e também estavam começando a girar, então notei que eu estava vendo assim, tive uma leve tontura por um momento, estava sentindo fome, então deveria sair daquele castelo logo e ir comer algo, logo após isso me encontrar com o Alan e decidir o que fazer.

Quando estava chegando na cozinha para sair pela passagem que entrei me deparei com o Alan, ele estava sentado sobre uma das mesas usando o celular.

— Alan... O que... O que está fazendo aqui?

— Você sumiu cara, primeiro achei que tinha ido embora mais cedo, mas notei que não estava no hotel e então voltei para te buscar.

— Ótimo, vamos sair daqui, eu preciso comer.

— Então... Tenho más noticias para você, não é uma boa sair agora, a policia está procurando quem invadiu a festa ontem, talvez mais tarde eles parem com a busca no fim do expediente, então você deveria ficar aqui, com certeza tem comida por aqui.

Alan era realmente um péssimo mentiroso, esse motivo que ele me deu para não sair não tinha o menor sentido, ele estava escondendo algo de mim.

— Você não tá entendendo, eu preciso sair daqui, preciso tomar um ar fresco.

Ele desceu da mesa e foi até uma das grandes geladeiras metalicas, a abriu e tirou uma caixa de lá, haviam algumas taças na mesa ao lado, ele pegou duas e encheu com o liquido vermelho, o cheiro era extremamente forte, meio metalico, mas de aparencia saborosa.

— Hey cara, isso aqui deve ser algum tipo de vitamina, que tal um pouco antes de se aventurar lá fora?

Mesmo depois de me oferecer a taça não pude ceder, eu precisava sair dali, me sentia sufocado, então fui direto para a passagem secreta de Vlad.

— Cara... Não...

Alan deixou a taça em cima da mesa e veio atrás de mim, quando notei comecei a acelerar o passo, a saida estava próxima mas estava mais brilhante que o normal, mal conseguia enxergar o que tinha do outro lado, e quanto mais me aproximava mais difícil ficava distinguir. Quando estava prestes a sair senti meu sangue começar a borbulhar, estava muito quente para um dia de inverno, mas não era um calor em que você soa, minha pele estava formigando a ponto de eu começar a desacelerar antes de chegar na saída, não conseguia mais olhar naquela direção, meu braço esquerdo que estava usando para tapar os olhos estava coçando, a agonia era maior do que a que eu sentia dentro do castelo.

— Cara... Eu te aconselho a não sair por agora, o sol decidiu fazer uma visita a Transilvânia, e enquanto ele não se por a gente não vai poder sair daqui, deveria ter lido na internet que o sol aqui é mais forte que nos outros lugares quando a lua de sangue está se aproximando.

Alan falava comigo em um tom eloquente, tocou meu ombro e me puxou gentilmente para a direção oposta a saída, a luz estava me machucando demais para eu discordar da sua mão amiga.

— O pátio interno foi projetado para ficar contra o sol em dias como esse, vamos lá.