— Aqui, tome um pouco.

Após me trazer para a cozinha, Alan me dá uma taça do que ele estava tomando antes, tomei sem muita hesitação, meu corpo estava quente e queria algo para resfriar, e aquilo definitivamente cumpriu seu papel. Tomei toda a taça sem nem perceber, e de alguma forma aquilo acabou com minha fome e fez com que eu esquecesse da agonia que sentira agora a pouco.

— Oque... Oque é isso?

— Digamos que é uma batida especial da casa.

Enquanto me recuperava notei que havia mais alguém na cozinha, uma garota usando pijama de bolinhas e pantufas de coelho, me espantei de meditado, porque tinha tanta gente naquele lugar? E pior, porque de pijamas?

— Bom dia.

— O que há de bom hoje?

A garota responde Alan sem nem ao menos olhar para ele, abre a geladeira e pega uma caixa similar a que Alan havia pego, pega uma taça da mesa e vai embora como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— O que acabou de acontecer aqui?

— Você não deveria estar aqui ontem cara.

— Por que você não me responde nada? O que infernos está acontecendo aqui?

— Bom trocadilho.

— O... Quê?

— Vai ser difícil explicar, não, muito difícil, ou talvez nem tanto, dependerá de você. Vamos até o pátio interno. Agora que já nos viram não podemos nos espreitar para fora daqui.

Sigo Alan dubitante, algo definitivamente estava acontecendo ali, e ninguém iria me contar o que era tão cedo.

Conforme seguíamos lentamente pelos corredores o castelo aparentemente estava acordando, dessa vez eu conseguia ouvir pessoas conversando, música talvez, até mesmo som de programas esportivos que passam no domingo de manhã.

Quando estávamos no salão que dava para o Patio interno aquilo acabava de ficar mais estranho ainda, um grupo de pessoas estava lá, por volta de sete deles, uns deitados nos bancos com celulares, dois outros jogando volley com uma rede não tão improvisada, como eles montaram aquilo tão depressa.

— Alan! Bem vindo a nossa humilde diversão pré euforia!

Um dos rapazes que jogava volley se dirigiu a nós, ele era alto e loiro, tinha um bigode moustache, sua pele como a da maioria era estranhamente pálida, estava sem camisa e usando apenas um short vermelho.

— Quem é seu amigo ai? Você conseguiu guardar um lanche para hoje já que não conseguiríamos sair? Cara por isso você é o melhor.

— Não exatamente Todd, ele faz parte da casa agora.

— Porque não falou antes cara? Todd, parceiro.

Ele estendeu sua mão até mim em um ato amigável, mas mesmo que estivessem todos descontraídos não me sentia confortável ali, era uma atmosfera hostil que de alguma forma estava cobrindo aquele lugar.

— Cesar... O que.. O que vocês estão fazendo aqui hoje? Esse lugar não deveria estar fechado ao público hoje? Ou vocês são o pessoal da limpeza?

Eles riram alto como se eu tivesse acabado de contar a piada mais engraçada da terra, quanto mais o tempo passava mais confuso eu ficava.

— Olha só, já gostei desse carinha, bem melhor que o último que você trouxe Alana.

Tive a impressão de ouvir um “Melhor que as crianças que você traz” ao longe, o que era estranho. Todd colocou o braço em volta do meu ombro e jogou a bola de volta para o cara que jogava com ele e bateu no ombro de Alan.

— Vou mostrar a casa pra ele, Alan, tem como adiantar aquele processo que falamos antes?

Por que Alan conhecia aquele pessoal? E aquele cara falava como se fosse o chefe dele, fora o fato de Alan falar que agora eu era um deles, o castelo estar tão cheio quanto uma republica, e eu ter quase me queimado apenas com a luz do sol, estava sendo só mais um domingo.

O castelo parecia maior do que ele realmente era, Todd me mostrou a biblioteca, cozinha, sala, todas as coisas que um castelo provavelmente teria, então nos chegamos ao terceiro piso, e foi quando as coisas ficaram bizarras, pra começar ele me mostrou um tipo de necrotério, havia algumas macas com algumas pessoas ali, aparentemente alguém fiscalizava aquele lugar, Todd acenou para ele, que acenou de volta, e seguindo com nosso passeio macabro, ele me mostrou uma sala que parecia ser uma sala para bruxaria, cranio de alce na parede, uma mesa com símbolos de alquimia, jarros e um gato preto dormindo sobre o sofá, logicamente não poderia faltar um gato em uma sala para se fazer magia. Eu queria sair dali imediatamente, mas sentia que não conseguiria simplesmente encarar o Todd e dizer “pra mim já deu, tô caindo fora”, ou simplesmente correr, algo nele fazia com que eu me sentisse em perigo.

— Então, o que está achando do tour até agora?

— ... Eu não sei...

— Deve ser confuso, sempre é, e você pegou uma época complicada, a lua de sangue tá chegando, e ai o sol aparece mais uma vez com seus esforços para nos limpar daqui, mas já estamos trabalhando nisso.

— O que você quer dizer com “limpar”.

Todd deu uma risada, e quando estava prestes a me responder, Alan vem em nossa direção, ele chegou um tanto quanto rápido considerando a distancia que nos estávamos em relação ao pátio.

— Katarine chegou...

O sorriso saiu do rosto de Todd, e o rosto dele se tornou uma nuvem confusão de expressões, mas ele claramente não estava feliz com o anunciamento de Alan.

— Vamos fazer assim, Cesar, Alan pode conduzir o resto do seu tour, eu tenho que resolver alguns assuntos pendentes.

— Por aqui; — Sinalizou Alan.

— O que está acontecendo aqui?! Dessa vez sem rodeios, você vai me contar tudo!

A fúria havia tomado conta de mim sem que eu percebesse, mas eu deixei ela esvair sem problemas, eu estava gritando com Alan que estava tentando me ajudar, mesmo mal me conhecendo, mas uma hora eu queria saber o que tinha em um alçapão secreto dentro de um castelo turístico, no outro eu faço parte de um ceita de pessoas que tem livre acesso ao castelo e agem como se vivessem lá.

— Vamos dizer apenas que... Uma velha rainha má te colocou em um sono profundo. Mas aí eu apareci e te dei um beijo, e te transforme de sapo à príncipe.

— Você misturou todos os contos de fada, imbecil! Agora me diga de uma vez o que está acontecendo aqui! E sem metáforas.

— Bem, a má noticia é que... Você morreu.